sexta-feira, 18 de agosto de 2017

RANCHO DAS FLORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Rancho das Flores" - J.S. Bach/Vinícius de Moraes)


"Mesmo a tristeza está sorrindo
entre as flores da manhã
se abrindo nas cores do céu"
(Vinícius/Ary Barroso - em Rancho das Namoradas)


     Sempre que penso nas parcerias musicais do Vinícius de Moraes, de imediato me lembro do Tom Jobim, do Baden Powell, do Toquinho e do Carlinhos Lyra. Claro que há ainda o Pixinguinha, o Ary Barroso, o Antônio Maria, o Cláudio Santoro, o Francis Hime e muitos outros.

     Em suas apresentações musicais o Vinícius sempre homenageava aqueles a quem chamava de "Santíssima Trindade": o Tom Jobim, o Baden Powell e o Carlinhos Lyra. O Toquinho - dizia o Vinícius - entrou nessa turma na qualidade de "amém".

     Mas quando discorria sobre seus parceiros, Vinícius nunca deixava de mencionar o Bach. Sim, o Bach - o Johann Sebastian Bach - aquele compositor barroco alemão, um dos maiores da história da música. Estranho isso?

     O fato é que em 1716 Bach compôs uma cantata* à qual deu o nome de "Herz und Mund und Tat un Leben" ("Coração e Boca e Ações e Vida"). Catalogada como BWV 147, essa cantata é constituída por dez movimentos. O último deles, o coral, tem o nome de "Jesus Bleibet Meine Freude" ("Jesus alegria dos homens").


JESUS BLEIBET MEINE FREUDE

Jesus bleibet meine Freude,
Meines Herzens Trost und Saft,
Jesus wehret allem Leide,
Er ist meines Lebens Kraft,
Meiner Augen Lust und Sonne,
Meiner Seele Schatz und Wonne;
Darum lass ich Jesum nicht
Aus dem Herzen und Gesicht.
JESUS ALEGRIA DOS HOMENS

Jesus continua sendo minha alegria,
o conforto e a seiva do meu coração
Jesus refreia a minha tristeza,
Ele é a força da minha vida
É o deleite e o sol dos meus olhos,
O tesouro e a grande felicidade da minha alma,
Por isso, eu não deixarei ir Jesus
do meu coração e da minha presença.


     E foi inspirado no Bach que Vinícius de Moraes, mais de dois séculos depois, colocou uma letra nesse último movimento.

     Você poderia imaginar a respeito do que a letra trataria? Pois veja só. O Vinícius gostava de flores e tinha, em muito do que  fazia, as flores como tema. Lembro-me de algumas composições musicais dele mesmo ou em parceria: "As cores de Abril", "Samba da Rosa", "O tempo da flor", "Rancho das Namoradas"; "Flor da noite", "Uma Rosa em minha mão", "Medo de Amar", "A Rosa Desfolhada". Lembro-me também dele falando de flores em "Rua das Acácias" (memórias) e nas belíssimas crônicas "Médico de flores" e "Para uma menina com uma flor" - lembro-me ainda, dentre tantas outras, da "rosa sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada" ("A Rosa de Hiroshima").


para uma menina
Capa do livro "Para uma menina com uma flor"
http://verdadesdeumser.com.br/2015/04/30/para-uma-menina-com-uma-flor-livro/

     Pois não poderia ter sido diferente. Foi justamente falando de flores que nasceu a parceria. Tomando "Jesus Alegria dos Homens" como base, o Vinícius fez nascer a parceria Bach/Vinícius quando compôs "Rancho das Flores" - uma belíssima marcha cuja letra vale a pena ser conhecida. Ei-la:


RANCHO DAS FLORES
(Vinícius de Moraes / J.S. Bach)

Entre as prendas com que a natureza
Alegrou este mundo onde há tanta tristeza
A beleza das flores realça em primeiro lugar
É um milagre de aroma florindo
Mais lindo que todas as graças do ceu
E até mesmo do mar.

Olhem bem para a rosa
Não há mais formosa
É a flor dos amantes
É a rosa-mulher
Que em perfume e em nobreza
Vem antes do cravo
E do lírio e da hortência
E da dália e do bom crisântemo
E até mesmo do puro e gentil malmequer.

E reparem no cravo, o escrevo da rosa
Que é a flor mais cheirosa
De enfeite sutil
E no lírio que causa o delírio da rosa
O martírio da alma da rosa
Que é a flor mais vaidosa e mais prosa
Entre as flores do nosso Brasil.

Abram alas prá dália garbosa
Da cor mais vistosa
Do grande jardim da existência das flores
Tão cheias de cores gentis
E também para a hortência inocente
A flor mais contente
No azul do seu corpo macio e feliz.

Satisfeita da vida
Vem a margarida
Que é a flor preferida dos que tem paixão
E agora é a vez da papoula vermelha
A que dá tanto mel prás abelhas
E alegra este mundo tão triste
No amor que é do meu coração

E agora que temos o bom crisântemo
Seu nome cantemos em verso e em prosa
Porém que não tem a beleza da rosa
Que uma rosa não é só uma flor
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa
É a mulher recendendo de amor. 


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*Cantata - gênero de composição vocal-instrumental, predominantemente religiosa, em vários movimentos


terça-feira, 8 de agosto de 2017

AS CARTAS


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
Erasmo Carlos -"A Carta"

     As cartas e mensagens digitadas me dizem muito menos do que poderiam dizer. Elas me parecem frias, programadas, impessoais - feito cartas de Banco.

     Gosto de cartas manuscritas. Ainda escrevo cartas assim. Ainda recebo cartas escritas por pessoas queridas que também as preferem assim. Separo o papel em branco, escolho a caneta e o envelope. Ouço meus pensamentos e deixo-me ir pelas linhas do papel. E depois, fechado o envelope, desprendo-me de mim pelos carimbos do correio.

     Cartas manuscritas são pessoais, verdadeiras, inteiras, honestas.


"A Carta" - composição de Erasmo Carlos

     Sei que já não se trocam cartas assim, manuscritas. Elas não são práticas. Elas parecem não ter o efeito esperado no universo da agilidade e do imediatismo das informações.

     Mas eu não gosto de cartas práticas. Não sou muito prático.

     Gosto daquelas que escancaram a relação do seu autor com o destinatário; gosto daquelas que chegam pedindo tempo e isolamento para serem decifradas. Gosto das que me vêm com a marca da intemporalidade.

     Uma carta manuscrita rompe as barreiras que se colocam entre o autor e a sua realidade. Ela chega propondo que seja lida além do que suas palavras conseguem dizer.

"Letras impressas são previsíveis e impessoais, transmitindo informações numa transação maquinal com os olhos do leitor. Letras de mão, em contrapartida, resistem aos olhos, revelam seus significados aos poucos e são pessoais como a pele" - compara Ruth Ozeki*.

Cartas - arq. pessoal

     Tenho em casa uma sacola onde guardo as cartas manuscritas que recebi desde que passei a escrever cartas. Tenho todas elas. Ainda as releio. Ainda me emociono feito um desequilibrado cada vez que revisito as histórias que elas me contam. Alguns remetentes já se foram. De outros já não tenho notícia. Mas muitos continuam presentes.

     Observando a legibilidade da escrita, nas cartas que recebo, procuro entender se o remetente quer ou não ser compreendido; a pressão da letra no papel me sugere tensão; a direção nos finais das palavras me falam se a informação está sendo aberta ou contida; a inclinação da escrita me mostra a sociabilidade ou a timidez do autor; e o espaçamento entre as letras indica bons modos de falar e ouvir, autoconfiança...

     Enfim, uma carta manuscrita traz informações que vão muito além das mensagens enviadas. Da leitura das cartas que recebo, e sem a menor pretensão de parecer bruxo ou adivinho, sinto que é pela escrita à mão que o remetente se deixa despir dos escudos que ocultam suas verdades. A escrita à mão denota autenticidade. E é justamente a cumplicidade nessa autenticidade que gosto de ter para continuar acreditando na franqueza e na sinceridade das relações humanas, que podem ser percebidas nas cartas que são trocadas.   

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*Ruth Ozeki, escritora canadense nascida nos Estados Unidos, em "A terra inteira e o ceu infinito" - Ed. Casa da Palavra