terça-feira, 8 de agosto de 2017

AS CARTAS


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Erasmo Carlos -"A Carta"

     As cartas e mensagens digitadas me dizem muito menos do que poderiam dizer. Elas me parecem frias, programadas, impessoais - feito cartas de Banco.

     Gosto de cartas manuscritas. Ainda escrevo cartas assim. Ainda recebo cartas escritas por pessoas queridas que também as preferem assim. Separo o papel em branco, escolho a caneta e o envelope. Ouço meus pensamentos e deixo-me ir pelas linhas do papel. E depois, fechado o envelope, desprendo-me de mim pelos carimbos do correio.

     Cartas manuscritas são pessoais, verdadeiras, inteiras, honestas.


"A Carta" - composição de Erasmo Carlos

     Sei que já não se trocam cartas assim, manuscritas. Elas não são práticas. Elas parecem não ter o efeito esperado no universo da agilidade e do imediatismo das informações.

     Mas eu não gosto de cartas práticas. Não sou muito prático.

     Gosto daquelas que escancaram a relação do seu autor com o destinatário; gosto daquelas que chegam pedindo tempo e isolamento para serem decifradas. Gosto das que me vêm com a marca da intemporalidade.

     Uma carta manuscrita rompe as barreiras que se colocam entre o autor e a sua realidade. Ela chega propondo que seja lida além do que suas palavras conseguem dizer.

"Letras impressas são previsíveis e impessoais, transmitindo informações numa transação maquinal com os olhos do leitor. Letras de mão, em contrapartida, resistem aos olhos, revelam seus significados aos poucos e são pessoais como a pele" - compara Ruth Ozeki*.

Cartas - arq. pessoal

     Tenho em casa uma sacola onde guardo as cartas manuscritas que recebi desde que passei a escrever cartas. Tenho todas elas. Ainda as releio. Ainda me emociono feito um desequilibrado cada vez que revisito as histórias que elas me contam. Alguns remetentes já se foram. De outros já não tenho notícia. Mas muitos continuam presentes.

     Observando a legibilidade da escrita, nas cartas que recebo, procuro entender se o remetente quer ou não ser compreendido; a pressão da letra no papel me sugere tensão; a direção nos finais das palavras me falam se a informação está sendo aberta ou contida; a inclinação da escrita me mostra a sociabilidade ou a timidez do autor; e o espaçamento entre as letras indica bons modos de falar e ouvir, autoconfiança...

     Enfim, uma carta manuscrita traz informações que vão muito além das mensagens enviadas. Da leitura das cartas que recebo, e sem a menor pretensão de parecer bruxo ou adivinho, sinto que é pela escrita à mão que o remetente se deixa despir dos escudos que ocultam suas verdades. A escrita à mão denota autenticidade. E é justamente a cumplicidade nessa autenticidade que gosto de ter para continuar acreditando na franqueza e na sinceridade das relações humanas, que podem ser percebidas nas cartas que são trocadas.   

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*Ruth Ozeki, escritora canadense nascida nos Estados Unidos, em "A terra inteira e o ceu infinito" - Ed. Casa da Palavra  

2 comentários:

  1. Outra vez concordo plenamente com você Elias.
    O desuso deste tipo de comunicação é o altíssimo preço que pagamos pela velocidade que empregamos em nossas vidas atualmente. Abração

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    1. Tudo muito veloz... e, na maioria das vezes, muito mal compreendido. Paciência para se ler além da superfície está em falta. Obrigado pelo comentário. Abraço.

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