quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O ESCRITOR ESQUARTEJADO



(Fonte: http://www.dezenovevinte.net/bios/bio_pa_arquivos/pa_1893_tiradentes.jpg)


"O escritor é um condenado, cuja alma é exposta em praça pública como o corpo de um traidor."
(Reflexão na abertura do livro "O lugar no escuro", de Heloísa Seixas - reflexão escrita pela filha da autora)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

SÁBADO, 8 DA NOITE


Sábado, oito da noite. Acomodado no sofá da sala de estar fico olhando lá longe, através do vidro da porta. Observo as luzes acesas nos apartamentos dos prédios vizinhos e fico pensando em cada uma das pessoas que não vejo, mas que estão em cômodos iluminados por aquelas luzes. Haverá ali uma família que se reúne em torno de uma mesa para o jantar; haverá um casal de idosos assistindo um programa qualquer na televisão; haverá um jovem que se veste para um encontro especial; haverá um senhor que se banha cantando uma ária em voz alta; haverá uma mocinha que digita mensagens de amor em um microcomputador; haverá uma mãe preocupada com seu filho... 


("É noite de sábado" - foto: arq. pessoal)

É noite de sábado e a cidade carrega consigo o pulsar de vida de seus habitantes. 

Na sala recebo um abraço do meu filho que sai apressado para encontrar-se com seus amigos.  

Lá em cima, por sobre nossas cabeças, por sobre os carros e prédios, a lua desfila na escuridão do céu, no claro desejo de chamar a atenção...

Em uma outra cidade - pequena -, na calçada de um bar e sob a luz do luar, em torno de uma mesa, reúne-se um grupo de amigos inspirados por um violão. O grupo cresce na proporção direta do aumento do número de garrafas de cerveja consumidas que vão sendo colocadas no chão... Aqueles que ali estão relembram seus amigos comuns e histórias passadas, relacionando cada amigo e cada história com um antigo lançamento musical que já não toca mais nas estações de rádio.

- "Talvez até eu mesmo seja personagem de alguma dessas histórias", penso eu aqui, distante, na ilusão de fazer parte do grupo sem estar ali presente.

E esse grupo, naquele bar, fazendo brindes a amigos ausentes, interpreta gravações esquecidas no tempo: "I started a joke", dos Bee Gees; "As tears go by", dos Rolling Stones; "The guitar man", do Bread; "Theres a kind of hush", dos Hermann's Hermmits; "In my life", dos Beatles; "The boxer", Simon & Garfunkel...

E eu aqui, movido por essas fantasias, me levanto do sofá, revejo cada membro desse grupo imaginário sentado em torno dessa mesa de bar também imaginária... e em homenagem a eles e a essa doce fantasia, ligo meu aparelho de CD e coloco prá tocar "Nights in White Satin" (1967), na interpretação do grupo britânico (já desfeito) "The Moody Blues"...

... e, ouvindo essa música, vou até a sacada do apartamento e fico olhando o luar...



P.S.: Dez e meia da noite. O telefone toca. Lá de longe, da cidade pequena, ouço a voz do meu amigo de sempre, o Daniel. 

Ele me conta com euforia que estava em sua casa, que recebeu a visita do nosso amigo comum I. e, tomando cerveja juntos no quintal, relembraram algumas histórias minhas e algumas músicas de que gosto. E, com a mesma alegria de sempre, chama-me para estar lá no próximo sábado, para, junto com vários amigos comuns, celebrarmos a vida, nossos aniversários, a vida nova de sua filha, e o nascimento de seu primeiro neto - que chegará no final deste mês... 

(Eu e o meu amigo de sempre - o Daniel - foto: arq. pessoal)

      

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

FESTA DE SOL EM VITÓRIA - ES



(Clique para ouvir a Nara Leão)

Há muitas coisas boas na vida... 

 (Conhecendo Vitória e Vila Velha, ES, a partir do mar... - foto: arq. pessoal)

...inclusive passar pelo "sacrifício" de um dia ensolarado, um barquinho deslizando pelo mar...
 
Mas, fundamentalmente, em boa companhia - of course

(Com as candidatas a miss Espírito Santo, 2013 - Vitória, ES, agosto/13 - foto: arq. pessoal)


- "...e o barquinho vai, e a tardinha cai..." 

- "Eta vida !"

domingo, 11 de agosto de 2013

DIA DOS PAIS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Mi viejo" - Piero) 

Vai sem medo,
segue em frente.
Encontre o seu caminho. 
Ainda que não me veja, estou sempre contigo.



(Eu e meu pai - 1960)



Mi Viejo

Es un buen tipo mi viejo
Que anda solo y esperando
Tiene la tristeza larga
De tanto venir andando

Yo lo miro desde lejos
Pero somos tan distintos
Es que crecio con el siglo
Con tranvia y vino tinto

Viejo mi querido viejo
Ahora ya caminas lerdo
Como perdonando el viento
Yo soy tu sangre mi viejo
Soy tu silencio y tu tiempo

El tiene los ojos buenos
Y una figura pesada
La edad se le vino encima
Sin carnaval ni comparsa

Yo tengo los anos nuevos
Y el hombre los anos viejos
El dolor lo lleva dentro
Y tiene historias sin tiempo

Viejo, mi querido viejo
Ahora ya caminas lerdo
Como perdonando el viento
Yo soy tu sangre mi viejo yo
Soy tu silencio y tu tiempo
Yo soy tu sangre mi viejo yo
Soy tu silencio y tu tiempo


(Nehif Antônio, meu pai - 1929-1972)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A RECONCILIAÇÃO ENTRE DEUS E O DIABO

(fonte: manskaoosin.blogspot.com.br)


Não me lembro bem onde, mas em algum lugar o Rubem Alves disse ou escreveu que se Deus e o Diabo fossem se reconciliar eles o fariam em torno de uma mesa, onde haveria ao centro uma panela de "frango com quiabo" - prato típico da cozinha mineira. A essa conclusão certamente chegou por ser natural do Estado de Minas...

Gosto de "frango com quiabo" - na verdade, aprendi a gostar. Morei em Minas por um tempo mas não sou de lá. Penso que essa panela de "frango com quiabo" sugerida pelo Rubem Alves poderia sim estar ao centro da mesa, mas em uma das negociações preliminares entre os assessores de Deus e do diabo - pois ainda não teria ocorrido o ápice do objetivo buscado, ainda não teria acontecido o momento da formalização final do acordo; teria ocorrido apenas uma fase...

E quando as negociações fossem concluídas, e os personagens principais chegassem para formalizar a reconciliação, o que haveria mesmo no centro da mesa não seria "frango com quiabo", mas sim "trigo com frango" - prato típico da cozinha árabe. E mais: preparado por minha mulher, a Denise, com receita transcrita dos ensinamentos da minha tia Anna - que, por sua vez, e graças a Deus, aprendeu com minha avó Labibe como preparar algo maravilhoso para a pacificação das almas.  

("Uma panela de trigo com frango à mesa" - foto: arq. pessoal)


E é por isso que quando a Denise viaja por uns dias e sou condenado a ficar em casa sozinho, a condição "sine qua non" para que sua viagem aconteça é que deixe na geladeira uma panela enorme de "trigo com frango"... - que é para que eu me sinta reconciliado comigo mesmo e, ao final de cada refeição, possa erguer um brinde à vida exclamando "SÁRRTÉK* !".

* "saúde" (em árabe) - pronúncia figurada