sábado, 20 de maio de 2017

ROSEMARIE



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Rosemarie" - Flying Machine)
https://www.youtube.com/watch?v=_vGFQXo2O98


Maninha,

     Da última vez que te vi você estava arrasada. Você chegou perto de mim em prantos. Sofria uma dor de amor que não tinha tamanho. Eu nada pude fazer senão te dar um abraço de amigo e te ouvir... ouvir o pouco que você conseguia dizer em soluços. Você não percebeu mas chorei suas lágrimas juvenis com minhas lágrimas adultas acobertadas por palavras que não consegui dizer.

     Compreendo o quanto foi doído para você. Em especial por ter acontecido em uma fase tão cheia de sonhos e idealizações em sua vida. E você, ainda tão jovem, tanta coisa pela frente...

     Imagino o quanto ainda esteja sofrendo. Sei que doeu. Doeu porque veio acompanhado de decepção, da sensação de ter sido trocada, de ter sido deixada de lado por alguém que não aprendeu a te conhecer. Doeu porque as decepções vão nos aproximando da natureza humana - e enxergar fundo dói.

Crying Girl by sas117
(Foto: http://sas117.deviantart.com/art/Crying-Girl-217104390)

     Ao mesmo tempo foi bom que tivesse acontecido, que tudo tivesse aparecido de forma clara. Amar é bom, mas é necessário que o amor venha acompanhado de reciprocidade, de admiração, de companheirismo... e requer tempo. O amor unilateral não faz sentido.

     Se tudo terminou é porque não valia a pena.

     Não vejo mais nenhum sentido em saber que você continua triste.

     Que tal então, Maninha, atender o pedido tão bonito, antigo e atual do "Flying Machine" em "Smile a little smile for me"? Volte a sorrir; me diga que voltou a sorrir. É um recomeço! Seu coração entenderá. Os olhos, ao refletirem esse esboço de esperança, vão ficar carregados do brilho e da alegria que são o retrato do seu encanto. 

     Te envio daqui um beijo: um beijo desse seu amigo de cabelos brancos que muito te admira, te quer bem, e quer te ver sempre feliz.

     Elias


Smile A Little Smile For Me
You really should accept
This time he's gone for good
He'll never come back now
Even though he said he would
So, darling, dry your eyes
So many other guys
Would give the world I'm sure
To wear the shoes he wore

Oh, c'mon smile a little smile for me, 
Rosemarie
What's the use in cryin' ?
In a little while you'll see, Rosemarie
You must keep on tryin'

I know that he hurt you bad
I know, darling, don't be sad and
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie
I guess you're lonely now
Love's comin' to an end
But, darling, only now
Are you free to try again
Lift up your pretty chin
Don't let those tears begin
You're a big girl now
And you'll pull through somehow

Oh, c'mon smile a little smile for me, Rosemarie
What's the use in cryin'?
In a little while you'll see, Rosemarie
You must keep on tryin'

I know that he hurt you bad
I know, darling, don't be sad and
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie
Smile a little smile for me, Rosemarie, Rosemarie

Dê um pequeno sorriso para mim

Você realmente deveria aceitar
Desta vez ele se foi de vez
Agora ele não voltará mais
Embora ele dissesse que voltaria
Então, querida, enxugue seus olhos
Muitos outros rapazes
Dariam o mundo - estou certo
Para estar no lugar dele
Oh, vamos lá, sorria um sorriso para mim, Rosemarie
De que adianta chorar?
Em um momento você verá, Rosemarie
Você realmente deveria tentar

Eu sei que ele a machucou muito
Eu sei, querida, não fique triste e
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...

Eu acho que você está solitária agora
O amor chegou a um fim
Mas, querida, somente agora
Você está livre para tentar novamente
Levante esse belo queixinho
Não deixe as lágrimas começarem
Agora você é uma garota crescida
E você sobreviverá de alguma maneira

Oh vamos lá sorria um sorriso para mim, Rosemarie
De que adianta chorar?
Em um momento você verá, Rosemarie
Você realmente deveria tentar

Eu sei que ele a machucou muito
Eu sei, querida, não fique triste e
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...
Sorria um pequeno sorriso para mim, Rosemarie...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

BELCHIOR: TUDO OUTRA VEZ


ESCLARECIMENTO INICIAL:
Com a morte do Belchior fiquei me lembrando de uma noite, há muitos anos, quando, após uma apresentação sua, fui ao camarim e pude conversar rapidinho com ele. Dessa conversa guardei a impressão de que havia estado diante de um intelectual, um homem inquieto, que precisava estar em constante mudança para poder ser feliz. Não estranhei quando, em 2009, a mídia noticiou seu sumiço e posterior localização em uma pousada no interior do Uruguai: para mim, ele ainda andava em busca de sua felicidade. Agora, com sua morte, imaginei-o ainda solto pelo mundo, mas comunicando-me que, em algum momento, havia se encontrado. Nesse comunicado fictício que me faz, por carta, ele conta que está voltando para suas raízes -  onde assumidamente pode se encontrar e ser  feliz.


(Fonte - http://www.controversia.com.br/blog/2016/09/18/o-belchior-que-a-critica-vulgar-nao-viu/)


Paris, Maio de 2017

Meu querido amigo:

     O tempo passou mais depressa do que eu imaginava. Passou voando. Ele - o tempo - deveria ter piedade de nós e tratar de nos dar mais tempo para podermos compreender cada manifestação de vida, de cultura e arte que surge em nosso caminho. Pois mesmo depois de tantos anos, parece que foi ontem que deixei o Brasil para poder me procurar aqui na Europa. 

     Com o carinho de alguém que tem saudade de um amigo distante, enviei a você muitas mensagens e fotos via whatsapp. Passei a maior parte dos meus dias aqui em Paris, mas, não resistindo à proximidade dos locais em relação às nossas distâncias brasileiras, rodei por Versalhes, Rennes, Marselha, e outras cidadezinhas francesas, estendendo ainda as viagens para Florença, Barcelona, Bruxelas, Bruges, Amsterdã, Haia, Londres, Berlim, Viena, Budapeste, Praga, Atenas e muitas outras. 

     Todas as coisas que vi e fiz durante essa procura agora moram apenas nas minhas lembranças. O Portão de Brandemburgo, o museu da Anne Frank, as conversas na livraria em frente à "Science Po", as ruas de Bruges, o Partenon em Atenas, a cidade de Paris vista das escadarias de Sacre-Coeur, os vendedores ambulantes nas imediações da Torre Eiffel, os percursos de bicicleta do studio onde me hospedei até à universidade, as pessoas nas ruas, os artistas em frente aos pontos turísticos, as conversas com amigos e tudo o que vi estão comigo estando eu onde estiver.

     Há poucos dias, me procurando sozinho pela República Tcheca, vi o sol nascer de uma poltrona de ônibus. Pela janela, margeando a estrada estreita, um imenso campo de girassóis encheu o meu coração de verde e amarelo, de alegria, de encanto - e de saudade do Brasil.


(Fonte: http://lifeglobe.net/entry/7418)


     Promover buscas por intermédio de viagens é muito bom; porém fica melhor ainda quando temos alguém com quem compartilhar a emoção que sentimos no exato instante em que vemos algo que nos toca e nos transforma. A gente, assim, feito exilado, tem muito tempo para ficar pensando. E, se pensamos com o coração, descobrimos o valor e o sentido de nossas raízes, da família, dos amigos, e ainda "de quebra" podemos pelo menos tentar traçar nosso próprio destino. Pois foi nesse despertar que senti que era hora de voltar.

     Outra noite, depois disso, ainda aqui em Paris, bebendo e ouvindo música com um grupo de brasileiros, falando sobre distâncias e ausências, buscas e perdas, a saudade bateu forte. Precisava mesmo retornar ao meu país - à minha identidade. Como em um insight, o papo idealista de brasileiros em uma pequena sala estrangeira me despertou e me mostrou que, mesmo com tantas procuras, há um tempo em que a vida nos chama para nos aquietarmos em nosso lugar - e que o universo maior não é físico.

     É certo que andei perdido. Hoje sei que dentro de mim está todo o universo, e que somente em mim mesmo posso me encontrar. Pois então escrevo para te contar que estou voltando. Que preciso voltar. Chego no dia vinte, sexta-feira, onze da manhã, em Guarulhos. Gostaria de te ver logo no desembarque. Quero poder te abraçar, conversar contigo, te mostrar minhas novas composições, e ouvir de ti suas impressões a respeito delas.

     Por ora, distante e com frio, fico na expectativa de podermos nos rever. Receba um grande abraço meu com o entusiasmo de um homem que, despertando de um longo desencontro, aos setenta anos se sente renascer.

     Belchior

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(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
ACOMPANHANDO A LETRA)
"Tudo outra vez" - Belchior
fonte: https://www.youtube.com/watch?v=uUiycm1Mi-I

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TUDO OUTRA VEZ
(Belchior)

Há tempo muito tempo que eu estou longe de casa
E nessas ilhas cheias de distância
O meu blusão de couro se estragou
Ouvi dizer num papo da rapaziada
Que aquele amigo que embarcou comigo
Cheio de esperança e fé, já se mandou

Sentado à beira do caminho pra pedir carona
Tenho falado à mulher companheira
Quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil
E um cara que transava à noite no "Danúbio azul"
Me disse que faz sol na América do Sul
Que nossas irmãs nos esperam no coração do Brasil

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo "saudade" com o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante
Minha normalista linda, ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar

Até parece que foi ontem minha mocidade
Com diploma de sofrer de outra Universidade
Minha fala nordestina, quero esquecer o francês
E vou viver as coisas novas, que também são boas
O amor/humor das praças cheias de pessoas
Agora eu quero tudo, tudo outra vez

Minha rede branca, meu cachorro ligeiro
Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro
O fim do termo "saudade" com o charme brasileiro
De alguém sozinho a cismar
Gente de minha rua, como eu andei distante
Quando eu desapareci, ela arranjou um amante
Minha normalista linda, ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar

sábado, 15 de abril de 2017

CÍCERO DIAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(GLÜCK - Orfeo ed Euridice - flauta: Jean Pierre Rampal)


"Eu vi o mundo... ele começava no Recife"
(Cícero Dias)


     Foi assistindo "A Coleção invisível"*, no final do ano passado, que Cícero Dias passou a existir para mim. No filme, um velho fazendeiro (Walmor Chagas) que havia perdido a visão era possuidor de uma valiosa coleção de gravuras de Cícero Dias. Ao ser visitado por um rapaz, o velho fazendeiro procurou mostrar e descrever a ele, com os olhos da memória, cada uma de suas gravuras. Com a consciência do valor e a paixão que nutria pelo seu acervo, ele olhava, vibrava e descrevia com encanto sobrenatural o tesouro que tinha - ou que um dia teve. 

A coleção invisível, um dos filmes brasileiros mais puros que já vi. Quem gosta de arte deve assistir. #arte #colecionador
(Walmor Chagas em "A Coleção Invisível" http://www.imgrum.org/user/betoandreao/175155986/1264183544453754613_175155986)

     Eu, particularmente, não conhecia o trabalho de Cícero Dias. Foi a partir do filme que o artista ganhou vida e existência para mim. Eu, porém, nada fiz para conhecê-lo melhor: não pesquisei, não li, não fui atrás.

     Mas a vida tem seus acasos. E como tudo o que nasce requer tempo para sua descoberta e seu devido amadurecimento, em uma viagem a Brasília tive oportunidade de me deparar com a obra do artista em exposição no "Centro Cultural Banco do Brasil". Fui vê-la. 


(Entrada da exposição - foto: arq. pessoal)

     Natural do Recife, Cícero Dias iniciou estudos de pintura e arquitetura no Rio. Não os concluiu. No Rio, em 1931, apresentou "Eu vi o mundo... ele começava no Recife" - uma obra com registros de sexualidade explícita. Ousada demais para a época, a obra causou escândalo. Consequentemente, três dos seus quinze metros de desenho tiveram que ser cortados.

     No início do Estado Novo no Brasil, em 1937, o país estava marcado pelo cerceamento da liberdade de expressão. O artista, então, perseguido pela ditadura Vargas, ouviu sugestão de Di Cavalcanti, deixou o Brasil, e partiu para a França. Foi viver em Paris.

     Mas também na Europa as coisas não andavam bem. Logo após a sua chegada, durante a segunda guerra mundial (1938-1945), Cícero foi feito prisioneiro pelos nazistas. Por fim, acabou sendo libertado em troca de prisioneiros alemães. Mesmo com tudo isso, estando integrado à vanguarda artística europeia, o Brasil não deixou de ser sua grande inspiração - por toda sua vida, em toda sua obra.

     Foi curiosa a coincidência de, pouco tempo depois de ter assistido "A Coleção invisível" e ter me interessado pelo trabalho do artista, poder viajar para Brasília e visitar exposição "Cícero Dias: um percurso poético (1907-2003)". Fiquei com a ideia absurda e infantil de que a exposição havia sido preparada especialmente para mim - para que eu o conhecesse.

     Na exposição foram apresentadas 125 de suas obras provenientes de museus brasileiros e de coleções particulares espalhadas pelo mundo. Vi ali aquarela sobre papel, óleo sobre tela, muitas fotos, cartas e documentos.

(fotos e documentos de Cícero Dias - foto: arq. pessoal)

     Mas de tudo o que havia em exposição, o que mais me trouxe contentamento foi poder olhar atentamente para o "Engenho Noruega" - a ilustração feita por Cícero Dias, em 1933, para a primeira edição de "Casa Grande & Senzala". 

Cícero Dias, 1933 Engenho Noruega (sugar cane mill where the artist was born) Pernambuco, BR
(Cícero Dias - "Engenho Noruega", 1933 
https://br.pinterest.com/aldorgm/farms-engenhos-e-fazendas/)

     Essa ilustração traz, com riqueza de detalhes, a vida na Casa Grande - e também na Senzala. Ao vê-la exposta na parede tirei muitas fotos e fiquei parado em frente a ela, abobado, olhando com desejo de reter o tempo e apontar, comentar e discutir com todos que passavam diante da ilustração, o quão maravilhosa e rica ela é - aquela ilustração da vida rural brasileira em um tempo que já se vai longe, mas que ficou guardado para sempre em virtude do talento do Cícero Dias - e, ainda, que expõe visualmente ao mundo, nos "Casa Grande & Senzala", a leitura que Gilberto Freyre fez da formação sociológica do Brasil.

     Cícero Dias é um artista brasileiro que merece ter seu trabalho divulgado e estudado com maior intensidade.     


(CLIQUE NA SETA PARA CONHECER UM POUCO MAIS 
DE CÍCERO DIAS)
(https://www.youtube.com/watch?v=snkY-kMrqcY&t=14s)

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*"A Coleção Invisível" - Brasil, 2013. Drama. Dir.: Bernard Attal

sábado, 25 de março de 2017

HORIZONTE PERDIDO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(ACOMPANHE A LETRA APÓS A LEITURA)
(Burt Bacharach - "Lost Horizon", de Shawn Phillips,
do filme "Horizonte Perdido" - dir. Charles Jarrott, 1973
https://www.youtube.com/watch?v=E1c9VVzhC3w)


     Abaixo a ditadura, abaixo os militares, abaixo os civis, abaixo a imprensa, abaixo o Legislativo, abaixo o Executivo, abaixo o Judiciário; abaixo os prédios públicos e os privados, abaixo as florestas, abaixo os rios, abaixo os seres vivos e abaixo o ar que respiro. Abaixo nossas histórias! Abaixo tudo e abaixo todos!

     Fora Temer, fora Lula, fora Tiririca, fora Maluf, fora Bolsonaro; fora Trump, fora Putin, fora Hollande, fora o Papa. Fora isso e fora aquilo. Fora todos os artistas, cantores, músicos e escritores; fora todos os homens, e fora também todas as mulheres. Fora tudo e fora todos!

     As doenças, o desânimo, o egoísmo, o ódio, a intolerância, a indiferença, a pobreza, as grosserias, as palavras de teor negativo que fiquem. Não os pomos abaixo. Deixemo-los ficar.

(Fonte - http://www.triada.com.br/cultura/historia/aq180-245-1008-2-misterios-das-civilizacoes-perdidas.html)

     E lá longe, muito longe, para onde forem tudo e todos, isso e aquilo, nesse horizonte perdido sem as doenças, sem o desânimo, sem o egoísmo, sem o ódio, sem a intolerância, sem a indiferença, sem a pobreza, sem as grosserias e sem as palavras de teor negativo, se ainda houver algum espaço, pequeno que seja, também quero estar.

     Fora eu, portanto. Fora tudo que sou e fora tudo que fui! 

     E abaixo este que vos escreve!

quinta-feira, 16 de março de 2017

SOBRE HOMENS E PRÍNCIPES



(Antoun Tannous [1934 - 2003]- foto cedida por Rimon Tannous Elias)



"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana"
(Álvaro de Campos)


     A vida segue seu rumo, passa. Passamos... Apesar de termos os olhos voltados para o futuro, por alguma maravilha da natureza fatos e histórias, bem como pessoas que já se foram, eventualmente ressurgem do passado para visitar nossa mente. Pois lembro-me bem, lembro-me bem... 
  
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)"

     São estes os versos iniciais do "Poema em linha reta"*.

     Nele, o poeta diz que as pessoas que conheceu sempre se mostraram vencedoras e superiores; que elas nunca lhe contaram um ato ridículo que tivessem praticado, nunca admitiram que sofreram humilhações, nunca admitiram fraquezas - nunca foram, senão, príncipes: vitoriosos.

     Ao mesmo tempo em que o poeta diz isso ele olha para si mesmo e escancara seus erros, suas vilezas e seus gestos mesquinhos - atos que, humanos que somos, estamos sujeitos a praticar.

     Mesmo sendo naturais e comuns a todos nós, raramente encontramos alguém humano o suficiente que admita suas próprias derrotas, suas vilezas e seus fracassos: o espírito de príncipe e a vaidade impedem homens de se tornarem gente.

     Mas o destino surpreende e ensina; faz com que seres admiráveis, em algum momento, passem por nossas vidas; que, sem que o saibam, com gestos de grandeza, nos dão mostras das qualidades peculiares ao homem de virtudes.

     Pois numa noite, há muitos anos, em um ônibus, viajou ao meu lado um imigrante libanês que eu superficialmente conhecia. Sem temer qualquer julgamento que pudesse ser feito, foi humanamente forte para falar-me de seus tropeços. Com emoção contou-me sua história, suas inseguranças, a vinda para o Brasil em 1956, o medo que o acompanhou, suas escolhas e caminhos percorridos para estabelecer-se no comércio de Guará/SP, seu casamento e a criação de seus cinco filhos: Rimon, Emil, Dolly, Juliano e Flávio - hoje fisioterapeuta, médico, professora, empresário da computação, e engenheiro, respectivamente.


Ficha Consular de qualificação - Antoun Badr Tannous Elias
fonte - https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:33S7-9519-96CL?mode=g&i=137&cc=1932363

     Lembro-me bem. As palavras engasgadas pronunciadas por ele na poltrona daquele ônibus, a recordação de seus fracassos, os amigos que lhe estenderam as mãos, os que dificultaram sua jornada... 


(Sr. Antoun e filha Dolly - foto cedida por Rimon Tannous)

     Ouvi-o durante a viagem toda. Ao final, com orgulho, descreveu-me com altivez de soberano a sua pequena loja que eu já conhecia muito bem: uma única porta de entrada, roupas simples expostas em cabides na parede da rua, e um balcão de madeira: só! Guardo ainda hoje esse exemplo e suas lembranças. Tendo-o visto entrar naquele ônibus na condição de apenas mais um, e tendo observado seu enorme sorriso ao descobrir-me seu companheiro de viagem, cheguei ao meu destino sentindo que viajei ao lado de um homem admirável, enorme e dócil, de fala mansa e honesta, que na vida não foi senão gente - e um grande vencedor: Sr. Antoun Tannous.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR
O POEMA EM LINHA RETA DECLAMADO)
(Osmar Prado - "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa)

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*Escrito por Álvaro de Campos - heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. 

Poema em linha reta 
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, 9 de março de 2017

SUÍTE DOS PESCADORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA
E ASSISTIR LOGO APÓS)
 - introdução e pedido inicial de Vinicius de Moraes -
("Suíte dos Pescadores" - Dorival Caymmi - trecho de filme de Orson Welles. Essa gravação faz parte do CD,  Vinícius e Caimmy no Zum- Zum, acompanhados do Quarteto em Cy e do conjunto do Oscar Castro Neves
https://www.youtube.com/watch?v=3XZ-2iK3SCM)


     Dorival Caymmi foi um cantor e compositor baiano. Suas composições concentravam-se nos costumes e tradições de seu povo. Procurando mostrar como é o dia a dia do homem do mar ele compôs uma música genial sobre a vida dos pescadores - homens que se levantam bem antes do sol nascer, que caminham para o mar, que em suas jangadas lançam-se a ele para a pesca; e que, contando suas histórias, retornam às suas moradas no final do dia.

     A sucessão de atos no dia do pescador tem ritmos diferentes. Por isso, para descrevê-los Caymmi compôs uma "suíte"*.

 (fonte:http://marcondesviana.blogspot.com.br/2008_07_01_archive.html)


     Essa suíte - a "Suíte dos Pescadores" - começa com uma marcha que representa o movimento determinado dos pescadores empurrando, juntos, uma jangada para o mar. Eles levam consigo a esperança de uma boa pescaria e de um regresso certo às suas moradas.

     Caymmi também foca suas atenções na mulher que aguarda o retorno de seu companheiro. Ele a descreve na praia, despedindo-se de seu herói do dia a dia. Nessa despedida ela evoca a proteção de Deus para que o tempo seja bom, para que seu homem possa retornar em segurança e descansar de sua jornada em uma cama por ela arrumada, macia e perfumada.

     No entanto, na suíte, Caymmi quebra aquela rotina mansa e pacata que seria de se esperar. No horário habitual os pescadores não regressam. Esse imprevisto provoca muita angústia em suas companheiras. Elas, então, incomodadas com a demora, vão à praia e clamam pelo retorno de seus homens.

      Na praia, juntamente com as mulheres, os amigos e familiares daqueles pescadores conversam, aguardam, relembram as recomendações feitas anteriormente à partida deles quando parecia haver um prenúncio de temporal.

     E as mulheres dos pescadores, de olhos postos no mar, da praia até o horizonte, aguardam o retorno de seus companheiros; passam a expor sua solidão e suas incertezas; seus temores, seus tormentos e inquietações, enquanto ainda mantêm a esperança do regresso de seus homens...

     E no início da noite, com o temporal e a consequente quebra na rotina dos pescadores, de suas mulheres, familiares e amigos, a pesca malsucedida, vem a certeza da tragédia, do desaparecimento.

      É a despedida. É o fim de uma jornada de pescadores que foi malsucedida.

     Brilhantemente contada por Caymmi, a suíte termina com a marcha inicial representando um novo dia, com outros pescadores lançando a jangada ao mar.

     Assim como os pescadores, todas as manhãs conduzo minha jangada para o mar inquieto das ruas da cidade. Lanço minha rede no asfalto com a esperança de que meu trabalho seja bem sucedido, que eu possa ser útil; que no começo da noite possa estar de volta à minha casa. Carrego a certeza de que, ao chegar, repousarei abraçado àquela a quem amo, ouvindo o silêncio, o vento e a chuva, com a mesma paz de todas as noites. Não penso nas tempestades, mesmo estando sujeito a elas. Assim como o pescador atira sua rede em pontos diferentes do mar, procuro inovar o traçado do meu dia para que minhas jornadas me ensinem coisas novas. Não sou senhor do que me está reservado; mas compreendo que é justamente na simplicidade daquilo que realizo que a vida me oferece a oportunidade de sentir o seu sabor. Que, até a chegada da derradeira tempestademinha pescaria pode ser doce... ou pode me levar para as profundezas do mar.   

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*"Suite" é um termo de origem francesa que significa série, sucessão. Musicalmente, consiste de uma peça com vários andamentos instrumentais diferentes.

segunda-feira, 6 de março de 2017

INDIFERENÇA



camus
(Albert Camus (1913-1960)
fonte: http://tapiocamecanica.com.br/o-estrangeiro-de-albert-camus/)


"Sólo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente"
(Leon Gieco)


     Albert Camus foi um escritor e filósofo francês. Nascido na Argélia, então colônia francesa, escreveu vários livros nos quais procurava encontrar um sentido para a vida - ou, em outras palavras, ilustrar, em muitas de suas leituras, o seu sem-sentido [da vida]. "O Estrangeiro"* é um deles.

     Em "O Estrangeiro" Mersault, o personagem principal, é um homem frio. Encarando fatos e a realidade como uma mera sucessão de ocorrências sem sentido e sem consequências significativas, parece estar alheio a tudo o que acontece consigo mesmo e com o próprio mundo. Nada o afeta. É um ser apático, impermeável, anestesiado. Para ele tudo é vazio. Recebe a notícia da morte da mãe e fica indiferente a isso; é aprisionado em virtude de um assassinato banal e isso em nada o modifica; é levado a julgamento e fica indiferente ao seu destino. Mersault é, enfim, a apatia, a negligência, o vazio, o nada: um estrangeiro neste mundo.

     Camus foi o oposto do "estrangeiro" Mersault. Apesar de tuberculoso, escrevendo e editando um jornal clandestino, militou na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1957 foi premiado com o Nobel de literatura. 

     Quando ando pelas ruas de minha cidade fico (muito) entristecido pelos prédios pichados, pelas praças descuidadas, pelas ruas esburacadas, pelas mãos pedintes, pelas faces sofridas, pelo medo, pela violência. Minha sensação é de desamparo e impotência.

     - "Sou Mersault? Sou Camus?", fico pensando. E volto para casa em pedaços.

     Analisando o sem-sentido da existência vazia de Mersault, o vazio existencial que ela parece provocar, e ainda comparando-a com as buscas e denúncias de Camus, fico pedindo a Deus que mantenha acesa em mim, enquanto eu aqui estiver, a capacidade de sentir, de me emocionar, de me encantar com toda manifestação de vida; que, de alguma forma, eu esteja sempre disposto a agir. Quero que a dor, a morte, a pobreza, a injustiça, o sofrimento dos acamados e o futuro não me sejam indiferentes. Que eu não me deixe simplesmente me arrastar pelo curso da vida sem querer dela participar, sem querer me dar conta do modo com que cada manifestação humana em mim repercute. Que, enfim, eu consiga ter sensibilidade suficiente para recolher, de cada gesto ocorrido em meu caminho, um exemplo e um motivo de inspiração para eu poder me expressar, para continuar construindo a mim mesmo, aos que comigo se importam, ao homem como ser atuante, e ao próprio mundo como consequência.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
E ACOMPANHAR A LETRA ABAIXO)
(Mercedes Sosa, com part. de León Gieco:"Solo le pido a Diós, de León Gieco)

*CAMUS, Albert. O ESTRANGEIRO; tradução de Valerie Rumjanek. 30ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009 (publicado em 1942, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, porém escrito antes dela - de 1936 a 1940).


Solo Le Pido A Dios (Leon Gieco)

Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente

Sólo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Sólo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente

Sólo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Eu Só Peço A Deus

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a seca morte não me encontre
Vazio e só sem ter feito o suficiente

Eu só peço a Deus
Que o injusto não me seja indiferente
Que não me esbofeteiem a outra face
Depois que uma garra me arranhou essa sorte

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente

Eu só peço a Deus
Que o engano não me seja indiferente
Se um traidor pode mais que uns muitos
Que estes muitos não o esqueçam facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Desenganado é o que tem que fugir
Pra viver uma cultura diferente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente