sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O LEGADO DOS JOGOS OLÍMPICOS "RIO 2016"


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR)
(Abertura dos Jogos Olímpicos - Rio 2016)
(https://www.youtube.com/watch?v=j6SFYHEd2u0)


"Nenhum vento sopra a favor
de quem não sabe para onde ir"
(Sêneca)


     Durante os meses que antecederam os Jogos Olímpicos no Rio eu só conseguia ver com maus olhos a decisão de sua realização aqui no Brasil. Mas também, convenhamos. Sendo bombardeado por tanta notícia ruim, não era para menos. Estávamos recebendo um tsunami de pessimismo gerado por problemas políticos e econômicos, e por uma crise de autoestima. Era voz geral que o Brasil não tinha condição de garantir segurança para as delegações estrangeiras; que as obras não ficariam prontas; que o mosquito da Aedes aegypti iria fazer muito estrago; que, enfim, seria uma vergonha equiparável aos 7 a 1 que levamos da Alemanha na Copa - maior até!

     Mas aí veio a cerimônia de abertura que mexeu comigo, que me encheu de orgulho, que mudou meu estado de espírito, e que me fez ficar plantado em frente à televisão torcendo pelos atletas brasileiros.

     Rafaela Silva, Diego Hypólito, Thiago Braz, Isaquías Queiroz, Robson Conceição, mais pela perseverança e determinação do que por apoio recebido, foram muito além do que qualquer um poderia imaginar. E vieram ainda medalhas nas velas, a coroação do país com o futebol, e o arremate certeiro com o ouro no vôlei. No total sete medalhas de ouro, seis de prata, seis de bronze.

Rafaela Silva
(http://blogs.oglobo.globo.com/radar-olimpico/post/spotify-cria-playlist-em-homenagem-ao-ouro-do-brasil-conquistado-por-rafaela-silva.html)

     No final, a cerimônia de encerramento foi uma obra de arte: embelezou e emocionou tanto quanto a de abertura.

     Com tudo isso, como é que eu ainda poderia ficar reclamando e desconfiando da capacidade do povo do meu país? Que coisa mais chata e destrutiva!

     - "Xô!"

     Pensei melhor e conclui que precisava parar de ser ranzinza: aplaudi a "Rio 2016" como qualquer brasileiro que, saudoso da pátria, em qualquer lugar do planeta, aplaudiria o hasteamento da bandeira nacional.

     A despeito de todos os problemas que o Brasil vem enfrentando, a despeito de todo dinheiro diretamente empregado na organização das Olimpíadas, tudo valeu à pena. O legado da "Rio 2016" vai muito além de uma contabilização financeira.

     Precisamos investir em saúde e educação. Sim, as instalações olímpicas serão transformadas em centros esportivos e escolas! Precisamos também de exemplos e estímulos para podermos sentir que somos capazes de evoluir. A prática de esportes, sem dúvida, é saúde e educação.

     O resultado das Olimpíadas no Rio não pode ser medido exclusivamente por valores econômicos. Os jogos olímpicos foram aquelas sementinhas plantadas por cada um dos atletas que dela participou. Continuamos construindo um país, e em relação a isso o esporte tem papel fundamental. Os ganhos são outros, são de valores que, tal como as sementinhas, requerem tempo para se tornarem árvores frondosas. Tempo suficiente para fazer aflorar a disciplina, a força de vontade e a confiança para vencer e superar adversidades.

     Os exemplo da capacidade das Comissões Organizadoras da "Rio 2016" e da determinação de nossos atletas servem de inspiração para a formação de uma nova cultura: uma cultura de gente determinada que luta para vencer. O Brasil pode; o esporte pode; em especial nossos jovens podem (e devem!) passar por cima de todo e qualquer discurso retrógrado, pessimista e derrotista que, ao longo dos anos, vem fazendo o Brasil empacar na subida - feito burro de carga.


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(Gonzaguinha - "E vamos à luta)

     Deixemos, pois, que os órgãos competentes cumpram suas funções institucionais, investiguem o que tiver que ser investigado e exijam satisfações de quem tiver que dá-las. Quanto a mim, só tenho que jogar a minha ranzinzice de lado, seguir o exemplo dos jovens que se comunicam, que vão à luta, que querem vencer, que propõem uma outra realidade. Que, de tênis, short e camiseta, conseguem se educar pelo esporte e rir na cara dos derrotistas embolorados.

("tudo o que se pretende requer esforço" - foto: arq. pessoal)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

VIAGENS DE TREM


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(Toots Thielemans, dele, "Old friend")




"Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar"
(Ferreira Gullar)



     - Olha o trem! gritava o meu tio, da porta de sua loja. 

     Mesmo que não houvesse, das janelas do trem, alguém que se atentasse para isso, dos degraus da escada que dava acesso à sua casa, minha avó, sorrindo, acenava em direção aos vagões.




("O trem obstruindo o trânsito na Rua Dep. João de Faria, em Guará/SP". Postada no facebook por Ademir Segundo)


     E eu, menino,...

... ficava calado na calçada, ao lado dela,
olhando a passagem do trem encher de vida o ritmo monótono da cidade. 
Sem saber onde queria chegar,
por lugares distantes viajava,
longe, muito longe de minha casa,
sobre trilhos de aço laminado,
enfrentando tempestades, matas, rios e montanhas, 
impaciente com a morosidade do tempo...

...do tempo que fez de mim o que hoje sou,
sem que eu pudesse me dar conta de sua passagem.


(Estação Mogiana - Guará, SP, 1974 - foto postada no facebook por Luiz Carlos Eufrosino)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

AZUL PROVINCIANO ("AY, ESTE AZUL")


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Mercedes Sosa - "Azul Provinciano", de Pancho Cabral)


"A Terra é azul"
(Yuri Gagarin)


     Meu Deus... Que música! Que interpretação! Música e interpretação desesperadoramente lindas! Lindas e tristes ao mesmo tempo.

     De onde veio tanta inspiração? 

     Ao ouvir "Azul Provinciano", na interpretação da Mercedes Sosa, tenho vontade de conseguir me alojar na mente do autor.

     Não, não na mente. Pois "mente" implica em raciocínio, em elaboração que produz resultado. Não, não me serviria o racional. Meu anseio seria a detecção do instinto, do estágio primitivo, natural e irracional. Seria necessário adentrar na alma do autor. Na alma, onde, originariamente, os sentimentos e as sensações fluem sem elaboração. Somente instalado em sua alma eu poderia descobrir onde ele se encontrava e o que sentia quando a compôs. Queria poder sentir o mesmo... 

     Procuro compreender o estímulo interior que o levou a compô-la. Para onde olhava? O que enxergava?

     Estava acompanhado? Não, não creio que houvesse alguém ao seu lado. As atenções não poderiam estar divididas.

     Estava triste? Não, não poderia estar. O azul ao seu redor não permitiria isso...

     Estava inteiramente feliz? Também não creio que estivesse. O azul natural inspira beleza. E o belo, se verdadeiramente belo, faz doer. A felicidade não é dotada de exclusividade.

     Ele olhava para o azul, para o encontro entre o céu e a Terra. Via andorinhas, ouvia sinos, vidalas de adeus.

     E nesse estado, estava tomado de luz e de humanidade.

     Certamente estava só! Só e iluminado!

     Pois estando assim, iluminado, o homem se engrandece, ascende ao infinito e embeleza o universo - como ocorreu com Pancho Cabral ao compor "Azul Provinciano".    

("A cyclist on the beach" - França, Nord-Pas-de-Calais - postada no facebook por Lincoln Franco - fonte: https://500px.com/photo/135174331/the-cyclist-by-winterlight-photography )

Azul Provinciano (Ay Este Azul)
(Pancho Cabral)

Ay, este azul
Que les quiero contar como fue
Por momentos se queda en mi piel
Ilustrándome el paisaje aquel.

Ay, este azul
Golondrina que vuelve otra vez
Musicando mi zaguán de ayer
A esperarme de barco en la sed.

Ay, este azul
Provinciano se quiebra en mi voz
Como antigua vidala en adiós
Como un breve puñado de sol.

Ay, este azul
Ay, este azul

Ay, este azul
Que ha llegado a iniciarme en la luz
Con campanas de asombro tal vez
Habitando lo que nunca fue.

Ay, este azul, este azul
Es un verde también
Resolana brillando en el pez
Con un silbo enredado en la piel.

Ay, este azul
Solo quiere quedarse en mi voz
Como un duende mojándome
Y en vez
Este azul es un niño tal vez
Azul Provinciano (Ai Este Azul)


Ai, este azul
Eu quero lhes contar como foi
Por momentos fica na minha pele
Ilustrando aquela paisagem.

Ai, este azul
Andorinhas que voltam outra vez
musicando meu corredor ontem
a me esperar no barco na sede.

Ai, este azul
Provinciano se quebra na minha voz
Como antiga "vidala" no adeus
Como um breve punhado de sol.

Ai, este azul
Ai, este azul

Ai, este azul
Que há chegado a introduzir-me na luz
Com sinos de assombro talves
habitando o que eu nunca fui

Ai, este azul
é um verde também
"Rosolana" brilhando no peixe
Com um apito amaranhado na pele.

Ai, este azul
só quer ficar com minha voz
como um duende molhandome
e em vez
Este azul é um menino talvez



quarta-feira, 13 de julho de 2016

MERCEDES SOSA - SÃO PAULO, OUTUBRO DE 2007



(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
E PARA ASSISTIR EM SEGUIDA - letra no final)

(Mercedes Sosa - "Todo cambia", de Julio Numhauser - chileno)


"Tantas veces me mataron,
tantas veces me mori
Sin embargo estoy aqui
resucitando"
(da letra de "Como la cigarra"*)



     Há uns oito ou dez anos, por aí, vi a notícia de que a Mercedes Sosa viria a São Paulo para um show no "Via Funchal". Como as músicas por ela gravadas, assim como as gravadas pelo Chico Buarque, pela Billie Holiday, e pelo John Lennon fizeram parte do despertar dos meus valores, convidei meu sobrinho para juntos irmos vê-la. A oportunidade era única. Providenciei o ingresso, peguei um ônibus, e depois de 300 quilômetros de estrada, com meu sobrinho, saímos para o show.

sosa1
(Mercedes Sosa - fonte: http://www.substantivoplural.com.br/mercedes-sosa-naquela-tarde/)


     Em um auditório enorme, lotado, amparada por duas pessoas e ainda apoiando-se em uma bengala, “La Negra”** entrou no palco. Sentou-se, sorriu, e abriu sua apresentação com “Como la cigarra” - uma música que fala de solidariedade e renascimento - do renascimento que ela parecia experimentar a cada vez que começava a cantar.

(Ingresso para o show - foto: arq. pessoal)

     Apesar das limitações físicas, a voz era a mesma que me havia ensinado a admirá-la. Na força e na docilidade de seu canto ainda estavam presentes, ideologicamente, uma arma para lutar pela vida e um ramalhete de flores para agradecer por tudo. A medida que as músicas iam sendo apresentadas eu cantava mentalmente com ela tudo o que conhecia: "Gracias a la vida", "Todo Cambia", "Ay este azul", "Alfonsina y el mar", "Solo le pido a Dios"... e muitas, muitas outras. Foram duas horas inesquecíveis.

     No ano seguinte àquele show ela foi embora. Partiu para sempre. Ficaram a voz, a lembrança daquela noite, e as lições de solidariedade e beleza contidas nas letras das músicas por ela gravadas... e que eu costumava ouvir sob uma luz minguada de uma república de estudantes, no final dos anos 70.


Todo Cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo


Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante


Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia


Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera


Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Pero no cambia mi amor
Por más lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

Tudo Muda

Muda o superficial
Muda também o profundo
Muda o modo de pensar
Muda tudo neste mundo


Muda o clima com os anos
Muda o pastor e seu rebanho
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda o mais fino brilhante
De mão em mão seu brilho
Muda o ninho o pássaro
Muda a sensação de um amante


Muda o rumo o andarilho
Ainda que isto lhe cause dano
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda


Muda o sol em sua corrida
Quando a noite o substitui
Muda a planta e se veste
De verde na primavera


Muda a pelagem a fera
Muda o cabelo o ancião
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Mas não muda meu amor
Por mais distante que eu me encontre
Nem a recordação nem a dor
De meu povo e de minha gente


O que mudou ontem
Terá que mudar amanhã
Assim como eu mudo
Nesta terra tão longínqua


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Mas não muda meu amor...



________________________________  
*"Como la cigarra" (de Maria Elena Walsh - poetisa, musicista e escritora argentina): tantas vezes me mataram, tantas vezes me deixei morrer, no entanto estou aqui, renascendo.
**La Negra - apelido carinhoso dado à Mercedes Sosa.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

PARA VER AS MENINAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Marias Monte - "Para ver as meninas", do Paulinho da Viola)


"Silêncio, por favor,
porque hoje eu vou fazer
ao meu jeito, eu vou fazer"
(Paulinho da Viola)


     "Crime", "pedalada", "fraude fiscal", "calote", "propina"... "explosão de caixa eletrônico", "milhões de dólares", "prisão"...  

     Essas notícias de crise, assalto, desvios de dinheiro, delatores, operações da polícia federal, "isso e aquilo", agridem: provocam enjoo.

     Eu as sinto como um baita soco no estômago. Dão ânsia de vômito.

     Não mereço! Ninguém merece!

     Apesar de estar sendo bombardeado por histórias assim o dia todo, todos os dias, estou certo de que não nasci para viver com ódio e mau humor... nem para ficar ouvindo pessoas que querem me induzir a isso.

     - "Tô" fora!

     P'rá escapar, por um breve momento que seja, o que me alivia mesmo é uma pausa de mil compassos... para (re)ver as meninas... minhas meninas, minhas musas, em seus anos dourados...

... a Norma Bengell, em "Os Cafajestes",
a Darlene Glória, em "Toda nudez será castigada",
a Vera Fischer, em "Perdoa-me por me traíres",
a Sônia Braga, em "Eu te amo",
a Sylvia Kristel, em "Emmanuelle,
a Annie Girardot, em "Viver por viver",
a Romy Schneider, em "A Piscina", 
a Natassja Kinski, em "Os amantes de Maria",
a Bete Mendes, na novela "Beto Rockfeller"...

... e ficar levitando sobre a Terra... entre as nuvens... tendo como limite o céu ornamentado pela lua e pelas estrelas - pelas minhas estrelas, pelas minhas meninas.

Norma Bengel em Os cafajestes, direção Ruy Guerra, 1962.
(Norma Bengell - fonte: http://sibila.com.br/cultura/sibila-debate-64-marcelo-ridenti/10274)

imagem
(Darlene Glória - http://www.70anosdecinema.pro.br/746-TODA_NUDEZ_SERA_CASTIGADA_(1973)

Vera Fischer no filme "Perdoa-me Por Me Traíres" (1980). #VeraFischer #Cinema #CinemaNacional #NelsonRodrigues #1980
(Vera Fischer - http://www.imgrum.net/user/fc_verafischer/1958963696/1064763879943947657_1958963696)


besta4 7dez
(Sônia Braga - http://www.luizberto.com/2014/12/07)

(Bete Mendes - http://novelasclassicas.blogspot.com.br/2011/06/novela.html)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

LOURA OU MORENA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Paulo e Haroldo Tapajós -"Loura ou Morena" - de Vinícius de Moraes e Haroldo Tapajós)


"Eu amo em todas somente a mulher"
(Vinícius de Moraes)


     No final da década de 20, ainda muito jovem, um rapaz cheio de vida e imaginação andava angustiado, pensando no tipo de mulher pela qual ficaria tomado de amores. Seria ela loira, "de corpo bem feito, magro e perfeito"; ou seria ela de pele morena, cabelos negros - um irresistível convite para amar? Nessa dúvida esse jovem rapaz, Vinícius de Moraes, produziu sua primeira letra musical para um foxtrote de Haroldo Tapajós: "Loura ou Morena".

     "Olho as mulheres, que desespero, que desespero de amor", dizia ele na letra.

     Pois foi há poucos dias. Entrei no banheiro de um restaurante e me vi tomado pelo mesmo desespero diante de uma incerteza: loira ou morena?

     Logo que abri a porta me senti como se estivesse chegando no paraíso. Tive opções de escolha. Antes de aliviar meus excessos de líquido fiquei parado, maravilhado, olhando para três mulheres que, em belos cartazes, me convidavam para me aproximar. Elas estavam um pouco acima das três peças sanitárias onde, reservadamente, eu deveria me postar. Fiquei na dúvida se ocuparia a peça central ou qualquer uma das laterais. Afinal, por qualquer uma que optasse, inevitavelmente a sensação seria de estar fazendo pouco caso das demais. Magoar alguma delas, naquela situação, era o que eu menos queria.

(Banheiro de um restaurante - foto: arq. pessoal)

     Na primeira peça uma morena de cabelos armados, óculos escuros na ponta do nariz, ares de desejo e espanto, apoiada em um balcão, olharia atentamente para a minha intimidade que ficaria exposta; a segunda, uma loira vestida de um tomara-que-caia cor de laranja, com uma régua em mãos, iria dimensionar aquilo que, vulnerável diante das circunstâncias, também se apresentaria; e a terceira, pele clara, cabelos soltos, trajes escuros, com uma filmadora em mãos e um sorriso discreto nos lábios, filmaria o que quer que se pusesse à sua frente.

     Achei genial. Por alguns segundos fiquei parado, na dúvida, sofrendo, olhando para aquelas mulheres e pensando de qual delas deveria me aproximar.

     - "É a loirinha? a moreninha? Meu Deus, que horror!"

     Não me lembro por qual delas optei. Mas sei que fiquei ali, em paz, fazendo o que deveria fazer, e rindo, rindo muito, sozinho.

     Quando voltei para a mesa do restaurante minha mulher me aguardava. Observadora como ela é, de imediato quis saber o porquê daquele meu ar de felicidade contido em um sorrisinho juvenil. Sem pensar muito respondi a ela que havia encontrado três mulheres lindas, e que cada uma delas usava de uma estratégia diferente para que eu me aproximasse delas.

     Como ela não acreditou nem um pouquinho na história que eu lhe contei, fui obrigado a voltar ao banheiro e fotografar as mulheres que vi. Precisei mostrar a foto a ela, deixar tudo muito bem esclarecido, e eliminar qualquer possibilidade de desconfiança sem causa.

     Não me lembro bem o que jantei naquele restaurante, se a comida era boa ou ruim. Só sei que gostei, e que estou querendo voltar lá nem que seja só para entrar no banheiro por alguns minutos e poder sentir novamente aquela mesma terna e angustiante dúvida que senti - e que Vinícius havia sentido quando era jovem e compôs "Loura ou Morena".

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Loura ou Morena*
(Vinícius de Moraes/Haroldo Tapajós)

Se por acaso o amor me agarrar
Quero uma loira pra namorar
Corpo bem feito, magro e perfeito
E o azul do céu no olhar
Quero também que saiba dançar
Que seja clara como o luar
Se isso se der
Posso dizer que amo uma mulher

Mas se uma loura eu não encontrar
Uma morena é o tom
Uma pequena, linda morena
Meu Deus, que bom
Uma morena era o ideal
Mas a loirinha não era mau
Cabelo louro vale um tesouro
É um tipo fenomenal
Cabelos negros têm seu lugar
Pele morena convida a amar
Que vou fazer?

Ah, eu não sei como é que vai ser
Olho as mulheres, que desespero
Que desespero de amor
É a loirinha, é a moreninha
Meu Deus, que horror!
Se da morena vou me lembrar
Logo na loura fico a pensar
Louras, morenas
Eu quero apenas a todas glorificar
Sou bem constante no amor leal
Louras, morenas, sois o ideal
Haja o que houver
Eu amo em todas somente a mulher

________________________
*A melhor gravação de "Loura ou Morena", a meu ver, foi feita pelo "Quarteto em Cy", e pode ser ouvida no disco "Quarteto em Cy canta Vinícius de Moraes". Esse disco está, inteiro, no youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=XdRUxInzxoM

quarta-feira, 22 de junho de 2016

ONTEM AO LUAR*


(Catulo da Paixão Cearense - 1863/1946 - fonte: http://www.clickideia.com.br/portal/conteudos/c/44/22609)



"Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste mais se ilude"
(João Bosco/Aldir Blanc)


     Catulo da Paixão Cearense foi boêmio e poeta. Iludido, violão nos braços, vivia pelas ruas e pelos bares. Sua casa de madeira com paredes de pano - "Palácio Choupanal", como ele a chamava - vivia cheia de intelectuais e boêmios. Experimentou desilusões amorosas justamente pelo desajuste da vida que levava e que o impedia de proporcionar comodidade a quem quer que fosse.

     Em um dos desacertos amorosos ficou arrasado até o fundo da alma. Nessa condição, assumiu diante da sua amada que estava condenado a carregar pelo resto da vida a dor daquela paixão**.

     - "Mas, afinal, o que é a dor de uma paixão?" - perguntou-lhe ela, na tentativa de minimizar-lhe o sofrimento.   

     Se fosse um teórico, com frieza científica mais que depressa tentaria explicar. Usaria palavras, análises, gráficos, exemplos... Se fosse mais atrevido ainda, ousaria até empregar equações matemáticas para explicar "a dor de uma paixão".

     Mas explicação assim posta é inconsistente, vazia e artificial.

     Paixão não se explica. Paixão se sente.

     E mais.

     Dói, lateja; é forte: muito forte.

     A dor de uma paixão não tem explicação! 

     Não, Catulo não era teórico. Era boêmio - e poeta. Não teve resposta conclusiva. Trocou passos sob o luar do sertão, fitou o azul do céu, sentiu o cheiro de flores amorosas, ouviu o silêncio, compreendeu a razão porque nascera roxa a flor do maracujá...

     E na tentativa de falar sobre a fonte dos seus "ais", por intermédio de uma composição musical assim abordou a dor de sua paixão: 


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ACOMPANHANDO A LETRA ABAIXO)
(Paulo Tapajós -"Ontem ao luar")


 ONTEM AO LUAR
(Catulo da Paixão Cearense/Pedro de Alcântara)

Ontem, ao luar,
Nós dois em plena solidão,
Tu me perguntaste o que era a dor
De uma paixão.
Nada respondi!
Calmo assim fiquei!
Mas, fitando o azul do azul do céu,
A lua azul eu te mostrei...

Mostrando-a a ti,
Dos olhos meus correr
Senti
Uma nivea lágrima
E, assim, te respondi!
Fiquei a sorrir
Por ter o prazer
De ver
A lágrima nos olhos a sofrer.

A dor da paixão
Não tem explicação!
Como definir
O que só sei sentir!
É mister sofrer
Para se saber
O que no peito
O coração
Não quer dizer.

Pergunta ao luar,
Travesso e tão taful,
De noite a chorar
Na onda toda azul!
Pergunta, ao luar,
Do mar à canção,
Qual o mistério
Que há na dor de uma paixão.

Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor,
O amaríssimo travor
Do seu dulçor,
Sobe um monte à beira mar,
Ao luar,
Ouve a onda sobre a areia
A lacrimar!
Ouve o silêncio a falar
Na solidão
Do calado coração,
A penar,
A derramar
Os prantos seus!
Ouve o choro perenal,
A dor silente, universal
E a dor maior,
Que é a dor de Deus.


     Em vida recebeu todas as glórias, todas as honras. Adorado pelo povo, foi um boêmio inspirado e feliz... que morreu na pobreza.

_______________________________ 

*Inspirado na leitura de dados biográficos do boêmio e poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense
**Conforme conta Paulo Tapajós em https://www.youtube.com/watch?v=J973HPM_l84