domingo, 12 de maio de 2013

FLORES PARA A MINHA MÃE




("Flores para as mães" - na entrada de um supermercado, em véspera do dia das mães - foto: arq. pessoal)





Oi, mãe. 

Passei pelo supermercado há pouco e o vi colorido de flores. Achei muito bonito aquele movimento todo de pessoas e flores. Em especial gostei de observar gente de todas as idades: algumas delas levando uma flor em um vazinho envolto por um arranjo muito bem feito. Como hoje é o dia das mães, fiquei pensando no sorriso que um pequeno gesto de entrega de uma flor pode fazer nascer no rosto de uma mãe que a recebe. 

Essa pequena observação, transcorrida em um curto lapso de tempo, me fez acreditar que, para os filhos, mãe não tem idade. O tempo das mães, para os filhos, é administrado pelas próprias mães; é medido pelos sorrisos que elas são capazes de dar e pela alegria que demonstram ter.  


(clique para assistir o vídeo)



Então, mãe, vai aí um supermercado inteiro de flores. A senhora rejuvenesce a cada sorriso que dá. Eu e minha irmã ficaríamos muito contentes em ver um sorriso seu por cada uma dessas flores. Pelo seu dia - o das mães -, te oferecemos todas elas. Agradecidos, retribuímos da mesma forma: com todos os sorrisos de alegria por tê-la conosco.

Um beijo meu.  

  
("Minha mãe na sala de visitas" - foto: arq. pessoal)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A ESTRADA DO MATADOURO*


     No domingo passei pela "estrada do matadouro". Fui prá Franca. Era esse o caminho que fazia para ir nadar em uma represa - que nem sei se ainda existe. Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada que me mostrava árvores, cercas de arame, sol quente e uma poeira danada. 

 ("Minha maior aventura era caminhar ou pedalar por aquela estrada" - foto:  http://farm4.staticflickr.com/3040/3033967645_5ec4922fca_z.jpg)


     A uma certa altura do caminho estava o matadouro municipal. Ali eu parava um pouco. Mas tinha medo de chegar perto dos currais onde os animais condenados ao abate aguardavam sua hora final. Medo e pena. Minha parada era para tomar água, apanhar goiaba no pé, e seguir em frente... ou então para mudar de rumo e voltar para a cidade. Naquele tempo nada era definitivo; todos os rumos podiam ser mudados pelo simples sabor do divertimento... e essa aventura durava o dia todo.

     Por aquela estrada passavam cavaleiros conduzindo pequenas boiadas. Vi muitas. Ficava assustado... Por ali passavam também muitas carroças puxadas por cavalo. Eu parava para ficar olhando. Comandar um animal, de cima de uma carroça, era um grande desafio que eu desejava ter. Nunca tive. Eu olhava com admiração aqueles homens de chapéu e botinas de couro, rédeas na mão, controlando seus animais com palavras de ordem...

(Clique para assistir o vídeo)
 
     Aquela estrada já não é mais a mesma. A carroça de então é o automóvel de hoje, e o chão de terra virou asfalto. 

     Gostei do que vi. Gostei muito. Tanto daquilo que a lembrança resgatou quanto do que a realidade me apresentou: a estrada sinuosa passando por Ribeirão Corrente até chegar a Franca, com sinais encantados nas curvas do seu relevo marcado pelos seus belos, belíssimos cafezais às margens da rodovia... e o céu lá longe, azulzinho...

(Cafezal na rodovia entre Franca e Ribeirão Corrente - foto: http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/Southeast/Sao_Paulo/Ribeirao_Corrente/photo1099681.htm)

     Quando era criança não fui de caçar passarinho. Mas, sem saber, fui menino de guardar tudo o que via para poder rever, de repente e involuntariamente, pelo resto da vida.

("Comandar um animal de cima de uma carroça era um grande desafio que eu desejava ter" - fonte: arq. pessoal)


*Rodovia Vicinal José Landim

      

quarta-feira, 17 de abril de 2013

BURT BACHARACH: UMA GRANDE NOTÍCIA NO JORNAL



 (Tema de abertura do filme "Horizonte Perdido" - Bacharach/David, 1972)
 
     Há uma grande notícia no jornal. Algo muito simples, capaz de dar ritmo ao meu dia. Uma grande notícia. "Burt Bacharach no Brasil!" 

     Começo a cantar sozinho, em silêncio, na mesa do café da manhã: "The moment I wake up, before I put on my make up..."*¹. Cantando em voz baixa me preparo para sair: "Raindrops keep falling on my head..."*². Minha cachorrinha me olha; cantando, converso com ela: "You see this guy, this guy's in love with you..."*³... e cantando, já na rua, desejo bom dia a uma senhora que retorna da feira livre: "Do you know the way to San Jose?"*4 Estou contente. Burt Bacharach no Brasil!

     Não irei vê-lo em São Paulo ou no Rio. Mas essas duas cidades passam a ser agora nossos horizontes-perdidos, reencontrados! De São Paulo e do Rio virão, pelo Bacharach, mensagens e canções construtivas.

     Em "What the world needs now is love*" (que muito lembra "All you need is love", dos Beatles), a mensagem é de que externamente já temos tudo, mas o que nos falta está adormecido dentro de nós.

Senhor, não precisamos de outra montanha,
existem montanhas e encostas suficiente para escalarmos.
Existem oceanos e rios suficiente para atravessarmos,
o bastante para durarem até o fim dos tempos.
O que o mundo precisa agora é de amor, doce amor, 

     E quantas coisas boas conseguimos ver e sentir quando estamos perto de alguém que nos transmite bons sentimentos? E como as pessoas boas atraem coisas boas! Eis a mensagem em "Close to you*".

Porque estrelas caem do céu
Todas as vezes que você caminha?
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você

     As coisas boas das nossas vidas já morreram no passado ou ainda estão reservadas para o futuro? O Bacharach diz que entre o passado distante e um futuro que há de vir, o nosso horizonte de coisas boas está perdido e esperando para ser encontrado no presente, dentro de nós. É a mensagem em "Lost Horizon*".

Muitas milhas do passado, antes que você atinja o futuro
Onde o tempo é exatamente o presente
Há um horizonte perdido esperando para ser encontrado.
Há um horizonte perdido
Onde o som das armas
Não mais fere seus ouvidos.

     Quem nunca se sentiu inútil, inexpressivo ou insignificante? Mesmo com esse sentimento nos momentos difíceis, continuamos sendo importantes para muita gente: "The world is a circle*" fala disso.

E só porque você pensa que é insignificante
Não significa que você o seja, absolutamente.
Da mesma forma que um galho fino é como uma árvore para um graveto,
Você é muito importante para alguma pessoa.

     Portanto, assim como do Rio e São Paulo, pelos shows do Bacharach, certamente virão mensagens construtivas publicadas nos jornais, todas as pessoas que forem assisti-lo também têm a responsabilidade de transmitir coisas boas - e humanizar o universo ao seu redor. Afinal, nem todos poderão vê-lo... nem eu.



(Burt Bacharach - Prêmio Gershwin de música popular, 09/05/12, Casa Branca, Washington, D.C. - EUA - foto: http://www3.pictures.zimbio.com/gi/Burt+Bacharach+President+Mrs+Obama+Host+Concert+IkQUYrfK-TJl.jpg)

* músicas gravadas pelo Burt Bacharach 
¹ trecho de "I say a little prayer"
² trecho de "Raindrops keep falling on my head"
³ trecho de "This guy is in love with you"
4 trecho de " Do you know the way to San Jose?"
 

sábado, 13 de abril de 2013

UM AMIGO E UMA MÚSICA


(Eu e o Zé Américo na casa do Daniel - janeiro/2010 - arq. pessoal)

     É interessante a ligação que fazemos de uma pessoa a uma música - ou a um artista ou uma banda. Pelo menos fazíamos. Já não sei se há mais tempo ou poesia para isso... Parece que já não há nem música com alguma letra que passe alguma mensagem que possa retratar um amigo.
 
     Na minha memória afetiva muitos amigos estão ligados a música: o Big Boy está nos Bee Gees, em qualquer das músicas anteriores à fase "Saturday Night Fever" - "First of May" é uma delas; o Quim nas do John Denver - "Leaving on a Jet Plane", com maior intensidade; o Joaquim em "Hello Brother", com o Louis Armstrong; o Tigrão em "Amigo é Prá Essas Coisas", com o MPB 4; o Marquinho em qualquer música do Bread - "Make it with you", dentre tantas; a minha Denise, em todo o repertório do Caetano Veloso; o Daniel em qualquer uma dos Beatles - ou de qualquer Beatle em carreira solo...  

     Nas oportunidades que tenho de estar com amigos de muito tempo, sempre refazemos essas ligações - e reacendemos os fatos que levaram o amigo a estar vinculado a uma música ou um artista. E, relembrando, sempre cantamos juntos. 

     Há algum tempo, em uma noitada na casa do Daniel, estávamos falando disso quando chegou o Zé Américo. E, claro, Zé Américo é sinônimo de "House of the Rising Sun", não só para mim mas para todos que o conhecem. E não ficou por menos. Contamos a ele o assunto sobre o qual estávamos conversando e ele, embalado pela alegria de estarmos juntos - e acompanhado pelo Daniel ao violão - "mandou veu": interpretou "House of the Rising Sun" com o mesmo entusiasmo de sempre. 

     Pois faço hoje essa postagem com inúmeros amigos na minha memória. Especificamente, lembro-me do Zé Américo e daquela noite. E desejando que ele esteja bem, vou buscar o CD do "Animals" que ele me deu, e coloco prá tocar "House of The Rising Sun". 

     - "Zé Américo, um grande abraço meu!"


    ("House of the Rising Sun" - Animals)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

OS EXEMPLOS DO "RONDON"


("Cândido Mariano da Silva Rondon", o Marechal Rondon - foto: www.famososquepartiram.com)


Nem bem comecei o dia e a Regina já me trouxe a notícia: 

- Teve uma briga feia numa escola lá de Guará! Deu na televisão!

Como em geral falam muita coisa por aí, e como em geral brigas feias acontecem a toda hora, não dei muita atenção ao assunto. Até que pensei melhor no que ela havia me dito e perguntei onde a briga havia sido.

- "Foi numa escola; 50 meninos quase se mataram", respondeu-me ela.

Como há em Guará escolas com nome de parentes meus, e como lá também estão as escolas onde cursei o primário, o ginasial e o colegial, procurei maiores esclarecimentos sobre o assunto. 

A informação que a Regina me trouxera deixou-me pensativo. Fiquei ressentido, achando que aquilo não poderia ter ocorrido em uma escola. Ainda mais em Guará, terra de gente tão pacífica e amorosa. Afinal, as escolas foram feitas para dar bons exemplos...  

- "Não, não poderia ter sido em Guará, tampouco em uma escola!" - pensava eu. 

Procurei um jornal e lá estava a notícia estampado em manchete: 

"POLÍCIA INVESTIGA BRIGA GENERALIZADA EM ESCOLA PÚBLICA DE GUARÁ - Pelo menos 50 alunos se envolveram no tumulto" (1). 

Na internet, além da notícia, o vídeo mostrava tudo: "Briga no Rondon", conclui eu.

- No Rondon, puxa...Estudei lá... 

Não me foi confortável ver o nome do "Rondon" vinculado a uma pancadaria. Nos meus anos de "Rondon", se alguém brigava, tinha vergonha de fazê-lo dentro da escola. Fazia-o longe, depois do final de todas as aulas do dia. As partes envolvidas combinavam o "acerto de contas": 

- "Me espera na descida!" - era assim que os aparos de arestas menos civilizados eram combinados...

...e "a descida" significava o ponto da rua onde tudo acontecia. Era ali, todos nós sabíamos onde...

Tudo tinha que ser longe da escola. Não poderíamos desonrar o bom exemplo do nosso patrono; tampouco macular a boa reputação e os bons exemplos que nos davam nossos professores. Afinal o Marechal Rondon, Cândido Mariano da Silva Rondon, militar e sertanista matogrossense que ainda dá nome àquela escola, não poderia estar vinculado a uma história de brigas. Nem o nome dele, como pessoa, e nem a própria escola. Ele havia cuidado da integração do Brasil, desbravado pacificamente a região centro-oeste e parte da norte, havia levado para lá linhas de telégrafo interlingando o litoral brasileiro ao pantanal e à selva amazônica. Ele era, portanto, uma boa referência que tínhamos... e foi também exemplo e referência, como indigenista, para muitos outros brasileiros - como os irmãos Villas-Boas e o Darcy Ribeiro. 

Como, então, desmerecer o privilégio de ser um aluno do "Rondon"? Não, isso, nós meninos daquela escola, não podíamos fazer...

Pelos ensinamentos transmitidos pelos professores do "Rondon" muitos garotos e garotas cresceram e tornaram-se adultos vencedores.

Certamente há hoje na escola professores, funcionários e dirigentes que fazem nascer nos alunos bons ideais, que são para eles uma boa referência. Mas é bom lembrar que por aquela escola passaram seres humanos de exemplos e lembranças memoráreis: Professores Bellido, Joaquim, Sother, Sebastião, Antônio, Toufic; Professoras Assaka, Rosa, Gleide, Cidinha, Carminha, Sônia... Sr. Rodini, Sr. Tonico, Dna. Neguinha, Dna. Erondina... e tantos e tantas outras mais...  

Seria bom que os jovens que ali estudam hoje soubessem que pelos bancos do "Rondon" passaram e formaram-se líderes, vencedores e vencedoras, pais de família e mães lutadoras, jovens de então que, assim como o próprio Rondon, foram à luta pelos seus ideais e venceram: hoje são médicos, promotores, juízes de direito, advogados, engenheiros, comerciantes, administradores públicos, políticos, agricultores, pais e mães bons, íntegros e responsáveis - como qualquer um que hoje ali estuda pode vir a ser!

Não é justo, portanto, que as gerações atuais esqueçam e maculem o bom nome que o "Rondon" sempre teve... nem tampouco é justo que desonrem a memória de todos que por ali passaram.  


 (1) Jornal "A Cidade", 02/abril/13
 
  


terça-feira, 2 de abril de 2013

A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE: A SINFONIA E OS SERTÕES



     Lendo mais uma vez o poema da "Sinfonia da Alvorada", do Vinícius de Moraes, as imagens que me foram aparecendo, misturadas com a construção de Brasília, foram as de Canudos, descritas por Euclides da Cunha em "Os Sertões".

     Pensando bem, essa mistura faz sentido - mas somente quanto à forma.

     A "Sinfonia" é dividida em cinco partes (1); "Os Sertões" em três (2). 

     Na Sinfonia o Vinícius descreve primeiramente o lugar ("O planalto deserto"):

"(...) No princípio era o agreste: o céu azul, a terra vermelho-pungente e o verde triste do cerrado. Eram antigas solidões banhadas de mansos rios inocentes por entre as matas recortadas. Não havia ninguém. A solidão mais parecia um povo inexistente dizendo coisas sobre nada (...)".
 
     "A Terra" é a primeira parte de "Os Sertões". Ali, o Euclides da Cunha tratou da geologia e da geografia do sertão. Ele descreve o relevo, a paisagem e a seca. Nessa primeira parte ele desenvolveu a ideia de que já havia ali um prenúncio de revolução; que há milênios o sertão era banhado pelo mar, e que esse sertão era o resultado de um mar extinto pelo solo que se levantara. Que, ainda, o sertão ia virar "praia"; que o homem, com seu trabalho, amenizaria o efeito das secas - conforme profetizava Antônio Conselheiro.  

     Na segunda e terceira partes da "Sinfonia" o Vinícius descreve o Homem e a Chegada dos Candangos, em "Os Sertões" Euclides da Cunha fala do Homem, do sertanejo.

"Mas agora viera para ficar. Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura...", diz o Vinícius na Sinfonia.

     Já em "O Homem" de "Os Sertões", segunda parte de sua obra, Euclides da Cunha discute a formação racial do sertanejo. Comparou o mestiço do sertão com o mulato do litoral, afirmando a superioridade racial de um sobre o outro. E concluiu: 

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." 

     E, em outra passagem: 

"(...) o andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente (...)"

     A terceira parte de "Os Sertões" mostra "A Luta" - a resistência, a matança. Diferente da luta do homem que constrói uma cidade, mostrada pelo Vinícius na quarta parte da "Sinfonia": "O Trabalho e a Construção".

     Assim, na "Sinfonia", a luta em união de esforços ergue, eleva, aproxima, celebra a vida e o trabalho:

"E um milhão de metros cúbicos de brita foi necessário, e quatrocentos quilômetros de laminados, e toneladas e toneladas de madeira foram necessárias. E 60 mil operários! Foram necessários 60 mil trabalhadores vindos de todos os cantos da imensa pátria, sobretudo do Norte! 60 mil candangos foram necessários para desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, soldar, empurrar, cimentar, aplainar, polir, erguer as brancas empenas..." 

     Em "Os Sertões" a luta, em desígnios conflitantes, abate, extingue, destrói:

"Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regulamente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho."

     E foi por erguer, diferentemente de destruir, que a "Sinfonia" pôde ter uma outra parte - "Coral" - que é justamente a celebração da beleza resultante da comunhão de esforços construtivos:

"Terra-esperança, promessa de um mundo de paz e de amor (...)" - na "Sinfonia". 

     Desses dois trabalhos a lição que recebemos vem do próprio Euclides da Cunha, no mesmo "Os Sertões":

"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos."






("Ou progredimos..." - foto: Brasília, da janela de um prédio - arq. pessoal)






 ("...ou desaparecemos." - foto Igreja destruída em Canudos - em http://www.girafamania.com.br/montagem/fotografia-brasil-guerra-canudos.htm)


(1) I - O Planalto Deserto; II - O Homem; III - A Chegada dos Candangos; IV - O Trabalho e a Construção; V - Coral

(2) I - A Terra; II - O Homem; III - A Luta

sábado, 30 de março de 2013

BRASÍLIA - SINFONIA DA ALVORADA


        ("Sinfonia da Alvorada" - Parte IV: O Trabalho e a Construção - voz: Vinícius de Moraes)                

     "Brasília - Sinfonia da alvorada" é um poema sinfônico do Tom Jobim e do Vinícius de Moraes. Foi composto a pedido do Juscelino Kubitschek, que o queria para festejar a inauguração de Brasília. Mas houve protestos contra a construção da cidade e, por questões de custos relativos a tecnologia para sua apresentação, a cidade foi inaugurada sem a Sinfonia. Ela foi gravada em 1960, e sua primeira audição foi apresentada em 1966.

      Quando cheguei de Brasília, no domingo à noite, e inspirado pelas imagens da cidade, fui procurar o poema da "Sinfonia". 

     Imaginei que pudesse encontrá-lo em um livro que tenho em casa, e que reúne a obra poética do Vinícius de Moraes em prosa e em verso (1). Não encontrei.

     Recorri à internet e lá estava: a "Sinfonia da Alvorada".

     Eu sabia da existência dessa sinfonia e da história que envolvia sua composição pelo Tom e pelo Vinícius. Mas eu nunca havia lido o poema, nem tampouco ouvido a música. 

     Fui encontrá-la no youtube. Coloquei para ouvir. Fiquei maravilhado!

     Ela é formada por cinco partes: 
I - O planalto deserto;
II - O homem;
III - A chegada dos candangos;
IV - O trabalho e a construção;
V - Coral

     Na primeira parte ("O Planalto Deserto") o autor descreve o lugar com suas coisas "anteriores ao homem": os campos, as cores, as aves, as auroras...

"No princípio era o ermo
Eram antigas solidões em mágoa.
O altiplano, o infinito descampado (...)" 
 
     Depois, a chegada do homem (2ª parte: "O Homem"). O Homem que ali chegou para desbravar, para fundar, para erguer e para ficar... O homem que trazia, "a antiga determinação dos bandeirantes". "No entanto", explica o autor, "não eram o ouro e os diamantes o objeto de sua cobiça." 

     E assim o Vinícius escreveu a respeito do homem que ali chegou para ficar:

"Seus pés plantaram-se na terra vermelha do altiplano. Seu olhar descortinou as grandes extensões sem mágoa no círculo infinito do horizonte. Seu peito encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria no deserto uma cidade muito branca e muito pura..." 

     E o homem logo começou a construir. 

"Tratava-se agora de construir: e construir um ritmo novo".

     Na terceira parte ("A Chegada dos Candangos"), o Vinícius fala da convocação e da chegada de todos os homens que tinham vontade de trabalhar e confiança no futuro. 

"E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra (...) muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias (...)".

     Para essa construção "foi necessário muito mais que engenho, tenacidade e invenção", diz o Vinícius. Ele utiliza das imagens duras das palavras concreto, ferro, cimento, areia e fios para compor a 4ª parte - "O Trabalho e a Construção". Fala, além dos materiais, do tipo de trabalho a ser realizado: 

"desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, serrar (...)".

     E descreve ainda o final de cada dia, o crepúsculo, o retorno do trabalhador, 

"as mãos vazias de trabalho e os olhos cheios de horizontes (...)".

     No fim, a cidade pronta, o coro masculino (5ª parte: "Coral"), os homens, os trabalhadores, celebram exultantes a obra concluída: 

"Brasília, Brasília... Brasil, Brasil"... 

     E o poeta, com todo seu lirismo, assim descreve a cidade que havia nascido:

"Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira...
... Alma brasileira...
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração

Brasil! Brasil!
Brasília! 

     Hoje, pensando nessa composição eu me pergunto: "Como passei tantos anos sem conhecê-la?" Mas tudo tem seu tempo. sentido e o valor das coisas aparecem conforme a vida vai nos proporcionando situações novas. Pois foi preciso eu me banhar de admiração pela construção de Brasília para poder buscar e compreender o significado da sinfonia... da sua "Sinfonia"...   
         
("Brasília - vista da Torre de Televisão" - ao fundo, a esplanada dos Ministérios e o Congr. Nacional - foto: arq. pessoal)


(1) "Poesia Completa e Prosa", da editora Nova Aguilar - 2ª edição de 1976, reimpressa em 1985)