sábado, 25 de março de 2017

HORIZONTE PERDIDO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(ACOMPANHE A LETRA APÓS A LEITURA)
(Burt Bacharach - "Lost Horizon", de Shawn Phillips,
do filme "Horizonte Perdido" - dir. Charles Jarrott, 1973
https://www.youtube.com/watch?v=E1c9VVzhC3w)


     Abaixo a ditadura, abaixo os militares, abaixo os civis, abaixo a imprensa, abaixo o Legislativo, abaixo o Executivo, abaixo o Judiciário; abaixo os prédios públicos e os privados, abaixo as florestas, abaixo os rios, abaixo os seres vivos e abaixo o ar que respiro. Abaixo nossas histórias! Abaixo tudo e abaixo todos!

     Fora Temer, fora Lula, fora Tiririca, fora Maluf, fora Bolsonaro; fora Trump, fora Putin, fora Hollande, fora o Papa. Fora isso e fora aquilo. Fora todos os artistas, cantores, músicos e escritores; fora todos os homens, e fora também todas as mulheres. Fora tudo e fora todos!

     As doenças, o desânimo, o egoísmo, o ódio, a intolerância, a indiferença, a pobreza, as grosserias, as palavras de teor negativo que fiquem. Não os pomos abaixo. Deixemo-los ficar.

(Fonte - http://www.triada.com.br/cultura/historia/aq180-245-1008-2-misterios-das-civilizacoes-perdidas.html)

     E lá longe, muito longe, para onde forem tudo e todos, isso e aquilo, nesse horizonte perdido sem as doenças, sem o desânimo, sem o egoísmo, sem o ódio, sem a intolerância, sem a indiferença, sem a pobreza, sem as grosserias e sem as palavras de teor negativo, se ainda houver algum espaço, pequeno que seja, também quero estar.

     Fora eu, portanto. Fora tudo que sou e fora tudo que fui! 

     E abaixo este que vos escreve!

quinta-feira, 16 de março de 2017

SOBRE HOMENS E PRÍNCIPES



(Antoun Tannous [1934 - 2003]- foto cedida por Rimon Tannous Elias)



"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana"
(Álvaro de Campos)


     A vida segue seu rumo, passa. Passamos... Apesar de termos os olhos voltados para o futuro, por alguma maravilha da natureza fatos e histórias, bem como pessoas que já se foram, eventualmente ressurgem do passado para visitar nossa mente. Pois lembro-me bem, lembro-me bem... 
  
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)"

     São estes os versos iniciais do "Poema em linha reta"*.

     Nele, o poeta diz que as pessoas que conheceu sempre se mostraram vencedoras e superiores; que elas nunca lhe contaram um ato ridículo que tivessem praticado, nunca admitiram que sofreram humilhações, nunca admitiram fraquezas - nunca foram, senão, príncipes: vitoriosos.

     Ao mesmo tempo em que o poeta diz isso ele olha para si mesmo e escancara seus erros, suas vilezas e seus gestos mesquinhos - atos que, humanos que somos, estamos sujeitos a praticar.

     Mesmo sendo naturais e comuns a todos nós, raramente encontramos alguém humano o suficiente que admita suas próprias derrotas, suas vilezas e seus fracassos: o espírito de príncipe e a vaidade impedem homens de se tornarem gente.

     Mas o destino surpreende e ensina; faz com que seres admiráveis, em algum momento, passem por nossas vidas; que, sem que o saibam, com gestos de grandeza, nos dão mostras das qualidades peculiares ao homem de virtudes.

     Pois numa noite, há muitos anos, em um ônibus, viajou ao meu lado um imigrante libanês que eu superficialmente conhecia. Sem temer qualquer julgamento que pudesse ser feito, foi humanamente forte para falar-me de seus tropeços. Com emoção contou-me sua história, suas inseguranças, a vinda para o Brasil em 1956, o medo que o acompanhou, suas escolhas e caminhos percorridos para estabelecer-se no comércio de Guará/SP, seu casamento e a criação de seus cinco filhos: Rimon, Emil, Dolly, Juliano e Flávio - hoje fisioterapeuta, médico, professora, empresário da computação, e engenheiro, respectivamente.


Ficha Consular de qualificação - Antoun Badr Tannous Elias
fonte - https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:33S7-9519-96CL?mode=g&i=137&cc=1932363

     Lembro-me bem. As palavras engasgadas pronunciadas por ele na poltrona daquele ônibus, a recordação de seus fracassos, os amigos que lhe estenderam as mãos, os que dificultaram sua jornada... 


(Sr. Antoun e filha Dolly - foto cedida por Rimon Tannous)

     Ouvi-o durante a viagem toda. Ao final, com orgulho, descreveu-me com altivez de soberano a sua pequena loja que eu já conhecia muito bem: uma única porta de entrada, roupas simples expostas em cabides na parede da rua, e um balcão de madeira: só! Guardo ainda hoje esse exemplo e suas lembranças. Tendo-o visto entrar naquele ônibus na condição de apenas mais um, e tendo observado seu enorme sorriso ao descobrir-me seu companheiro de viagem, cheguei ao meu destino sentindo que viajei ao lado de um homem admirável, enorme e dócil, de fala mansa e honesta, que na vida não foi senão gente - e um grande vencedor: Sr. Antoun Tannous.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR
O POEMA EM LINHA RETA DECLAMADO)
(Osmar Prado - "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa)

______________________________
*Escrito por Álvaro de Campos - heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. 

Poema em linha reta 
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quinta-feira, 9 de março de 2017

SUÍTE DOS PESCADORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA
E ASSISTIR LOGO APÓS)
 - introdução e pedido inicial de Vinicius de Moraes -
("Suíte dos Pescadores" - Dorival Caymmi - trecho de filme de Orson Welles. Essa gravação faz parte do CD,  Vinícius e Caimmy no Zum- Zum, acompanhados do Quarteto em Cy e do conjunto do Oscar Castro Neves
https://www.youtube.com/watch?v=3XZ-2iK3SCM)


     Dorival Caymmi foi um cantor e compositor baiano. Suas composições concentravam-se nos costumes e tradições de seu povo. Procurando mostrar como é o dia a dia do homem do mar ele compôs uma música genial sobre a vida dos pescadores - homens que se levantam bem antes do sol nascer, que caminham para o mar, que em suas jangadas lançam-se a ele para a pesca; e que, contando suas histórias, retornam às suas moradas no final do dia.

     A sucessão de atos no dia do pescador tem ritmos diferentes. Por isso, para descrevê-los Caymmi compôs uma "suíte"*.

 (fonte:http://marcondesviana.blogspot.com.br/2008_07_01_archive.html)


     Essa suíte - a "Suíte dos Pescadores" - começa com uma marcha que representa o movimento determinado dos pescadores empurrando, juntos, uma jangada para o mar. Eles levam consigo a esperança de uma boa pescaria e de um regresso certo às suas moradas.

     Caymmi também foca suas atenções na mulher que aguarda o retorno de seu companheiro. Ele a descreve na praia, despedindo-se de seu herói do dia a dia. Nessa despedida ela evoca a proteção de Deus para que o tempo seja bom, para que seu homem possa retornar em segurança e descansar de sua jornada em uma cama por ela arrumada, macia e perfumada.

     No entanto, na suíte, Caymmi quebra aquela rotina mansa e pacata que seria de se esperar. No horário habitual os pescadores não regressam. Esse imprevisto provoca muita angústia em suas companheiras. Elas, então, incomodadas com a demora, vão à praia e clamam pelo retorno de seus homens.

      Na praia, juntamente com as mulheres, os amigos e familiares daqueles pescadores conversam, aguardam, relembram as recomendações feitas anteriormente à partida deles quando parecia haver um prenúncio de temporal.

     E as mulheres dos pescadores, de olhos postos no mar, da praia até o horizonte, aguardam o retorno de seus companheiros; passam a expor sua solidão e suas incertezas; seus temores, seus tormentos e inquietações, enquanto ainda mantêm a esperança do regresso de seus homens...

     E no início da noite, com o temporal e a consequente quebra na rotina dos pescadores, de suas mulheres, familiares e amigos, a pesca malsucedida, vem a certeza da tragédia, do desaparecimento.

      É a despedida. É o fim de uma jornada de pescadores que foi malsucedida.

     Brilhantemente contada por Caymmi, a suíte termina com a marcha inicial representando um novo dia, com outros pescadores lançando a jangada ao mar.

     Assim como os pescadores, todas as manhãs conduzo minha jangada para o mar inquieto das ruas da cidade. Lanço minha rede no asfalto com a esperança de que meu trabalho seja bem sucedido, que eu possa ser útil; que no começo da noite possa estar de volta à minha casa. Carrego a certeza de que, ao chegar, repousarei abraçado àquela a quem amo, ouvindo o silêncio, o vento e a chuva, com a mesma paz de todas as noites. Não penso nas tempestades, mesmo estando sujeito a elas. Assim como o pescador atira sua rede em pontos diferentes do mar, procuro inovar o traçado do meu dia para que minhas jornadas me ensinem coisas novas. Não sou senhor do que me está reservado; mas compreendo que é justamente na simplicidade daquilo que realizo que a vida me oferece a oportunidade de sentir o seu sabor. Que, até a chegada da derradeira tempestademinha pescaria pode ser doce... ou pode me levar para as profundezas do mar.   

___________________________  

*"Suite" é um termo de origem francesa que significa série, sucessão. Musicalmente, consiste de uma peça com vários andamentos instrumentais diferentes.

segunda-feira, 6 de março de 2017

INDIFERENÇA



camus
(Albert Camus (1913-1960)
fonte: http://tapiocamecanica.com.br/o-estrangeiro-de-albert-camus/)


"Sólo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente"
(Leon Gieco)


     Albert Camus foi um escritor e filósofo francês. Nascido na Argélia, então colônia francesa, escreveu vários livros nos quais procurava encontrar um sentido para a vida - ou, em outras palavras, ilustrar, em muitas de suas leituras, o seu sem-sentido [da vida]. "O Estrangeiro"* é um deles.

     Em "O Estrangeiro" Mersault, o personagem principal, é um homem frio. Encarando fatos e a realidade como uma mera sucessão de ocorrências sem sentido e sem consequências significativas, parece estar alheio a tudo o que acontece consigo mesmo e com o próprio mundo. Nada o afeta. É um ser apático, impermeável, anestesiado. Para ele tudo é vazio. Recebe a notícia da morte da mãe e fica indiferente a isso; é aprisionado em virtude de um assassinato banal e isso em nada o modifica; é levado a julgamento e fica indiferente ao seu destino. Mersault é, enfim, a apatia, a negligência, o vazio, o nada: um estrangeiro neste mundo.

     Camus foi o oposto do "estrangeiro" Mersault. Apesar de tuberculoso, escrevendo e editando um jornal clandestino, militou na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1957 foi premiado com o Nobel de literatura. 

     Quando ando pelas ruas de minha cidade fico (muito) entristecido pelos prédios pichados, pelas praças descuidadas, pelas ruas esburacadas, pelas mãos pedintes, pelas faces sofridas, pelo medo, pela violência. Minha sensação é de desamparo e impotência.

     - "Sou Mersault? Sou Camus?", fico pensando. E volto para casa em pedaços.

     Analisando o sem-sentido da existência vazia de Mersault, o vazio existencial que ela parece provocar, e ainda comparando-a com as buscas e denúncias de Camus, fico pedindo a Deus que mantenha acesa em mim, enquanto eu aqui estiver, a capacidade de sentir, de me emocionar, de me encantar com toda manifestação de vida; que, de alguma forma, eu esteja sempre disposto a agir. Quero que a dor, a morte, a pobreza, a injustiça, o sofrimento dos acamados e o futuro não me sejam indiferentes. Que eu não me deixe simplesmente me arrastar pelo curso da vida sem querer dela participar, sem querer me dar conta do modo com que cada manifestação humana em mim repercute. Que, enfim, eu consiga ter sensibilidade suficiente para recolher, de cada gesto ocorrido em meu caminho, um exemplo e um motivo de inspiração para eu poder me expressar, para continuar construindo a mim mesmo, aos que comigo se importam, ao homem como ser atuante, e ao próprio mundo como consequência.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
E ACOMPANHAR A LETRA ABAIXO)
(Mercedes Sosa, com part. de León Gieco:"Solo le pido a Diós, de León Gieco)

*CAMUS, Albert. O ESTRANGEIRO; tradução de Valerie Rumjanek. 30ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009 (publicado em 1942, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, porém escrito antes dela - de 1936 a 1940).


Solo Le Pido A Dios (Leon Gieco)

Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente

Sólo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Sólo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente

Sólo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Eu Só Peço A Deus

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a seca morte não me encontre
Vazio e só sem ter feito o suficiente

Eu só peço a Deus
Que o injusto não me seja indiferente
Que não me esbofeteiem a outra face
Depois que uma garra me arranhou essa sorte

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente

Eu só peço a Deus
Que o engano não me seja indiferente
Se um traidor pode mais que uns muitos
Que estes muitos não o esqueçam facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Desenganado é o que tem que fugir
Pra viver uma cultura diferente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente
É um monstro grande e pisa forte
Em toda pobre inocência desta gente

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

THEREZINHA DEISE PRADO ANTÔNIO: RETRATOS DA VIDA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Bolero" - Maurice Ravel, 1928)


     Nascida em Jardinópolis, SP, no dia 24 de junho de 1931, Therezinha era filha de um funcionário público e de uma dona de casa. Em 1948 seus pais e seu único irmão mudaram-se para Guará-SP em virtude de nomeação de seu pai para o cargo de carcereiro na cidade. Nessa época Therezinha estava concluindo o Curso Normal no Colégio Sagrado Coração de Jesus de Jardinópolis, que a habilitaria para o magistério de 1º grau. Assim, não podendo acompanhar a família, ela continuou residindo em Jardinópolis em casa de uma família de amigos de seus pais.
     Concluído o curso Normal, em 1949, mudou-se para Guará. Nesse mesmo ano conheceu Nehif, filho de imigrantes libaneses, e com ele se casou em 1953.
     Começou sua vida de professora alfabetizando e ensinando crianças em uma fazenda situada no município de Guará. De bicicleta ou carroça, fazia todos os dias um percurso de vinte minutos até chegar à escola.
     Em seguida lecionou em Pioneiros, Distrito de Guará, de onde saiu para exercer o magistério na Fazenda Ouro Verde, na cidade de Junqueirópolis, SP. Ali ficou de maio de 1952 a maio de 1953, lecionando de manhã e à tarde, e morando com colegas de profissão em uma casa de fazenda ao lado da escola.
     Depois disso voltou a Guará para lecionar na fazenda "Faxina" (seu proprietário era o Sr. Américo Migliori – o Sr. Teté – já falecido).
     Em Guará Therezinha sempre esteve ligada ao “Grupo Escolar de Guará” – que hoje tem o nome de uma comadre sua: “Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Helena Telles Furtado”. Ali, em 1954, passou a lecionar para alunos do primeiro ano. Pelos seus ensinamentos passaram muitas gerações de guaraenses que levaram com carinho a lembrança de sua primeira professora – eu, inclusive.


(Profª Therezinha com seus alunos
Grupo Escolar de Guará - turma 1961 - arq. pessoal)

     No então “Grupo Escolar de Guará” fez grandes amizades que se estenderam ao longo do tempo. Dentre elas a Profa. Nadir Junqueira, a Profa. Mercedes de Paula, a Professora Eneida, os Professores Djalma Guelli e Maneco Chaud, a Dra. Dória, os Diretores Hélio Albertin, Arnaldo Nicolella, Ari Lima Santos, e muitos outros. E, vivendo sempre na mesma casa da Rua Carlos de Campos desde que se casou, teve na vizinhança os amigos de todo esse tempo e de todas as horas: Dona Irene e Sr. Mário; Dona Anita, Lazinha, Tiana, o professor Sother, o Sr. Carlos, os professores Joaquim e Gleide, a Dona Jupira, a professora Sônia, a professora e cunhada Anna Elias, a professora Maria Machado, e muitos outros.
     No ano de 1963 concluiu, na primeira turma de formandos, o curso Técnico em Contabilidade do “Colégio Comercial Municipal de Guará” - hoje “Escola Municipal Dr. Náufal Antônio Mourani”.


(Therezinha, a 1ª da dir para esq. - Conclusão curso Técnico em Contabilidade - 1ª Turma -
"Colégio Comercial Municipal de Guará" - arq. pessoal)

     Desse período, manteve acesa a amizade de seus colegas de turma - o Dr. Paulo Villela, o Professor Diocésar, o Massahiro Sakurai, Leikô, o Toninho e muitos outros. Nessa escola, anos mais tarde, depois de ter concluído o curso de Estudos Sociais na UNAERP em Ribeirão Preto, foi professora de História e Geografia. Também foi professora de Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica nas Escolas Estaduais de 1º e 2º graus de Buritizal e Aramina, e na “Escola Estadual de 1º grau Professora Maria Peralta Cunha”, em Miguelópolis.
     Com habilitações em Trabalhos Manuais, Economia Doméstica e Desenho, obtidas respectivamente em 1954 e 1957, foi também professora de Desenho e Educação Artística nas Escolas Estaduais de 1º grau “Dr. Nehif Antônio”, em Guará, “Capitão Emídio” de Miguelópolis, “Professora Maria Peralta Cunha”, de Miguelópolis, “Escola de 1º e 2º graus Antônio Francisco D’Ávila” de Ipuã, e “Ginásio Estadual Humberto França”, em Ituverava.
     Além das aulas que dava nos períodos da manhã e tarde, cursava também Pedagogia na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mogi das Cruzes”. Para lá viajavam com ela os Professores Manoel Chaud, Djalma Guelli e Mercedes de Paula. Concluiu o curso em 1970 e, em seguida, na mesma universidade, especializou-se em Orientação Educacional. Depois disso, em Ribeirão Preto, concluiu o curso de Supervisão Escolar na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Instituição Universitária Moura Lacerda”.
     Ficou viúva no ano de 1972, então com 40 anos de idade e dois filhos menores. Mas isso não a fez esmorecer. Therezinha abraçou com maior intensidade o seu trabalho, assumindo as cadeiras de Medidas Educacionais e Estudos de Problemas Brasileiros na “Instituição Universitária Moura Lacerda”, em Ribeirão Preto. Assim, lecionando no então curso ginasial no período da manhã nas cidades da região e no Grupo Escolar de Guará no período da tarde, passou a ocupar também suas noites ministrando aulas nos cursos de Graduação do Moura Lacerda em Ribeirão Preto - de 1971 a 1980.
     Para tanto, juntamente com os estudantes universitários, viajava todas as noites, de ônibus, em um percurso de uma hora até Ribeirão Preto, de onde retornava já de madrugada, para recomeçar sua jornada na manhã seguinte.
     Levou a vida assim, trabalhando na educação ininterruptamente, de manhã, à tarde e à noite, de 1971 a 1980. Além dos já citados, foram dezenas de cursos que concluiu - todos eles ligados à educação.
     Em uma viagem ao Rio de Janeiro, na casa de seus tios, conheceu Juan - um pintor e escultor espanhol viúvo, residente na Argentina, que se tornou seu segundo marido.
     Com ele casou-se no ano de 1980 em cerimônia religiosa na Igreja São José Operário na cidade de Araguari, MG - onde residia sua filha.
     A partir de 1981, já aposentada, passou a dividir os anos de tal forma que, com Juan, passavam seis meses em Guará e os outros seis em Buenos Aires. Juntos viajaram muito, conheceram muitos países, e em todos eles fizeram muitas amizades.
     Nos meses em que estavam em Buenos Aires, abriam as portas de seu apartamento e hospedavam com frequência muitos de seus amigos guaraenses. Ficou viúva pela segunda vez em 2009.
     Foi também uma associada muito atuante no Rotary Club de Guará – no qual ingressou em 1994.
     Por todo o seu envolvimento com as coisas de Guará, sua participação durante anos no Conselho Municipal de Assistência Social, nos programas sociais desenvolvidos pelos clubes de serviço e pela igreja católica, a cidade outorgou a ela, em 30/abril/2014, o título distintivo de “Cidadã Guaraense”.
     Descansou em 17 de fevereiro último, aos 85 anos, em virtude de doença pulmonar obstrutiva crônica. Deixou cinco netos e dois filhos - eu, um deles. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SE VOCÊ POR ACASO VISITAR AQUELE PAÍS...


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Bob Dylan - "Girl from the North Country")
(https://www.youtube.com/watch?v=L-nYXv3tes0)


Se você por acaso visitar aquele país,
onde antigos navios de batalha ficavam ancorados em uma ilha,
onde a bandeira nacional era o consolo que tinham as casas suburbanas,
procure encontrar alguém que por ali viveu,
e que trazia o coração encantado pelas belezas do mundo.

Se estando lá, por acaso, trafegar pela Main Avenue,
que cortava a cidade em toda sua extensão,
tente encontrar uma casa colorida de flores na janela central,
bem na esquina com a Roselle Ave.,
de onde um par de olhos adolescentes se iluminou para a doçura da vida. 

flowered
(Fonte: https://br.pinterest.com/pin/10414642863702724/)

Se você por acaso bater à porta da casa da esquina,
onde a única conexão com o sul era uma caixa de correio
que geralmente encontrava-se vazia,
pergunte por um rapaz muito calado que ali viveu,
e que se deitava no tapete da sala para ouvir o Bob Dylan cantar.

Se você realmente visitar aquele país,
trafegar pela Main Avenue,
encontrar a casa da esquina e for recebido por alguém,
peça de volta o brilho do olhar daquele jovem,
que ficou congelado na janela central enfeitada de flores. 


Girl From The North Country

If you're traveling to the north country fair
Where the winds hit heavy on the borderline
Remember me to one who lives there
For she once was a true love of mine.

If you go when the snowflakes fall
When the rivers freeze and summer ends
Please see for me if she's wearing a coat so warm
To keep her from the howlin' winds.

Please, see for me if her hair hangs long
Rolls and flows all down her breast
Please see for me if her hair's hanging long
That's the way I remember her best

I'm wonderin' if she remembers me at all
Many times I have often prayed
In the darkness of my night
In the brightness of my day

So if you're travelin' in the north country fair
Where the winds hit heavy on the borderline
Remember me to one who lives there
For she once was the true love of mine
Garota do Norte do País

Se você estiver viajando para a feira no norte do país
Onde os ventos sopram forte na fronteira
Fale de mim para alguém que mora lá
Ela foi, outrora, meu verdadeiro amor

Se você estiver indo quando a nevasca cai
Quando os rios estão congelados e o verão acaba
Por favor, veja se ela tem um casaco bem quente
Para protegê-la dos ventos uivantes

Por favor, veja pra mim se o cabelo dela está comprido
Se balança e escorre pelo seu peito
Por favor, veja pra mim se o cabelo dela está comprido
Pois é assim que eu me lembro dela

Eu fico imaginando se ela ainda se lembra de mim
Muitas vezes, eu tenho rezado
Na escuridão da minha noite
Na claridade do meu dia

Então, se você está viajando para o norte do país
Onde os ventos sopram forte na fronteira
Fale de mim para um alguém que mora lá
Ela foi, outrora, meu verdadeiro amor

sábado, 28 de janeiro de 2017

OS BARES* POR ONDE PASSEI


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell, dele, "Retrato brasileiro")
(Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=elgTCFlbEgQ)

     Em "A noite do meu bem"**, além de outras histórias ligadas ao samba-canção, o Ruy Castro conta como nasceram e de que forma sobreviviam os bares, as boates e casas de espetáculos que marcaram época no Rio de Janeiro.

     Um bar, uma boate ou uma casa de espetáculos, é, antes de tudo, um local onde ocorrem encontros e desencontros, formam-se amizades, iniciam-se histórias de amor. E não só no Rio, mas em cada uma das cidades do nosso querido Brasil.

     Em Guará não foi diferente. Quando criança, costumava ir ao "Bar do Seu Alberto", na esquina da rua da minha casa com a rua principal. Ali via meu pai e seus amigos, e comprava pacotes de bala de goma para comer nas matinês de domingo no cinema - e recebia sempre a simpatia do próprio "Seu Alberto". 

     Ainda menino, era o "Bar do Zé Berto" que movimentava a cidade.


(Zé Berto - foto postada no facebook por Ivete Berto)

     O "Bar do Zé Berto" ficava bem em frente à casa de minha avó, no primeiro quarteirão depois da estrada de ferro. Era frequentado por ilustres guaraenses que ali se encontravam para tomar cerveja e, especialmente, para discutir política. A casa e o bar do Zé Berto eram no mesmo imóvel. Em algum momento na década de 70 o "Bar do Zé Berto" mudou para o quarteirão seguinte, no sentido da praça, mantendo o mesmo perfil e os mesmos frequentadores. Eu mesmo passei muitas de minhas tardes na casa - e depois no bar - do Zé Berto, amigo que era de seus três filhos.

(Calçada em frente ao "Bar do Zé Berto" - foto postada por Dr. Marco Antônio no facebook)

     Havia também, na esquina da rua principal com a "rua do Welsinho" (Rua Washington Luiz), o "Bar do Massahiro". Aos domingos, já adolescente, era para lá que eu ia nos finais das noites de domingo para encontrar os amigos, comentar o filme em cartaz no cinema, e comer bauru. Durante as tardes dos dias de semana a possibilidade de jogar xadrez com algum amigo era o que me levava ao "Massahiro". Havia no bar muitos tabuleiros. Combinávamos uma partida ou um campeonato, ajeitávamos as mesas, pegávamos um picolé de abacaxi e deixávamos a tarde rolar solta entre torres, cavalos, bispos e peões que protegiam nossos reis e nossas rainhas.


A imagem pode conter: 1 pessoa, close-up
(Massahiro Sakuray - foto postada por ele no facebook)

     Do outro lado da rua, bem em frente ao "Massahiro", também na esquina, ficava o "Bar do Herlindo". Muito pouco frequentei ali; alguns outros amigos, porém, preferiam o "Herlindo" ao "Massahiro": ali a atração principal era o dominó.

     Com o tempo, descobri o "João Odani". Ficava doido para chegar os finais de tarde para poder ir ao "Bar do João Odani". Ali comia peixe frito e bolinho de mandioca, encontrava os amigos e conversava sobre qualquer assunto que a inspiração escolhesse. Localizado no final da rua da minha casa, lembro-me que, com mesinhas na calçada, sempre havia alguém que estacionava o carro em frente ao bar, deixava as portas bem abertas, e ligava o aparelho K7 para acompanhar os longos papos e as muitas cervejas que tomávamos ali enquanto sonhávamos o futuro.

(João Odani - detalhe de foto postada no facebook por Flávia Nakano)

     O João Odani fechava seu bar mais cedo do que gostaríamos que fechasse. Dali - e por muitos anos - saíamos pela rodovia Anhanguera até o "Posto Algodoeira". Nos finais de semana era para lá que nós todos da cidade íamos - jovens, pais e filhos. Bebíamos, colocávamos cadeiras na varanda do "Posto", e conversávamos sobre tudo. Muitas vezes era o meu primo Tim e os meus amigos Sérgio, Brunelli e Gualter que, com instrumentos de percussão e muita garganta, alegravam o "Posto". Era também no "Posto" que, com um misto-quente e uma coca-cola, arrematávamos as noites de baile no Clube.

(Varanda do "Posto Algodoeira" e Sr. Carlos Migliori, um dos então sócios proprietários - foto postada no facebook por Márcia Migliori)

     Muitos outros bares existiram em Guará. No entanto, o tempo que os frequentei foi muito curto em relação aos mencionados. Dentre eles lembro-me do "Bar do Sérgio e do Luizinho", na entrada da cidade, ponto de encontro para noites de carnaval; o "Bar do Celsinho Perigoso", na esquina da praça Nove de Julho com a rua principal, onde eu costumava ir para ficar olhando o movimento da praça enquanto ouvia o "Procul Harum" e os "Bee Gees" na vitrola; o "Bar do Vicente", onde eram feitas as melhores coxinhas da cidade; o "Bar do João Jorge" (antigo "Bar Magnífico", ao lado do cinema), onde ocorreram poucas, porém memoráveis reuniões musicais no início dos anos 80; o "Bar do Júlio", na esquina do Clube, onde minhas conversas com o próprio Júlio sobre música adentravam a madrugada; o "Bar do Daniel", em uma das casas da antiga Mogiana, onde, ouvindo tudo o que havia do Paul McCartney, bebíamos até o dia amanhecer.

     Lembro-me também, mas em um passado muito distante, do "Bar do Corsi", com seus antigos frequentadores, onde reinava uma mesa de sinuca; do "Bar do Jota" com seus picolés, bem na esquina da praça; e da escuridão da boate "Number One", onde o bom mesmo era conversar sussurrando.



(Bar do Zé Berto - foto postada por Vanderlei Berto no facebook)

     A vida vai passando e a gente não se esquece dos lugares que nos proporcionaram algum tipo de alegria ou descoberta. Em muitos deles fazemos amigos e levamos papos que influenciam nossos rumos e nossos destinos.

     Diante da simplicidade estrutural e da densidade afetiva que prevalecia nos encontros diários ocorridos nos botecos antigos da minha terra natal, os sofisticados bares, pubs e casas noturnas de hoje são gélidos palácios que inviabilizam uma simples conversa, onde a gente vai para simplesmente beber, beber e beber.... Ah, sim, e também para ser torturado por música da pior qualidade, a milhares de decibéis.

     Assim que, desencantado com os bares que tenho visto, escolho ficar em casa, onde, lembrando dos meus antigos bares e amigos, abraço o meu violão, pego minhas listas de músicas, e vou monologando calado... tocando p'rá mim mesmo a minha - hoje - boemia doméstica!

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*Bares de Guará, SP, minha terra natal
**Castro, Ruy. A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção. 1ª Ed. - São Paulo:Companhia das Letras, 2015