quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PENNY LANE



                                                                                  

                                                                 "Penny Lane is in my ears and in my eyes"


     Uma rua não é simplesmente um "leito carroçável" de veículos (aliás, que nome horroroso!) Uma rua é também composta por uma sequência de imóveis, com uma calçada por onde passam pessoas. Pode ter o perfil residencial ou comercial. Ou, ainda, pode ser a mistura desses dois perfis. Pode ser que nada tenha a acrescentar na vida de ninguém. Pode ser que por ela raros veículos trafeguem e poucas pessoas caminhem pela calçada. Pode ainda ser um tedioso ir e vir de automóveis e pedestres. 

     Mas uma rua pode também ser um universo onde tudo acontece.

     Em Liverpool, na Inglaterra, Penny Lane é uma rua de bairro que, há muitas décadas, nada acrescentava na vida de ninguém. Pelo menos na vida daqueles que não haviam criado com ela algum tipo de cumplicidade, algum laço de afeto. Mas para os Beatles era ali que tudo acontecia. 

(Fonte: http://silverkgallery.com.au/rock-n-roll-photography/the-beatles/saturday-morning-with-the-beatles/)

     Eu também tive uma rua que encerrava em si todos os acontecimentos do mundo.

     Se na Penny Lane dos Beatles* havia um barbeiro que mostrava fotos de cortes de cabelo que ele havia feito, na minha Penny Lane** também havia uma barbearia constantemente repleta de gente para conversar, olhar o movimento, ouvir rádio, ou simplesmente cortar os cabelos. Se na Penny Lane dos Beatles havia um banqueiro com um carrão, na minha havia três agências bancárias onde todos que nelas trabalhavam ou entravam eram conhecidos meus; se na Penny Lane dos Beatles havia uma enfermeira vendendo papoulas em uma bandeja, na minha havia vários comerciantes ambulantes perambulando pela calçada e vendendo, desde "quebra-queixo" e vassouras, até buchas para banho. 

(Rua Dep. João de Faria - "A minha Penny Lane" - foto: arq. pessoal)

     Além de mencionar um bombeiro com uma foto da rainha no bolso, os Beatles não vão além contando o que mais havia em Penny Lane. Mas na minha Penny Lane havia mais... Havia um cinema onde o mundo era projetado na tela todos os dias; duas farmácias na porta das quais eu ficava conversando sobre o futuro; um bar onde eu e meus amigos jogávamos xadrez, comíamos bauru, e chupávamos picolé de abacaxi; uma loja de tecidos onde seu proprietário comentava comigo as notícias do oriente médio; e uma quitanda onde se discutia futebol. Mas especialmente havia, na minha Penny Lane, duas outras lojas - uma de calçados e outra de roupas feitas - onde eu passava a maior parte do meu tempo observando, conversando, olhando os carros passar e, esporadicamente, comentando as ocorrências locais e as coisas da vida com um ou outro que se dispunha a isso.

(Meus amigos Fernando e Rando em uma das farmácias na minha Penny Lane -  anos 70: foto por Luiz Fernando no facebook)

     Quantos de nós carregamos pela vida inteira as lembranças de uma rua onde nossas primeiras descobertas aconteceram ou onde nossas doces lembranças ficaram? O Vinícius nos falou de reuniões que ocorriam na Rua Nascimento Silva, no Rio, em "Carta ao Tom"; o Tavito anotou lembranças em "Rua Ramalhete"; Luiz Carlos e Chiquinho, em "Do lado direito da Rua Direita", assim como Nelson de Barros e Frederico Valério, no fado "Na rua dos meus ciúmes", e Newton Carlos Teixeira e Jorge Vidal Faraj, em "A deusa da minha rua" falam de ruas que para eles ficaram guardadas por ter ocorrido, em cada uma delas, um fato isolado. 
 
(Desfile de aniversário da cidade na minha Penny Lane - década de 60 - foto postada por Marilúcia Rodrigues no facebook)

     A Penny Lane dos Beatles não deixou de existir para eles depois que eles se tornaram os ídolos e símbolos de uma geração. Não raramente ainda trafego pela minha Penny Lane. Mas a rua pela qual passo já não é mais a mesma. Assim como para os Beatles, a minha Penny Lane ficou guardada "nos meus ouvidos e nos meus olhos". A deles, embaixo de um céu azul de um subúrbio da cidade de Liverpool; a minha, também embaixo de um céu azul, porém constantemente ensolarado, e com a diferença de ser a rua mais importante e mais movimentada de uma típica cidadezinha do interior paulista, cortada por uma estrada de ferro, onde (também) tudo acontecia.



Penny Lane

Penny lane there is a barber showing photographs
Of every head he's had the pleasure to have known
And all the people that come and go
Stop and say hello

On the corner is a banker with a motor car
The little children laugh at him behind his back
And the banker never wears a mac in the pouring rain
Very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit and meanwhile back

In penny lane there is a fireman with an hourglass
And in his pocket is a portrait of the queen
He likes to keep his fire engine clean
It's a clean machine

Penny lane is in my ears and in my eyes
A four of fish and finger pies
In summer, meanwhile back

Behind the shelter in the middle of the roundabout
The pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway

Penny lane the barber shaves another customer
We see the banker sitting waiting for a trim
And then the fireman rushes in from the pouring rain
Very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny lane

Penny Lane

Em Penny Lane há um barbeiro mostrando fotos
De cada cabeça que ele teve o prazer de conhecer
E todas as pessoas que vão e vem
Param e dizem oi

Na esquina há um banqueiro com um carro
As criancinhas riem dele por suas costas
E o banqueiro nunca usa uma capa na chuva
Muito estranho

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Eu sento e enquanto isso

Em Penny lane há um bombeiro com uma ampulheta
E no seu bolso há uma foto da rainha
Ele gosta de manter seu motor limpo
É uma má quina limpa

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Por uma torta de peixe com dedo
No verão, enquanto isso

Atrá s do abrigo no meio do carrossel
A bonita enfermeira vendendo papoula em uma bandeja
E embora ela sinta como se estivesse em uma peça
Ela está mesmo

Penny Lane o barbeiro faz a barba de outro cliente
Nós vemos o banqueiro sentado esperando por um trato
E então o bombeiro corre para dentro vindo da chuva
Muito estranho

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Penny Lane



*Penny Lane - canção composta por Lennon e McCartney, e lançada pelos Beatles em fevereiro de 1967
**Rua Deputado João de Faria, em Guará, SP - a minha Penny Lane

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O PALÁCIO BOA VISTA E SEUS TESOUROS


     Campos do Jordão é a cidade mais alta do país. Com clima privilegiado ganhou fama de estância climática e hidromineral, e por isso recebe sempre muitos visitantes. E eu, que nunca havia estado lá, programei um curto passeio à cidade. Eu queria desfrutar do clima, conhecer o Museu Felícia Leirner e o auditório Cláudio Santoro. Mas, especialmente, o que eu queria mesmo era conhecer um palácio que existe lá: o Palácio Boa Vista.

("O Palácio Boa Vista" - foto: arq. pessoal)

     Para servir de residência oficial de inverno do governador do Estado de São Paulo*, o Palácio Boa Vista teve sua construção iniciada em 1938 e só concluída em 1964 - quando foi inaugurado. Em 1970 foi declarado monumento de visitação pública, e transformado em um centro de arte que abriga um grande acervo de obras de artistas brasileiros - sem prejuízo de sua finalidade inicial, de servir de sede de inverno do governo estadual.

     Sei que quando falamos em Palácio, as primeiras coisas que nos vêm à mente são rainhas e reis. Em seguida ficamos imaginando os tesouros guardados dentro desses palácios: baús enormes, joias, peças em ouro e prata, e tudo protegido por guardas muito bem armados. Mas eu visitei um palácio diferente, cheio de tesouros que eram, para mim, até então, feitos somente de fotografias impressas em papel de livros, como se fossem figurinhas prá eu ficar olhando... 

     Assim que, entrando no Palácio, a primeira atração é um pátio interno com um pequeno jardim e um chafariz ao centro. Nos quartos e cômodos que o circundam estão expostas obras de arte de artistas brasileiros, as quais eu somente havia visto em livros escolares.  

("Pátio interno do Palácio Boa Vista" - foto: arq. pessoal)

     Muitos Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Eliseu Visconti, e um grande acervo de obras de artistas modernistas estão ali nesse palácio. Mortos, eles ficaram com muitos dos seus trabalhos expostos nas paredes do palácio, ilustrando nossas vidas. São eles os nossos tesouros, um pedaço do nosso patrimônio artístico e cultural.

     Foi emocionante ver dentre tantos, de Tarsila do Amaral,  o "Retrato de Mário de Andrade" (1922) exposto na sala de trabalho do governador. Quantas vezes vi esse quadro em livros de literatura !

("Retrato de Mário de Andrade" - 1922 - Tarsila do Amaral - fonte: http://www.wikiart.org/en/tarsila-do-amaral/portrait-of-mario-de-andrade)

     Em uma sala menor vi "O beijo", de Eliseu Visconti; em outra, o "Retrato de Lalive" (1917), de Anita Malfatti.


("O beijo" - Eliseu Visconti - 1909 - fonte: http://pintores.vtrbandaancha.net/Visconti2/pages/O%20BEIJO%20-%201909_jpg.htm)

("Retrato de Lalive" - Anita Malfatti, 1917 - fonte: http://www.monicabelleza.com.br/pintores/anitamalfatti/lalive.htm)

     Um passeio por este Palácio, em visita guiada, tem a duração de cerca de uma hora. No entanto, a sensação é de que um dia inteiro ali ainda é insuficiente para podermos observar todos os detalhes de sua construção, bem como todas as obras de arte que ele abriga. Em especial, algumas boas horas precisariam ser dedicadas a "Operários" (1933), da Tarsila do Amaral. 

"Operários" - 1933 - Tarsila do Amaral - fonte: http://integradaemarginal.blogspot.com.br/2010_09_01_archive.html

     Exposto em uma pequena sala interna, "Operários", enorme, ocupa sozinho uma parede inteira. A vontade que dá, ao olharmos para aquele quadro, é de nos sentarmos a uma distância adequada, e ficarmos olhando para cada uma das faces que representam as faces do povo brasileiro em um período de industrialização ocorrido em nosso país. As faces, nitidamente tristes e cansadas, em primeiro plano, parecem todas iguais, massificadas pelo trabalho nas indústrias representadas pelas fábricas e chaminés, ao fundo, que reforçam o tema social.

     Mas, olhando tudo aquilo, conforme os olhos passeiam o pensamento vagueia: para que serve isso? esse Palácio? essas obras de arte? Objetivamente, não servem para nada. No entanto, avaliando melhor o seu significado, o que compreendo é que os valores e símbolos nacionais - e principalmente paulistas - estão ali guardados, como que servindo de fonte de referência para o que representa a nossa cultura. Ali estão preservadas, não as nossas moedas, mas todo um patrimônio cultural que vem sendo construído ao longo do tempo. 

     Passei dentro do Palácio muito menos tempo do que gostaria de ter passado. Com toda sua riqueza exposta, foi impossível ver detidamente tudo o que queria. 

     Mas, ao final, fotografando a parte externa do Palácio, uma ideia absurda, ridícula e risível invadiu a minha mente: só mesmo me escondendo lá dentro para, depois que ele fosse fechado no final da tarde, poder ficar olhando seus tesouros por uma noite toda. Assim eu poderia fazer anotações, me deter em cada detalhe do prédio e das obras de arte que ele abriga. Mas isso, decididamente, nunca vai acontecer. Fica então a lembrança... Fica o acervo arquivado na minha memória, e representado materialmente por uma pequena caneca com o símbolo do Palácio nela estampado - e que eu trouxe para guardar de recordação em uma das estantes de meu escritório.

*O Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, é a residência oficial do governador do Estado.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

EM VENEZA, COM ROSSANO BRAZZI

(CLIQUE PARA ASSISTIR E OUVIR)
("Summertime in Venice", de Alessandro Cicognini - Tema do filme "Quando o coração floresce")

                                                                      "You only live twice,
                                                                      one life for yourself,
                                                                      and one for your dreams"*


     Com 25 títulos, a Folha de São Paulo lançou a coleção "Grandes Astros" (do cinema). Semanalmente nas bancas, cada título traz um pequeno livro que conta a vida profissional de um artista de destaque. Acompanha-o o DVD de um filme no qual atuou, e que foi marcante em sua carreira. Assim, todas as segundas-feiras vou às bancas em busca do "astro" da vez. 

     Na última semana saí à procura de Katharine Hepburn - volume 12 da coleção. E foi então que, ao ver o filme do volume 12, chamou-me logo a atenção o seu título: "Quando o coração floresce" (Dir. David Lean, 1955). De imediato lembrei-me de uma conversa que havia tido com a Dona H. - uma vizinha de setenta e poucos anos de idade, que vive só, e que está viúva há mais de vinte anos. Ela me contava com entusiasmo que tinha visto pelo jornal que seria lançada a coleção "Grandes Astros", e que queria assistir novamente "Quando o coração floresce" - que seria um dos filmes que acompanharia um dos volumes.  

     Separei então dois livrinhos com os DVDs do filme: um para mim e outro para dar de presente a ela. Mas, antes, resolvi perguntar a ela, por celular, se já o havia comprado. Entusiasmada com a notícia e com o telefonema, não só me solicitou que comprasse o filme, como também me explicou: 

     - Nele, atua o Rossano Brazzi.

     Não entendi muito bem o motivo que a levou a me dar aquela explicação. Mas ela mesma continuou: 

     - "O Rossano Brazzi era lindo, e quando o filme foi lançado, o meu namorado não queria que eu fosse vê-lo - não sei se por ciúme ou por causa das insinuações amorosas que eram avançadas para a época. Mas eu fui... e terminamos o namoro. Depois voltamos. Passado um tempo nos casamos."


(Katherine Hepburn e Rossano Brazzi em cena de "Quando o coração floresce" - fonte: http://cdn2-b.examiner.com/sites/default/files/styles/image_content_width/hash/45/03/450340e265ab53b338e5290ab4f35dcc.jpg?itok=E7gq8yW3)

     Em casa, naquela noite, fui assistir o filme. Gostei. É uma fantasia de amor na qual Jane (Katharine Hepburn) - uma solteirona americana - viaja sozinha para  Veneza. Lá chegando, depois de instalar-se em uma pensão, conhece e se apaixona por Renato (Rossano Brazzi) um italiano sedutor, dono de um antiquário. 

(Rossano Brazzi - fonte: http://1.bp.blogspot.com/_1XbCsR5voz8/S_Qh8wlWdwI/AAAAAAAAHmc/RushTRTuvck/s1600/summertime2.jpg)

     De fato, no filme, ele atua com perfeição. Elegantemente vestido, aparece um tanto quanto romântico e aristocrático. Imagino que, na época em que o filme foi lançado, o quanto sua figura alimentou as fantasias das jovens de então. E para a Dona H., parece que não foi diferente. Penso que no final daqueles anos 50, apesar de nunca ter viajado para o exterior, por intermédio do filme ela esteve na Itália, passeou pelas ruas e canais de Veneza, caminhou pela praça de São Marcos, e lá viveu com o Rossano Brazzi um grande romance... E isso trouxe a ela a possibilidade de sonhar, de viver sua outra vida embalada por fantasias que trouxeram cor à sua vida real.  

     - O que, senão um livro ou um filme, naquela época, poderia proporcionar a alguém uma viagem tão linda como a que ela viveu em sonhos? - pergunto eu a mim mesmo.

     Os sonhos e as fantasias são necessários. Infelizes aqueles que não podem ou não conseguem sonhar, que não conseguem olhar para as estrelas - para além delas. Os livros e o cinema proporcionam tudo isso sem que seja preciso sair do lugar. Afinal, como na letra do tema do filme "Com 007 só se vive duas vezes"** (gravado por Nancy Sinatra), em se tratando de vida, temos apenas duas: uma para nós mesmos, e outra para os nossos sonhos.

     Poucos dias depois de ter dado o filme à Dona H., fiquei sabendo que seus netos e netas adolescentes estiveram em sua casa, e lá ficaram conhecendo - além do Rossano Brazzi - a cidade de Veneza... onde a Dna. H. revendo a cidade e a sua história de amor, em duas semanas, já esteve por pelo menos três vezes (sem ter deixado a poltrona de sua sala de estar).

("Terrace cafe in Venice" - fonte: http://www.book530.com/painting/160480/Terrace-Cafe-in-Venice.html)


- * "Você vive somente duas vezes: uma vida para você mesmo, e outra para os seus sonhos"
- **"Com 007 só se vive duas vezes" - Reino Unido, 1967 - Dir. Lewis Gilbert. Música tema "You only live twice", escrita por Leslie Bricusse e John Barry.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O MENINO DE ENGENHO QUE NÃO FUI


     
     Em uma manhã ensolarada de sábado, eu e Denise pegamos a estrada para o "Museu Nacional do Açúcar e do Álcool"... aliás, para o "Engenho Central"; ou seja, para a "Usina"...

     - "Epa, que confusão! Afinal, para onde queríamos ir?" 

     Caro (e raro) leitor e amigo. Calma. Por ter me dado a honra de ler e tentar entender, pacientemente, as coisas um tanto confusas e desconexas que venho escrevendo aqui, sei que é muito tolerante em relação a minha pessoa. Agradeço. Por isso acho melhor recomeçar essa história de outra forma, desde o seu princípio, lá do meu escritório, enquanto olhava para o nada. Explico melhor. 

(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Fábio Zanon - "Mazurka choro", de Heitor Villa-Lobos)

     Dispostos um ao lado do outro, em minha estante estão cinco livros escritos pelo José Lins do Rego: “Menino de Engenho” (1932), “Doidinho” (1933), “Bangüe” (1934), “Usina” (1936), e “Fogo Morto” (1943). Esses livros compõem, na obra do Zé Lins, um período chamado de “Ciclo da cana-de-açúcar”. Sem saber porque, eu os releio com frequência. Gosto de ficar olhando para eles e imaginando um menino, descalço e sem camisa, brincando em um engenho que não conheço e onde não fui. Esses livros e essas ideias me colocam em um período que não vivi, e em uma realidade muito diferente da minha: o mundo e o tempo do engenho.

     Nesses cinco livros o autor começa descrevendo, em “Menino de Engenho”, a vida em um engenho de açúcar, e termina mostrando, em “Fogo Morto”, a decadência e substituição, como modo de produção, do engenho pela usina.

     Tomado por ideias de engenho, usina e transformações sociais, fiquei sabendo da inauguração, entre os municípios de Pontal e Sertãozinho-SP, em dezembro do ano passado, da primeira etapa do projeto do "Museu Nacional do Açúcar e do Álcool".

     E foi aí que eu, como que a recuperar um tempo passado em um local onde não vivi (mas com a alegria de um menino de engenho que só conheci em livros),  e acompanhado da Denise em uma bela manhã de sábado, peguei o caminho para o "Museu".

     Depois de trafegarmos em asfalto, entramos em uma estrada de terra que passava por canaviais e pela fazenda Vassoural. Chegamos então ao antigo Engenho Central, onde está instalado o museu. 

(Vista lateral do engenho-usina-museu - foto: eu e Denise - arq. pessoal - jun/14)
     
     Recebidos e guiados por monitores, revimos e resgatamos, nas histórias do engenho, a história da exploração da cana-de-açúcar no desenvolvimento da economia do nosso país.

(Vista lateral - galpão de descarregamento e pesagem da cana-de-açúcar - foto: arq. pessoal)
     
     Fizemos a trajetória da cana dentro do engenho, desde a sua chegada e passagem pela balança para descarregamento, com posterior alimentação das esteiras, por onde segue para a moagem, e em seguida para o tratamento do caldo, fabricação e ensacamento do açúcar.

(Vista interna - processo de produção - foto: arq. pessoal)
(Vista interna - 1 - processo de produção - foto: arq. pessoal)

     As instalações do engenho-museu são grandiosas. Todo ele foi equipado com maquinaria escocesa do final dos anos 1880, com início de funcionamento em 1906. A produção de açúcar durou até 1964, quando, então, foi substituída pela de aguardente - fabricado até 1974.

     Dos equipamentos parados e expostos, foi doído ver o relógio da torre. De lá retirado, posto sobre o chão, expõe seu cansaço em marcar o tempo, em reter e controlar todas as horas que ditavam o ritmo da produção... ele, que por muitos anos controlou a dinâmica de tudo, agora vencido e sem uso... 

(Relógio da torre mais alta - foto: arq. pessoal)

     Na visão geral que tive ao chegar no engenho-usina-museu, o que se destacou, com imponência, foi o padrão britânico da arquitetura daquele período em suas edificações - com galpões amplos e tijolos aparentes.

(Entrada na área de produção - prédio em padrão britânico de arquitetura - foto: eu e Denise - arq. pessoal)
     
     Gostei da visita. Gostei muito. Penso até que o engenho Santa Rosa e o Carlos de Melo, da obra do Zé Lins, para mim já não serão mais os mesmos - eles passaram a existir, para mim, com maior intensidade. Creio mesmo que gostei de tudo o que vi por eu ter passado a vida rodeado de engenhos inexistentes, nos quais, sem saber, fui um menino.  


(Vista, com chaminé ao fundo - foto: eu - arq. pessoal)

     No final da visita, tomado por uma incontida alegria infantil, encontrei uma goiabeira próxima à chaminé, no fundo do engenho, de onde colhi e devorei "no ato" uma goiaba branca, temperada com o gosto do açúcar que escorreu para as terras que nutriram suas raízes.

(Uma goiabeira próxima à chaminé - foto: arq. pessoal)

(CLIQUE PARA ASSISTIR A REPORTAGEM)

P.S.: aos que tiverem interesse, o site do "Museu" é www.engenhocentral.com.br
Também  http://www.engenhocentral.com.br/apresentacao/apresentacaoMuseucana.pdf

   

terça-feira, 5 de agosto de 2014

UMA SENHORA LIMPA A CIDADE

(Suite 1 para violoncelo, de J. S. Bach - violoncelista: Yo Yo Ma)
     
     As ruas da cidade são o retrato da nossa miséria. Atiramos sobre elas os restos daquilo que desprezamos, como se quiséssemos expor a nossa imperfeição. São pedaços de papel, tocos de cigarro, cascas e caroços de frutas, folhetos promocionais, e tudo o que julgamos desnecessário...

     Eu caminho sempre pela mesma calçada, e muitas vezes vejo uma mesma funcionária do serviço público de limpeza. Ela varre a cidade e, atentamente, realiza seu serviço removendo resíduos que impiedosamente atiramos pelo chão... Todas as vezes que passo por ela tento ser visto para poder cumprimentá-la. Minha vontade é de atrair sua atenção para que perceba que reconheço a importância do seu trabalho, e também para que compreenda que nem ela e nem o resultado daquilo que faz são invisíveis. 

(Funcionária da Limpeza Pública - foto: arq. pessoal - jul/14)
 
     Ao passar por ela me encolho. Sinto vergonha. Vergonha pelo que vejo jogado no chão, e pela postura humilde que ela assume com a vassoura na mão. Mesmo não tendo sido autorizado para tanto, quero pedir-lhe desculpas em nome de todos. Mas ela não me vê - ou cuida para que eu não a veja - ... e segue varrendo, limpando, recolhendo restos, com a mente sabe-se lá onde.

     Imagino a angústia que carrega alguém quando percebe que, de seu trabalho, não vai haver um resultado final. Que todos os dias, depois de algumas horas, ao olhar para tudo o que foi feito, sabe que precisa recomeçar... 

     Mas aquela senhora da limpeza pública já se acostumou com a imperfeição e a indiferença de todos nós. Ela segue varrendo, limpando, recolhendo restos, como se estivesse cuidando do chão de sua própria casa. Sem os estímulos de reconhecimento de quem por ali passa, ela parece não ter noção da essencialidade do que faz. 

     Quanto a nós, que nos anestesiamos da capacidade de enxergar além, resta-nos aprender a realizar nosso próprio trabalho independente de aplausos, como faz aquela senhora... como se fôssemos, cada um de nós, e todos nós em conjunto, músicos de uma mesma orquestra... que, de um palco sem luzes, toca e encanta em um auditório vazio...

(Auditório Cláudio Santoro - Campos do Jordão/SP - foto: arq. pessoal)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O "SEU" RENATO E AS SERESTAS

     Entrei no facebook e vi o "Seu" Renato em uma foto. Quanto tempo...! 

(o "Seu" Renato - foto postada por M Teresa no facebook)
      
     E quando olhei para ele, na foto, de imediato me veio à lembrança um disco com o qual um dia, num passado muito distante, acompanhado de um bilhete, eu o vi presentear um de meus tios: "Coletânea de Valsas e Serestas" - gêneros musicais pelos quais eu não me interessava. Não sabia, naquele tempo, que havia entre eles - o meu tio e o "Seu" Renato - um laço musical poetizando a amizade; nem sabia se era disso que tratava o bilhete... nunca soube do seu conteúdo. 

     Um dia, conversando, veio de meu tio a sugestão de que ouvisse atentamente aquele disco. 

     Aceitei a sugestão. Levei o disco para casa e o pus para tocar uma, duas, muitas vezes. Era romântico, nostálgico, lindíssimo! Lembro-me bem de uma das faixas nele gravadas: "Boa noite amor", com o Francisco Alves... 

("Boa noite amor", de Francisco Matoso e José Maria Abreu - 1936)
     
     Pensando agora na existência desses laços musicais entre os dois amigos, e reconhecendo que aprendi a gostar de serestas ouvindo aquele disco, fiquei contente e emocionado ao rever em foto o "seu" Renato. 

     Poucas vezes o vi desde aquele dia perdido no tempo. Na última delas, no final dos anos 70, conversamos calados em uma sala ornada de flores tristes... Falamos do Maurício - seu filho e meu colega de república, na Universidade -, que havia partido...  


(Maurício - "Falamos do Maurício - seu filho e meu colega..." - foto postada por M Teresa no facebook)
 
     Ao "seu" Renato, o meu abraço!