terça-feira, 17 de março de 2015

ELIS, 70


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)

(Elis Regina - "La nuit de mon amour", de Dolores Duran, versão em francês Pierre Barouh)


     Elis Regina, se estivesse viva, estaria completando hoje 70 anos de idade. Para lembrar a data, o jornal "Folha de São Paulo" trouxe a notícia do lançamento de "Elis Regina - Nada será como Antes" - uma biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria (Ed. Master Books). 

("Nada será como antes" - capa do livro. Fonte: http://glamurama.uol.com.br/a-maior-cantora-do-brasil-conclui-biografo-de-elis-regina/)

     Da Elis, esta não será a primeira biografia. Em 1985, poucos anos após sua morte (1982), foi publicado "Furacão Elis" - biografia de autoria da jornalista e escritora Regina Echeverria (Ed. Leya). Li essa biografia e gostei muito.


("Furacão Elis" - capa do livro. fonte: http://www.reginaecheverria.com.br/biografias_14.html)

     E hoje de manhã vindo para o trabalho, pensando na notícia da jornal, automaticamente peguei para ouvir no carro uma coletânea da Elis. Dentre tantas coisas boas que ela gravou, sem pensar duas vezes escolhi a versão em francês cantada pela Elis que Pierre Barouh fez para "A noite do meu bem".

     Claro que poderia ter escolhido qualquer uma das muitas gravações maravilhosas que a Elis fez: "Dois prá lá, dois prá cá", "Gracias a la vida", "O bêbado e o equilibrista", "Casa no campo", "Atrás da porta", ou qualquer outra...

     Mas certamente porque, em se tratando de música tenho minhas predileções pelo cantar baixo da bossa-nova, preferi "A noite do meu bem" - e em francês.  

("Elis em Paris" - capa do "compacto" -  fonte: http://www.soboceudeparis.com/2012/01/elis-em-paris.html#.VQiWnY5jk7k)

     Ouvindo essa música e pensando na história de vida da Elis, lembrei-me também da Dolores Duran que a compôs e gravou em 1959. Pois ambas nos deixaram muito cedo: a Elis aos 36 anos de idade; e a Dolores aos 29. 

     E com essa oração, rezada mentalmente várias vezes no dia, presto minha homenagem à Elis (e à Dolores também).



LA NUIT DE MON AMOUR

Ce soir je veux trouver la rose la plus belle
Et la première étoile que m’appelle
Pour mieux fêter la muit de mon amour

Ce soir, je veux la paix dês enfants qui s’endorment
Je veux l’écho d’une vie qui se forme
Por mieux fêter la muit de mon amour.

Je veux toute la joie d’un voilier que s’élance
Et l’abandon d’une mais que s’avance
Vers la chaleur d’une étreinte d’amour.

Ce soir, jê voudrais toute la beauté du monde
Pour que cette nuit soit la plus profonde
Puisqu’elle sera la nuit de mon amour

Pourtant ces joies soudais me semblent incertaines
Je ne peux croire qu’elle se revele
Cette esperance qui me vient de toi.

Ah, comme cet amour me tarde à venir
Tant que je ne sais comment retenir
Cette tendresse que jê veux offrir.

A NOITE DO MEU BEM

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem.

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E o abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem.

Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem.

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
E quero toda beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem.

Ah como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que quero lhe dar.




quarta-feira, 4 de março de 2015

SOMETHING (ou "Uma noitada no 'Bar do Ademar')


http://www.alvoradaam.com.br/

     É terça-feira, oito e meia da noite, e estou em casa. Ligo o rádio portátil. Giro o dial de um lado para o outro, várias vezes, em diversas faixas de onda, mas não encontro nada aproveitável. Tudo descartável. Quanto maltrato à nossa já judiada inteligência!

     Penso em alguma coisa que me daria prazer em ouvir: uma música com letra inteligente, um programa de violão clássico, uma entrevista com algum pensador, um comentário a respeito de algum livro... alguma coisa... 

     - Ahhhh, isso mesmo: SOMETHING (alguma coisa)!
 
     Ai quem me dera poder ouvir no rádio essa música gravada pelos Beatles, uma, duas, três vezes... bem alto! E que após ouvi-la o locutor, com voz embargada de emoção, dissesse simplesmente "Que maravilha! vamos ouvi-la de novo!

     Lembro-me que, em relação à gravação original de "Something" pelos Beatles, o George e o Eric Clapton, ao vivo no Japão, fizeram a inserção de uma segunda parte no solo... 

(CLIQUE PARA OUVIR)

     Decido. O melhor a fazer é me deixar levar pelas sete cidades do Japão onde o disco foi gravado.

     Mas só as sete cidades do Japão não me bastam. Abri as portas de casa, entrei no carro, ganhei as ruas. Fui por instinto ao "Bar do Ademar", onde há duas pequenas mesas de madeira na calçada - e está sempre vazio. Estacionei bem em frente a uma delas. No balcão onde dois senhores conversavam peguei uma cerveja com um pacotinho de amendoim torrado e uma salsicha em conserva picada no prato. Sentei-me em um banquinho de uma das mesas externas, encostado na parede. Tendo o céu como limite fiquei olhando a noite, a lua, as estrelas. Liguei o aparelho de som do carro. Deixei suas portas abertas. Coloquei para tocar "Something". Bem alto. Olhei para o balcão e vi o Ademar esboçar um sorriso e erguer o polegar da mão direita. Ouvi a mesma música mais uma vez e, em seguida me aquietei e deixei o CD inteiro rolar. E continuei olhando o invisível. Só então me dei conta de que, em uma noite de terça-feira, sem qualquer perspectiva, estava fazendo um passeio por sete cidades do Japão, Londres, Paris, San Diego, Salvador, Uberlândia, São Paulo, Ribeirão, e, inevitavelmente, pelas antigas ruas de Guará... Até que, horas depois, o Ademar com uma vassoura começou a varrer a calçada. Aí então comecei a me perguntar: seria isso uma sugestão dele? um pedido? uma indireta? Não... o Ademar não poderia estar querendo fechar o Bar... a música estava tão boa! Então, para agradá-lo - ou convencê-lo a manter o bar aberto -, coloquei para tocar precisamente "While my guitar gently weeps", também com o George Harrison. Afinal, na segunda estrofe dessa música o George diz exatamente o que o Ademar poderia estar pensando e fazendo: 

"I look at the floor and I see it needs sweeping
(eu olho para o chão e vejo que ele precisa ser varrido)
while my guitar gently weeps"
(enquanto minha guitarra suavemente chora) 

(George Harrison - fonte: http://www.thegearpage.net/board/showthread.php?t=1453519


     Depois de algumas poucas cervejas, pacotes e mais pacotes de amendoim com alimentos em conserva, vi que já era tarde. Eu era o único cliente no bar. Pedi a conta, paguei e fui embora... não sem antes agradecer ao Ademar, com um abraço, pela grande noitada.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O BEIJÓDROMO


"A coisa mais importante para os brasileiros (...)
é inventar o Brasil que nós queremos".
(Darcy Ribeiro)


     Todos nós sabemos o que significa a palavra "oca". Há uma boa explicação desse vocábulo no dicionário Houaiss: "(s.f.) construção de madeira entretecida e coberta por fibras vegetais, geralmente de planta circular, usada pelos indígenas do Brasil como moradia de uma ou mais famílias".

     Mesmo que nunca tenhamos visto uma oca de verdade, certamente por imagens de livro ou jornal já fomos apresentados a uma.

     No entanto, com a dinâmica das transformações que ocorrem no mundo - e que refletem também nas tribos indígenas - o aspecto geral de uma oca não permanece congelado no tempo. Ela é... modernizada. E foi pensando em uma imagem futurística de uma oca que projetou-se e construiu-se na Universidade de Brasília um prédio com o propósito de abrigar o acervo de seu fundador - o Darcy Ribeiro. Quando o projeto ainda estava no papel o próprio Darcy chamou-o, carinhosamente, de "Beijódromo" - referindo-se então à área em torno do prédio que viria a ser o "Memorial Darcy Ribeiro", e que seria utilizada pelos estudantes em suas horas de lazer.

(O Memorial Darcy Ribeiro - a imagem futurística de uma oca - fonte: arq. pessoal)

(Placa de inauguração do "Beijódromo", colocada na frente do prédio - fonte: arq. pessoal)

     Pois outro dia, estando em Brasília, fui à UnB para conhecer tanto o acervo material do seu fundador, quanto o próprio prédio que o abriga.

("O prédio é circundado por um lençol de água" - fonte: arq. pessoal)

     O prédio é circundado por um lençol de água. Logo na entrada, à esquerda, está o balcão de recepção; e do lado direito uma pequena cantina. Meu contentamento por estar ali era tão grande que de imediato me perguntaram se eu havia sido amigo pessoal do Darcy. Esclarecida ao pessoal da recepção toda a curiosidade que surgiu em relação à minha pessoa, segui em frente até um pequeno jardim no centro do prédio. 

("O jardim no centro do Memorial, no centro do qual está o tronco Kuarup"; no piso superior, os livros, discos, fotos e anotações do Darcy - fonte: http://campus.fac.unb.br/arquivo/universidade/item/2386-beij%C3%B3dromo-%C3%A9-pra-beijar)

     Parado e olhando as plantas existentes nesse espaço interno, percebi que "plantado" ali estava um tronco de madeira pintado e enfeitado com penachos, colares, fios de algodão, braçadeiras de penas de arara, e ornamentos indígenas.

(Kuarup, em detalhe - fonte: http://www.significados.com.br/kuarup/)

     Um dos funcionários do "Memorial", que havia me acompanhado até ali, percebeu o meu olhar de admiração voltado para aquele tronco. E sem a menor cerimônia, como que a ler meu pensamento, apressou-se em me explicar que não se tratava de um tronco de madeira qualquer; que aquele tronco era muito especial; que em um belo dia políticos e representantes de povos indígenas lá estiveram e o "plantaram" no jardim; que naquela ocasião, em cerimônia formal, os indígenas dançaram, cantaram e sacudiram chocalhos em frente ao tronco, como que a convidá-lo para a vida, como que querendo que aquele tronco se transformasse em gente.   

     Com muito do acervo material do Darcy guardado no "Memorial", somente a sua presença espiritual faria com que ele se completasse. E foi justamente para trazer de volta o espírito do Darcy que esse seu retorno à vida imaterial aconteceu com a realização daquele ritual indígena: o Kuarup. Pois o Kuarup consiste justamente nisso: trazer os mortos de volta à vida.

     Assim, espero que aqueles que vierem a entrar no "Memorial" se deixem impregnar pelo espírito do Darcy, pela sua eloquência, pela sua paixão pela vida, pelo Brasil e pelo nosso povo. Afinal, naquele local foi realizado o ritual indígena do Kuarup, e o tronco de madeira no centro do jardim transformou-se em algo muito mais significativo do que um simples pedaço de madeira: é o próprio corpo do Darcy, cuja alma habita naquele local. 

     Ao final, tomado de brasilidade, fui embora com o sentimento de que ainda há muito a ser feito pelo nosso país... e com a sensação de que, naquela visita, o espírito do Darcy havia me acompanhado por todos os lados.

(Eu ao lado de foto do Darcy em um painel do piso superior do Memorial, onde está o seu acervo material - foto: arq. pessoal)

*Darcy Ribeiro (26/10/1922 - 17/02/1997) - antropólogo, escritor, político e indigenista, fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

LA RUE GINOUX




(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

Ribeirão Preto, 13 de janeiro de 2015

Querido amigo:

     Foi com muita alegria que recebi a sua carta. Nela, acompanhada de uma foto, você me conta como foi sua chegada em Paris. Senti em suas palavras toda alegria que tomou conta de você por estar dando início ao seu trabalho e aos seus estudos nessa cidade. Você sempre buscou isso; você se empenhou para consegui-lo, e agora conquistou o que queria. Saiba que a sua alegria é também a minha alegria - e a alegria de todos os nossos amigos comuns.

     Por intermédio de suas observações a primeira impressão que tive foi de que o parisiense anda meio angustiado; estou errado? Mas não é para menos. Temos acompanhado daqui do Brasil e visto que a cidade ainda agoniza pelos atentados no "Charles Hebdo". E não só a cidade com suas instituições, mas também o próprio parisiense, a França toda, e as pessoas de boa vontade espalhadas por todos os cantos do mundo. Afinal, um atentado contra um ser humano qualquer representa um atentado contra toda a humanidade. 

     Confesso que enquanto lia sua carta eu conseguia viajar pela cidade por intermédio de suas palavras. Desci com você no aeroporto Charles De Gaulle, fiquei angustiado ao me dar conta de que suas malas não haviam chegado, viajei no seu ônibus até o 15º arrondissement, desci com você, e segui ao seu lado caminhando à procura de seu apartamento. 

     Não posso negar que gostaria muito de estar caminhando ao seu lado para também sentir a emoção da procura de sua rua - a Rue Ginoux.

     Aliás, foi motivo de um grande exercício mental aqui a tentativa que fiz para descobrir o porquê do nome de sua rua não me soar estranho. Pois toda vez que abro o mapa de Paris e fico olhando o nome das ruas e avenidas (e tenho feito isso com frequência desde a sua partida), a sensação que tenho é de estar assistindo uma aula de história ou literatura. Isso porque são tantos os nomes conhecidos que parecem até parentes próximos: Emile Zola, Charles De Gaulle, Victor Hugo, e tantos outros. Mas... "Ginoux"... esse nome não me soava estranho.

     Depois de muito pensar me dei conta de que o nome "Ginoux" sempre estivera ligado a obras de arte. Isso porque Van Gogh pintou um quadro muito conhecido e ao qual deu o nome de "L'Arlesiene: Portrait of Madame Ginoux". Você já havia se atentado para isso?

     Assim que, enquanto lia sua carta e vivia daqui suas emoções, pensava também no Van Gogh e nos motivos que o haviam levado a pintar tal quadro. Contam os biógrafos que Van Gogh morou em Arles, no sul da França, em um quarto alugado. E que, ali, ele frequentava um café - o "Café de la Gare". Contam também que a proprietária desse Café chamava-se Marie Julien - a tal "Madame Ginoux". Creio que tenha sido pelo fato da Madame Ginoux ter sido presença constante naquele período da vida do Van Gogh que ele  resolveu eternizá-la. Claro que hoje, para isso, o recurso mais prático é a fotografia; mas nos tempos do Van Gogh pintava-se, desenhava-se, ou esculpia-se. E o Van Gogh a pintou - em duas telas. 

(L'Arlesienne: Madame Ginoux, Van Gogh, 1888 - fonte: http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/51.112.3)

(L'Arlesienne: Retrato de Madame Ginoux - Van Gogh, 1888 - fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Van_Gogh_-_L%27_Arlesienne_%28Madame_Ginoux%291.jpeg)

     Você conta que enquanto procurava pela sua rua ia observando os prédios e as muitas pessoas que passavam por você - cada uma delas, indiferente a você, com seu destino e sua história. Mas pelo fato de serem pessoas que passavam por você justamente em seu primeiro dia na cidade, creio eu, a indiferença delas vai passar a ser inversamente proporcional ao significado que elas certamente terão em sua vida. Não tenho dúvidas em relação a isso. Tanto que - você vai ver -, algum dia, muitas daquelas faces reaparecerão em algum sonho seu, tamanha a importância daquela pequena caminhada. 

     Fico imaginando sua ânsia em conseguir realizar com alguém seu primeiro diálogo em francês. E, cá entre nós, eu faria o mesmo que você fez: tentaria atrair a atenção de algum pedestre para poder testar o meu francês perguntando qualquer coisa - "onde está localizada a Rue Ginoux?", por exemplo. 

     - "Excusez moi, madame, savez vous où est la Rue Ginoux ?"

     E, estando em Paris, você conta que foram justamente estas as suas primeiras palavras em francês. Fiquei aqui imaginando você, seu semblante de estrangeiro, procurando situar-se na cidade. E senti também a alegria que você sentiu quando, depois de ouvir a resposta à sua pergunta, você ergueu a cabeça e leu em uma placa: "Rue Ginoux". Senti como se estivesse ao seu lado...

     Você descreveu esse momento de uma forma tão precisa que as batidas do seu coração não poderiam estar indiferentes àquele momento tão precioso. Meu coração também bateu forte aqui quando li esse trecho de sua carta. Certamente, como você disse, seu coração acelerou. E acelerou de tal forma que você pegou seu iPhone e eternizou em foto a visão que teve no momento em que encontrou a rua... a sua rua Ginoux. 

(A foto da Rue Ginoux que recebi - 13/jan/15 - fonte: Gera)

     Pois em uma comparação distanciada pelo tempo, o instinto que te levou a fotografar sua rua foi tal qual o que levou Van Gogh a eternizar em tela, com tinta e pincel, a madame Ginoux. 

     Conheço agora o seu endereço, e também passei a gostar do nome de sua rua: Rue Ginoux - sendo ele em homenagem ou não à Madame Ginoux das telas do Van Gogh.

     Durante todo o tempo em que lia sua carta, fiquei pensando em como seria bom se estivéssemos juntos aí para dividirmos nossas impressões à respeito dessa cidade. Que bons papos teríamos! (Apesar, claro, de minha chatice, para a qual sei que você sempre dá um desconto.)

     Creio que você já deve ter sentido, de outras viagens que fez, o quanto repensamos o Brasil quando nos distanciamos dele. Não é verdade que o redescobrimos? que reconhecemos que temos um grande país a ser construído? E, da mesma forma, não é verdade que, estando longe, intensificamos o amor que sentimos por ele?

     Bom, na expectativa de novas notícias suas vou ficando por aqui, vigiando o tempo, fazendo minhas anotações... Sinta daí todo o contentamento que sinto aqui em saber que você está bem, que você está feliz, e que está realizando um grande sonho que sempre teve.

     Receba um abraço meu, tão grande e tão forte quanto o carinho e a admiração que tenho por você. 

     Elias

P.S.: Um dos sites que conta a história dos nomes dados às ruas de Paris diz que o nome "Ginouox" homenageia o antigo proprietário da área onde está hoje a rua. (http://www.linternaute.com/sortir/rue-paris/rue-ginoux-75015-paris): "Será que ele era parente da tal Madame?"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BRIDGE OVER TROUBLED WATER*


("Charing Cross Bridge" - Monet, 1900. Fonte: http://www.wikiart.org/en/claude-monet/charing-cross-bridge-overcast-weather)


     Alguns momentos, de tão especiais que são, servem para nos mostrar que estamos muito além de nós mesmos; que nossos gestos, nossos atos, nossas palavras, permanecem no coração de quem nos observa - em especial quando estamos na condição de orientadores. Digo isso porque, ao ouvir uma música hoje, revivi algumas de minhas histórias.

     Ainda adolescente fui aos Estados Unidos na condição de estudante. E como tal, frequentei colégio. Dentre as disciplinas obrigatórias que cursava, Biologia era uma delas. Acontece que com Biologia eu não tinha nenhuma afinidade. E, para agravar, meu inglês era muito limitado. Assim, a dificuldade para acompanhar o curso era imensa.

     Durante as aulas, Mr. Mitrovich, o professor, costumava colocar música bem baixinho. E “Bridge over troubled water” era frequente. Então eu, “olhando” a aula, passava todo o seu tempo atento à música. E por intermédio dela fazia muitas viagens.

     “Bridge over troubled water” foi feita para uma jovem que estava começando a viver sua liberdade, e que estava se dando conta das dificuldades que naturalmente começavam a lhe aparecer. E o autor, na música, tenta estimulá-la a ter força e determinação para vencer obstáculos e seguir seu próprio caminho.

     Na letra da música os problemas foram representados por um rio de águas turbulentas que precisava ser atravessado. E para que os problemas não impedissem a jovem de fazer suas conquistas, o autor lhe dizia que estaria ao seu lado para prestar qualquer auxílio.

     “Bridge over troubled water” é uma canção com três estrofes e que fala de solidariedade. Depois de mencionar situações que sugerem dificuldades, as duas primeiras estrofes terminam com “like a bridge over troubled water I will lay me down” (como uma ponte sobre águas turbulentas eu me estenderei). Com isso, o autor pinta uma imagem de alguém que servirá de apoio nas dificuldades. Na terceira estrofe, depois de incentivar a jovem a enfrentar a vida, o autor encerra dizendo que, como uma ponte sobre águas turbulentas, ele estará ali para tranquilizar a mente dela (“like a bridge over troubled water I will ease your mind”).

     Terminado o meu período de estudos nos Estados Unidos, e muitos anos mais tarde, fui contratado professor de inglês em um colégio. Em uma das aulas levei a letra de “Bridge over troubled water” para que meus alunos a traduzissem e fizessem a interpretação de sua mensagem. No final da aula coloquei a gravação da música em um aparelho de som, e sugeri que cantássemos juntos. Para minha surpresa, no início da segunda estrofe, uma das alunas levantou-se e cantou... e encantou. Todos nós – os demais alunos e eu – boquiabertos, nos calamos e ficamos ouvindo sua voz preencher todos os espaços daquela sala de aula. Foi um momento lindíssimo do qual jamais me esqueci.

     Muitos anos se passaram. Tive notícias dos destinos de vários alunos, mas nunca mais soube da minha aluna-cantora.

     Outro dia, em um bar com música ao vivo onde estávamos eu e a minha mulher, o violonista chamou ao pequeno palco sua esposa e a apresentou como arquiteta - e cantora nas horas vagas. Percebi que aquele rosto não me era estranho - e consegui identificar nele aquela aluna, naquela aula, naquele colégio.

     Pois ela pegou o microfone com segurança, sorriu com o coração, e cantou "Bridge Over Troubled Water". Ao final, não resisti de emoção. Certo de que não seria reconhecido, fui me apresentar a ela e cumprimentá-la. Mas antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa ela desceu do palco, chamou-me pelo nome, me abraçou, e agradeceu-me por estar ali... e especialmente por aquele momento, naquela aula, naquele colégio, há tantos anos.

(CLIQUE PARA OUVIR A MÚSICA)
 (TRADUÇÃO DO SAUDOSO HÉLIO RIBEIRO EM PROGRAMA DE RÁDIO)

*"Bridge over troubled water", composta por Paul Simon, do disco de 1970 com o mesmo nome, gravado por Paul Simon e Arthur Garfunkel (Simon and Garfunkel).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ABAPORU



"Só a antropofagia nos une"
(Oswald de Andrade)


     Desde pequeno conheço "de vista" o "Abaporu". Nunca o entendi, nunca tentei entendê-lo. Eu o achava simples, infantil, e nem sabia porque esse quadro merecia tanta consideração. Sempre que o via em algum livro só enxergava um ser deformado em um lugar muito quente - e nada mais.

     Mas como a ignorância não resiste a uma pequena busca que seja, fui pesquisar o seu significado. E essa minha visão de ignorante foi radicalmente transformada!

     Buscando traçar sua verdadeira identidade, em um determinado momento da história alguns artistas do nosso país entenderam que precisávamos falar por nós mesmos, expressando nossos verdadeiros valores. Então, ao invés de desprezarem as expressões culturais e artísticas de outras nações - até então simplesmente copiadas -, houveram por bem propor que devorássemos a arte e a técnica estrangeiras, submetendo-as a uma avaliação crítica de nosso estômago cultural, deixando verter, por conseguinte, uma expressão essencialmente brasileira.

     E esse "engole, digere e expressa" foi comparado por Oswald de Andrade (marido de Tarsila do Amaral) com o antropofagismo de algumas tribos indígenas - o qual consistia em devorar o inimigo para absorver o seu poder, o seu conhecimento, e as suas habilidades. 

     Com essa ideia em mente, Oswald procurou um nome em tupi-guarani para o quadro que lhe havia sido dado por sua mulher, Tarsila do Amaral. Foi daí que surgiu a palavra "Abaporu", significando "o homem que come gente" - e que traduziria toda a ideia do movimento modernista brasileiro proposto em 1922.

("ABAPORU" - Tarsila do Amaral, 1928 - fonte: imagem da Coleção Folha Grandes Pintores Brasileiros - 3 - pg.73)

     No quadro, a figura solitária sugere o homem plantado na terra, fixado em suas próprias raízes. As mãos e os pés imensos enfatizam sua atividade laboral. A cabeça pequena sugere desapego ao tecnicismo e ao intelectualismo exagerados, que certamente resultariam em reprodução de expressões culturais distantes das nossas.

      Em "Abaporu" a figura está sentada sobre uma planície verde com um dos braços, que sustenta a cabeça, apoiado no joelho. Com o vigor de uma vida criativa e viva representada pelo verde, o cáctus explode em sol e em amarelo de uma flor improvável. Essas cores juntadas ao ceu azul do fundo da tela, de imediato nos remetem às cores da bandeira brasileira.

     Depois dessa busca, por fim, engoli e digeri o verdadeiro sentido desse quadro. Ele expressa a ideia de um movimento de independência cultural, enfatizado pela busca da exaltação da terra, de seus valores, e do povo do Brasil. Por isso ele é genial - não pela técnica ou pelo estilo, mas pelo que ele simboliza.

     Assim como toda representação contida no "Abaporu", o perfil de cada um de nós também é resultado daquilo que conseguimos devorar. E se formos capazes de digerir esses estímulos com sabedoria, certamente nossas expressões serão a tradução autêntica do que somos - sem cópias ou imitações.


(CLIQUE PARA OUVIR - "UIRAPURU", de Waldemar R. de Oliveira e Murilo Latini)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

SURFANDO EM "WAVE"


(CLIQUE PARA OUVIR - "WAVE")
(Daniel Jobim e Luiza Jobim - "Wave", do Tom Jobim)

     O Tom Jobim certamente gostava do Exupéry* - em especial de "O Pequeno Príncipe". Lembro-me que o encarte de seu último disco** trazia uma foto de uma das belas praias do Rio de Janeiro, com duas frases do Exupéry no canto superior direito: 

"L'essentiel est invisible. On ne voit qu'avec le coeur."
(O essencial é invisível [aos olhos]. Só se vê bem com o coração.)
 
(Encarte do disco "Antônio Brasileiro" - 1994 - fonte: http://admusicaalberto.blogspot.com.br/2011/05/pato-preto.html)

     Essas frases foram extraídas de "O Pequeno Príncipe". Elas aparecem no livro quando a raposa e o príncipe dialogam a respeito do quanto se tornam especiais - um para o outro - aqueles que se cativam***.

     Mas essas mesmas frases já haviam inspirado o Tom. É muito conhecida essa história. O Tom compôs e gravou "Wave" em 1967, em disco instrumental com o mesmo nome. E depois disso pediu ao Chico Buarque que colocasse letra na música.


(Capa de "Wave", 1967 -fonte: http://www.israbox.net/1146431501-antonio-carlos-jobim-collection-lossless-mp3-1959-2008.html)

     Mas o Chico não foi além da primeira frase. Por isso o Tom, dando sequência no "vou te contar", do Chico, inspirou-se nas mesmas duas frases do mesmo diálogo entre o pequeno príncipe com a raposa e escreveu:

"Meus olhos já não podem ver
coisas que só o coração pode entender"

     E como o Tom gostava de falar de amor, para concluir a primeira estrofe ele emendou:

"fundamental é mesmo o amor
é impossível ser feliz sozinho"

     Portanto, se o Chico havia dito que iria nos contar alguma coisa, foi o próprio Tom quem acabou nos contando tudo.


______________________
*Antoine de Saint-Exupéry (1900/1944) - escritor, ilustrador e piloto francês. Escreveu "O Pequeno Príncipe"
**"Antônio Brasileiro", de 1994
***O Pequeno Príncipe. Exupery. 48ª edição. Agir, 2006. pág. 72