quinta-feira, 22 de setembro de 2016

FOREVER YOUNG



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Forever Young", Bob Dylan and the Band - https://www.youtube.com/watch?v=jtFEzhaNrT4)


"May you build a ladder to the stars,
and climb on every rung:
May god bless you and keep you
forever young"
(Bob Dylan)


     O Bob Dylan tinha 32 anos de idade quando, em 1973, gravou "Forever Young". Em pleno vigor de sua juventude ele fazia, na canção, uma oração endereçada ao seu filho Jesse - então com sete anos de idade.

     Não sei dizer se os votos do Bob Dylan, expressos na oração, foram atendidos na sua plenitude. Li recentemente que Jesse tornou-se diretor de cinema* e que, depois dele, Dylan teve outros cinco filhos (oficiais)**.


Rock Star Dads
(Bob Dylan com seu filho Jakob - fonte: http://thedwarf.com.au/news/rock-star-dads)

     Percebo que a canção mantém sua força e seu encanto mesmo depois de tanto tempo. Sua letra traduz o sentimento do homem em seu estado de elevada nobreza, porém tomado pela angústia de carregar dentro do peito a incerteza de cada um dos dias que poderão vir.

     Quando "Forever Young" foi gravada eu tinha 16 anos. Desde então, e muito antes ainda, atravessei cada um dos meus dias com a cabeça tomada por projetos, sonhos, conflitos, inquietações e muita música ("Forever Young", dentre tantas). Sem que pudesse me dar conta, lutando para poder ser útil, procurando discernir a verdade e enxergar as luzes ao meu redor, caminhei sob a proteção de Deus.

     O Bob Dylan tem hoje 75 anos de idade e da sua voz segue ecoando, com todos os acordes, a mesma prece por ele escrita há mais de 40 anos. Oxalá todos nós, quando estivermos nos achando antiquados e ultrapassados, consigamos ouvir "Forever Young" e reencontrar em sua letra a nossa juventude espiritual para podermos, assim, continuar dedicando a nós mesmos, aos nossos filhos, e a todos os jovens idealistas, a mesma prece dedicada pelo Bob Dylan ao seu filho - e que eu, particularmente, continuo dedicando aos meus.


Forever Young

May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
May your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young
Para Sempre Jovem

Que Deus te abençoe e te proteja sempre,
Que todos os seus desejos se realizem;
Que você possa ser sempre útil aos outros
E permitir que os outros o sejam para você.
Que você consiga erigir uma escada até as estrelas
E galgar cada degrau;
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.

Que ao crescer você se torne justo,
Que ao crescer você se torne verdadeiro,
Que você saiba sempre discernir a verdade
E enxergar as luzes que o cercam.
Que você seja sempre corajoso,
Aguente firme e seja forte.
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.

Possam suas mãos estar sempre ocupadas,
Possam seus pés ser sempre ágeis,
Que você tenha uma base sólida,
Quando os ventos das mudanças soprarem.
Possa seu coração estar sempre contente,
Possa sua canção ser sempre cantada,
Que você possa permanecer para sempre jovem.
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você possa permanecer para sempre jovem.


*em http://thedwarf.com.au/news/rock-star-dads
**em http://oglobo.globo.com/cultura/homem-de-48-anos-afirma-ser-primeiro-filho-de-bob-dylan-5446880


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O CANDIDATO E O ELEITOR


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR ANTES DE LER)
("Como fabricar um candidato - https://www.youtube.com/watch?v=n4rzfnzQrAg)



"E eu que não creio
peço a Deus por minha gente"
(Garoto, Vinícius, Chico)




Chega um momento em que é preciso eleger.

Colocam-se diante dos homens comuns seres extraordinários moldados em gestos treinados e frases fabricadas ditas com segurança e brilho no olhar. Estes seres sobem em palanques, falam alto, apontam caminhos, abraçam, sorriem, e simulam vocação messiânica com acenos de mãos.

Chega um momento em que o homem comum para para ouvir.

Empresta ouvidos a programas de rádio e televisão. Vê os seres extraordinários proporem soluções fantasiosas para uma cidade empobrecida e habitada por gente esperançosa que, de pés descalços e chapéu na mão, aplaude os seres extraordinários. 

Chega um momento em que o homem comum passa a olhar ao seu redor.

O homem comum mergulha em sua câmara de reflexões, fala baixo, sente dificuldade de decidir. Analisa. Não se convence. Indeciso, faz perguntas a si mesmo. Olha sua cidade, sua gente, suas praças, as grades nas janelas das casas, os buracos nas ruas, as lixeiras nas calçadas, as filas nos postos de saúde, a qualidade de suas escolas, e percebe o quanto de descaso há nisso tudo. 

Mas chega o momento, enfim, em que o homem comum precisa falar.

La prière, par Erich Heckel
("La prière" - Herich Heckel - fonte: http://www.eternels-eclairs.fr/die-brucke-tableaux-heckel-schmidt-rottluff-nolde-pechstein.php

Depois de muito avaliar, sentindo-se desencantado e tão desamparo quanto é de sua natureza ser, ele levanta a cabeça, direciona seu olhar para as estrelas no céu, e diz com desolação:

- "Perdoai-me, Senhor. O exercício da política requer muita nobreza. Mas o que tem sido apresentado nada traz além de maquilagem, dissimulação e vazio - com raríssimas exceções". 

E tomado de tristeza, baixando seu olhar para o chão, pede a Deus, humildemente, com a voz que lhe vem do coração:

- "Tende piedade de nós!"

terça-feira, 30 de agosto de 2016

CHICO NO SENADO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("Cordão" - Chico Buarque)


"Ninguém vai me acorrentar
enquanto eu puder cantar,
enquanto eu puder sorrir"
(Chico Buarque)


     A presidente Dilma foi ontem ao Senado apresentar sua defesa no processo de impeachment. Nas galerias, ao lado do ex-presidente Lula, assistindo a sessão, estava o Chico Buarque.

     O Chico simbolizou muito durante os "anos de chumbo". E não só durante os "anos de chumbo". Até hoje ele é o que é. Com sua genialidade criativa, e sob uma censura bravíssima, o Brasil pensante aprendeu a admirá-lo, cantou e segue cantando suas músicas - e lendo seus livros.

     Sua presença no Senado agradou a alguns e desagradou a outros - em especial por ter partido da presidente Dilma o convite para a sua ida - conforme noticiaram os jornais.



Chico Buarque diz que veio ao Senado 'para conhecer o Alvorada porque nunca mais terá oportunidade'
(Chico Buarque - http://almanakedaweb.blogspot.com.br/2016/08/lula-e-seu-mundo-de-faz-de-conta-se.html)

     Não me importo se o Chico é ou não favorável à cassação do mandato da Dilma. Não me importo se o Chico é ou não petista, lulista, dilmista, peessedebista, anarquista, ou o que quer que seja. Sei que ele tem o direito de fazer suas opções políticas e externar suas convicções quando e se quiser - assim como tenho eu, assim como temos cada um de nós.

     Mesmo sabendo que toda manifestação é gesto político, para mim o Chico tem seu lugar de honra assegurado dentre as nossas mais notáveis celebridades. Independente de opção política eu gosto de ler o que ele escreve e de ouvir o que ele diz. Concordo algumas vezes e discordo em outras com seus posicionamentos. E sigo cantando as músicas que ele compôs e que foram determinantes na minha formação - e na formação de muita gente.

     Ontem, ao sair do Senado, um batalhão de repórteres fez de tudo para arrancar dele declarações políticas bombásticas, palavras de ordem, críticas, elogios, qualquer coisa. Eu também queria ouvi-lo. Mas minha vontade era que ele declarasse, simplesmente, que acredita que precisamos ser livres para podermos fazer nossas próprias escolhas. E que todos nós temos obrigação de sermos felizes. Que, por fim, ao pedirem maiores explicações, que ele concluísse dizendo que está gravando um novo disco, para o qual já selecionou dezenas de composições inéditas. E que está ficando ótimo!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O LEGADO DOS JOGOS OLÍMPICOS "RIO 2016"


(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR)
(Abertura dos Jogos Olímpicos - Rio 2016)
(https://www.youtube.com/watch?v=j6SFYHEd2u0)


"Nenhum vento sopra a favor
de quem não sabe para onde ir"
(Sêneca)


     Durante os meses que antecederam os Jogos Olímpicos no Rio eu só conseguia ver com maus olhos a decisão de sua realização aqui no Brasil. Mas também, convenhamos. Sendo bombardeado por tanta notícia ruim, não era para menos. Estávamos recebendo um tsunami de pessimismo gerado por problemas políticos e econômicos, e por uma crise de autoestima. Era voz geral que o Brasil não tinha condição de garantir segurança para as delegações estrangeiras; que as obras não ficariam prontas; que o mosquito da Aedes aegypti iria fazer muito estrago; que, enfim, seria uma vergonha equiparável aos 7 a 1 que levamos da Alemanha na Copa - maior até!

     Mas aí veio a cerimônia de abertura que mexeu comigo, que me encheu de orgulho, que mudou meu estado de espírito, e que me fez ficar plantado em frente à televisão torcendo pelos atletas brasileiros.

     Rafaela Silva, Diego Hypólito, Thiago Braz, Isaquías Queiroz, Robson Conceição, mais pela perseverança e determinação do que por apoio recebido, foram muito além do que qualquer um poderia imaginar. E vieram ainda medalhas nas velas, a coroação do país com o futebol, e o arremate certeiro com o ouro no vôlei. No total sete medalhas de ouro, seis de prata, seis de bronze.

Rafaela Silva
(http://blogs.oglobo.globo.com/radar-olimpico/post/spotify-cria-playlist-em-homenagem-ao-ouro-do-brasil-conquistado-por-rafaela-silva.html)

     No final, a cerimônia de encerramento foi uma obra de arte: embelezou e emocionou tanto quanto a de abertura.

     Com tudo isso, como é que eu ainda poderia ficar reclamando e desconfiando da capacidade do povo do meu país? Que coisa mais chata e destrutiva!

     - "Xô!"

     Pensei melhor e conclui que precisava parar de ser ranzinza: aplaudi a "Rio 2016" como qualquer brasileiro que, saudoso da pátria, em qualquer lugar do planeta, aplaudiria o hasteamento da bandeira nacional.

     A despeito de todos os problemas que o Brasil vem enfrentando, a despeito de todo dinheiro diretamente empregado na organização das Olimpíadas, tudo valeu à pena. O legado da "Rio 2016" vai muito além de uma contabilização financeira.

     Precisamos investir em saúde e educação. Sim, as instalações olímpicas serão transformadas em centros esportivos e escolas! Precisamos também de exemplos e estímulos para podermos sentir que somos capazes de evoluir. A prática de esportes, sem dúvida, é saúde e educação.

     O resultado das Olimpíadas no Rio não pode ser medido exclusivamente por valores econômicos. Os jogos olímpicos foram aquelas sementinhas plantadas por cada um dos atletas que dela participou. Continuamos construindo um país, e em relação a isso o esporte tem papel fundamental. Os ganhos são outros, são de valores que, tal como as sementinhas, requerem tempo para se tornarem árvores frondosas. Tempo suficiente para fazer aflorar a disciplina, a força de vontade e a confiança para vencer e superar adversidades.

     Os exemplo da capacidade das Comissões Organizadoras da "Rio 2016" e da determinação de nossos atletas servem de inspiração para a formação de uma nova cultura: uma cultura de gente determinada que luta para vencer. O Brasil pode; o esporte pode; em especial nossos jovens podem (e devem!) passar por cima de todo e qualquer discurso retrógrado, pessimista e derrotista que, ao longo dos anos, vem fazendo o Brasil empacar na subida - feito burro de carga.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E CONTINUAR LENDO)
(Gonzaguinha - "E vamos à luta)

     Deixemos, pois, que os órgãos competentes cumpram suas funções institucionais, investiguem o que tiver que ser investigado e exijam satisfações de quem tiver que dá-las. Quanto a mim, só tenho que jogar a minha ranzinzice de lado, seguir o exemplo dos jovens que se comunicam, que vão à luta, que querem vencer, que propõem uma outra realidade. Que, de tênis, short e camiseta, conseguem se educar pelo esporte e rir na cara dos derrotistas embolorados.

("tudo o que se pretende requer esforço" - foto: arq. pessoal)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

VIAGENS DE TREM


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

(Toots Thielemans, dele, "Old friend")




"Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar"
(Ferreira Gullar)



     - Olha o trem! gritava o meu tio, da porta de sua loja. 

     Mesmo que não houvesse, das janelas do trem, alguém que se atentasse para isso, dos degraus da escada que dava acesso à sua casa, minha avó, sorrindo, acenava em direção aos vagões.




("O trem obstruindo o trânsito na Rua Dep. João de Faria, em Guará/SP". Postada no facebook por Ademir Segundo)


     E eu, menino,...

... ficava calado na calçada, ao lado dela,
olhando a passagem do trem encher de vida o ritmo monótono da cidade. 
Sem saber onde queria chegar,
por lugares distantes viajava,
longe, muito longe de minha casa,
sobre trilhos de aço laminado,
enfrentando tempestades, matas, rios e montanhas, 
impaciente com a morosidade do tempo...

...do tempo que fez de mim o que hoje sou,
sem que eu pudesse me dar conta de sua passagem.


(Estação Mogiana - Guará, SP, 1974 - foto postada no facebook por Luiz Carlos Eufrosino)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

AZUL PROVINCIANO ("AY, ESTE AZUL")


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Mercedes Sosa - "Azul Provinciano", de Pancho Cabral)


"A Terra é azul"
(Yuri Gagarin)


     Meu Deus... Que música! Que interpretação! Música e interpretação desesperadoramente lindas! Lindas e tristes ao mesmo tempo.

     De onde veio tanta inspiração? 

     Ao ouvir "Azul Provinciano", na interpretação da Mercedes Sosa, tenho vontade de conseguir me alojar na mente do autor.

     Não, não na mente. Pois "mente" implica em raciocínio, em elaboração que produz resultado. Não, não me serviria o racional. Meu anseio seria a detecção do instinto, do estágio primitivo, natural e irracional. Seria necessário adentrar na alma do autor. Na alma, onde, originariamente, os sentimentos e as sensações fluem sem elaboração. Somente instalado em sua alma eu poderia descobrir onde ele se encontrava e o que sentia quando a compôs. Queria poder sentir o mesmo... 

     Procuro compreender o estímulo interior que o levou a compô-la. Para onde olhava? O que enxergava?

     Estava acompanhado? Não, não creio que houvesse alguém ao seu lado. As atenções não poderiam estar divididas.

     Estava triste? Não, não poderia estar. O azul ao seu redor não permitiria isso...

     Estava inteiramente feliz? Também não creio que estivesse. O azul natural inspira beleza. E o belo, se verdadeiramente belo, faz doer. A felicidade não é dotada de exclusividade.

     Ele olhava para o azul, para o encontro entre o céu e a Terra. Via andorinhas, ouvia sinos, vidalas de adeus.

     E nesse estado, estava tomado de luz e de humanidade.

     Certamente estava só! Só e iluminado!

     Pois estando assim, iluminado, o homem se engrandece, ascende ao infinito e embeleza o universo - como ocorreu com Pancho Cabral ao compor "Azul Provinciano".    

("A cyclist on the beach" - França, Nord-Pas-de-Calais - postada no facebook por Lincoln Franco - fonte: https://500px.com/photo/135174331/the-cyclist-by-winterlight-photography )

Azul Provinciano (Ay Este Azul)
(Pancho Cabral)

Ay, este azul
Que les quiero contar como fue
Por momentos se queda en mi piel
Ilustrándome el paisaje aquel.

Ay, este azul
Golondrina que vuelve otra vez
Musicando mi zaguán de ayer
A esperarme de barco en la sed.

Ay, este azul
Provinciano se quiebra en mi voz
Como antigua vidala en adiós
Como un breve puñado de sol.

Ay, este azul
Ay, este azul

Ay, este azul
Que ha llegado a iniciarme en la luz
Con campanas de asombro tal vez
Habitando lo que nunca fue.

Ay, este azul, este azul
Es un verde también
Resolana brillando en el pez
Con un silbo enredado en la piel.

Ay, este azul
Solo quiere quedarse en mi voz
Como un duende mojándome
Y en vez
Este azul es un niño tal vez
Azul Provinciano (Ai Este Azul)


Ai, este azul
Eu quero lhes contar como foi
Por momentos fica na minha pele
Ilustrando aquela paisagem.

Ai, este azul
Andorinhas que voltam outra vez
musicando meu corredor ontem
a me esperar no barco na sede.

Ai, este azul
Provinciano se quebra na minha voz
Como antiga "vidala" no adeus
Como um breve punhado de sol.

Ai, este azul
Ai, este azul

Ai, este azul
Que há chegado a introduzir-me na luz
Com sinos de assombro talves
habitando o que eu nunca fui

Ai, este azul
é um verde também
"Rosolana" brilhando no peixe
Com um apito amaranhado na pele.

Ai, este azul
só quer ficar com minha voz
como um duende molhandome
e em vez
Este azul é um menino talvez



quarta-feira, 13 de julho de 2016

MERCEDES SOSA - SÃO PAULO, OUTUBRO DE 2007



(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
E PARA ASSISTIR EM SEGUIDA - letra no final)

(Mercedes Sosa - "Todo cambia", de Julio Numhauser - chileno)


"Tantas veces me mataron,
tantas veces me mori
Sin embargo estoy aqui
resucitando"
(da letra de "Como la cigarra"*)



     Há uns oito ou dez anos, por aí, vi a notícia de que a Mercedes Sosa viria a São Paulo para um show no "Via Funchal". Como as músicas por ela gravadas, assim como as gravadas pelo Chico Buarque, pela Billie Holiday, e pelo John Lennon fizeram parte do despertar dos meus valores, convidei meu sobrinho para juntos irmos vê-la. A oportunidade era única. Providenciei o ingresso, peguei um ônibus, e depois de 300 quilômetros de estrada, com meu sobrinho, saímos para o show.

sosa1
(Mercedes Sosa - fonte: http://www.substantivoplural.com.br/mercedes-sosa-naquela-tarde/)


     Em um auditório enorme, lotado, amparada por duas pessoas e ainda apoiando-se em uma bengala, “La Negra”** entrou no palco. Sentou-se, sorriu, e abriu sua apresentação com “Como la cigarra” - uma música que fala de solidariedade e renascimento - do renascimento que ela parecia experimentar a cada vez que começava a cantar.

(Ingresso para o show - foto: arq. pessoal)

     Apesar das limitações físicas, a voz era a mesma que me havia ensinado a admirá-la. Na força e na docilidade de seu canto ainda estavam presentes, ideologicamente, uma arma para lutar pela vida e um ramalhete de flores para agradecer por tudo. A medida que as músicas iam sendo apresentadas eu cantava mentalmente com ela tudo o que conhecia: "Gracias a la vida", "Todo Cambia", "Ay este azul", "Alfonsina y el mar", "Solo le pido a Dios"... e muitas, muitas outras. Foram duas horas inesquecíveis.

     No ano seguinte àquele show ela foi embora. Partiu para sempre. Ficaram a voz, a lembrança daquela noite, e as lições de solidariedade e beleza contidas nas letras das músicas por ela gravadas... e que eu costumava ouvir sob uma luz minguada de uma república de estudantes, no final dos anos 70.


Todo Cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo


Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante


Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia


Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera


Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Pero no cambia mi amor
Por más lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

Tudo Muda

Muda o superficial
Muda também o profundo
Muda o modo de pensar
Muda tudo neste mundo


Muda o clima com os anos
Muda o pastor e seu rebanho
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda o mais fino brilhante
De mão em mão seu brilho
Muda o ninho o pássaro
Muda a sensação de um amante


Muda o rumo o andarilho
Ainda que isto lhe cause dano
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda


Muda o sol em sua corrida
Quando a noite o substitui
Muda a planta e se veste
De verde na primavera


Muda a pelagem a fera
Muda o cabelo o ancião
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Mas não muda meu amor
Por mais distante que eu me encontre
Nem a recordação nem a dor
De meu povo e de minha gente


O que mudou ontem
Terá que mudar amanhã
Assim como eu mudo
Nesta terra tão longínqua


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Mas não muda meu amor...



________________________________  
*"Como la cigarra" (de Maria Elena Walsh - poetisa, musicista e escritora argentina): tantas vezes me mataram, tantas vezes me deixei morrer, no entanto estou aqui, renascendo.
**La Negra - apelido carinhoso dado à Mercedes Sosa.