terça-feira, 19 de agosto de 2014

EM VENEZA, COM ROSSANO BRAZZI

(CLIQUE PARA ASSISTIR E OUVIR)
("Summertime in Venice", de Alessandro Cicognini - Tema do filme "Quando o coração floresce")

                                                                      "You only live twice,
                                                                      one life for yourself,
                                                                      and one for your dreams"*


     Com 25 títulos, a Folha de São Paulo lançou a coleção "Grandes Astros" (do cinema). Semanalmente nas bancas, cada título traz um pequeno livro que conta a vida profissional de um artista de destaque. Acompanha-o o DVD de um filme no qual atuou, e que foi marcante em sua carreira. Assim, todas as segundas-feiras vou às bancas em busca do "astro" da vez. 

     Na última semana saí à procura de Katharine Hepburn - volume 12 da coleção. E foi então que, ao ver o filme do volume 12, chamou-me logo a atenção o seu título: "Quando o coração floresce" (Dir. David Lean, 1955). De imediato lembrei-me de uma conversa que havia tido com a Dona H. - uma vizinha de setenta e poucos anos de idade, que vive só, e que está viúva há mais de vinte anos. Ela me contava com entusiasmo que tinha visto pelo jornal que seria lançada a coleção "Grandes Astros", e que queria assistir novamente "Quando o coração floresce" - que seria um dos filmes que acompanharia um dos volumes.  

     Separei então dois livrinhos com os DVDs do filme: um para mim e outro para dar de presente a ela. Mas, antes, resolvi perguntar a ela, por celular, se já o havia comprado. Entusiasmada com a notícia e com o telefonema, não só me solicitou que comprasse o filme, como também me explicou: 

     - Nele, atua o Rossano Brazzi.

     Não entendi muito bem o motivo que a levou a me dar aquela explicação. Mas ela mesma continuou: 

     - "O Rossano Brazzi era lindo, e quando o filme foi lançado, o meu namorado não queria que eu fosse vê-lo - não sei se por ciúme ou por causa das insinuações amorosas que eram avançadas para a época. Mas eu fui... e terminamos o namoro. Depois voltamos. Passado um tempo nos casamos."


(Katherine Hepburn e Rossano Brazzi em cena de "Quando o coração floresce" - fonte: http://cdn2-b.examiner.com/sites/default/files/styles/image_content_width/hash/45/03/450340e265ab53b338e5290ab4f35dcc.jpg?itok=E7gq8yW3)

     Em casa, naquela noite, fui assistir o filme. Gostei. É uma fantasia de amor na qual Jane (Katharine Hepburn) - uma solteirona americana - viaja sozinha para  Veneza. Lá chegando, depois de instalar-se em uma pensão, conhece e se apaixona por Renato (Rossano Brazzi) um italiano sedutor, dono de um antiquário. 

(Rossano Brazzi - fonte: http://1.bp.blogspot.com/_1XbCsR5voz8/S_Qh8wlWdwI/AAAAAAAAHmc/RushTRTuvck/s1600/summertime2.jpg)

     De fato, no filme, ele atua com perfeição. Elegantemente vestido, aparece um tanto quanto romântico e aristocrático. Imagino que, na época em que o filme foi lançado, o quanto sua figura alimentou as fantasias das jovens de então. E para a Dona H., parece que não foi diferente. Penso que no final daqueles anos 50, apesar de nunca ter viajado para o exterior, por intermédio do filme ela esteve na Itália, passeou pelas ruas e canais de Veneza, caminhou pela praça de São Marcos, e lá viveu com o Rossano Brazzi um grande romance... E isso trouxe a ela a possibilidade de sonhar, de viver sua outra vida embalada por fantasias que trouxeram cor à sua vida real.  

     - O que, senão um livro ou um filme, naquela época, poderia proporcionar a alguém uma viagem tão linda como a que ela viveu em sonhos? - pergunto eu a mim mesmo.

     Os sonhos e as fantasias são necessários. Infelizes aqueles que não podem ou não conseguem sonhar, que não conseguem olhar para as estrelas - para além delas. Os livros e o cinema proporcionam tudo isso sem que seja preciso sair do lugar. Afinal, como na letra do tema do filme "Com 007 só se vive duas vezes"** (gravado por Nancy Sinatra), em se tratando de vida, temos apenas duas: uma para nós mesmos, e outra para os nossos sonhos.

     Poucos dias depois de ter dado o filme à Dona H., fiquei sabendo que seus netos e netas adolescentes estiveram em sua casa, e lá ficaram conhecendo - além do Rossano Brazzi - a cidade de Veneza... onde a Dna. H. revendo a cidade e a sua história de amor, em duas semanas, já esteve por pelo menos três vezes (sem ter deixado a poltrona de sua sala de estar).

("Terrace cafe in Venice" - fonte: http://www.book530.com/painting/160480/Terrace-Cafe-in-Venice.html)


- * "Você vive somente duas vezes: uma vida para você mesmo, e outra para os seus sonhos"
- **"Com 007 só se vive duas vezes" - Reino Unido, 1967 - Dir. Lewis Gilbert. Música tema "You only live twice", escrita por Leslie Bricusse e John Barry.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O MENINO DE ENGENHO QUE NÃO FUI


     
     Em uma manhã ensolarada de sábado, eu e Denise pegamos a estrada para o "Museu Nacional do Açúcar e do Álcool"... aliás, para o "Engenho Central"; ou seja, para a "Usina"...

     - "Epa, que confusão! Afinal, para onde queríamos ir?" 

     Caro (e raro) leitor e amigo. Calma. Por ter me dado a honra de ler e tentar entender, pacientemente, as coisas um tanto confusas e desconexas que venho escrevendo aqui, sei que é muito tolerante em relação a minha pessoa. Agradeço. Por isso acho melhor recomeçar essa história de outra forma, desde o seu princípio, lá do meu escritório, enquanto olhava para o nada. Explico melhor. 

(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Fábio Zanon - "Mazurka choro", de Heitor Villa-Lobos)

     Dispostos um ao lado do outro, em minha estante estão cinco livros escritos pelo José Lins do Rego: “Menino de Engenho” (1932), “Doidinho” (1933), “Bangüe” (1934), “Usina” (1936), e “Fogo Morto” (1943). Esses livros compõem, na obra do Zé Lins, um período chamado de “Ciclo da cana-de-açúcar”. Sem saber porque, eu os releio com frequência. Gosto de ficar olhando para eles e imaginando um menino, descalço e sem camisa, brincando em um engenho que não conheço e onde não fui. Esses livros e essas ideias me colocam em um período que não vivi, e em uma realidade muito diferente da minha: o mundo e o tempo do engenho.

     Nesses cinco livros o autor começa descrevendo, em “Menino de Engenho”, a vida em um engenho de açúcar, e termina mostrando, em “Fogo Morto”, a decadência e substituição, como modo de produção, do engenho pela usina.

     Tomado por ideias de engenho, usina e transformações sociais, fiquei sabendo da inauguração, entre os municípios de Pontal e Sertãozinho-SP, em dezembro do ano passado, da primeira etapa do projeto do "Museu Nacional do Açúcar e do Álcool".

     E foi aí que eu, como que a recuperar um tempo passado em um local onde não vivi (mas com a alegria de um menino de engenho que só conheci em livros),  e acompanhado da Denise em uma bela manhã de sábado, peguei o caminho para o "Museu".

     Depois de trafegarmos em asfalto, entramos em uma estrada de terra que passava por canaviais e pela fazenda Vassoural. Chegamos então ao antigo Engenho Central, onde está instalado o museu. 

(Vista lateral do engenho-usina-museu - foto: eu e Denise - arq. pessoal - jun/14)
     
     Recebidos e guiados por monitores, revimos e resgatamos, nas histórias do engenho, a história da exploração da cana-de-açúcar no desenvolvimento da economia do nosso país.

(Vista lateral - galpão de descarregamento e pesagem da cana-de-açúcar - foto: arq. pessoal)
     
     Fizemos a trajetória da cana dentro do engenho, desde a sua chegada e passagem pela balança para descarregamento, com posterior alimentação das esteiras, por onde segue para a moagem, e em seguida para o tratamento do caldo, fabricação e ensacamento do açúcar.

(Vista interna - processo de produção - foto: arq. pessoal)
(Vista interna - 1 - processo de produção - foto: arq. pessoal)

     As instalações do engenho-museu são grandiosas. Todo ele foi equipado com maquinaria escocesa do final dos anos 1880, com início de funcionamento em 1906. A produção de açúcar durou até 1964, quando, então, foi substituída pela de aguardente - fabricado até 1974.

     Dos equipamentos parados e expostos, foi doído ver o relógio da torre. De lá retirado, posto sobre o chão, expõe seu cansaço em marcar o tempo, em reter e controlar todas as horas que ditavam o ritmo da produção... ele, que por muitos anos controlou a dinâmica de tudo, agora vencido e sem uso... 

(Relógio da torre mais alta - foto: arq. pessoal)

     Na visão geral que tive ao chegar no engenho-usina-museu, o que se destacou, com imponência, foi o padrão britânico da arquitetura daquele período em suas edificações - com galpões amplos e tijolos aparentes.

(Entrada na área de produção - prédio em padrão britânico de arquitetura - foto: eu e Denise - arq. pessoal)
     
     Gostei da visita. Gostei muito. Penso até que o engenho Santa Rosa e o Carlos de Melo, da obra do Zé Lins, para mim já não serão mais os mesmos - eles passaram a existir, para mim, com maior intensidade. Creio mesmo que gostei de tudo o que vi por eu ter passado a vida rodeado de engenhos inexistentes, nos quais, sem saber, fui um menino.  


(Vista, com chaminé ao fundo - foto: eu - arq. pessoal)

     No final da visita, tomado por uma incontida alegria infantil, encontrei uma goiabeira próxima à chaminé, no fundo do engenho, de onde colhi e devorei "no ato" uma goiaba branca, temperada com o gosto do açúcar que escorreu para as terras que nutriram suas raízes.

(Uma goiabeira próxima à chaminé - foto: arq. pessoal)

(CLIQUE PARA ASSISTIR A REPORTAGEM)

P.S.: aos que tiverem interesse, o site do "Museu" é www.engenhocentral.com.br
Também  http://www.engenhocentral.com.br/apresentacao/apresentacaoMuseucana.pdf

   

terça-feira, 5 de agosto de 2014

UMA SENHORA LIMPA A CIDADE

(Suite 1 para violoncelo, de J. S. Bach - violoncelista: Yo Yo Ma)
     
     As ruas da cidade são o retrato da nossa miséria. Atiramos sobre elas os restos daquilo que desprezamos, como se quiséssemos expor a nossa imperfeição. São pedaços de papel, tocos de cigarro, cascas e caroços de frutas, folhetos promocionais, e tudo o que julgamos desnecessário...

     Eu caminho sempre pela mesma calçada, e muitas vezes vejo uma mesma funcionária do serviço público de limpeza. Ela varre a cidade e, atentamente, realiza seu serviço removendo resíduos que impiedosamente atiramos pelo chão... Todas as vezes que passo por ela tento ser visto para poder cumprimentá-la. Minha vontade é de atrair sua atenção para que perceba que reconheço a importância do seu trabalho, e também para que compreenda que nem ela e nem o resultado daquilo que faz são invisíveis. 

(Funcionária da Limpeza Pública - foto: arq. pessoal - jul/14)
 
     Ao passar por ela me encolho. Sinto vergonha. Vergonha pelo que vejo jogado no chão, e pela postura humilde que ela assume com a vassoura na mão. Mesmo não tendo sido autorizado para tanto, quero pedir-lhe desculpas em nome de todos. Mas ela não me vê - ou cuida para que eu não a veja - ... e segue varrendo, limpando, recolhendo restos, com a mente sabe-se lá onde.

     Imagino a angústia que carrega alguém quando percebe que, de seu trabalho, não vai haver um resultado final. Que todos os dias, depois de algumas horas, ao olhar para tudo o que foi feito, sabe que precisa recomeçar... 

     Mas aquela senhora da limpeza pública já se acostumou com a imperfeição e a indiferença de todos nós. Ela segue varrendo, limpando, recolhendo restos, como se estivesse cuidando do chão de sua própria casa. Sem os estímulos de reconhecimento de quem por ali passa, ela parece não ter noção da essencialidade do que faz. 

     Quanto a nós, que nos anestesiamos da capacidade de enxergar além, resta-nos aprender a realizar nosso próprio trabalho independente de aplausos, como faz aquela senhora... como se fôssemos, cada um de nós, e todos nós em conjunto, músicos de uma mesma orquestra... que, de um palco sem luzes, toca e encanta em um auditório vazio...

(Auditório Cláudio Santoro - Campos do Jordão/SP - foto: arq. pessoal)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O "SEU" RENATO E AS SERESTAS

     Entrei no facebook e vi o "Seu" Renato em uma foto. Quanto tempo...! 

(o "Seu" Renato - foto postada por M Teresa no facebook)
      
     E quando olhei para ele, na foto, de imediato me veio à lembrança um disco com o qual um dia, num passado muito distante, acompanhado de um bilhete, eu o vi presentear um de meus tios: "Coletânea de Valsas e Serestas" - gêneros musicais pelos quais eu não me interessava. Não sabia, naquele tempo, que havia entre eles - o meu tio e o "Seu" Renato - um laço musical poetizando a amizade; nem sabia se era disso que tratava o bilhete... nunca soube do seu conteúdo. 

     Um dia, conversando, veio de meu tio a sugestão de que ouvisse atentamente aquele disco. 

     Aceitei a sugestão. Levei o disco para casa e o pus para tocar uma, duas, muitas vezes. Era romântico, nostálgico, lindíssimo! Lembro-me bem de uma das faixas nele gravadas: "Boa noite amor", com o Francisco Alves... 

("Boa noite amor", de Francisco Matoso e José Maria Abreu - 1936)
     
     Pensando agora na existência desses laços musicais entre os dois amigos, e reconhecendo que aprendi a gostar de serestas ouvindo aquele disco, fiquei contente e emocionado ao rever em foto o "seu" Renato. 

     Poucas vezes o vi desde aquele dia perdido no tempo. Na última delas, no final dos anos 70, conversamos calados em uma sala ornada de flores tristes... Falamos do Maurício - seu filho e meu colega de república, na Universidade -, que havia partido...  


(Maurício - "Falamos do Maurício - seu filho e meu colega..." - foto postada por M Teresa no facebook)
 
     Ao "seu" Renato, o meu abraço! 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A COPA E AS ELEIÇÕES

     Em outubro iremos às urnas para escolher governadores de Estado, deputados federais e estaduais, e senadores - além do presidente da república. Tendo em vista essa proximidade de datas entre Copa e eleições, são inevitáveis as ligações que fazemos entre o fracasso vexaminoso da seleção na Copa e  as suas consequências na eleição presidencial. E daí nos perguntamos se o vexame será ou não determinante no resultado das urnas; se uma derrota da presidente Dilma na eleição terá ou não sido causado pela humilhação histórica da seleção na Copa; ou ainda se o futebol em nada interfere na eleição e nenhuma relação direta há entre uma coisa e outra.

     Revendo a História, parece que essa associação entre futebol e eleição passou a existir a partir da Copa de 1970. Tricampeões no México - e para que disso o governo pudesse tirar algum proveito político -, a imagem do então presidente Médici ficou diretamente vinculada ao futebol vitorioso. Lembro-me bem desse período de falsos brilhantes, do "Brasil-grande", do patriotismo excessivo, do "ame-o ou deixe-o"...

IMAGEM CULTIVADA
o radinho no ouvido na tribuna de honra nos estádios de futebol foi uma imagem cultivada por Médici

(Fonte: http://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/primeiras-paginas/eleitores-de-farda-8906456)

     Foi assim que nesse ufanismo, por coincidência ou não, nas eleições de 1970 (só para deputado e senador) o partido que apoiava o regime saiu historicamente vitorioso.

     Daí prá frente ficou a ideia geral da existência de uma forte manipulação do futebol em favor de eleições.

     Porém, ao analisarmos as eleições presidenciais brasileiras com voto direto, essa ideia não se confirma. Se, eventualmente, o uso da paixão pelo futebol contaminou a disputa eleitoral, isso não foi determinante. Veja só:

     (1) Em 1998 FHC era o presidente. Nesse ano fomos derrotados por 3 a 0, pela França, na final da Copa em julho/98. Apesar disso, em outubro/98, FHC foi reeleito no primeiro turno da eleição.

     (2) Em junho/2002 a seleção brasileira sagrou-se pentacampeã na Copa da Coreia do Sul/Japão. Contudo, em outubro/02 foi eleito o candidato de oposição ao governo.

    (3) Em julho/2006 não ganhamos na Copa da Alemanha; o presidente, porém, foi reeleito em outubro daquele ano. 

     (4) E em outubro/2010, por fim, a candidata apoiada pelo partido do governo foi eleita - apesar de termos perdido na Copa da África do Sul em julho do mesmo ano.

     (5) E ainda, se formos analisar um passado bem mais distante, em junho/1958, na Suécia, fomos campeões pela primeira. Apesar disso, o candidato apoiado pelo governo não foi eleito na eleição seguinte (outubro/1960).

     Das análises que podemos fazer de Copas e eleições passadas, tudo indica que o desempenho da seleção brasileira não influencia no resultado das eleições. E, especificamente nesta Copa em que perdemos feio para Alemanha e Holanda (mais pela nossa incompetência e arrogância), a lição não pode ser diferente: o estudo, a dedicação, o planejamento, o treinamento e o trabalho produzem melhores resultados do que a crença em milagres.

     Nas palavras que recebi de um amigo mexicano logo após comentarmos o jogo contra a Alemanha, revi o país pelo povo, independente de jogos, de seleção de jogadores, e de cartolas do futebol:

"(...) sin embargo he estado gozando al máximo las cápsulas de tu país que es bellísimo con gente extraordinaria. Vives en un lugar magnífico, rodeado de gente de una gran calidad humana ¡¡ aunque en todos lados no falta un hijo de pu.... ¡¡ que quiere desestabilizar todo.  Mis felicitaciones por esta copa salió mejor organizado que lo esperado; el ambiente ha sido inigualable y los Brasileños demostraron al mundo que son grandes anfitriones" (Ricardo G. M.)
        
      Agora, só mesmo juntando cacos e procurando aprender com as derrotas. Afinal, as eleições estão chegando e o Brasil é muito maior que o futebol: a cada dia, nós construímos e reconstruímos o nosso país. Com carinho, seriedade, planejamento e determinação, façamos a nossa parte. Assim, bons resultados ocorrerão com naturalidade - e vexames políticos ou esportivos serão coisas do passado.

domingo, 29 de junho de 2014

TALVEZ AS MAIS BELAS RUAS POR ONDE ANDEI...

(CLIQUE PARA OUVIR - "Cenas da infância")
(Robert Schumann - Scenes from Childhood op. 15 - VII - Träumerei)

     As ruas da minha terra não tinham nome atribuído por lei - pelo menos para mim, quando menino. Sempre as conheci considerando um ponto de referência, ou a localização da casa onde morava um amigo.

     Assim a rua do clube, no final da rua principal, era a que começava onde havia um enorme abacateiro; a rua da igreja, a que passava no final da praça; a rua da escola de comércio, a que começava no meio da praça - ao lado da casa do Dr. Leão -; a rua do ginásio, que ligava a praça da igreja ao Colégio Marechal Rondon; a rua do cemitério, que terminava na porta do "dito cujo"; a rua do campo, que terminava no portão de entrada do "campo" de futebol; a rua da algodoeira, aquela onde ficava o Bar do João Odani; a rua do lado da cadeia, aquela no meio da qual jogávamos futebol; e a rua principal, que era a maior referência para a explicação de qualquer outro endereço. Talvez tenham sido elas as mais belas ruas por onde andei... 

     Nenhuma das ilustres figuras do meu país, que dão nome às "minhas" ruas, eram mais importantes (para mim) do que os nomes dos meus amigos. Daí que Barão do Rio Branco, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Tiradentes, Getúlio Vargas, Washington Luiz, não me serviam de referência para localização ou informação. Eu as conhecia como rua do Serjão, rua do Walmir, rua do Chuchu, rua do Marcinho, rua do Tigrão, rua do Welsinho...

     Quanto a minha própria rua, eu me referia a ela dizendo que era a da prefeitura. Mas também dizia que a minha rua era a mesma da do Maurinho, do Carlinhos, do Paulo, do Daniel e do Serginho.

     Hoje olho com saudade o mapa de Guará. Vejo ali ruas centrais com nomes de personalidades nacionais que me remetem a figuras de semblante pesado, bigodes, barba, uniforme militar, terno e gravata - muito distantes dos semblantes alegres dos meus amigos-referências. Pesquiso no google e só localizo endereços se digito corretamente o nome que a administração pública atribuiu a cada uma das ruas da cidade. 

(Mapa de Guará - fonte: http://www.guara.sp.gov.br/img/mapas/mapa_guara.jpg)

     Mas, com o olhar no mapa, passeio pelas ruas e avenidas distantes das centrais e me surpreendo ao ver que, não somente personagens da história nacional, mas também homens e mulheres que conheci pessoalmente (e que já partiram) viraram nome de rua. Assim, Rua Paulo Afonso de Souza, Rua "Zezinho Seleiro", Rua Hilda Salomão, Rua Zaki Tannous, Rua Rolando Bini, Rua Voluntário José Nogueira, Rua Dr. Joaquim Bellido, e muitos outros...

     O tempo passa e nos faz dessas coisas. De repente a gente olha para uma placa de rua e percebe que o nome ali gravado não traz simplesmente um nome qualquer; que há ali, a ser contada, a história de uma vida perpetuada não só pelos exemplos que deixou, mas também pelas imagens que ilustraram a nossa própria vida - em especial em nossos mais verdes anos...

      E para evitar que ocorram preces e lamentos incorretamente endereçados, esclareço aos meus amigos que porventura passarem pela rua do cemitério que ainda estou vivo, que não tenho méritos para me tornar nem nome de rua e nem nome de nada, e que "Elias Antônio" é o nome do meu avô paterno - que morreu muito antes que eu tivesse nascido, e legou-me seu próprio nome.
(Placa em Guará, na rua do cemitério - fonte: arq. pessoal)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MY ONE AND ONLY LOVE*

                                                                                                    
Meu amigo, minha amiga...

Eis que depois de um jogo tenso e angustiante entre Brasil e México você sente que só precisa da luz do abajur para ficar quieto e se rearranjar...

Para isso senta-se sozinho, em silêncio absoluto, 
procura enxergar além do que os olhos veem,
e logo estabelece paz no espírito
e repouso nos ânimos.

Se nesse momento consegue ter seus pensamentos só prá você,
se conclui que as coisas que te acontecem
são consequência de suas próprias escolhas,
e que por todas elas só lhe cabe agradecer...

Então não haverá mal nenhum a afligi-lo,
nem inquietação alguma a perturbá-lo - nesse momento.

Apaziguado dessa forma
estará pronto para abrir um "Carmenère" 
e ouvir com a sensibilidade de um sábio,
estimulada por todos os seus sentidos,
as palavras, as mensagens e os sons 
que lhe brotarem do coração...

... em especial se nesse estado sublime,
de elevação absoluta,
você se fizer acompanhado do sax do John Coltrane 
e da voz do Johnny Hartman,
em "My one and only love"** - como faço eu, agora.




*"Meu único e verdadeiro amor"
**composta por Guy Wood e Robert Mellin, em 1952



My One And Only Love

The very thought of you makes
My heart sing
Like an April breeze
On the wings of spring
And you appear in all your splendour
My one and only love

The shadows fall
And spread their mystic charms
In the hush of night
While you're in my arms
I feel your lips so warm and tender
My one and only love

The touch of your hand is like heaven
A heaven that I've never known
The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own

You fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love

The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own
You fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love

My one and only love
Meu Único e Verdadeiro Amor

Só de pensar em você
Meu coração começa a cantar
Como uma brisa de abril
Nas asas da primavera
E você aparece com todo o seu esplendor
Meu único e verdadeiro amor

As sombras caem
E espalham o seu charme místico
No silêncio da noite
Enquanto você está em meus braços
Eu sinto seus lábios tão quentes e suaves
Meu único e verdadeiro amor

O toque de suas mãos é como o paraíso
O paraíso que eu nunca conhecera
O corar das suas bochechas
Sempre que falo
Me diz que és minha

Você enche meu coração ansioso com
Puro desejo
A cada beijo que me dá
Deixa minha alma em fogo
Eu me entrego em uma doce redenção
Meu único e verdadeiro amor

O corar das suas bochechas
Sempre que falo
Me diz que és minha
Você enche meu coração ansioso com
Puro desejo
Sempre que me beija
Deixa minha alma em chamas
Eu me entrego em uma doce redenção
Meu único e verdadeiro amor

Meu único e verdadeiro amor