sexta-feira, 21 de novembro de 2014

"AL DI LA"



(Prudence e Don - personagens do filme O Candelabro Italiano - fonte: http://www.pinterest.com/pin/138837600987676767/ e http://brilliantmovie.seesaa.net/upload/detail/image/RomeAdventure16-thumbnail2.jpg.html )

     Um dos filmes que assisto com frequência é "O Candelabro italiano" (EUA, 1962 - Dir. Delmer Daves). Lembro-me de tê-lo visto quando ainda criança e, por algum motivo, nunca mais me esqueci de cada uma das suas cenas. 

     O filme conta a história de Prudence - uma professora americana que, depois de ter sido advertida pela diretora da escola onde trabalhava por ter emprestado um romance a uma aluna, vai para a Itália à procura de uma sociedade com menos proibições. Lá ela passa a morar em uma pensão, começa a trabalhar em uma livraria, e conhece Don - um estudante de arquitetura, americano também. Aproximam-se e vivem um romance. O legal é que, no desenrolar do filme, partes da cidade de Roma vão sendo mostradas.

     Lá na minha casa de menino todos nós gostávamos desse filme. E vivíamos cantarolando trechos de "Al di la", uma das músicas da trilha sonora. Por isso guardei frases em italiano de sua letra:

Non credevo possibile
Si potessero dire queste parole:
Al di la
del bene piu prezioso
chi sei tu (...)

Al di la delle cose più belle, 
Al di la delle stelle
Al di la del sogno più ambizioso
Al di la del mare piu profondo
Al di la del limiti del mondo
Al di la della vita
chi sei tu...

     Poucos anos depois de casado eu o assisti novamente com a Denise, minha esposa. Ela gostou muito do filme e, em especial, de duas de suas cenas: uma delas na cantina romana onde o casal conversa, troca carícias de mãos, cruza olhares... e o Emílio Pericoli canta ao vivo "Al di la". E a outra em um teleférico sobre um bosque coberto de neve, onde o casal ouve a música tema do filme vindo de um alto-falante instalado em uma de suas torres: é romantismo puro! 


(Cena na Cantina Romana - CLIQUE PARA ASSISTIR E OUVIR "AL DI LA", de Max Steiner, com Emilio Pericoli)

     Anos depois, com uma filha de seis anos e um filho de quatro, fomos todos passar uns dias em uma cidade serrana para onde costumam ir casais em lua-de-mel. Em uma tarde de frio e muita neblina tudo pedia romance. E eu, que logo captei isso, inventei de subirmos o morro mais alto da cidade por uma estrada estreita e sinuosa para, como que de dentro de um teleférico, simplesmente poder colocar para ouvirmos juntos "Al di la" no aparelho k7 do carro. E assim que, quase chegando no topo, ouvindo "Al di la" com olhares e corações "melosos", comentamos:

     - Lindo isso... parece que estamos na Itália... o coliseu... o lago Maggiore... o teleférico...

     Foi então que, nesse clima de romance, levei uma cotovelada na cabeça: no banco de trás meus dois filhos discutiam à tapas e em altos brados por causa de um pedaço de chocolate. A partir daí o romantismo escorreu morro abaixo... e chegamos no topo menos com a cara de namorados, mas sim de pais.

     Moral da história: para se ter um bom momento de romance é necessário que saibamos participar de discussões calorosas com os filhos onde quer que seja, a qualquer hora, e por qualquer motivo - mesmo que o clima esteja para beijos e abraços, e a canção de fundo seja nada mais nada menos que "Al di la"*.


*"Al di la"  significa alguma coisa como "muito além do que se possa imaginar".

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

HAICAI


(Basho o mestre do haicai - fonte: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2009/06/26/basho-o-mestre-do-haicai-pela-editoria/)

                                                                      "De que árvore florida
                                                                      chega? Não sei.
                                                                      Mas é seu perfume"
                                                                      (Matsuo Basho)

     Um antigo professor de português vivia dizendo que o belo não se explica: somente se sente. Lembro-me dele sempre que me vejo diante de versos longos e prolixos, quando então fico procurando traduzir a mesma ideia em poucas palavras. Nessas horas dou razão a muitos de meus familiares que dizem que sou "resumido", "calado", "de pouca fala". 

     Pois para minha alegria de "resumido" conheci, já na minha fase madura de vida, uma maneira concisa e objetiva de expressar o belo. E desde então me tornei um apreciador de Haicais.

(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

     O Haicai é um tipo de poema curto de origem japonesa. Ele sugere, ao invés de dizer. Em geral é um texto contemplativo que reflete um momento de observação da natureza ou do passar do tempo. Em sua forma mais tradicional não tem nem título e nem rima. Em apenas três linhas contendo, na primeira e na terceira delas, cinco sílabas (japonesas), e na segunda sete, o autor capta e procura transmitir de forma objetiva e concisa tudo aquilo que observou. Muitas vezes há uma pintura (chamada de "haiga") que acompanha o haicai.

     Haicais que falam de emoções, imagens, comparações, e de tudo o que se quer transmitir, também são costumeiros.

     Nas comunidades japonesas onde são mantidos os costumes mais antigos, é considerado gesto de extrema delicadeza e gratidão um convidado presentear com um haicai a família que o recebe para um jantar.

     No Brasil Guilherme de Almeida, Millor Fernandes e Paulo Leminski foram haicaístas de destaque. Cyro Armando Catta Preta, de Orlândia/SP, que adotou a forma guilhermiana* de escrever haicais (com título e rima), também o foi. 

     Eis aqui alguns haicais:

HORAS MORTAS (Catta Preta)
Triste hora tardia.
A rua agradece a lua
pela companhia.

IPÊ AMARELO (Catta Preta)
Ainda ao sol posto,
é taça de ouro, na praça,
festejando agosto... 

(Millor) 
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua.

     Dos haicais que encontro em meus livros, "Renovação", do Catta Preta, é o que gosto de reler com frequência. Ei-lo: 

RENOVAÇÃO
Na folha caída,
na terra, nela se encerra,
o húmus da vida...

     Que tal, então, no próximo jantar em casa de amigos, presentear os anfitriões com um haicai? Certamente uma grande porta para conversas interessantes vai se abrir. Fica a sugestão.



*no mesmo estilo de Guilherme de Almeida

(CLIQUE PARA ASSISTIR - reportagem de TV a respeito de Haicais)

sábado, 1 de novembro de 2014

O SHOW DA VERÔNICA (ou "O CARLOS E A FLÁVIA NA ÁGORA")




     - "É na ágora que as coisas acontecem!"

     Sob esse argumento um tanto quanto complicado a Denise conseguiu tirar-me do sofá de casa. Juntos, fomos à pé a uma doceria.

     Entre um quindim e uma queijadinha encontramos alguns amigos. Dentre eles o Carlos e a Flávia - um casal que conheço há alguns anos, e que tem por decreto divino alegrar a cidade e os amigos com seus sorrisos e sua simpatia. Sempre que os vejo fico meio acanhado por não conseguir retribuir da mesma forma todo carinho e atenção que eles dedicam a mim. No entanto, parece-me que eles já se acostumaram com a minha cara amarrada e aprenderam a me aceitar assim mesmo.

     Mas o que me encantou nesse encontro foi ver a disposição e alegria de ambos: com cartazes embaixo do braço, percorriam a cidade divulgando um evento musical.

     Para que vocês que me leem me entendam melhor, preciso explicar que tanto o Carlos quanto a Flávia cantam e tocam violão. E especialmente por isso, já estivemos juntos muitas vezes assistindo apresentações musicais. Foram shows de artistas renomados no teatro Pedro II, apresentações musicais em praças públicas, em eventos fechados, e em botecos da cidade. 

     Mas, em especial, nossos encontros mais gostosos acontecem em sua casa quando recebem grupos de amigos. Lá o violão é sempre abraçado por todos os braços para que cada um toque e cante o que quiser. Até eu, quando estou lá, tenho esse direito!

     E nesse ambiente musical a consequência não poderia ter sido outra: influenciaram o bom gosto do filho e das filhas a ponto tal que uma delas - a Verônica - fez dos palcos musicais o seu lar. Depois de ter se formado em Arquitetura, a Verônica estreou como cantora profissional em 2004. Abriu shows e atuou como mestre de cerimônias de sambistas famosos; apresentou-se em casas de shows no Rio e em São Paulo; gravou programas de televisão dentre os quais o programa Ensaio da TV Cultura e o Som Brasil da Rede Globo. Além disso, já teve o Toquinho, a Beth Carvalho, o Francis Hime e muitos outros artistas como parceiros de palco. Como consequência disso já gravou quatro CDs - um deles de composições próprias.

(Verônica Ferriani - "Rosa", de Pixinguinha - CLIQUE PARA OUVI-LA CANTAR)

     Eu a vi se apresentar diversas vezes. Em todas elas a Verônica esbanjou simpatia e talento, fazendo do palco a sala de estar de sua própria casa. Há pouco, no projeto "Novas vozes do Brasil", e à convite do Itamaraty, apresentou-se na Colômbia, Portugal, Espanha, Rússia, Japão e Israel.

     E eram justamente os cartazes de divulgação de um show da Verônica, cantando serestas e sambas, programado para o dia 13 de novembro no Teatro Pedro II em Ribeirão Preto, que o Carlos e a Flávia tinham debaixo do braço quando os encontrei na doceria. 

     Ao nos despedirmos, depois de abraços e histórias, eu disse a eles que a Denise e eu estaremos no show... E ganhamos deles os mesmos sorrisos simpáticos de sempre - os quais foram retribuídos na mesma proporção e da mesma forma pela Denise. Quanto aos meus, se eu não consegui estampá-los com a mesma intensidade em meu rosto, sei que eles conseguiram enxergá-los assim no meu coração.       

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

SOUS LE CIEL DE BRASILIA*


(CLIQUE PARA VER E OUVIR - Sous Le Ciel de Paris - Yves Montand)


                    Para um rapaz que conheço bem
                         (no dia em que foi aceito
                         para estudar, em intercâmbio,
                         no Institut d'Études Politiques de Paris - Science Po.)


Sob o ceu de Brasília se evola uma canção
que nasceu hoje no coração de um rapaz.

Sob o ceu de Brasília caminha um jovem estudante,
para quem a felicidade se constroi sob um ceu todo feito para ele.

Sob o ceu de Brasília um rapaz trafega pelos eixos;
em seu coração tocam visões que se alternam entre o Paranoá(1) e 'la Seine'(2).

Sob o ceu de Brasília soam hinos de liberdade:
todos eles compostos para esse jovem rapaz...

...que consegue ver, no Planalto, 'l'Élisée'(3),
na Câmara, 'le Bourbon'(4),
no Senado, 'le Luxembourg'(5),
no Supremo, 'le Palais-Royal(6),
na UnB, 'la Sciences Po Paris'(7).

Sob o ceu de Brasília banha-se de planos um rapaz
que, de 1962 a 1872, vai trafegar de Darcy(8) a Boutmy(9).

Sob o ceu de Brasília há o sorriso discreto e constante de um rapaz...

(... que conheço muito bem, que está igualzinho ao meu, contente por ele, aqui na sala de estar...)  

(Fachada do "Institut d'Études Politiques de Paris" - Science Po. - fonte: http://tempsreel.nouvelobs.com/l-enquete-de-l-obs/20130301.OBS0542/richard-descoings-le-fantome-de-sciences-po.html)


*Sous le ciel de Brasilia = Sob o ceu de Brasília
(1)Paranoá - Lago Paranoá, em Brasília
(2)La Seine = o rio Sena, que banha Paris
(3)l'Élisée = Palácio do Eliseu, residência oficial do Presidente da República Francesa, onde está o seu gabinete, e onde se reúne o Conselho de Ministros
(4)le Bourbon = Palácio Bourbon, que abriga a Assembleia Nacional da França
(5)le Luxembourg = Palácio Luxemburgo = sede do Senado da França
(6)le Palais Royal = Palácio Real = onde está o Tribunal Constitucional da França
(7)la Sciences Po Paris = nome popular do Instituto de Estudos Políticos de Paris
(8)Darcy = Darcy Ribeiro = antropólogo brasileiro, fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília
(9)Boutmy - Emyle Boutmy - cientista político e sociólogo francês que fundou a "Science Po" em 1872

terça-feira, 14 de outubro de 2014

RECADO À RUTH E AO ÁLVARO


(Diego El Cigala - CLIQUE PARA OUVIR)

Queridos Amigos:

     Nestes tempos de internet, quando tudo é instantâneo e descartável, pelo correio somente nos chegam contas a pagar, catálogos promocionais de estabelecimentos comerciais e, em vésperas de eleições, mensagens de políticos indelicadamente grafadas mecanicamente - e assinadas da mesma forma.

     Mas para quem tem bons amigos as coisas não funcionam assim.

     Dentre tanta correspondência fria e impessoal, recebi ontem o cartão postal que vocês me enviaram. Uma verdadeira pepita de ouro!

     Com mensagem manuscrita iniciada por "Querido Amigo", vocês me contaram que estavam na Espanha e se lembraram de mim. Simples assim.

     Vocês, como bons amigos que são, estando em Madri, tiveram o capricho e a delicadeza de dedicar alguns minutos de seu tempo para escrever "à mão" e remeter a mim um cartão postal selado com uma foto da "Plaza Mayor"!.

(Plaza Mayor de Madrid - Espanha - foto em http://en.wikipedia.org/wiki/Plaza_Mayor,_Madrid#mediaviewer/File:Plaza_Mayor_de_Madrid_06.jpg)

     Saibam que, com o cartão em mãos, e por intermédio de vocês, senti-me naquela praça, atento aos detalhes, com a fantasia de que estávamos juntos em uma bodega qualquer, tomando vinho e ouvindo o Cigala*.

     Obrigado Ruth, obrigado Álvaro. Fiquei muito comovido. Aliás, estou me achando um verdadeiro "manteiga derretida".

     Guardarei o cartão com muito carinho.

     Elias
 
(Álvaro e Ruth em noite de sarau entre amigos - foto: arq. pessoal)

*Diego El Cigala - espanhol naturalizado dominicano, cantor de flamenco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO FORAM CONTADAS


(Imigrantes sírio-libaneses e seus descendentes dançando o "Dabke" em festa de casamento de 1975 - ao centro o Sr. Jamil Jorge; da esq. para a direita a Dna. Labibe Bechara é a quinta - foto: arq. pessoal)

     A biblioteca da casa onde nasci guarda tesouros. Com três das quatro paredes tomadas por estantes, abriga, do piso ao forro, coleções de escritores brasileiros, livros avulsos de autores premiados, enciclopédias, dicionários, livros técnicos de Economia, Engenharia, Direito, coletâneas de jurisprudência e outros mais. Gosto de entrar ali nem que seja só para ficar olhando todos enfileirados, tocando em um ou outro livro, folheando... 

     Em um um final de semana recente em que estive lá encontrei, em cima da coleção "Os grandes processos da história", um pequeno livro: "Logradouros e Ruas de Guará".

(Capa do livro "Logradouros e Ruas de Guará" - org. por Dr. Romeu Franco - 2012 - foto: arq. pessoal)

     Fiquei deslumbrado! Vibrei e revivi minha história na cidade a cada página do livro que virava. Encontrei ali relacionados nomes que sempre me foram muito familiares, inclusive de pessoas que conheci pessoalmente. 


     Editado em 2012 (1ª edição), e com uma dedicatória à minha mãe, a coletânea organizada pelo Dr. Romeu traz informações e uma biografia resumida de cada uma das pessoas que dá nome às ruas e logradouros de Guará.

     Procurei nele o nome de meu pai (Nehif) e do meu tio (Náufal) - e ali estavam, cada um dando nome a uma escola; procurei pelos Drs. Leão e Jahyr - e os encontrei -; pelos ex-prefeitos municipais Urbano Junqueira e Chiquinho Iozzi, pela professora Zita Salomão, pelo Prof. Dr. Bellido, pelo Sr. Maneco Henares; procurei por imigrantes japoneses e encontrei o Sr. Sakurai e a dona Maria Okamoto; por políticos e empresários, e encontrei o Sr. Olavo e o Sr. Vando Pereira. Como nome de rua, avenida, ou logradouro, estavam lá todos eles... e muitos, muitos outros. Cada um deles, inegavelmente, ao seu tempo e à sua maneira, fez história, deixou exemplos, e contribuiu para o desenvolvimento da cidade.

     Logo no prefácio o Dr. Marco Aurélio, então Prefeito Municipal - em cuja administração o livro foi editado - esclarece:

"(...) resolvemos trocar os nomes das ruas de Guará, que antes homenageavam Estados e países (...), trocamos os nomes por nomes de guaraenses e personalidades marcantes na história de Guará".

     Inegavelmente aqueles que conhecem sua história tendem a amar e defender o seu povo, pois criam amor às suas raízes. Por isso parabenizo o ex-prefeito - Dr. Marco Aurélio - pela iniciativa que teve, e em especial o Dr. Romeu pelo carinho e esforço que certamente empregou para obter as fotos e informações colocadas nesse belíssimo livro de referências. Por intermédio deles passamos a amar nosso povo e nossa história com maior intensidade.

     Sei que muitos exemplos de vida existem em Guará para serem lembrados. No entanto, dentre os nomes relacionados - salvo falha ou distração minha ao folhear o livro - não encontrei o de alguns "guaraenses" exemplares que, vindos de muito longe, de um outro continente, em Guará fizeram história pelo seu trabalho e pela sua luta na criação de seus filhos - e que, pelo exemplo que deram, precisam ser lembrados; seus feitos não podem ser esquecidos. 

     Na história de Guará, quem não conheceu o Sr. Jamil Jorge, imigrante sírio-libanês, alegre, brincalhão, dono de uma loja de tecidos na rua principal da cidade? E, ao lembrar-me dele, do seu trabalho como dono de loja, penso também em todo o seu esforço para criar e formar um filho médico - o Dr. Hassan (já falecido). Pois a história do Sr. Jamil tende a ser esquecida se não inserida naquele livro como nome de rua...

     Um pouquinho mais além, na mesma rua principal, atravessando a antiga estrada de ferro, morou ali e criou seis filhos uma também imigrante sírio-libanesa - a Dona Labibe Bechara. Tendo ficado viúva muito cedo, a Dona Labibe transformou, pelo comércio, as adversidades em forças, para conseguir criar e formar seus filhos - os quais tornaram-se (todos eles) nomes de respeito e admiração na cidade. Ela também precisa estar naquele livro por reconhecimento do Município...

     Merecem transcrição dois outros trechos escritos pelo pelo Dr. Marco Aurélio também no prefácio. Frisando o objetivo principal do livro, ele diz o seguinte:

"Nosso propósito é homenagear as pessoas que contribuíram para a construção da Guará que temos hoje"

     E ele mesmo continua:

"Povo que não tem história escrita e gravada tende a desaparecer na bruma do tempo (...)."

     Com a propriedade de um filho de Guará afirmo com toda convicção, sem medo de errar, que a cidade precisa esculpir em seus livros de cidadãos notáveis, com palavras gigantes, os exemplos deixados tanto pelo Sr. Jamil Jorge quanto pela Dona Labibe Bechara. Ambos vieram de muito longe, cruzaram mares e Oceano para, ao final, adotarem Guará como sua morada de toda a vida no Brasil. Seus nomes não podem ser esquecidos. Sem eles, com o passar do tempo, a verdadeira história de Guará, de luta e obstinação de seus pioneiros, estará mutilada e empobrecida.
  
(Esquina da R. Dep. João de Faria c/ Carlos de Campos - marido e 4 dos filhos da Sra. Labibe Bechara - foto da década de 1930 em arq. familiar)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

"GENESIS"


(Visita aos trabalhos de Sebastião Salgado em "Genesis", no CCBB, em Brasília - foto: arq. pessoal - set/14)

                                              "As coisas só atingem a plenitude da beleza quando,
                                               dotadas de significados comuns,
                                               passam a ser compartilhadas."
                                                              (Barão do Sapucaí)

     Sebastião Salgado é um premiadíssimo fotógrafo brasileiro. Graduado em Economia, teve que deixar o Brasil em 1969 em decorrência de seu engajamento político. Foi para Paris e, de lá, em função de seu trabalho, viajou muito pela África. Nessas viagens fez diversas sessões de foto que o inspiraram ao ponto de querer tornar-se fotojornalista - o que efetivamente aconteceu.

     De seus trabalhos resultaram diversos livros que traduzem, com leveza e poesia, o nosso planeta, a condição humana, nossa relação com o trabalho e com a natureza*.

     Internacionalmente reconhecido, diversos de seus trabalhos foram organizados em exposições que percorrem o mundo todo.

     E foi conhecendo e admirando sua história e seu engajamento com as questões cruciais da humanidade que, no último final de semana, fui visitar "GENESIS" em Brasília - exposição na qual Salgado, pelos seus olhos e pelas suas fotos, nos leva ao encontro de montanhas, desertos, florestas, tribos, aldeias e animais.

     Depois de ter feito "Êxodos", mostrando o deslocamento de populações pelo mundo em virtude de más condições de vida, pobreza e destruições causadas pelo próprio homem, penso que o Salgado quis mostrar em "GENESIS" a possibilidade de reconstrução do nosso planeta, tal como já foi um dia.**  

     Lélia Wanick Salgado, curadora da exposição e esposa do Sebastião, em poucas palavras nos dá uma visão do que está em "GENESIS"***:

"'GENESIS' é uma jornada em busca do planeta como existiu, desde sua formação e em sua evolução, antes que a vida moderna se acelerasse e nos afastasse do núcleo essencial". 

     E ela continua:

"Ao invés de colocar os holofotes nas consequências da poluição e das alterações climáticas sobre a terra, o mar e o ar, Salgado nos oferece um poema de amor, com imagens que exaltam a majestade e a fragilidade do nosso planeta." 

     Senti-me privilegiado por poder passar com meu filho um dia inteiro em viagem pelo planeta através das fotos do Sebastião Salgado em "GENESIS".

(Entrada da exposição - foto: arq. pessoal - set/14)


(Eu e Gabriel - Área externa da exposição com painéis enormes de algumas fotos - arq. pessoal)

     Desde a Antártica


(Antartica - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://www.wissenschaft-shop.de/Themenwelten/Raetsel-Erde-Geo-Wissen/Sebastiao-Salgado-Genesis-35-5-cm-das-Fotokunstbuch-des-21-Jahrhunderts.html)

às terras do Norte,

(Península de Yamal - Sibéria, Rússia - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://www.wemadethis.co.uk/blog/2013/04/sebastiao-salgados-genesis/)

passando por  paisagens vulcânicas e populações da Indonésia,

(Chefe guerreiro - Pápua-Nova Guiné - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://colunas.revistaepoca.globo.com/viajologia/2013/05/29/genesis-salgado/)

por imagens da África,

(Elefante no Parque Nacional de Kafue, Zambia - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://photos.uol.com.br/materias/ver/75158)

amazônia e pantanal, 

(Rio Juruá, Amazonas, Brasil, 2009 - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://weird-fishes.com/2013/08/19/a-genesis-da-fotografia-brasileira/)

... a exposição - constituída por 245 imagens separadas pelas sessões "Amazônia e Pantanal", "Terras do Norte", "África", "Santuários" e "Planeta Sul" -  é de fato um "poema de amor" à natureza e ao nosso planeta.

     Para quem consegue olhar com vagar e com os olhos do coração, cada uma das fotos na exposição é uma experiência transformadora - como sinto que foi para mim.

("Olhando com vagar..." -  foto: arq. pessoal)

     Da mesma forma, estou certo de que foi um grande privilégio poder ter visto "GENESIS". 

     Por fim, como "a beleza só atinge sua plenitude quando compartilhada", deixo aqui um pouco das emoções que senti ao visitar o nosso planeta em seu estado natural, viajando pelas lentes abençoadas do admirável Sebastião Salgado. 

(CLIQUE PARA OUVIR O SEBASTIÃO SALGADO FALAR DE "GENESIS")



*Obras de Sebastião Salgado: "Trabalhadores" (1996); "Terra" (1997); "Serra Pelada" (1999); ""Outras Américas" (1999); "Retratos de Criânças do Êxodo" (2000); "Êxodos" (2000); "O Fim do Pólio" (2003); "Um Incerto Estado de Graça" (2004); "O Berço da Desigualdade" (2005); "África" (2007); "Gênesis" (2013). 
**Tal como foi feito em sua propriedade rural em Minas Gerais a qual, desmatada por proprietários anteriores, foi totalmente reflorestada e revitalizada - tal como havia sido.
***Texto contido no folheto ilustrativo da exposição