quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BRIDGE OVER TROUBLED WATER*


("Charing Cross Bridge" - Monet, 1900. Fonte: http://www.wikiart.org/en/claude-monet/charing-cross-bridge-overcast-weather)


     Alguns momentos, de tão especiais que são, servem para nos mostrar que estamos muito além de nós mesmos; que nossos gestos, nossos atos, nossas palavras, permanecem no coração de quem nos observa - em especial quando estamos na condição de orientadores. Digo isso porque, ao ouvir uma música hoje, revivi algumas de minhas histórias.

     Ainda adolescente fui aos Estados Unidos na condição de estudante. E como tal, frequentei colégio. Dentre as disciplinas obrigatórias que cursava, Biologia era uma delas. Acontece que com Biologia eu não tinha nenhuma afinidade. E, para agravar, meu inglês era muito limitado. Assim, a dificuldade para acompanhar o curso era imensa.

     Durante as aulas, Mr. Mitrovich, o professor, costumava colocar música bem baixinho. E “Bridge over troubled water” era frequente. Então eu, “olhando” a aula, passava todo o seu tempo atento à música. E por intermédio dela fazia muitas viagens.

     “Bridge over troubled water” foi feita para uma jovem que estava começando a viver sua liberdade, e que estava se dando conta das dificuldades que naturalmente começavam a lhe aparecer. E o autor, na música, tenta estimulá-la a ter força e determinação para vencer obstáculos e seguir seu próprio caminho.

     Na letra da música os problemas foram representados por um rio de águas turbulentas que precisava ser atravessado. E para que os problemas não impedissem a jovem de fazer suas conquistas, o autor lhe dizia que estaria ao seu lado para prestar qualquer auxílio.

     “Bridge over troubled water” é uma canção com três estrofes e que fala de solidariedade. Depois de mencionar situações que sugerem dificuldades, as duas primeiras estrofes terminam com “like a bridge over troubled water I will lay me down” (como uma ponte sobre águas turbulentas eu me estenderei). Com isso, o autor pinta uma imagem de alguém que servirá de apoio nas dificuldades. Na terceira estrofe, depois de incentivar a jovem a enfrentar a vida, o autor encerra dizendo que, como uma ponte sobre águas turbulentas, ele estará ali para tranquilizar a mente dela (“like a bridge over troubled water I will ease your mind”).

     Terminado o meu período de estudos nos Estados Unidos, e muitos anos mais tarde, fui contratado professor de inglês em um colégio. Em uma das aulas levei a letra de “Bridge over troubled water” para que meus alunos a traduzissem e fizessem a interpretação de sua mensagem. No final da aula coloquei a gravação da música em um aparelho de som, e sugeri que cantássemos juntos. Para minha surpresa, no início da segunda estrofe, uma das alunas levantou-se e cantou... e encantou. Todos nós – os demais alunos e eu – boquiabertos, nos calamos e ficamos ouvindo sua voz preencher todos os espaços daquela sala de aula. Foi um momento lindíssimo do qual jamais me esqueci.

     Muitos anos se passaram. Tive notícias dos destinos de vários alunos, mas nunca mais soube da minha aluna-cantora.

     Outro dia, em um bar com música ao vivo onde estávamos eu e a minha mulher, o violonista chamou ao pequeno palco sua esposa e a apresentou como arquiteta - e cantora nas horas vagas. Percebi que aquele rosto não me era estranho - e consegui identificar nele aquela aluna, naquela aula, naquele colégio.

     Pois ela pegou o microfone com segurança, sorriu com o coração, e cantou "Bridge Over Troubled Water". Ao final, não resisti de emoção. Certo de que não seria reconhecido, fui me apresentar a ela e cumprimentá-la. Mas antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa ela desceu do palco, chamou-me pelo nome, me abraçou, e agradeceu-me por estar ali... e especialmente por aquele momento, naquela aula, naquele colégio, há tantos anos.

(CLIQUE PARA OUVIR A MÚSICA)
 (TRADUÇÃO DO SAUDOSO HÉLIO RIBEIRO EM PROGRAMA DE RÁDIO)

*"Bridge over troubled water", composta por Paul Simon, do disco de 1970 com o mesmo nome, gravado por Paul Simon e Arthur Garfunkel (Simon and Garfunkel).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ABAPORU



"Só a antropofagia nos une"
(Oswald de Andrade)


     Desde pequeno conheço "de vista" o "Abaporu". Nunca o entendi, nunca tentei entendê-lo. Eu o achava simples, infantil, e nem sabia porque esse quadro merecia tanta consideração. Sempre que o via em algum livro só enxergava um ser deformado em um lugar muito quente - e nada mais.

     Mas como a ignorância não resiste a uma pequena busca que seja, fui pesquisar o seu significado. E essa minha visão de ignorante foi radicalmente transformada!

     Buscando traçar sua verdadeira identidade, em um determinado momento da história alguns artistas do nosso país entenderam que precisávamos falar por nós mesmos, expressando nossos verdadeiros valores. Então, ao invés de desprezarem as expressões culturais e artísticas de outras nações - até então simplesmente copiadas -, houveram por bem propor que devorássemos a arte e a técnica estrangeiras, submetendo-as a uma avaliação crítica de nosso estômago cultural, deixando verter, por conseguinte, uma expressão essencialmente brasileira.

     E esse "engole, digere e expressa" foi comparado por Oswald de Andrade (marido de Tarsila do Amaral) com o antropofagismo de algumas tribos indígenas - o qual consistia em devorar o inimigo para absorver o seu poder, o seu conhecimento, e as suas habilidades. 

     Com essa ideia em mente, Oswald procurou um nome em tupi-guarani para o quadro que lhe havia sido dado por sua mulher, Tarsila do Amaral. Foi daí que surgiu a palavra "Abaporu", significando "o homem que come gente" - e que traduziria toda a ideia do movimento modernista brasileiro proposto em 1922.

("ABAPORU" - Tarsila do Amaral, 1928 - fonte: imagem da Coleção Folha Grandes Pintores Brasileiros - 3 - pg.73)

     No quadro, a figura solitária sugere o homem plantado na terra, fixado em suas próprias raízes. As mãos e os pés imensos enfatizam sua atividade laboral. A cabeça pequena sugere desapego ao tecnicismo e ao intelectualismo exagerados, que certamente resultariam em reprodução de expressões culturais distantes das nossas.

      Em "Abaporu" a figura está sentada sobre uma planície verde com um dos braços, que sustenta a cabeça, apoiado no joelho. Com o vigor de uma vida criativa e viva representada pelo verde, o cáctus explode em sol e em amarelo de uma flor improvável. Essas cores juntadas ao ceu azul do fundo da tela, de imediato nos remetem às cores da bandeira brasileira.

     Depois dessa busca, por fim, engoli e digeri o verdadeiro sentido desse quadro. Ele expressa a ideia de um movimento de independência cultural, enfatizado pela busca da exaltação da terra, de seus valores, e do povo do Brasil. Por isso ele é genial - não pela técnica ou pelo estilo, mas pelo que ele simboliza.

     Assim como toda representação contida no "Abaporu", o perfil de cada um de nós também é resultado daquilo que conseguimos devorar. E se formos capazes de digerir esses estímulos com sabedoria, certamente nossas expressões serão a tradução autêntica do que somos - sem cópias ou imitações.


(CLIQUE PARA OUVIR - "UIRAPURU", de Waldemar R. de Oliveira e Murilo Latini)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

SURFANDO EM "WAVE"


(CLIQUE PARA OUVIR - "WAVE")
(Daniel Jobim e Luiza Jobim - "Wave", do Tom Jobim)

     O Tom Jobim certamente gostava do Exupéry* - em especial de "O Pequeno Príncipe". Lembro-me que o encarte de seu último disco** trazia uma foto de uma das belas praias do Rio de Janeiro, com duas frases do Exupéry no canto superior direito: 

"L'essentiel est invisible. On ne voit qu'avec le coeur."
(O essencial é invisível [aos olhos]. Só se vê bem com o coração.)
 
(Encarte do disco "Antônio Brasileiro" - 1994 - fonte: http://admusicaalberto.blogspot.com.br/2011/05/pato-preto.html)

     Essas frases foram extraídas de "O Pequeno Príncipe". Elas aparecem no livro quando a raposa e o príncipe dialogam a respeito do quanto se tornam especiais - um para o outro - aqueles que se cativam***.

     Mas essas mesmas frases já haviam inspirado o Tom. É muito conhecida essa história. O Tom compôs e gravou "Wave" em 1967, em disco instrumental com o mesmo nome. E depois disso pediu ao Chico Buarque que colocasse letra na música.


(Capa de "Wave", 1967 -fonte: http://www.israbox.net/1146431501-antonio-carlos-jobim-collection-lossless-mp3-1959-2008.html)

     Mas o Chico não foi além da primeira frase. Por isso o Tom, dando sequência no "vou te contar", do Chico, inspirou-se nas mesmas duas frases do mesmo diálogo entre o pequeno príncipe com a raposa e escreveu:

"Meus olhos já não podem ver
coisas que só o coração pode entender"

     E como o Tom gostava de falar de amor, para concluir a primeira estrofe ele emendou:

"fundamental é mesmo o amor
é impossível ser feliz sozinho"

     Portanto, se o Chico havia dito que iria nos contar alguma coisa, foi o próprio Tom quem acabou nos contando tudo.


______________________
*Antoine de Saint-Exupéry (1900/1944) - escritor, ilustrador e piloto francês. Escreveu "O Pequeno Príncipe"
**"Antônio Brasileiro", de 1994
***O Pequeno Príncipe. Exupery. 48ª edição. Agir, 2006. pág. 72

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

DESEJOS PARA O ANO DE 2015



(Eu e Lígia - dez/14. Foto: arq. pessoal)


"Meus olhos já não podem ver
coisas que só o coração pode entender"
(Tom Jobim)


     Comparando os planos que fazia em anos passados com aqueles que em anos recentes passei a fazer, percebi que foram grandes as transformações que me ocorreram - todas elas promovidas pelo simples passar do tempo.

     Hoje quero apenas estar em paz comigo mesmo; quero conseguir levar alegria para o coração daqueles que de mim se aproximarem ou que de mim tiverem notícia. 

     E, já ultrapassando o limite dos meus quereres, quero poder me colocar em silêncio, observar as coisas ao meu redor, e ter a capacidade de enxergar beleza em cada pessoa, em cada gesto, em cada manifestação de vida.

     Aos meus amigos, familiares e leitores, desejo saúde e muitas felicidades no ano novo.

(CLIQUE PARA ASSISTIR E OUVIR)
video
("Wave", do Tom Jobim - Eu e minha filha Lígia - dez/14 - Foto: arq. pessoal)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

UM ABRAÇO (FICTÍCIO) DE NATAL



     Nesses dias que antecedem o Natal e o Ano Novo não só eu, mas todos nós, recebemos muitas mensagens. Fico muito contente e sensibilizado com cada uma delas, e sinto-me endividado com cada pessoa que me lembra de mim e me envia algumas palavras. Tento retribuir o carinho, dizer do quanto elas me fazem bem; mas nem sempre consigo ir além da intenção. E, por tal motivo, carrego uma baita dívida de afetos com uma porção de gente - que tento compensar nos meus gestos ao longo do ano. 

     Mas mesmo que procure uma forma, não sei como retribuir palavras que me são enviadas por uma pessoa jurídica - uma firma comercial - de forma impessoal e impressa - inclusive na assinatura (quando assinadas). Não consigo detectar nelas nenhum afeto sincero, posto que não há ali pessoalidade alguma. 

(fonte: http://www.sganoticias.com.br/2013/03/outro-gerente-preso-por-golpe-no-bb-de.html)


     Fico me imaginando na fila de uma agência bancária, por exemplo, aguardando pacientemente minha vez de falar com o gerente (ou a gerente) da minha conta (que eu sinceramente não sei quem é) para poder manifestar meu agradecimento e retribuir o abraço enviado e os votos de feliz Natal. Imagino que aguardaria na fila por muitos minutos até poder ser atendido. E, chegada a minha vez, eu o ouviria me desejar bom dia. Retribuindo o "bom dia", eu logo começaria por me apresentar:

     - "Meu nome é Elias; e sou cliente desta agência".

     Na sequência, sem esperar o término de minhas explicações iniciais, e para poder certificar-se da veracidade delas, certamente ele me perguntaria se tratava-se de conta-corrente ou poupança - e qual seria o número.

     E depois de verificar pelo computador a idoneidade de minhas primeiras informações, do outro lado da mesa ele me dirigiria um olhar interrogativo buscando saber o motivo de eu o estar procurando. Eu diria com franqueza que havia recebido um Cartão de Natal de sua empresa, e que, por não saber quem havia se lembrado de mim ali, como gesto de agradecimento, queria retribuir o abraço que me havia sido enviado por intermédio dele.

      Imagino que o gerente não conseguiria deixar de ser protocolar ao me agradecer. E continuaria aguardando, desconfiado, que eu entrasse logo no assunto de minha visita. Percebendo suas mensagens gestuais, eu diria que não estava ali para falar de dinheiro; que a visita devia-se simplesmente ao desejo de retribuir o abraço de Feliz Natal. E, já me levantando da cadeira, solicitaria a ele que também fizesse o mesmo para que pudéssemos nos abraçar em sinal da harmonia e da paz pregadas pelo aniversariante de 24 de dezembro.

     O que será que aconteceria? Será que eu seria atendido?, será que eu seria encaminhado para um outro departamento onde haveria alguém com a função única de receber de clientes abraços em retribuição?, ou será que eu seria tratado como um imbecil diante da enorme fila de pessoas afobadas para falar com o gerente?

     - "Não sei; ou quase sei..."

     Quando uma mensagem de Natal ou Ano novo nos é enviada por  uma pessoa jurídica, não é o homem sensibilizado e dotado de sentimentos que age: é um ente fictício que o faz por intermédio de uma lista de clientes. E nós, os clientes de número xis ou ípsolon - os destinatários - somos simplesmente mais um. Por tal motivo, as palavras impressas em cartões enviados por pessoas jurídicas, ao contrário de estarem envoltos em honestidade, chegam carregados de motivações comerciais e padecem de afeto sincero. Mensagens assim acabam por ser apenas um ato de publicidade, de interesse, para que a marca e o nome da empresa vençam as concorrentes mantendo o consumidor para o ano seguinte.

     Tomado por esses raciocínios caóticos, a verdade é que creio que toda mensagem em Cartão de Natal e Ano Novo deveria ser pessoal, com destinatário específico - e de preferência manuscrita. Pelo menos a assinatura! Mesmo que fosse enviada com atraso. 

     Quando penso essas tolices fico achando que Deus - que está em toda parte - fica sentado no sofá da sala de casa olhando para mim e, com um sorriso de sabedoria, chacoalhando a cabeça da esquerda para a direita, tenta fazer com que eu deixe de escrever besteiras; que ele já nem liga mais para o uso e abuso mercadológico e comercial que tem sido feito em seu nome e em nome de seu filho. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

JUNK (Velharias)


(CLIQUE PARA OUVIR)
("Junk" - Paul McCartney, 1970)

     Assim que entrei em casa no começo da noite recebi uma mensagem da Denise, via whatsapp, me avisando que ia se atrasar para o jantar.

     Fui até a sacada do apartamento e, do oitavo andar, olhei a cidade viva e reluzente com as luzes de Natal. Desci pelas escadas e, caminhando devagar, tomei o rumo das ruas do centro. Queria ver a celebração da alegria nessas semanas que antecedem o Natal; ver as pessoas caminhando, viajar nas suas histórias pessoais contadas pela expressão de seus olhares e pelas rugas em suas faces.

     Nas lojas os anúncios luminosos enfeitavam a noite e faziam convites insistentes para a compra de aparelhos de som, ipods, iphones, geladeiras, televisores, computadores, impressoras, e tudo o que se pode imaginar. Os casais, as crianças, as famílias, entravam nas lojas, examinavam os produtos em oferta, conversavam, observavam, ficavam pensando... 

     Entrei também em uma delas. Era uma grande loja de computadores. Porém não consegui enxergar nada do que estava exposto. A loja havia se transformado no quartinho de despejo do fundo do quintal de minha casa de menino, onde ficavam amontoadas e empoeiradas as velharias da família - um arquivo de madeira, pilhas de jornal, revistas de esporte, coleções de gibis, jogos de botão, uma pequena árvore de Natal, pinceis de pintura, cadernos e livros escolares, carrinhos de corda, uma caixa de engraxate, um violão quebrado, um quadriciclo de latão vermelho que imitava um jipe, um autorama desmontado, uma bicicleta sem corrente, uma vitrola, discos de vinil... e o cheiro de coisa antiga. 

     Sem querer eu estava remexendo nessas coisas guardadas na memória, pelo simples prazer de reviver o que cada uma delas, um dia, representou para mim... 

(Em casa, 1962 - foto: arq. de família)

     Abandonados naquele quartinho de despejo, cada um daqueles objetos me completava a cada vez que eu os visitava. Mesmo depois de crescido, a simples lembrança  de que eles permaneciam lá amontoados fazia bater forte o meu coração.

     E ali, naquela hora, naquela loja, enquanto os aparelhos modernos gritavam "compre, compre, compre", eu só conseguia ouvir as coisas empoeiradas me perguntando tristemente:

     - "Why? Why? Why"? (por que? por que? por que?)

     Hoje, no quartinho de despejo, aqueles objetos já não estão mais. Contudo, imaterializados, permanecem na minha lembrança.

     Foi então que uma vendedora aproximou-se de mim, mostrou seu sorriso treinado, e me perguntou:

     - O senhor já fez o seu pedido para o Papai Noel?

     E eu, que já me dirigia para a porta de saída, parei para lhe responder com toda franqueza e seriedade:

     - Já sim. Mandei um recadinho ao meu amigo invisível pedindo um pequeno aspirador de pó. 

     E completei:

     - Estou precisando limpar uma porção de coisas que enchem de alegria o meu coração.

     Percebi que ela ficou calada e séria ao ouvir minhas palavras. Envergonhado e sem jeito por ter apagado do seu rosto aquele sorriso, tomei o rumo da porta de saída. Já com os pés na calçada olhei para trás e pude vê-la acenar com os braços, sorrindo um outro sorriso e me dizendo com naturalidade:

     - "Feliz Natal!!"     


Junk

Motor cars, handle bars
Bicycles for two
Broken hearted jubilee

Parachutes, army boots
Sleeping bags for two
Sentimental jamboree

Buy buy
Says the sign in the shop window
Why why
Says the junk in the yard

Candlesticks, building bricks
Some old and new
Memories for you and me

Buy buy
Says the sign in the shop window
Why why
Says the junk in the yard

Velharias

Automóveis, guidões
Bicicletas para dois
Alegria de um coração partido

Paraquedas, botas de soldados
Sacos de dormir para dois
Celebração sentimental

Compre, compre
Diz a placa na janela da loja
Por quê, por quê?
Dizem as velharias no quintal

Castiçais, tijolos
Alguns velhos, outros novos
Lembranças para você e para mim

Compre, compre
Diz a placa na janela da loja
Por quê, por quê?
Dizem as velharias no quintal



 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"POIS É, PRÁ QUÊ?"


(CLIQUE PARA OUVIR)


     Quando ouço "Pois é, prá quê?", fico com a impressão de estar passivamente folheando um jornal. A letra traz cenas do cotidiano e inquietações humanas que de tão comuns, apesar de intensas, não pintando novos quadros, mantêm vivos aqueles que me foram pintados décadas atrás. Passa o tempo, são desenvolvidas novas tecnologias, mas o homem continua o mesmo - eu continuo o mesmo. E isso me deixa triste.

     No entanto, de alguma forma essa música mexe comigo. 

     Quando a ouço na interpretação do MPB-4 sinto um aperto no peito que não sei descrever. Talvez seja pela sensação de angústia, de descaso, de conformismo que o MPB-4 consegue transmitir em cada estrofe. Pois tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que a vida vai passando e o desejo de transformar vai ficando adormecido. Essa indiferença, aliada à luta acomodada na "revolta latente" é o que incomoda.

     Quando ouço "Pois é, prá quê?" me lembro do seu autor - o Sidney Miller - e da sua história. Eu ainda era menino. Ele surgiu como compositor envolvido com festivais; compôs trilhas sonoras para peças teatrais e cinema. Lembro-me também - e especialmente - dos paralelos que foram traçados entre ele e o Chico Buarque no início da carreira de ambos. 

     Ouço a música e me entrego à "revolta latente" estampada nos primeiros anos de compositor do seu autor; termino por assistir, ressentido, a descrença por ele assumida no final de sua vida.

(Sidney Miller - fonte: http://www.famososquepartiram.com/2012/09/sidney-miller.html)

     Tudo isso vai se diluindo nos fluidos do meu pensamento à medida que, entrando pelo meu coração, a música me consome por inteiro e se desvanece...  na fumaça de um cigarro que não fumo.



"Pois é, Pra Quê?"



O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, prá que?



O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, prá que?



Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, prá que?



A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, prá que?



O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Prá ninguém saber
De outra flor
Que tortura...



No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Prá andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter prá onde
Pois é, prá que?
Pois é, prá que?
Pois é!