segunda-feira, 14 de julho de 2014

A COPA E AS ELEIÇÕES

     Em outubro iremos às urnas para escolher governadores de Estado, deputados federais e estaduais, e senadores - além do presidente da república. Tendo em vista essa proximidade de datas entre Copa e eleições, são inevitáveis as ligações que fazemos entre o fracasso vexaminoso da seleção na Copa e  as suas consequências na eleição presidencial. E daí nos perguntamos se o vexame será ou não determinante no resultado das urnas; se uma derrota da presidente Dilma na eleição terá ou não sido causado pela humilhação histórica da seleção na Copa; ou ainda se o futebol em nada interfere na eleição e nenhuma relação direta há entre uma coisa e outra.

     Revendo a História, parece que essa associação entre futebol e eleição passou a existir a partir da Copa de 1970. Tricampeões no México - e para que disso o governo pudesse tirar algum proveito político -, a imagem do então presidente Médici ficou diretamente vinculada ao futebol vitorioso. Lembro-me bem desse período de falsos brilhantes, do "Brasil-grande", do patriotismo excessivo, do "ame-o ou deixe-o"...

IMAGEM CULTIVADA
o radinho no ouvido na tribuna de honra nos estádios de futebol foi uma imagem cultivada por Médici

(Fonte: http://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/primeiras-paginas/eleitores-de-farda-8906456)

     Foi assim que nesse ufanismo, por coincidência ou não, nas eleições de 1970 (só para deputado e senador) o partido que apoiava o regime saiu historicamente vitorioso.

     Daí prá frente ficou a ideia geral da existência de uma forte manipulação do futebol em favor de eleições.

     Porém, ao analisarmos as eleições presidenciais brasileiras com voto direto, essa ideia não se confirma. Se, eventualmente, o uso da paixão pelo futebol contaminou a disputa eleitoral, isso não foi determinante. Veja só:

     (1) Em 1998 FHC era o presidente. Nesse ano fomos derrotados por 3 a 0, pela França, na final da Copa em julho/98. Apesar disso, em outubro/98, FHC foi reeleito no primeiro turno da eleição.

     (2) Em junho/2002 a seleção brasileira sagrou-se pentacampeã na Copa da Coreia do Sul/Japão. Contudo, em outubro/02 foi eleito o candidato de oposição ao governo.

    (3) Em julho/2006 não ganhamos na Copa da Alemanha; o presidente, porém, foi reeleito em outubro daquele ano. 

     (4) E em outubro/2010, por fim, a candidata apoiada pelo partido do governo foi eleita - apesar de termos perdido na Copa da África do Sul em julho do mesmo ano.

     (5) E ainda, se formos analisar um passado bem mais distante, em junho/1958, na Suécia, fomos campeões pela primeira. Apesar disso, o candidato apoiado pelo governo não foi eleito na eleição seguinte (outubro/1960).

     Das análises que podemos fazer de Copas e eleições passadas, tudo indica que o desempenho da seleção brasileira não influencia no resultado das eleições. E, especificamente nesta Copa em que perdemos feio para Alemanha e Holanda (mais pela nossa incompetência e arrogância), a lição não pode ser diferente: o estudo, a dedicação, o planejamento, o treinamento e o trabalho produzem melhores resultados do que a crença em milagres.

     Nas palavras que recebi de um amigo mexicano logo após comentarmos o jogo contra a Alemanha, revi o país pelo povo, independente de jogos, de seleção de jogadores, e de cartolas do futebol:

"(...) sin embargo he estado gozando al máximo las cápsulas de tu país que es bellísimo con gente extraordinaria. Vives en un lugar magnífico, rodeado de gente de una gran calidad humana ¡¡ aunque en todos lados no falta un hijo de pu.... ¡¡ que quiere desestabilizar todo.  Mis felicitaciones por esta copa salió mejor organizado que lo esperado; el ambiente ha sido inigualable y los Brasileños demostraron al mundo que son grandes anfitriones" (Ricardo G. M.)
        
      Agora, só mesmo juntando cacos e procurando aprender com as derrotas. Afinal, as eleições estão chegando e o Brasil é muito maior que o futebol: a cada dia, nós construímos e reconstruímos o nosso país. Com carinho, seriedade, planejamento e determinação, façamos a nossa parte. Assim, bons resultados ocorrerão com naturalidade - e vexames políticos ou esportivos serão coisas do passado.

domingo, 29 de junho de 2014

TALVEZ AS MAIS BELAS RUAS POR ONDE ANDEI...

(CLIQUE PARA OUVIR - "Cenas da infância")
(Robert Schumann - Scenes from Childhood op. 15 - VII - Träumerei)

     As ruas da minha terra não tinham nome atribuído por lei - pelo menos para mim, quando menino. Sempre as conheci considerando um ponto de referência, ou a localização da casa onde morava um amigo.

     Assim a rua do clube, no final da rua principal, era a que começava onde havia um enorme abacateiro; a rua da igreja, a que passava no final da praça; a rua da escola de comércio, a que começava no meio da praça - ao lado da casa do Dr. Leão -; a rua do ginásio, que ligava a praça da igreja ao Colégio Marechal Rondon; a rua do cemitério, que terminava na porta do "dito cujo"; a rua do campo, que terminava no portão de entrada do "campo" de futebol; a rua da algodoeira, aquela onde ficava o Bar do João Odani; a rua do lado da cadeia, aquela no meio da qual jogávamos futebol; e a rua principal, que era a maior referência para a explicação de qualquer outro endereço. Talvez tenham sido elas as mais belas ruas por onde andei... 

     Nenhuma das ilustres figuras do meu país, que dão nome às "minhas" ruas, eram mais importantes (para mim) do que os nomes dos meus amigos. Daí que Barão do Rio Branco, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Tiradentes, Getúlio Vargas, Washington Luiz, não me serviam de referência para localização ou informação. Eu as conhecia como rua do Serjão, rua do Walmir, rua do Chuchu, rua do Marcinho, rua do Tigrão, rua do Welsinho...

     Quanto a minha própria rua, eu me referia a ela dizendo que era a da prefeitura. Mas também dizia que a minha rua era a mesma da do Maurinho, do Carlinhos, do Paulo, do Daniel e do Serginho.

     Hoje olho com saudade o mapa de Guará. Vejo ali ruas centrais com nomes de personalidades nacionais que me remetem a figuras de semblante pesado, bigodes, barba, uniforme militar, terno e gravata - muito distantes dos semblantes alegres dos meus amigos-referências. Pesquiso no google e só localizo endereços se digito corretamente o nome que a administração pública atribuiu a cada uma das ruas da cidade. 

(Mapa de Guará - fonte: http://www.guara.sp.gov.br/img/mapas/mapa_guara.jpg)

     Mas, com o olhar no mapa, passeio pelas ruas e avenidas distantes das centrais e me surpreendo ao ver que, não somente personagens da história nacional, mas também homens e mulheres que conheci pessoalmente (e que já partiram) viraram nome de rua. Assim, Rua Paulo Afonso de Souza, Rua "Zezinho Seleiro", Rua Hilda Salomão, Rua Zaki Tannous, Rua Rolando Bini, Rua Voluntário José Nogueira, Rua Dr. Joaquim Bellido, e muitos outros...

     O tempo passa e nos faz dessas coisas. De repente a gente olha para uma placa de rua e percebe que o nome ali gravado não traz simplesmente um nome qualquer; que há ali, a ser contada, a história de uma vida perpetuada não só pelos exemplos que deixou, mas também pelas imagens que ilustraram a nossa própria vida - em especial em nossos mais verdes anos...

      E para evitar que ocorram preces e lamentos incorretamente endereçados, esclareço aos meus amigos que porventura passarem pela rua do cemitério que ainda estou vivo, que não tenho méritos para me tornar nem nome de rua e nem nome de nada, e que "Elias Antônio" é o nome do meu avô paterno - que morreu muito antes que eu tivesse nascido, e legou-me seu próprio nome.
(Placa em Guará, na rua do cemitério - fonte: arq. pessoal)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MY ONE AND ONLY LOVE*

                                                                                                    
Meu amigo, minha amiga...

Eis que depois de um jogo tenso e angustiante entre Brasil e México você sente que só precisa da luz do abajur para ficar quieto e se rearranjar...

Para isso senta-se sozinho, em silêncio absoluto, 
procura enxergar além do que os olhos veem,
e logo estabelece paz no espírito
e repouso nos ânimos.

Se nesse momento consegue ter seus pensamentos só prá você,
se conclui que as coisas que te acontecem
são consequência de suas próprias escolhas,
e que por todas elas só lhe cabe agradecer...

Então não haverá mal nenhum a afligi-lo,
nem inquietação alguma a perturbá-lo - nesse momento.

Apaziguado dessa forma
estará pronto para abrir um "Carmenère" 
e ouvir com a sensibilidade de um sábio,
estimulada por todos os seus sentidos,
as palavras, as mensagens e os sons 
que lhe brotarem do coração...

... em especial se nesse estado sublime,
de elevação absoluta,
você se fizer acompanhado do sax do John Coltrane 
e da voz do Johnny Hartman,
em "My one and only love"** - como faço eu, agora.




*"Meu único e verdadeiro amor"
**composta por Guy Wood e Robert Mellin, em 1952



My One And Only Love

The very thought of you makes
My heart sing
Like an April breeze
On the wings of spring
And you appear in all your splendour
My one and only love

The shadows fall
And spread their mystic charms
In the hush of night
While you're in my arms
I feel your lips so warm and tender
My one and only love

The touch of your hand is like heaven
A heaven that I've never known
The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own

You fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love

The blush on your cheek
Whenever I speak
Tells me that you are my own
You fill my eager heart with
Such desire
Every kiss you give
Sets my soul on fire
I give myself in sweet surrender
My one and only love

My one and only love
Meu Único e Verdadeiro Amor

Só de pensar em você
Meu coração começa a cantar
Como uma brisa de abril
Nas asas da primavera
E você aparece com todo o seu esplendor
Meu único e verdadeiro amor

As sombras caem
E espalham o seu charme místico
No silêncio da noite
Enquanto você está em meus braços
Eu sinto seus lábios tão quentes e suaves
Meu único e verdadeiro amor

O toque de suas mãos é como o paraíso
O paraíso que eu nunca conhecera
O corar das suas bochechas
Sempre que falo
Me diz que és minha

Você enche meu coração ansioso com
Puro desejo
A cada beijo que me dá
Deixa minha alma em fogo
Eu me entrego em uma doce redenção
Meu único e verdadeiro amor

O corar das suas bochechas
Sempre que falo
Me diz que és minha
Você enche meu coração ansioso com
Puro desejo
Sempre que me beija
Deixa minha alma em chamas
Eu me entrego em uma doce redenção
Meu único e verdadeiro amor

Meu único e verdadeiro amor


quinta-feira, 12 de junho de 2014

A COPA NO BRASIL E NÓS, OS BRASILEIROS


(CLIQUE PARA OUVIR - "Na cadência do samba", de Luiz Bandeira, 1956)

     A Copa do Mundo de Futebol aqui no Brasil vai começar. Não tiro os olhos dos jornais. Gosto de ver os estrangeiros sendo recebidos. Ficam maravilhados, surpresos e encantados, com nosso carinho e nossa alegria. E "entram no clima"! Gostamos de receber bem. 

     Vejo nos telejornais alguns indígenas, na Bahia, dançando com os jogadores da seleção da Alemanha; 
(fonte: http://www.jornaldeluzilandia.com.br/txt.php?id=30987)
descendentes de japoneses saudando em Itu a equipe que representa a terra de seus antepassados; 
(fonte: http://imguol.com/c/esporte/2014/06/08/keisuke-honda-da-selecao-japonesa-posa-com-fas-antes-do-treino-no-estadio-municipal-de-sorocaba-1402266394284_1024x662.jpg)

os ribeirão-pretanos enfeitando a cidade e a si mesmos para receber os franceses; 

(fonte:http://www.varaldiverso.com.br/upload/images/posts/post-20140605122929mustache-franca-iguatemi-foto-paulo-gallo.jpg)

os banhistas em Copacabana fotografando e sendo fotografados pelos holandeses que tomam banho de mar; 


(fonte: http://og.infg.com.br/in/12776033-32a-8db/FT1086A/unnamed-2.jpg)

os ingleses, no Rio, dançando e jogando capoeira com as crianças;

(fonte: http://og.infg.com.br/in/12778399-2fa-791/FT700A/2014-721881290-20140609161803668afp.jpg_20140609.jpg)

os santistas cantando e vibrando com a delegação do México... 


(fonte:http://images.jovempan.uol.com.br/W5qA1aZ6A4by4oJW0dYYb9xZCkw=/fit-in/619x437/media.jovempan.uol.com.br/archives/2014/06/09/831904096-pessoas-assistem-treino-da-selecao-mexiacana-no-ct-rei-pele.jpg)

enfim, vejo um país vibrando, colorido e alegre por estar sendo o anfitrião  de tanta gente vinda de tantas países do mundo...

     É um momento único, de beleza e de confraternização entre os povos... !

     Por isso muito me incomodam as manifestações hostis à Copa e a oportunidade que diversas categorias de trabalhadores escolheram para fazer greve. A simples ameaça de boicotar esse momento de festas, paralisando serviços, agredindo pessoas ou destruindo o patrimônio público - inclusive o cultural -, é uma baita demonstração de desrespeito com toda a nossa população. 

     É claro que fazer greve é um direito de todo trabalhador, e que há mecanismos previstos para fazê-la. No entanto, esse não é o momento apropriado para isso. O desejo da grande maioria da população de receber bem nossos visitantes deve se sobrepor aos interesses de alguma categoria que faz suas reivindicações nesse período. Não discuto aqui se elas são justas ou não, mas penso que fazê-las sob estado ou ameaça de greve esbarra fortemente na questão da moralidade, da legitimidade, do interesse maior de todo o nosso povo em relação ao interesse específico de uma ou outra categoria. 

     E nesse clima de Copa, prá terminar, quero dizer que só me faltam três figurinhas para completar o álbum da Copa. São elas as de número 170, 261 e 462 - da Austrália, do Uruguai e do Irã, respectivamente.

     - "Alguém tem prá trocar ? "  
(fonte: http://s2.glbimg.com/nE4-iNrshS5K260I_0CguJFmxIA=/0x0:1999x1125/690x388/s.glbimg.com/es/ge/f/original/2014/05/07/albumcopa_brasil1.jpg)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

HOUVE UM TEMPO EM QUE SE NAMORAVA COM MÚSICA

     Amanhã, doze de junho é o dia dos namorados. E muitas das histórias ou momentos importantes de namoro ficam marcados por uma música - ou por um artista (pelo menos ficavam). Li uma vez, na "Folha de São Paulo", uma crônica da Danuza Leão que falava justamente disso, das músicas que "embalavam" o namoro - em especial sob a visão feminina. Recortei do jornal essa crônica e a guardei em uma pasta de textos que leio e gosto. Pela data, transcrevo aqui essa crônica - que foi depois publicada no livro "Danuza & sua visão de mundo sem juízo"*. 

     Espero que também gostem.

(Fonte: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4351612)
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*LEÃO, Danuza. Danuza & sua visão de mundo sem juízo. Rio de Janeiro - Agir, 2012
(fonte: http://books.google.com.br/books?id=_IDkUxifbvYC&pg=PT25&lpg=PT25&dq=houve+um+tempo+em+que+se+namorava+danuza+le%C3%A3o&source=bl&ots=5QVzNP0ZBF&sig=UnGAE5DHzPVAag_-d7ka1oKkl74&hl=pt-BR&sa=X&ei=9lmYU9_5H4nMsQTrgoDADQ&ved=0CCMQ6AEwAQ#v=onepage&q=houve%20um%20tempo%20em%20que%20se%20namorava%20danuza%20le%C3%A3o&f=false    
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LEMBRA?
(HOUVE UM TEMPO EM QUE SE NAMORAVA)
(fonte:  https://www.facebook.com/NoChatComDanuza/posts/331724153624701) 

      Houve um tempo em que se namorava muito e se pensava que se sofria muito - por amor, claro. As paixões se acendiam, embaladas pelas músicas do momento, que faziam parte integrante de nossas vidas. Quando, numa reunião - havia muitas reuniões nessa época -, os olhares se cruzavam, enquanto se ouvia "se você quer ser minha namorada, ai que linda namorada você poderia ser", o coração se derretia e era hora de ir ao banheiro com uma amiga, só para contar. Uma bebidinha daqui, muitos sorrisinhos dali, e, na décima vez que o disco tocava e chegava no trecho "mas se em vez de minha namorada você quer ser minha amada, minha amada, mais amada pra valer", e ele olhava de longe, desta vez sério, o coração só faltava sair pela boca.

     Muitos anos e muitos amores depois, foi a vez de Roberto Carlos participar de todos os romances: "Você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci" - ah, uma boa dor-de-cotovelo ouvindo Roberto. 

     Quem nunca passou por isso não sabe o que é viver... Num início de caso - em altíssima voltagem! - entrava Chico com "quero ficar no teu corpo como tatuagem" - e quem não queria? E, no fim do caso, dava para agüentar "as marcas de amor dos nossos lençóis"

     Se ouvia muita música e, à noite, se ia sempre ao mesmo bar, onde um pianista tocava o que se tinha ouvido a tarde inteira; como todos se conheciam e sabiam das vidas uns dos outros, o pianista - Vinhas, quase sempre - atacava a "nossa" música... aquela!

     A noite prosseguia com os olhos grudados na porta, para ver se ele entrava. Se entrasse sozinho, era hora de ir ao toalete, não para retocar a maquiagem, mas para respirar fundo e jurar, mas jurar de pés juntos que não ia nem olhar para o lado dele. A madrugada se encarregava de mudar os planos. Depois, veio "Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa".  

     As músicas diziam tudo o que não se tinha coragem de dizer, e era como se falassem por nós. Que mulher não cantou baixinho, depois que ele foi embora, "quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem", e não fantasiou que quando ele ouvisse "e tantas águas rolaram, tantos homens me amaram, bem mais e melhor que você" ia imediatamente pensar nela, quem sabe sofreria, quem sabe teria uma crise de ciúmes e pegaria o telefone de madrugada?

     Quem sabe... quem sabe? E quando ela se "enrolou" toda com a chegada de um namorado que não esperava e ficou repetindo o disco, no trecho que dizia "se na bagunça do teu coração", para ver se ele entendia que o coração, às vezes, vira mesmo uma verdadeira bagunça, como o dela, naquele momento? Ah, Chico, ah, Roberto; vocês algum dia souberam que tinham sido tão importantes na nossa vida? Pois fiquem sabendo: foram. Nesse tempo as moças não levavam os namorados para dormir em casa, ou porque tinham pais ou porque tinham filhos; para isso havia os motéis. E do primeiro a gente nunca esquece... A cama redonda com cabeceira de curvin, a piscina - uma banheira de 2 X 2 -, o som embutido na cabeceira e, sobretudo, o clima, um clima de pecado que as moças da zona sul adoravam. Quando Roberto cantava "Amanhã de manhã vou pedir um café pra nós dois, te fazer um carinho e depois te envolver nos meus braços" e ele deixava "o café esfriando na mesa, esquecemos de tudo" e vinha o "pensando bem, amanhã eu não vou trabalhar, e além do mais, temos tantas razões pra ficar", não era preciso dizer nada: era a hora do telefonema para a empregada às 6 da manhã para que ela desmanchasse a cama e dissesse que você saiu cedo para buscar uma amiga no aeroporto, lembra? Grandes tempos. 

     Hoje a gente olha para trás e pensa: mas essas paixões existiram mesmo? Sem Chico e sem Roberto teriam havido tantas, tão intensas e tão arrebatadoras? Delas a gente até esqueceu, mas não do que se sentia ao ouvir "mas eu estou aqui vivendo este momento lindo".

     E dá para viver momentos lindos hoje, ouvindo os "Racionais MC's"?

     Pensando bem, o grande combustível de nossos corações foram as canções de Chico Buarque e Roberto Carlos. E, olhando para trás, é bem possível que a certeza de que "se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi" não existiria sem a música de Roberto. 

     Foi bom demais ter vivido esse tempo.

(CLIQUE PARA LER E OUVIR)
https://www.youtube.com/watch?v=KsQYsy46PeA


terça-feira, 3 de junho de 2014

A LARANJA, O PATO, E AS MARGENS DO RIO TYNE

                                                                                                                  Ao Rob

     O Rio Sapucai separa as cidades de Guará/SP e São Joaquim da Barra/SP. Hoje, em cada uma de suas margens, há somente ranchos, vegetação e nada mais. Mas haverá um dia, em um futuro longínquo, que o crescimento populacional ocorrerá de tal forma que essas duas cidades se desenvolverão a ponto de que suas ruas, suas casas e construções estarão às margens do rio. Em uma margem Guará; na outra, São Joaquim... 

(O Rio Sapucaí, que separa as cidades de Guará e S.J. da Barra - fonte: arq. pessoal)

     Pois lá no norte da Inglaterra, quase na Escócia, há um rio chamado "Tyne" separando duas belas cidades: Newcastle-upon-Tyne e Gateshead. A ligá-las, dentre outras, duas pontes se destacam: a Tyne Bridge (inaugurada em 1928), e a Ponte do Milênio - ou "ponte que pisca" - (inaugurada em setembro/2001). 

(À esquerda Newcastle; à direita, Gateshead. Em primeiro plano a Tyne Bridge; ao fundo a Ponte do Milênio; à direita, "The Sage" - fonte: arq. pessoal)

(Tyne Bridge, vista de Newcastle - fonte: arq. pessoal)

     Assim, da Tyne Bridge, do lado de Newcastle, olhando para Gateshead, o que se vê em destaque é uma construção de vidro bastante moderna chamada "The Sage" (uma casa de shows com três salões enormes). 

("The Sage", às margens do "Tyne", visto de Newcastle - fonte: arq. pessoal)

     E, da Tyne Bridge, do lado de Gateshead, olhando para Newcastle, o que se vê em destaque é o Guildhall (antigo centro administrativo da cidade) - além de muitas construções antigas.

(Entrada do Guildhall - Newcastle - fonte: arq. pessoal)
 (Guildhall - Newcastle - antigo salão de audiências - fonte: arq. pessoal)

(Construções em Newcastle, c/ estrutura de madeira, às margens do Tyne - fonte: arq. pessoal) 
     Lembrei-me de tudo isso ontem à noite enquanto cortava uma laranja ao meio para fazer um suco.

     Interessante essa coisa de ligação de pensamentos. Veja só. De uma laranja cheguei ao Rio Tyne! E entendo o porquê: em um primeiro jantar de confraternização rotariana de que participei em Newcastle, em 2011, fomos a um restaurante na entrada da Tyne Bridge. Nesse jantar, o prato que nos foi servido foi "pato chinês ao molho de laranjas" - daí a ligação com as laranjas do meu suco de ontem à noite.

     Conto isso também porque, depois da belíssima confraternização formal no restaurante, meus anfitriões me levaram a um pub ao lado da Guildhall. Lá tomamos vários tipos de cerveja, ouvindo um animado grupo de estudantes da Newcastle University tocar e cantar músicas tradicionais irlandesas.  

(Em um pub, ao lado do Guildhall - grupo de estudantes tocando músicas tradicionais irlandesas - fonte: arq. pessoal)
CLIQUE PARA OUVIR O QUE OUVI E FILMEI
video
(Um momento bem animado, com música tradicional irlandesa, dentro do pub. Fonte: arq. pessoal)

     Ao irmos embora já bem tarde da noite, o Rob - que me levava à casa do Peter em Cramlington, onde eu estava hospedado (a 14 quilômetros de Newcastle) -, animado com a conversa no carro, com as cervejas que haviamos tomado e os ritmos das músicas que havíamos ouvido, errou o caminho em uma das muitas rotatórias existentes por lá. E, ao se dar conta disso, ficou todo sem jeito, me pedindo mil desculpas.  

(O Rob - fonte: arq. pessoal)

     Enquanto ele consultava mapas rodoviários, eu, contente por estar naquele lugar do mundo onde nunca havia imaginado estar, fiquei me lembrando das muitas vezes em que me perdi pelas ruas e estradas do Brasil, e do que sempre ouvi de minha mulher em situações como essa: "nós não estamos perdidos; nós estamos tendo oportunidade de descobrir novos caminhos!". E foi justamente isso que respondi ao Rob pelos seus pedidos de desculpas. E seguimos a rota do mapa até chegarmos em Cramlington.

 (Cramlington - detalhe - fonte: arq. pessoal)

     Naquela noite não dormi direito. Estava doido para amanhecer o dia e criar cumplicidade com os detalhes de cada uma das coisas para as quais eu estava sendo apresentado. 

     Agora aqui, relembrando tudo isso, filosofo comigo mesmo:

     - "Uma laranja pode conter duas cidades as quais, divididas ao meio por uma faca, derramam seu suco... que são as águas do Rio Tyne". 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

AS CASAS DE EXUPÉRY

     Manhã de segunda-feira. No facebook uma foto: uma casa, uma rua, uma cidade.

("Uma foto, uma cidade, uma rua, uma casa" - foto publicada por Humberto Favaro Favaro no facebook)

     A foto me faz lembrar "Terra dos homens", do Antoine de Saint-Exupéry. Vou à minha estante, procuro o livro, folheio... Em um determinado momento ele, aviador, entra em uma casa onde passaria a noite. E, entrando, vai procurando desvendar seus mistérios:

     Os limites da casa...

"O muro de um jardim de nossa casa pode encerrar mais segredos que as muralhas da China (...)"  

     A impressão geral...

"Ali estava tudo descuidado, adoravelmente em ruínas qual uma velha árvore coberta de musgo que a velhice alquebrou."

     Os detalhes internos...

"A sala de visitas tinha uma fisionomia extraordinariamente intensa, como a de uma velha cheia de rugas. Rachas das paredes, rasgões do forro, tudo isso eu admirava, e, acima de tudo, o assoalho que afundava aqui e oscilava mais adiante, como ponte mal segura, mas sempre envernizado, polido, lustroso. Estranha casa que não sugeria nenhuma negligência, nenhuma displicência, e sim um extraordinário respeito. Cada ano juntava, sem dúvida, alguma coisa ao seu encanto, à complexidade de sua fisionomia, ao fervor de sua atmosfera amiga e também aos perigos da viagem que era preciso fazer para ir da sala de visitas à sala de jantar." 

     A compreensão da finitude das coisas, das transformações, do aspecto prático da vida...

"(...) o que aconteceria se uma turma de pedreiros, carpinteiros, marceneiros e estucadores viesse trazer para aquele passado seus instrumentos sacrílegos? Eles fariam em oito dias uma outra casa, uma casa desconhecida onde os antigos donos se sentiriam como visitas. Uma casa sem mistérios, sem recantos, sem alçapões sob nossos pés, sem masmorras ocultas - uma espécie de salão de prefeitura..."

     As histórias que ninguém contou, as velharias guardadas...

"(...) já se adivinhava ali que bastava abrir um armário qualquer para que aparecessem maços de cartas amareladas, maços de recibos do bisavô, e chaves em maior número que todas as fechaduras da casa, chaves das quais nem uma, com certeza, serviria em fechadura nenhuma..."

     A cumplicidade com o que só se pode sentir...

"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo."

     Quem, de onde quer que esteja, não consegue carregar em si uma casa onde estão guardadas todas as suas visões afetivas? Uma casa qualquer, mãos na parede, sinais de vida...? E quem, com essa acervo tão rico de coisas, não sofre ao pensar no seu inexorável desaparecimento do mundo real?

     Pela foto e pelo texto do Exypéry, gosto de imaginar que há sempre algo além... que vale a pena buscar nas coisas o que nelas se esconde... que é possível, para quem crê, dialogar com fantasmas...

    (Vital Farias - Canção em dois tempos - 1978)