quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

THEREZINHA DEISE PRADO ANTÔNIO: RETRATOS DA VIDA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Bolero" - Maurice Ravel, 1928)


     Nascida em Jardinópolis, SP, no dia 24 de junho de 1931, Therezinha era filha de um funcionário público e de uma dona de casa. Em 1948 seus pais e seu único irmão mudaram-se para Guará-SP em virtude de nomeação de seu pai para o cargo de carcereiro na cidade. Nessa época Therezinha estava concluindo o Curso Normal no Colégio Sagrado Coração de Jesus de Jardinópolis, que a habilitaria para o magistério de 1º grau. Assim, não podendo acompanhar a família, ela continuou residindo em Jardinópolis em casa de uma família de amigos de seus pais.
     Concluído o curso Normal, em 1949, mudou-se para Guará. Nesse mesmo ano conheceu Nehif, filho de imigrantes libaneses, e com ele se casou em 1953.
     Começou sua vida de professora alfabetizando e ensinando crianças em uma fazenda situada no município de Guará. De bicicleta ou carroça, fazia todos os dias um percurso de vinte minutos até chegar à escola.
     Em seguida lecionou em Pioneiros, Distrito de Guará, de onde saiu para exercer o magistério na Fazenda Ouro Verde, na cidade de Junqueirópolis, SP. Ali ficou de maio de 1952 a maio de 1953, lecionando de manhã e à tarde, e morando com colegas de profissão em uma casa de fazenda ao lado da escola.
     Depois disso voltou a Guará para lecionar na fazenda "Faxina" (seu proprietário era o Sr. Américo Migliori – o Sr. Teté – já falecido).
     Em Guará Therezinha sempre esteve ligada ao “Grupo Escolar de Guará” – que hoje tem o nome de uma comadre sua: “Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Helena Telles Furtado”. Ali, em 1954, passou a lecionar para alunos do primeiro ano. Pelos seus ensinamentos passaram muitas gerações de guaraenses que levaram com carinho a lembrança de sua primeira professora – eu, inclusive.


(Profª Therezinha com seus alunos
Grupo Escolar de Guará - turma 1961 - arq. pessoal)

     No então “Grupo Escolar de Guará” fez grandes amizades que se estenderam ao longo do tempo. Dentre elas a Profa. Nadir Junqueira, a Profa. Mercedes de Paula, a Professora Eneida, os Professores Djalma Guelli e Maneco Chaud, a Dra. Dória, os Diretores Hélio Albertin, Arnaldo Nicolella, Ari Lima Santos, e muitos outros. E, vivendo sempre na mesma casa da Rua Carlos de Campos desde que se casou, teve na vizinhança os amigos de todo esse tempo e de todas as horas: Dona Irene e Sr. Mário; Dona Anita, Lazinha, Tiana, o professor Sother, o Sr. Carlos, os professores Joaquim e Gleide, a Dona Jupira, a professora Sônia, a professora e cunhada Anna Elias, a professora Maria Machado, e muitos outros.
     No ano de 1963 concluiu, na primeira turma de formandos, o curso Técnico em Contabilidade do “Colégio Comercial Municipal de Guará” - hoje “Escola Municipal Dr. Náufal Antônio Mourani”.


(Therezinha, a 1ª da dir para esq. - Conclusão curso Técnico em Contabilidade - 1ª Turma -
"Colégio Comercial Municipal de Guará" - arq. pessoal)

     Desse período, manteve acesa a amizade de seus colegas de turma - o Dr. Paulo Villela, o Professor Diocésar, o Massahiro Sakurai, Leikô, o Toninho e muitos outros. Nessa escola, anos mais tarde, depois de ter concluído o curso de Estudos Sociais na UNAERP em Ribeirão Preto, foi professora de História e Geografia. Também foi professora de Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica nas Escolas Estaduais de 1º e 2º graus de Buritizal e Aramina, e na “Escola Estadual de 1º grau Professora Maria Peralta Cunha”, em Miguelópolis.
     Com habilitações em Trabalhos Manuais, Economia Doméstica e Desenho, obtidas respectivamente em 1954 e 1957, foi também professora de Desenho e Educação Artística nas Escolas Estaduais de 1º grau “Dr. Nehif Antônio”, em Guará, “Capitão Emídio” de Miguelópolis, “Professora Maria Peralta Cunha”, de Miguelópolis, “Escola de 1º e 2º graus Antônio Francisco D’Ávila” de Ipuã, e “Ginásio Estadual Humberto França”, em Ituverava.
     Além das aulas que dava nos períodos da manhã e tarde, cursava também Pedagogia na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mogi das Cruzes”. Para lá viajavam com ela os Professores Manoel Chaud, Djalma Guelli e Mercedes de Paula. Concluiu o curso em 1970 e, em seguida, na mesma universidade, especializou-se em Orientação Educacional. Depois disso, em Ribeirão Preto, concluiu o curso de Supervisão Escolar na “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Instituição Universitária Moura Lacerda”.
     Ficou viúva no ano de 1972, então com 40 anos de idade e dois filhos menores. Mas isso não a fez esmorecer. Therezinha abraçou com maior intensidade o seu trabalho, assumindo as cadeiras de Medidas Educacionais e Estudos de Problemas Brasileiros na “Instituição Universitária Moura Lacerda”, em Ribeirão Preto. Assim, lecionando no então curso ginasial no período da manhã nas cidades da região e no Grupo Escolar de Guará no período da tarde, passou a ocupar também suas noites ministrando aulas nos cursos de Graduação do Moura Lacerda em Ribeirão Preto - de 1971 a 1980.
     Para tanto, juntamente com os estudantes universitários, viajava todas as noites, de ônibus, em um percurso de uma hora até Ribeirão Preto, de onde retornava já de madrugada, para recomeçar sua jornada na manhã seguinte.
     Levou a vida assim, trabalhando na educação ininterruptamente, de manhã, à tarde e à noite, de 1971 a 1980. Além dos já citados, foram dezenas de cursos que concluiu - todos eles ligados à educação.
     Em uma viagem ao Rio de Janeiro, na casa de seus tios, conheceu Juan - um pintor e escultor espanhol viúvo, residente na Argentina, que se tornou seu segundo marido.
     Com ele casou-se no ano de 1980 em cerimônia religiosa na Igreja São José Operário na cidade de Araguari, MG - onde residia sua filha.
     A partir de 1981, já aposentada, passou a dividir os anos de tal forma que, com Juan, passavam seis meses em Guará e os outros seis em Buenos Aires. Juntos viajaram muito, conheceram muitos países, e em todos eles fizeram muitas amizades.
     Nos meses em que estavam em Buenos Aires, abriam as portas de seu apartamento e hospedavam com frequência muitos de seus amigos guaraenses. Ficou viúva pela segunda vez em 2009.
     Foi também uma associada muito atuante no Rotary Club de Guará – no qual ingressou em 1994.
     Por todo o seu envolvimento com as coisas de Guará, sua participação durante anos no Conselho Municipal de Assistência Social, nos programas sociais desenvolvidos pelos clubes de serviço e pela igreja católica, a cidade outorgou a ela, em 30/abril/2014, o título distintivo de “Cidadã Guaraense”.
     Descansou em 17 de fevereiro último, aos 85 anos, em virtude de doença pulmonar obstrutiva crônica. Deixou cinco netos e dois filhos - eu, um deles. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SE VOCÊ POR ACASO VISITAR AQUELE PAÍS...


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Bob Dylan - "Girl from the North Country")
(https://www.youtube.com/watch?v=L-nYXv3tes0)


Se você por acaso visitar aquele país,
onde antigos navios de batalha ficavam ancorados em uma ilha,
onde a bandeira nacional era o consolo que tinham as casas suburbanas,
procure encontrar alguém que por ali viveu,
e que trazia o coração encantado pelas belezas do mundo.

Se estando lá, por acaso, trafegar pela Main Avenue,
que cortava a cidade em toda sua extensão,
tente encontrar uma casa colorida de flores na janela central,
bem na esquina com a Roselle Ave.,
de onde um par de olhos adolescentes se iluminou para a doçura da vida. 

flowered
(Fonte: https://br.pinterest.com/pin/10414642863702724/)

Se você por acaso bater à porta da casa da esquina,
onde a única conexão com o sul era uma caixa de correio
que geralmente encontrava-se vazia,
pergunte por um rapaz muito calado que ali viveu,
e que se deitava no tapete da sala para ouvir o Bob Dylan cantar.

Se você realmente visitar aquele país,
trafegar pela Main Avenue,
encontrar a casa da esquina e for recebido por alguém,
peça de volta o brilho do olhar daquele jovem,
que ficou congelado na janela central enfeitada de flores. 


Girl From The North Country

If you're traveling to the north country fair
Where the winds hit heavy on the borderline
Remember me to one who lives there
For she once was a true love of mine.

If you go when the snowflakes fall
When the rivers freeze and summer ends
Please see for me if she's wearing a coat so warm
To keep her from the howlin' winds.

Please, see for me if her hair hangs long
Rolls and flows all down her breast
Please see for me if her hair's hanging long
That's the way I remember her best

I'm wonderin' if she remembers me at all
Many times I have often prayed
In the darkness of my night
In the brightness of my day

So if you're travelin' in the north country fair
Where the winds hit heavy on the borderline
Remember me to one who lives there
For she once was the true love of mine
Garota do Norte do País

Se você estiver viajando para a feira no norte do país
Onde os ventos sopram forte na fronteira
Fale de mim para alguém que mora lá
Ela foi, outrora, meu verdadeiro amor

Se você estiver indo quando a nevasca cai
Quando os rios estão congelados e o verão acaba
Por favor, veja se ela tem um casaco bem quente
Para protegê-la dos ventos uivantes

Por favor, veja pra mim se o cabelo dela está comprido
Se balança e escorre pelo seu peito
Por favor, veja pra mim se o cabelo dela está comprido
Pois é assim que eu me lembro dela

Eu fico imaginando se ela ainda se lembra de mim
Muitas vezes, eu tenho rezado
Na escuridão da minha noite
Na claridade do meu dia

Então, se você está viajando para o norte do país
Onde os ventos sopram forte na fronteira
Fale de mim para um alguém que mora lá
Ela foi, outrora, meu verdadeiro amor

sábado, 28 de janeiro de 2017

OS BARES* POR ONDE PASSEI


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell, dele, "Retrato brasileiro")
(Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=elgTCFlbEgQ)

     Em "A noite do meu bem"**, além de outras histórias ligadas ao samba-canção, o Ruy Castro conta como nasceram e de que forma sobreviviam os bares, as boates e casas de espetáculos que marcaram época no Rio de Janeiro.

     Um bar, uma boate ou uma casa de espetáculos, é, antes de tudo, um local onde ocorrem encontros e desencontros, formam-se amizades, iniciam-se histórias de amor. E não só no Rio, mas em cada uma das cidades do nosso querido Brasil.

     Em Guará não foi diferente. Quando criança, costumava ir ao "Bar do Seu Alberto", na esquina da rua da minha casa com a rua principal. Ali via meu pai e seus amigos, e comprava pacotes de bala de goma para comer nas matinês de domingo no cinema - e recebia sempre a simpatia do próprio "Seu Alberto". 

     Ainda menino, era o "Bar do Zé Berto" que movimentava a cidade.


(Zé Berto - foto postada no facebook por Ivete Berto)

     O "Bar do Zé Berto" ficava bem em frente à casa de minha avó, no primeiro quarteirão depois da estrada de ferro. Era frequentado por ilustres guaraenses que ali se encontravam para tomar cerveja e, especialmente, para discutir política. A casa e o bar do Zé Berto eram no mesmo imóvel. Em algum momento na década de 70 o "Bar do Zé Berto" mudou para o quarteirão seguinte, no sentido da praça, mantendo o mesmo perfil e os mesmos frequentadores. Eu mesmo passei muitas de minhas tardes na casa - e depois no bar - do Zé Berto, amigo que era de seus três filhos.

(Calçada em frente ao "Bar do Zé Berto" - foto postada por Dr. Marco Antônio no facebook)

     Havia também, na esquina da rua principal com a "rua do Welsinho" (Rua Washington Luiz), o "Bar do Massahiro". Aos domingos, já adolescente, era para lá que eu ia nos finais das noites de domingo para encontrar os amigos, comentar o filme em cartaz no cinema, e comer bauru. Durante as tardes dos dias de semana a possibilidade de jogar xadrez com algum amigo era o que me levava ao "Massahiro". Havia no bar muitos tabuleiros. Combinávamos uma partida ou um campeonato, ajeitávamos as mesas, pegávamos um picolé de abacaxi e deixávamos a tarde rolar solta entre torres, cavalos, bispos e peões que protegiam nossos reis e nossas rainhas.


A imagem pode conter: 1 pessoa, close-up
(Massahiro Sakuray - foto postada por ele no facebook)

     Do outro lado da rua, bem em frente ao "Massahiro", também na esquina, ficava o "Bar do Herlindo". Muito pouco frequentei ali; alguns outros amigos, porém, preferiam o "Herlindo" ao "Massahiro": ali a atração principal era o dominó.

     Com o tempo, descobri o "João Odani". Ficava doido para chegar os finais de tarde para poder ir ao "Bar do João Odani". Ali comia peixe frito e bolinho de mandioca, encontrava os amigos e conversava sobre qualquer assunto que a inspiração escolhesse. Localizado no final da rua da minha casa, lembro-me que, com mesinhas na calçada, sempre havia alguém que estacionava o carro em frente ao bar, deixava as portas bem abertas, e ligava o aparelho K7 para acompanhar os longos papos e as muitas cervejas que tomávamos ali enquanto sonhávamos o futuro.

(João Odani - detalhe de foto postada no facebook por Flávia Nakano)

     O João Odani fechava seu bar mais cedo do que gostaríamos que fechasse. Dali - e por muitos anos - saíamos pela rodovia Anhanguera até o "Posto Algodoeira". Nos finais de semana era para lá que nós todos da cidade íamos - jovens, pais e filhos. Bebíamos, colocávamos cadeiras na varanda do "Posto", e conversávamos sobre tudo. Muitas vezes era o meu primo Tim e os meus amigos Sérgio, Brunelli e Gualter que, com instrumentos de percussão e muita garganta, alegravam o "Posto". Era também no "Posto" que, com um misto-quente e uma coca-cola, arrematávamos as noites de baile no Clube.

(Varanda do "Posto Algodoeira" e Sr. Carlos Migliori, um dos então sócios proprietários - foto postada no facebook por Márcia Migliori)

     Muitos outros bares existiram em Guará. No entanto, o tempo que os frequentei foi muito curto em relação aos mencionados. Dentre eles lembro-me do "Bar do Sérgio e do Luizinho", na entrada da cidade, ponto de encontro para noites de carnaval; o "Bar do Celsinho Perigoso", na esquina da praça Nove de Julho com a rua principal, onde eu costumava ir para ficar olhando o movimento da praça enquanto ouvia o "Procul Harum" e os "Bee Gees" na vitrola; o "Bar do Vicente", onde eram feitas as melhores coxinhas da cidade; o "Bar do João Jorge" (antigo "Bar Magnífico", ao lado do cinema), onde ocorreram poucas, porém memoráveis reuniões musicais no início dos anos 80; o "Bar do Júlio", na esquina do Clube, onde minhas conversas com o próprio Júlio sobre música adentravam a madrugada; o "Bar do Daniel", em uma das casas da antiga Mogiana, onde, ouvindo tudo o que havia do Paul McCartney, bebíamos até o dia amanhecer.

     Lembro-me também, mas em um passado muito distante, do "Bar do Corsi", com seus antigos frequentadores, onde reinava uma mesa de sinuca; do "Bar do Jota" com seus picolés, bem na esquina da praça; e da escuridão da boate "Number One", onde o bom mesmo era conversar sussurrando.



(Bar do Zé Berto - foto postada por Vanderlei Berto no facebook)

     A vida vai passando e a gente não se esquece dos lugares que nos proporcionaram algum tipo de alegria ou descoberta. Em muitos deles fazemos amigos e levamos papos que influenciam nossos rumos e nossos destinos.

     Diante da simplicidade estrutural e da densidade afetiva que prevalecia nos encontros diários ocorridos nos botecos antigos da minha terra natal, os sofisticados bares, pubs e casas noturnas de hoje são gélidos palácios que inviabilizam uma simples conversa, onde a gente vai para simplesmente beber, beber e beber.... Ah, sim, e também para ser torturado por música da pior qualidade, a milhares de decibéis.

     Assim que, desencantado com os bares que tenho visto, escolho ficar em casa, onde, lembrando dos meus antigos bares e amigos, abraço o meu violão, pego minhas listas de músicas, e vou monologando calado... tocando p'rá mim mesmo a minha - hoje - boemia doméstica!

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*Bares de Guará, SP, minha terra natal
**Castro, Ruy. A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção. 1ª Ed. - São Paulo:Companhia das Letras, 2015

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

STACEY KENT


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Stacey Kent - Samba Saravah - Vinícius/Baden - versão Pierre Barouh)
fonte: https://www.youtube.com/watch?v=AXFuq27MVFk


     Vinícius de Moraes e Baden Powell, na década de 60, compuseram o "Samba da Benção". Esse samba ultrapassou as fronteiras do Brasil, chegou à Europa, e ganhou do cantor e ator Pierre Barouh uma versão em francês. Na trilha sonora do filme "Un homme et une femme"*, dirigido por Claude Lelouch, foi levado às telas do cinema.

     Há uns dois anos, pelo rádio, ouvi o "Samba da Benção" em francês, na voz de uma mulher.

     Babei !!

     Fui à internet e descobri então que aquela gravação fora feita por Stacey Kent, uma cantora norte-americana delicada e simpática que adora o Brasil, a língua portuguesa, a bossa-nova, e especialmente o Marcos Valle.

Stacey Kent  -  photo by Okki
(Stacey Kent- fonte: http://www.theglobaldispatches.com/articles/stacey-kent-in-paris)

     Procurei conhecer outras de suas gravações e descobri que tudo o que ela gravou e tem gravado é de muito bom gosto - e da melhor qualidade musical: "Que reste-t-il de nos amours", "Landslide", Jardin d'hiver" "What are you doing the rest of your life?", "Bewitched", "What the world needs now"... e muita bossa-nova: "So nice" (samba de verão), "One note samba" (Samba de uma nota só), "Corcovado" (Corcovado), "Les eaux de mars" (Águas de Março)...

     Quanta preciosidade! Se o Nat "King" Cole e o Johnny Hartman, pela perfeição da pronúncia, são para mim vozes masculinas aveludadas, Stacey Kent é a voz doce feminina que, sofisticada, também soa com revestimento de veludo. Ela consegue fazer com que cada palavra cantada tenha qualidade e valor superiores a qualquer frívolo castelo de ouro.

     Não é por menos. A Stacey Kent estudou e dedicou muito de sua vida à literatura comparada. Certamente foi em decorrência disso que ela compreendeu - e hoje nos ensina pela música - a força, a doçura, a musicalidade e a riqueza de significados que cada palavra dita ou cantada traz em si mesma.

     Na sua voz Deus nos ensina o sentido da beleza. Ouça suas gravações e deixe que ela encante os seus dias da mesma forma que tem encantado os meus.  


P.S.: Sugestão: ouça com a Stacey Kent "What are you doing the rest of your life?" (Alan and Marilyn Bergman/Legrand). É só copiar e colar no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=NOdkpvhfaOQ
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* "Un homme et une femme" - "Um homem, uma mulher" (1966) - "cult", Oscar de melhor filme estrangeiro de 1967

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO DIA DO ANO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Linda Ronstadt - "Good Night", de Lennon/McCartney)


     O último dia do ano. O último!

     Em vinte e quatro horas quanta coisa boa pode acontecer!

     Uma redescoberta, um reencontro, uma inspiração, uma cura...

     "O último dia do ano não é o último dia do tempo"*.

     Nem do ano, nem do tempo... e nem meu.

     Outros dias virão.

(Fonte: http://clickcatarina.com/amanhecer-na-serra-catarinense/nascer-do-sol-na-serra-catarinense/)

     Tenho, em cada um deles, 24 horas para fazer com que todos sejam bons.

     Quero que o último dia do ano seja melhor que todos os anteriores.

     Que o dia seguinte seja melhor ainda...

     E que, no próximo, eu possa aprender tanta coisa boa que eu jamais queira esquecê-lo.

     Hoje quero estar feliz ao adormecer.

     E quero, feito criança, despertar no último dia do ano lambuzado de vida: de vida, de desejo e de esperança... em cada um dos dias que virão.

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*Carlos Drummond de Andrade, no poema "Passagem do ano" - em "A Rosa do Povo", de 1945.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O CÉU



(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Kaori Fuiji e Eric Cecil - Bachianas Brasileiras nº 5 -
Melodia Sentimental, de H. Villa Lobos)


"Cada criança que nasce nos traz a mensagem
de que Deus ainda não perdeu a esperança
em relação à humanidade"
(Rabindranath Tagoré)


     Certa vez ao ser indagado a respeito do céu e de sua natureza, respondi que creio em sua existência dentro de cada um de nós. Mas que, assim como ele, o inferno ocupa a mesma morada. Disse, por fim, acreditar que estamos tomados por um embate incessante entre céu e inferno: nem sempre bem, nem sempre mal, mas em um conflito ininterrupto entre essas duas entidades.  

     Constituído por esse universo dualista, a "Melodia Sentimental" que ora ouço torna candente a chama de esperança contida na simbologia do nascimento de Jesus Cristo, e o meu inferno interior de mim se distancia e se apequena - a ponto de colocar em dúvida a própria existência do mal.

(fonte: http://contra-faccao.blogspot.com.br/2012/05/as-vezes-surge-uma-vela-acesa-no-meio.html)

     Abraço espiritualmente meus amigos e leitores, desejando a todos, de coração, um Feliz e abençoado Natal.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

IDEIAS ABSURDAS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(e assista depois de ter lido)
(Pink Floyd - "The Wall" - fonte: https://www.youtube.com/watch?v=fvPpAPIIZyo)


     A eleição do Trump conta muito do que anda rolando nas mentes dos cidadãos norte-americanos e dos cidadãos de muitos outros países. Em sua campanha eleitoral o Trump propagou a xenofobia, a segregação, a homofobia e o nacionalismo exacerbado. Pelo menos, salvo melhor juízo, foi isso que entendi de suas manifestações. Mas, movido pelo lema "make America great again"*, temos que admitir que foi autêntico em suas falas.


(Fonte: http://thehill.com/blogs/ballot-box/gop-primaries/271330-trump-wins-georgia-super-tuesday)

     Sua proposta vencedora, traduzida por muros que segregam e decretos que expulsam, trouxe um forte indício de intolerância. Uma política assim nada mais é do que a representação de uma tendência isolacionista que paira sobre as chamadas grandes potências mundiais. Tal ocorreu com o plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Européia; tal tem ocorrido na França com a propagação das ideias conservadoras de Marine Le Pen, e na Rússia de Putin.

     Pelo andar da carruagem o mundo dito globalizado está propenso a abrir-se no trânsito de mercadorias, mas a fechar-se em compartimentos que dificultam a integração e a convivência pacífica de pessoas de diferentes origens e credos. Essa propensão, indiscutivelmente, só pode ter o ódio como consequência. Parece que estão querendo que o homem seja tomado como um produto industrial, nascido de um mesmo processo de estampagem, com o mesmo desenho, a mesma pintura, as mesmas dimensões, o mesmo tratamento térmico - e o mesmo potencial de consumo.

     Mas não somos peças. Somos seres com origens e formações culturais diversas. Essa pequena ideia já é suficiente para compreendermos que precisamos saber respeitar as diferenças, aceitar e conviver em harmonia com toda espécie de diversidade. Estendendo a proposição de Sérgio Buarque de Hollanda**, pelo simples fato de habitarmos o mesmo planeta, entendo que "ninguém está investido de poder algum para fazer com que sejamos seres desterrados aqui na Terra" - seja na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, na Síria, no Brasil, ou em qualquer lugar no mundo.

     Do contrário, e se assim o permitirmos, no controle de qualidade do processo de fabricação chegará um dia em que cada um de nós será descartado coercitivamente do lote produzido e sepultado na vala dos mortais, ouvindo a ideia absurda de que somos peças estampadas em desconformidade com o projeto padrão.

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*faça os Estados Unidos grande novamente
**"somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra" - Sérgio Buarque de Hollanda. "Raízes do Brasil" - Ed. Companhia das Letras, 26ª Ed., 1995 - pg. 31