terça-feira, 14 de outubro de 2014

RECADO À RUTH E AO ÁLVARO


(Diego El Cigala - CLIQUE PARA OUVIR)

Queridos Amigos:

     Nestes tempos de internet, quando tudo é instantâneo e descartável, pelo correio somente nos chegam contas a pagar, catálogos promocionais de estabelecimentos comerciais e, em vésperas de eleições, mensagens de políticos indelicadamente grafadas mecanicamente - e assinadas da mesma forma.

     Mas para quem tem bons amigos as coisas não funcionam assim.

     Dentre tanta correspondência fria e impessoal, recebi ontem o cartão postal que vocês me enviaram. Uma verdadeira pepita de ouro!

     Com mensagem manuscrita iniciada por "Querido Amigo", vocês me contaram que estavam na Espanha e se lembraram de mim. Simples assim.

     Vocês, como bons amigos que são, estando em Madri, tiveram o capricho e a delicadeza de dedicar alguns minutos de seu tempo para escrever "à mão" e remeter a mim um cartão postal selado com uma foto da "Plaza Mayor"!.

(Plaza Mayor de Madrid - Espanha - foto em http://en.wikipedia.org/wiki/Plaza_Mayor,_Madrid#mediaviewer/File:Plaza_Mayor_de_Madrid_06.jpg)

     Saibam que, com o cartão em mãos, e por intermédio de vocês, senti-me naquela praça, atento aos detalhes, com a fantasia de que estávamos juntos em uma bodega qualquer, tomando vinho e ouvindo o Cigala*.

     Obrigado Ruth, obrigado Álvaro. Fiquei muito comovido. Aliás, estou me achando um verdadeiro "manteiga derretida".

     Guardarei o cartão com muito carinho.

     Elias
 
(Álvaro e Ruth em noite de sarau entre amigos - foto: arq. pessoal)

*Diego El Cigala - espanhol naturalizado dominicano, cantor de flamenco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

HISTÓRIAS QUE AINDA NÃO FORAM CONTADAS


(Imigrantes sírio-libaneses e seus descendentes dançando o "Dabke" em festa de casamento de 1975 - ao centro o Sr. Jamil Jorge; da esq. para a direita a Dna. Labibe Bechara é a quinta - foto: arq. pessoal)

     A biblioteca da casa onde nasci guarda tesouros. Com três das quatro paredes tomadas por estantes, abriga, do piso ao forro, coleções de escritores brasileiros, livros avulsos de autores premiados, enciclopédias, dicionários, livros técnicos de Economia, Engenharia, Direito, coletâneas de jurisprudência e outros mais. Gosto de entrar ali nem que seja só para ficar olhando todos enfileirados, tocando em um ou outro livro, folheando... 

     Em um um final de semana recente em que estive lá encontrei, em cima da coleção "Os grandes processos da história", um pequeno livro: "Logradouros e Ruas de Guará".

(Capa do livro "Logradouros e Ruas de Guará" - org. por Dr. Romeu Franco - 2012 - foto: arq. pessoal)

     Fiquei deslumbrado! Vibrei e revivi minha história na cidade a cada página do livro que virava. Encontrei ali relacionados nomes que sempre me foram muito familiares, inclusive de pessoas que conheci pessoalmente. 


     Editado em 2012 (1ª edição), e com uma dedicatória à minha mãe, a coletânea organizada pelo Dr. Romeu traz informações e uma biografia resumida de cada uma das pessoas que dá nome às ruas e logradouros de Guará.

     Procurei nele o nome de meu pai (Nehif) e do meu tio (Náufal) - e ali estavam, cada um dando nome a uma escola; procurei pelos Drs. Leão e Jahyr - e os encontrei -; pelos ex-prefeitos municipais Urbano Junqueira e Chiquinho Iozzi, pela professora Zita Salomão, pelo Prof. Dr. Bellido, pelo Sr. Maneco Henares; procurei por imigrantes japoneses e encontrei o Sr. Sakurai e a dona Maria Okamoto; por políticos e empresários, e encontrei o Sr. Olavo e o Sr. Vando Pereira. Como nome de rua, avenida, ou logradouro, estavam lá todos eles... e muitos, muitos outros. Cada um deles, inegavelmente, ao seu tempo e à sua maneira, fez história, deixou exemplos, e contribuiu para o desenvolvimento da cidade.

     Logo no prefácio o Dr. Marco Aurélio, então Prefeito Municipal - em cuja administração o livro foi editado - esclarece:

"(...) resolvemos trocar os nomes das ruas de Guará, que antes homenageavam Estados e países (...), trocamos os nomes por nomes de guaraenses e personalidades marcantes na história de Guará".

     Inegavelmente aqueles que conhecem sua história tendem a amar e defender o seu povo, pois criam amor às suas raízes. Por isso parabenizo o ex-prefeito - Dr. Marco Aurélio - pela iniciativa que teve, e em especial o Dr. Romeu pelo carinho e esforço que certamente empregou para obter as fotos e informações colocadas nesse belíssimo livro de referências. Por intermédio deles passamos a amar nosso povo e nossa história com maior intensidade.

     Sei que muitos exemplos de vida existem em Guará para serem lembrados. No entanto, dentre os nomes relacionados - salvo falha ou distração minha ao folhear o livro - não encontrei o de alguns "guaraenses" exemplares que, vindos de muito longe, de um outro continente, em Guará fizeram história pelo seu trabalho e pela sua luta na criação de seus filhos - e que, pelo exemplo que deram, precisam ser lembrados; seus feitos não podem ser esquecidos. 

     Na história de Guará, quem não conheceu o Sr. Jamil Jorge, imigrante sírio-libanês, alegre, brincalhão, dono de uma loja de tecidos na rua principal da cidade? E, ao lembrar-me dele, do seu trabalho como dono de loja, penso também em todo o seu esforço para criar e formar um filho médico - o Dr. Hassan (já falecido). Pois a história do Sr. Jamil tende a ser esquecida se não inserida naquele livro como nome de rua...

     Um pouquinho mais além, na mesma rua principal, atravessando a antiga estrada de ferro, morou ali e criou seis filhos uma também imigrante sírio-libanesa - a Dona Labibe Bechara. Tendo ficado viúva muito cedo, a Dona Labibe transformou, pelo comércio, as adversidades em forças, para conseguir criar e formar seus filhos - os quais tornaram-se (todos eles) nomes de respeito e admiração na cidade. Ela também precisa estar naquele livro por reconhecimento do Município...

     Merecem transcrição dois outros trechos escritos pelo pelo Dr. Marco Aurélio também no prefácio. Frisando o objetivo principal do livro, ele diz o seguinte:

"Nosso propósito é homenagear as pessoas que contribuíram para a construção da Guará que temos hoje"

     E ele mesmo continua:

"Povo que não tem história escrita e gravada tende a desaparecer na bruma do tempo (...)."

     Com a propriedade de um filho de Guará afirmo com toda convicção, sem medo de errar, que a cidade precisa esculpir em seus livros de cidadãos notáveis, com palavras gigantes, os exemplos deixados tanto pelo Sr. Jamil Jorge quanto pela Dona Labibe Bechara. Ambos vieram de muito longe, cruzaram mares e Oceano para, ao final, adotarem Guará como sua morada de toda a vida no Brasil. Seus nomes não podem ser esquecidos. Sem eles, com o passar do tempo, a verdadeira história de Guará, de luta e obstinação de seus pioneiros, estará mutilada e empobrecida.
  
(Esquina da R. Dep. João de Faria c/ Carlos de Campos - marido e 4 dos filhos da Sra. Labibe Bechara - foto da década de 1930 em arq. familiar)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

"GENESIS"


(Visita aos trabalhos de Sebastião Salgado em "Genesis", no CCBB, em Brasília - foto: arq. pessoal - set/14)

                                              "As coisas só atingem a plenitude da beleza quando,
                                               dotadas de significados comuns,
                                               passam a ser compartilhadas."
                                                              (Barão do Sapucaí)

     Sebastião Salgado é um premiadíssimo fotógrafo brasileiro. Graduado em Economia, teve que deixar o Brasil em 1969 em decorrência de seu engajamento político. Foi para Paris e, de lá, em função de seu trabalho, viajou muito pela África. Nessas viagens fez diversas sessões de foto que o inspiraram ao ponto de querer tornar-se fotojornalista - o que efetivamente aconteceu.

     De seus trabalhos resultaram diversos livros que traduzem, com leveza e poesia, o nosso planeta, a condição humana, nossa relação com o trabalho e com a natureza*.

     Internacionalmente reconhecido, diversos de seus trabalhos foram organizados em exposições que percorrem o mundo todo.

     E foi conhecendo e admirando sua história e seu engajamento com as questões cruciais da humanidade que, no último final de semana, fui visitar "GENESIS" em Brasília - exposição na qual Salgado, pelos seus olhos e pelas suas fotos, nos leva ao encontro de montanhas, desertos, florestas, tribos, aldeias e animais.

     Depois de ter feito "Êxodos", mostrando o deslocamento de populações pelo mundo em virtude de más condições de vida, pobreza e destruições causadas pelo próprio homem, penso que o Salgado quis mostrar em "GENESIS" a possibilidade de reconstrução do nosso planeta, tal como já foi um dia.**  

     Lélia Wanick Salgado, curadora da exposição e esposa do Sebastião, em poucas palavras nos dá uma visão do que está em "GENESIS"***:

"'GENESIS' é uma jornada em busca do planeta como existiu, desde sua formação e em sua evolução, antes que a vida moderna se acelerasse e nos afastasse do núcleo essencial". 

     E ela continua:

"Ao invés de colocar os holofotes nas consequências da poluição e das alterações climáticas sobre a terra, o mar e o ar, Salgado nos oferece um poema de amor, com imagens que exaltam a majestade e a fragilidade do nosso planeta." 

     Senti-me privilegiado por poder passar com meu filho um dia inteiro em viagem pelo planeta através das fotos do Sebastião Salgado em "GENESIS".

(Entrada da exposição - foto: arq. pessoal - set/14)


(Eu e Gabriel - Área externa da exposição com painéis enormes de algumas fotos - arq. pessoal)

     Desde a Antártica


(Antartica - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://www.wissenschaft-shop.de/Themenwelten/Raetsel-Erde-Geo-Wissen/Sebastiao-Salgado-Genesis-35-5-cm-das-Fotokunstbuch-des-21-Jahrhunderts.html)

às terras do Norte,

(Península de Yamal - Sibéria, Rússia - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://www.wemadethis.co.uk/blog/2013/04/sebastiao-salgados-genesis/)

passando por  paisagens vulcânicas e populações da Indonésia,

(Chefe guerreiro - Pápua-Nova Guiné - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://colunas.revistaepoca.globo.com/viajologia/2013/05/29/genesis-salgado/)

por imagens da África,

(Elefante no Parque Nacional de Kafue, Zambia - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://photos.uol.com.br/materias/ver/75158)

amazônia e pantanal, 

(Rio Juruá, Amazonas, Brasil, 2009 - foto: Sebastião Salgado - fonte: http://weird-fishes.com/2013/08/19/a-genesis-da-fotografia-brasileira/)

... a exposição - constituída por 245 imagens separadas pelas sessões "Amazônia e Pantanal", "Terras do Norte", "África", "Santuários" e "Planeta Sul" -  é de fato um "poema de amor" à natureza e ao nosso planeta.

     Para quem consegue olhar com vagar e com os olhos do coração, cada uma das fotos na exposição é uma experiência transformadora - como sinto que foi para mim.

("Olhando com vagar..." -  foto: arq. pessoal)

     Da mesma forma, estou certo de que foi um grande privilégio poder ter visto "GENESIS". 

     Por fim, como "a beleza só atinge sua plenitude quando compartilhada", deixo aqui um pouco das emoções que senti ao visitar o nosso planeta em seu estado natural, viajando pelas lentes abençoadas do admirável Sebastião Salgado. 

(CLIQUE PARA OUVIR O SEBASTIÃO SALGADO FALAR DE "GENESIS")



*Obras de Sebastião Salgado: "Trabalhadores" (1996); "Terra" (1997); "Serra Pelada" (1999); ""Outras Américas" (1999); "Retratos de Criânças do Êxodo" (2000); "Êxodos" (2000); "O Fim do Pólio" (2003); "Um Incerto Estado de Graça" (2004); "O Berço da Desigualdade" (2005); "África" (2007); "Gênesis" (2013). 
**Tal como foi feito em sua propriedade rural em Minas Gerais a qual, desmatada por proprietários anteriores, foi totalmente reflorestada e revitalizada - tal como havia sido.
***Texto contido no folheto ilustrativo da exposição

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PENNY LANE



                                                                                  

                                                                 "Penny Lane is in my ears and in my eyes"


     Uma rua não é simplesmente um "leito carroçável" de veículos (aliás, que nome horroroso!) Uma rua é também composta por uma sequência de imóveis, com uma calçada por onde passam pessoas. Pode ter o perfil residencial ou comercial. Ou, ainda, pode ser a mistura desses dois perfis. Pode ser que nada tenha a acrescentar na vida de ninguém. Pode ser que por ela raros veículos trafeguem e poucas pessoas caminhem pela calçada. Pode ainda ser um tedioso ir e vir de automóveis e pedestres. 

     Mas uma rua pode também ser um universo onde tudo acontece.

     Em Liverpool, na Inglaterra, Penny Lane é uma rua de bairro que, há muitas décadas, nada acrescentava na vida de ninguém. Pelo menos na vida daqueles que não haviam criado com ela algum tipo de cumplicidade, algum laço de afeto. Mas para os Beatles era ali que tudo acontecia. 

(Fonte: http://silverkgallery.com.au/rock-n-roll-photography/the-beatles/saturday-morning-with-the-beatles/)

     Eu também tive uma rua que encerrava em si todos os acontecimentos do mundo.

     Se na Penny Lane dos Beatles* havia um barbeiro que mostrava fotos de cortes de cabelo que ele havia feito, na minha Penny Lane** também havia uma barbearia constantemente repleta de gente para conversar, olhar o movimento, ouvir rádio, ou simplesmente cortar os cabelos. Se na Penny Lane dos Beatles havia um banqueiro com um carrão, na minha havia três agências bancárias onde todos que nelas trabalhavam ou entravam eram conhecidos meus; se na Penny Lane dos Beatles havia uma enfermeira vendendo papoulas em uma bandeja, na minha havia vários comerciantes ambulantes perambulando pela calçada e vendendo, desde "quebra-queixo" e vassouras, até buchas para banho. 

(Rua Dep. João de Faria - "A minha Penny Lane" - foto: arq. pessoal)

     Além de mencionar um bombeiro com uma foto da rainha no bolso, os Beatles não vão além contando o que mais havia em Penny Lane. Mas na minha Penny Lane havia mais... Havia um cinema onde o mundo era projetado na tela todos os dias; duas farmácias na porta das quais eu ficava conversando sobre o futuro; um bar onde eu e meus amigos jogávamos xadrez, comíamos bauru, e chupávamos picolé de abacaxi; uma loja de tecidos onde seu proprietário comentava comigo as notícias do oriente médio; e uma quitanda onde se discutia futebol. Mas especialmente havia, na minha Penny Lane, duas outras lojas - uma de calçados e outra de roupas feitas - onde eu passava a maior parte do meu tempo observando, conversando, olhando os carros passar e, esporadicamente, comentando as ocorrências locais e as coisas da vida com um ou outro que se dispunha a isso.

(Meus amigos Fernando e Rando em uma das farmácias na minha Penny Lane -  anos 70: foto por Luiz Fernando no facebook)

     Quantos de nós carregamos pela vida inteira as lembranças de uma rua onde nossas primeiras descobertas aconteceram ou onde nossas doces lembranças ficaram? O Vinícius nos falou de reuniões que ocorriam na Rua Nascimento Silva, no Rio, em "Carta ao Tom"; o Tavito anotou lembranças em "Rua Ramalhete"; Luiz Carlos e Chiquinho, em "Do lado direito da Rua Direita", assim como Nelson de Barros e Frederico Valério, no fado "Na rua dos meus ciúmes", e Newton Carlos Teixeira e Jorge Vidal Faraj, em "A deusa da minha rua" falam de ruas que para eles ficaram guardadas por ter ocorrido, em cada uma delas, um fato isolado. 
 
(Desfile de aniversário da cidade na minha Penny Lane - década de 60 - foto postada por Marilúcia Rodrigues no facebook)

     A Penny Lane dos Beatles não deixou de existir para eles depois que eles se tornaram os ídolos e símbolos de uma geração. Não raramente ainda trafego pela minha Penny Lane. Mas a rua pela qual passo já não é mais a mesma. Assim como para os Beatles, a minha Penny Lane ficou guardada "nos meus ouvidos e nos meus olhos". A deles, embaixo de um céu azul de um subúrbio da cidade de Liverpool; a minha, também embaixo de um céu azul, porém constantemente ensolarado, e com a diferença de ser a rua mais importante e mais movimentada de uma típica cidadezinha do interior paulista, cortada por uma estrada de ferro, onde (também) tudo acontecia.



Penny Lane

Penny lane there is a barber showing photographs
Of every head he's had the pleasure to have known
And all the people that come and go
Stop and say hello

On the corner is a banker with a motor car
The little children laugh at him behind his back
And the banker never wears a mac in the pouring rain
Very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit and meanwhile back

In penny lane there is a fireman with an hourglass
And in his pocket is a portrait of the queen
He likes to keep his fire engine clean
It's a clean machine

Penny lane is in my ears and in my eyes
A four of fish and finger pies
In summer, meanwhile back

Behind the shelter in the middle of the roundabout
The pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway

Penny lane the barber shaves another customer
We see the banker sitting waiting for a trim
And then the fireman rushes in from the pouring rain
Very strange

Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny lane is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
Penny lane

Penny Lane

Em Penny Lane há um barbeiro mostrando fotos
De cada cabeça que ele teve o prazer de conhecer
E todas as pessoas que vão e vem
Param e dizem oi

Na esquina há um banqueiro com um carro
As criancinhas riem dele por suas costas
E o banqueiro nunca usa uma capa na chuva
Muito estranho

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Eu sento e enquanto isso

Em Penny lane há um bombeiro com uma ampulheta
E no seu bolso há uma foto da rainha
Ele gosta de manter seu motor limpo
É uma má quina limpa

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Por uma torta de peixe com dedo
No verão, enquanto isso

Atrá s do abrigo no meio do carrossel
A bonita enfermeira vendendo papoula em uma bandeja
E embora ela sinta como se estivesse em uma peça
Ela está mesmo

Penny Lane o barbeiro faz a barba de outro cliente
Nós vemos o banqueiro sentado esperando por um trato
E então o bombeiro corre para dentro vindo da chuva
Muito estranho

Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos
Lá embaixo do céu azul do subúrbio
Penny Lane



*Penny Lane - canção composta por Lennon e McCartney, e lançada pelos Beatles em fevereiro de 1967
**Rua Deputado João de Faria, em Guará, SP - a minha Penny Lane

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O PALÁCIO BOA VISTA E SEUS TESOUROS


     Campos do Jordão é a cidade mais alta do país. Com clima privilegiado ganhou fama de estância climática e hidromineral, e por isso recebe sempre muitos visitantes. E eu, que nunca havia estado lá, programei um curto passeio à cidade. Eu queria desfrutar do clima, conhecer o Museu Felícia Leirner e o auditório Cláudio Santoro. Mas, especialmente, o que eu queria mesmo era conhecer um palácio que existe lá: o Palácio Boa Vista.

("O Palácio Boa Vista" - foto: arq. pessoal)

     Para servir de residência oficial de inverno do governador do Estado de São Paulo*, o Palácio Boa Vista teve sua construção iniciada em 1938 e só concluída em 1964 - quando foi inaugurado. Em 1970 foi declarado monumento de visitação pública, e transformado em um centro de arte que abriga um grande acervo de obras de artistas brasileiros - sem prejuízo de sua finalidade inicial, de servir de sede de inverno do governo estadual.

     Sei que quando falamos em Palácio, as primeiras coisas que nos vêm à mente são rainhas e reis. Em seguida ficamos imaginando os tesouros guardados dentro desses palácios: baús enormes, joias, peças em ouro e prata, e tudo protegido por guardas muito bem armados. Mas eu visitei um palácio diferente, cheio de tesouros que eram, para mim, até então, feitos somente de fotografias impressas em papel de livros, como se fossem figurinhas prá eu ficar olhando... 

     Assim que, entrando no Palácio, a primeira atração é um pátio interno com um pequeno jardim e um chafariz ao centro. Nos quartos e cômodos que o circundam estão expostas obras de arte de artistas brasileiros, as quais eu somente havia visto em livros escolares.  

("Pátio interno do Palácio Boa Vista" - foto: arq. pessoal)

     Muitos Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Eliseu Visconti, e um grande acervo de obras de artistas modernistas estão ali nesse palácio. Mortos, eles ficaram com muitos dos seus trabalhos expostos nas paredes do palácio, ilustrando nossas vidas. São eles os nossos tesouros, um pedaço do nosso patrimônio artístico e cultural.

     Foi emocionante ver dentre tantos, de Tarsila do Amaral,  o "Retrato de Mário de Andrade" (1922) exposto na sala de trabalho do governador. Quantas vezes vi esse quadro em livros de literatura !

("Retrato de Mário de Andrade" - 1922 - Tarsila do Amaral - fonte: http://www.wikiart.org/en/tarsila-do-amaral/portrait-of-mario-de-andrade)

     Em uma sala menor vi "O beijo", de Eliseu Visconti; em outra, o "Retrato de Lalive" (1917), de Anita Malfatti.


("O beijo" - Eliseu Visconti - 1909 - fonte: http://pintores.vtrbandaancha.net/Visconti2/pages/O%20BEIJO%20-%201909_jpg.htm)

("Retrato de Lalive" - Anita Malfatti, 1917 - fonte: http://www.monicabelleza.com.br/pintores/anitamalfatti/lalive.htm)

     Um passeio por este Palácio, em visita guiada, tem a duração de cerca de uma hora. No entanto, a sensação é de que um dia inteiro ali ainda é insuficiente para podermos observar todos os detalhes de sua construção, bem como todas as obras de arte que ele abriga. Em especial, algumas boas horas precisariam ser dedicadas a "Operários" (1933), da Tarsila do Amaral. 

"Operários" - 1933 - Tarsila do Amaral - fonte: http://integradaemarginal.blogspot.com.br/2010_09_01_archive.html

     Exposto em uma pequena sala interna, "Operários", enorme, ocupa sozinho uma parede inteira. A vontade que dá, ao olharmos para aquele quadro, é de nos sentarmos a uma distância adequada, e ficarmos olhando para cada uma das faces que representam as faces do povo brasileiro em um período de industrialização ocorrido em nosso país. As faces, nitidamente tristes e cansadas, em primeiro plano, parecem todas iguais, massificadas pelo trabalho nas indústrias representadas pelas fábricas e chaminés, ao fundo, que reforçam o tema social.

     Mas, olhando tudo aquilo, conforme os olhos passeiam o pensamento vagueia: para que serve isso? esse Palácio? essas obras de arte? Objetivamente, não servem para nada. No entanto, avaliando melhor o seu significado, o que compreendo é que os valores e símbolos nacionais - e principalmente paulistas - estão ali guardados, como que servindo de fonte de referência para o que representa a nossa cultura. Ali estão preservadas, não as nossas moedas, mas todo um patrimônio cultural que vem sendo construído ao longo do tempo. 

     Passei dentro do Palácio muito menos tempo do que gostaria de ter passado. Com toda sua riqueza exposta, foi impossível ver detidamente tudo o que queria. 

     Mas, ao final, fotografando a parte externa do Palácio, uma ideia absurda, ridícula e risível invadiu a minha mente: só mesmo me escondendo lá dentro para, depois que ele fosse fechado no final da tarde, poder ficar olhando seus tesouros por uma noite toda. Assim eu poderia fazer anotações, me deter em cada detalhe do prédio e das obras de arte que ele abriga. Mas isso, decididamente, nunca vai acontecer. Fica então a lembrança... Fica o acervo arquivado na minha memória, e representado materialmente por uma pequena caneca com o símbolo do Palácio nela estampado - e que eu trouxe para guardar de recordação em uma das estantes de meu escritório.

*O Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, é a residência oficial do governador do Estado.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

EM VENEZA, COM ROSSANO BRAZZI

(CLIQUE PARA ASSISTIR E OUVIR)
("Summertime in Venice", de Alessandro Cicognini - Tema do filme "Quando o coração floresce")

                                                                      "You only live twice,
                                                                      one life for yourself,
                                                                      and one for your dreams"*


     Com 25 títulos, a Folha de São Paulo lançou a coleção "Grandes Astros" (do cinema). Semanalmente nas bancas, cada título traz um pequeno livro que conta a vida profissional de um artista de destaque. Acompanha-o o DVD de um filme no qual atuou, e que foi marcante em sua carreira. Assim, todas as segundas-feiras vou às bancas em busca do "astro" da vez. 

     Na última semana saí à procura de Katharine Hepburn - volume 12 da coleção. E foi então que, ao ver o filme do volume 12, chamou-me logo a atenção o seu título: "Quando o coração floresce" (Dir. David Lean, 1955). De imediato lembrei-me de uma conversa que havia tido com a Dona H. - uma vizinha de setenta e poucos anos de idade, que vive só, e que está viúva há mais de vinte anos. Ela me contava com entusiasmo que tinha visto pelo jornal que seria lançada a coleção "Grandes Astros", e que queria assistir novamente "Quando o coração floresce" - que seria um dos filmes que acompanharia um dos volumes.  

     Separei então dois livrinhos com os DVDs do filme: um para mim e outro para dar de presente a ela. Mas, antes, resolvi perguntar a ela, por celular, se já o havia comprado. Entusiasmada com a notícia e com o telefonema, não só me solicitou que comprasse o filme, como também me explicou: 

     - Nele, atua o Rossano Brazzi.

     Não entendi muito bem o motivo que a levou a me dar aquela explicação. Mas ela mesma continuou: 

     - "O Rossano Brazzi era lindo, e quando o filme foi lançado, o meu namorado não queria que eu fosse vê-lo - não sei se por ciúme ou por causa das insinuações amorosas que eram avançadas para a época. Mas eu fui... e terminamos o namoro. Depois voltamos. Passado um tempo nos casamos."


(Katherine Hepburn e Rossano Brazzi em cena de "Quando o coração floresce" - fonte: http://cdn2-b.examiner.com/sites/default/files/styles/image_content_width/hash/45/03/450340e265ab53b338e5290ab4f35dcc.jpg?itok=E7gq8yW3)

     Em casa, naquela noite, fui assistir o filme. Gostei. É uma fantasia de amor na qual Jane (Katharine Hepburn) - uma solteirona americana - viaja sozinha para  Veneza. Lá chegando, depois de instalar-se em uma pensão, conhece e se apaixona por Renato (Rossano Brazzi) um italiano sedutor, dono de um antiquário. 

(Rossano Brazzi - fonte: http://1.bp.blogspot.com/_1XbCsR5voz8/S_Qh8wlWdwI/AAAAAAAAHmc/RushTRTuvck/s1600/summertime2.jpg)

     De fato, no filme, ele atua com perfeição. Elegantemente vestido, aparece um tanto quanto romântico e aristocrático. Imagino que, na época em que o filme foi lançado, o quanto sua figura alimentou as fantasias das jovens de então. E para a Dona H., parece que não foi diferente. Penso que no final daqueles anos 50, apesar de nunca ter viajado para o exterior, por intermédio do filme ela esteve na Itália, passeou pelas ruas e canais de Veneza, caminhou pela praça de São Marcos, e lá viveu com o Rossano Brazzi um grande romance... E isso trouxe a ela a possibilidade de sonhar, de viver sua outra vida embalada por fantasias que trouxeram cor à sua vida real.  

     - O que, senão um livro ou um filme, naquela época, poderia proporcionar a alguém uma viagem tão linda como a que ela viveu em sonhos? - pergunto eu a mim mesmo.

     Os sonhos e as fantasias são necessários. Infelizes aqueles que não podem ou não conseguem sonhar, que não conseguem olhar para as estrelas - para além delas. Os livros e o cinema proporcionam tudo isso sem que seja preciso sair do lugar. Afinal, como na letra do tema do filme "Com 007 só se vive duas vezes"** (gravado por Nancy Sinatra), em se tratando de vida, temos apenas duas: uma para nós mesmos, e outra para os nossos sonhos.

     Poucos dias depois de ter dado o filme à Dona H., fiquei sabendo que seus netos e netas adolescentes estiveram em sua casa, e lá ficaram conhecendo - além do Rossano Brazzi - a cidade de Veneza... onde a Dna. H. revendo a cidade e a sua história de amor, em duas semanas, já esteve por pelo menos três vezes (sem ter deixado a poltrona de sua sala de estar).

("Terrace cafe in Venice" - fonte: http://www.book530.com/painting/160480/Terrace-Cafe-in-Venice.html)


- * "Você vive somente duas vezes: uma vida para você mesmo, e outra para os seus sonhos"
- **"Com 007 só se vive duas vezes" - Reino Unido, 1967 - Dir. Lewis Gilbert. Música tema "You only live twice", escrita por Leslie Bricusse e John Barry.