terça-feira, 16 de dezembro de 2014

JUNK (Velharias)


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("Junk" - Paul McCartney, 1970)

     Assim que entrei em casa no começo da noite recebi uma mensagem da Denise, via whatsapp, me avisando que ia se atrasar para o jantar.

     Fui até a sacada do apartamento e, do oitavo andar, olhei a cidade viva e reluzente com as luzes de Natal. Desci pelas escadas e, caminhando devagar, tomei o rumo das ruas do centro. Queria ver a celebração da alegria nessas semanas que antecedem o Natal; ver as pessoas caminhando, viajar nas suas histórias pessoais contadas pela expressão de seus olhares e pelas rugas em suas faces.

     Nas lojas os anúncios luminosos enfeitavam a noite e faziam convites insistentes para a compra de aparelhos de som, ipods, iphones, geladeiras, televisores, computadores, impressoras, e tudo o que se pode imaginar. Os casais, as crianças, as famílias, entravam nas lojas, examinavam os produtos em oferta, conversavam, observavam, ficavam pensando... 

     Entrei também em uma delas. Era uma grande loja de computadores. Porém não consegui enxergar nada do que estava exposto. A loja havia se transformado no quartinho de despejo do fundo do quintal de minha casa de menino, onde ficavam amontoadas e empoeiradas as velharias da família - um arquivo de madeira, pilhas de jornal, revistas de esporte, coleções de gibis, jogos de botão, uma pequena árvore de Natal, pinceis de pintura, cadernos e livros escolares, carrinhos de corda, uma caixa de engraxate, um violão quebrado, um quadriciclo de latão vermelho que imitava um jipe, um autorama desmontado, uma bicicleta sem corrente, uma vitrola, discos de vinil... e o cheiro de coisa antiga. 

     Sem querer eu estava remexendo nessas coisas guardadas na memória, pelo simples prazer de reviver o que cada uma delas, um dia, representou para mim... 

(Em casa, 1962 - foto: arq. de família)

     Abandonados naquele quartinho de despejo, cada um daqueles objetos me completava a cada vez que eu os visitava. Mesmo depois de crescido, a simples lembrança  de que eles permaneciam lá amontoados fazia bater forte o meu coração.

     E ali, naquela hora, naquela loja, enquanto os aparelhos modernos gritavam "compre, compre, compre", eu só conseguia ouvir as coisas empoeiradas me perguntando tristemente:

     - "Why? Why? Why"? (por que? por que? por que?)

     Hoje, no quartinho de despejo, aqueles objetos já não estão mais. Contudo, imaterializados, permanecem na minha lembrança.

     Foi então que uma vendedora aproximou-se de mim, mostrou seu sorriso treinado, e me perguntou:

     - O senhor já fez o seu pedido para o Papai Noel?

     E eu, que já me dirigia para a porta de saída, parei para lhe responder com toda franqueza e seriedade:

     - Já sim. Mandei um recadinho ao meu amigo invisível pedindo um pequeno aspirador de pó. 

     E completei:

     - Estou precisando limpar uma porção de coisas que enchem de alegria o meu coração.

     Percebi que ela ficou calada e séria ao ouvir minhas palavras. Envergonhado e sem jeito por ter apagado do seu rosto aquele sorriso, tomei o rumo da porta de saída. Já com os pés na calçada olhei para trás e pude vê-la acenar com os braços, sorrindo um outro sorriso e me dizendo com naturalidade:

     - "Feliz Natal!!"     


Junk

Motor cars, handle bars
Bicycles for two
Broken hearted jubilee

Parachutes, army boots
Sleeping bags for two
Sentimental jamboree

Buy buy
Says the sign in the shop window
Why why
Says the junk in the yard

Candlesticks, building bricks
Some old and new
Memories for you and me

Buy buy
Says the sign in the shop window
Why why
Says the junk in the yard

Velharias

Automóveis, guidões
Bicicletas para dois
Alegria de um coração partido

Paraquedas, botas de soldados
Sacos de dormir para dois
Celebração sentimental

Compre, compre
Diz a placa na janela da loja
Por quê, por quê?
Dizem as velharias no quintal

Castiçais, tijolos
Alguns velhos, outros novos
Lembranças para você e para mim

Compre, compre
Diz a placa na janela da loja
Por quê, por quê?
Dizem as velharias no quintal



 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"POIS É, PRÁ QUÊ?"


(CLIQUE PARA OUVIR)


     Quando ouço "Pois é, prá quê?", fico com a impressão de estar passivamente folheando um jornal. A letra traz cenas do cotidiano e inquietações humanas que de tão comuns, apesar de intensas, não pintando novos quadros, mantêm vivos aqueles que me foram pintados décadas atrás. Passa o tempo, são desenvolvidas novas tecnologias, mas o homem continua o mesmo - eu continuo o mesmo. E isso me deixa triste.

     No entanto, de alguma forma essa música mexe comigo. 

     Quando a ouço na interpretação do MPB-4 sinto um aperto no peito que não sei descrever. Talvez seja pela sensação de angústia, de descaso, de conformismo que o MPB-4 consegue transmitir em cada estrofe. Pois tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que a vida vai passando e o desejo de transformar vai ficando adormecido. Essa indiferença, aliada à luta acomodada na "revolta latente" é o que incomoda.

     Quando ouço "Pois é, prá quê?" me lembro do seu autor - o Sidney Miller - e da sua história. Eu ainda era menino. Ele surgiu como compositor envolvido com festivais; compôs trilhas sonoras para peças teatrais e cinema. Lembro-me também - e especialmente - dos paralelos que foram traçados entre ele e o Chico Buarque no início da carreira de ambos. 

     Ouço a música e me entrego à "revolta latente" estampada nos primeiros anos de compositor do seu autor; termino por assistir, ressentido, a descrença por ele assumida no final de sua vida.

(Sidney Miller - fonte: http://www.famososquepartiram.com/2012/09/sidney-miller.html)

     Tudo isso vai se diluindo nos fluidos do meu pensamento à medida que, entrando pelo meu coração, a música me consome por inteiro e se desvanece...  na fumaça de um cigarro que não fumo.



"Pois é, Pra Quê?"



O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, prá que?



O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, prá que?



Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, prá que?



A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, prá que?



O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Prá ninguém saber
De outra flor
Que tortura...



No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Prá andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter prá onde
Pois é, prá que?
Pois é, prá que?
Pois é!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"CIAO AMORE CIAO"


(CLIQUE PARA OUVIR)

Non saper fare niente
in un mondo che sa tutto
(Tenco)

     A voz grave, determinada e forte do cantor que interpreta "ciao amore ciao" faz dessa música uma de minhas favoritas. Mas por muitos anos eu a ouvi e cantarolei sem conhecer sua letra e autoria.

     Foi recentemente que, montando uma coletânea de músicas italianas, cheguei ao autor e à sua história. Luigi Tenco, italiano, compôs "ciao amore ciao" para concorrer no festival de San Remo de 1967. Nele, ele e  Dalida - cantora de origem egípcia - a interpretaram.

(Luigi Tenco - fonte: http://meakultura.pl/publikacje/smierc-w-sanremo-luigi-tenco-i-ciao-amore-ciao-796)

     A música não foi classificada para as finais do festival - o qual teve como vencedora "Non pensare a me", com Claudio Villa e Iva Zanicchi.

     Em "Ciao amore ciao" Tenco nos fala de alguém que vive no campo, cuidando da terra, da plantação e da colheita.

Il grano da crescere, (o grão para crescer) 
I campi da arare (os campos para arar) 

("Homem com enxada" - Jean-François Millet, 1840 - fonte: http://www.estudosdotrabalho.org/RevistaRET06.htm)

     Que, em cada um dos dias vividos lá, a vida se resume em olhar o ceu para tentar saber se vai chover ou fazer sol,...

Guardare ogni giorno,  (olhar cada dia)
se piove o c'è il sole (se chove ou faz sol)  

... pois as condições do tempo determinam se se vai viver ou morrer.

Per saber se domani (para saber se amanhã)
si vive o si muore (se vive ou se morre)

     E um dia, atormentado com essa angústia, esse homem do campo resolve dar um basta e ir em busca de uma outra realidade.

E un bel giorno dire basta, (e um belo dia dizer basta)
e andare via (e ir embora)

     Por imperiosa necessidade de mudar, ou por simples desejo de atender suas fantasias, ele vai embora. Caminha por mil estradas; desconhece tudo.

E poi mille estrade, (e depois de mil estradas)
grigie comme el fumo (cinzentas como a fumaça)

     O que encontra é um mundo de luzes para o qual se sente despreparado. Vem-lhe o vazio.

en um mondo di luci (em um mundo de luzes)
sentirsi nessuno (sentir-se ninguém)

     Nessa busca ele percebe todas as mudanças que ocorreram em um só dia,... 

Saltare cent'anni (saltar cem anos)
in un giorno solo (em um só dia)

... desde os meios de locomoção no campo, até aos aviões no céu.

Dai carri dei campi, (das carroças dos campos)
agli aeri nel cielo (aos aviões no céu)

     Percebendo essa transformação abrupta ele se sente perdido; sente que não é ninguém e que nada sabe fazer... em um mundo que sabe tudo.

Non saper fare niente, (não saber fazer nada)
in un mondo che sa tutto (em um mundo que sabe tudo)

("Homem carregando uma pá em um subúrbio de Paris" - Van Gogh, 1887 - FONTE: http://www.wikiart.org/en/vincent-van-gogh/man-with-spade-in-a-suburb-of-paris-1887)

     Se analisarmos atentamente essa letra, até aqui, vemos que ela fala muito da realidade de todos nós. Ela mostra o sentimento de insignificância que temos em relação às coisas que rotineiramente fazemos; mostra a sensação de vazio e impotência que com frequência sentimos, além de nos mostrar, também, os movimentos que desenvolvemos em busca de novos estímulos. 

     Porém os novos caminhos que nos aparecem, em geral e à princípio, pela insegurança que representam, nos metem medo. E o primeiro impulso costuma ser o de abandonarmos as novas ideias e retornarmos ao estado de comodidade.


     E isso, precisamente, o autor colocou na letra da música: a vontade inicial de voltar para o estado anterior; para um estilo de vida que pretendia abandonar.

e aver voglia di tornare da te (e ter vontade de voltar para ti)

     O autor diz que as condições financeiras daquele homem do campo são o primeiro obstáculo que ele encontra para poder retornar - pois nem para isso tinha dinheiro.

e non avere un soldo, (e não ter dinheiro)
nemmeno per tornare (nem mesmo para voltar)

     Ao que me parece, o que deve ter ficado por trás de tudo foi a autoestima daquele homem - que, tudo indica, não suportaria assumir seu fracasso.

     Por fim, abalado com a constatação de sua realidade e de seu orgulho, ele se despede. Primeiro, da vida que havia ficado para trás....

Ciao amore ciao...

... para depois, em fusão de realidade com ficção - que ora faço -, despedir-se das ilusões e da própria vida.

Ciao amore ciao.

     Na mesma noite em que recebeu a notícia de desclassificação de sua música Tenco foi encontrado no hotel onde estava hospedado. Tinha 28 anos de idade. Estava morto. As investigações concluíram por suicídio.

     Foi-se o autor; ficou a sua voz nos discos e gravações que fez; ficou a belíssima música desclassificada... que nasceu no coração de um jovem poeta que não deu tempo para que o tempo pudesse lhe mostrar que sua música havia nascido para se tornar um grande clássico da música popular italiana.

     Se pensarmos na história do Luigi Tenco e de sua música, vamos ver nela descritas as muitas lutas que travamos no curso de nossos dias. E vamos então compreender que fracassos e desilusões fazem parte delas, mas que não podem ser considerados fatores determinantes de nossa vida ou morte. Para isso necessitamos de equilíbrio e maturidade para aprender, superar e prosseguir, aceitando os desacertos como possibilidades de aprendizado. Não há nada mais sensato que o tempo para avaliar nossos feitos.


Ciao Amore Ciao

La solita strada, bianca come il sale
Il grano da crescere, I campi da arare
Guardare ogni giorno
Se piove o c'è il sole
Per saper se domani
Si vive o si muore
E un bel giorno dire basta e andare via
Ciao amore
Ciao amore, ciao amore ciao
Andare via lontano
A cercare un altro mondo
Dire adio al cortile
Andarsene sognando
E poi mille strade
Grigie come il fumo
In un mondo di luci
Sentirsi nessuno
Saltare cent'anni
In un giorno solo
Dai carri dei campi
Agli aeri nel cielo
E non capirci niente
E aver voglia di tornare da te
Ciao amore
Ciao amore, ciao amore ciao
Non saper fare niente
In un mondo che sa tutto
E non avere un soldo
Nemmeno per tornare
Ciao amore
Ciao amore, ciao amore ciao
Ciao amore
Ciao amore, ciao amore ciao
Tchau Amor, Tchau

A sólita estrada branca como o sal,
O grão para crescer os campos para arar.
Olhar cada dia
Se chove ou faz sol,
Para saber se amanhã
Se vive ou se morre.
E um belo dia dizer basta... E ir embora.
Tchau amor,
Tchau amor, tchau amor tchau.
Ir embora, longe
Buscar um outro mundo,
Dizer adeus ao pátio
Se ir embora sonhando.
E após mil estradas
Cinzentas como a fumaça,
Num mundo de luzes
Sentir-se ninguém.
Saltar cem anos
Num só dia,
Dos carros nos campos
Aos aviões no céu.
E não entender nada
E ter vontade de voltar para ti.
Tchau amor,
Tchau amor, tchau amor tchau.
Não saber fazer nada
Num mundo que sabe tudo,
E não ter um dinheiro
Nem mesmo para voltar.
Tchau amor,
Tchau amor, tchau amor tchau.
Tchau amor,
Tchau amor, tchau amor tchau.