quinta-feira, 26 de abril de 2012

DJANGO E A CONDESSA DE HONG KONG

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
("Django")
     No ano de 1967 foi exibido no único cinema de Guará um filme que marcou época. Um baita faroeste: "Django" [1]. O filme trazia a história de um homem que queria vingar a morte de sua amada. Na expectativa de encontrar os assassinos para cumprir o seu propósito, ele vagava pelos vilarejos arrastando um caixão, dentro do qual – isso só se descobre no final - carregava uma metralhadora. Para os meninos da minha idade de então o bom era ver o tiroteio na tela. De bom também havia a música-tema do filme [2], que combinava perfeitamente com a ideia de vingança.

     Eu e meus amigos gostávamos de nos reunir nos intervalos das aulas do ginásio ou a qualquer tempo nos bancos da praça, para comentar as cenas do filme e falar da música-tema. Nas festas de aniversário daquele ano e nas rodinhas de amigos o assunto era um só: “Django”.

 django.jpg
(Fonte:  http://lounge.obviousmag.org/distracao_planejada/2012/09/breve-historia-filmes-westen.html)

     Em uma dessas festas alguém apareceu com um compacto [3] da música-tema gravada em italiano na voz de Roberto Fia. A partir daí só dava “Django” na vitrola. Quando os convidados começaram a abrir espaço na sala para poderem dançar, a expectativa era uma só: “quem vai dançar com quem?” O simples fato de dançar com alguém naquela época já significava a existência de algum compromisso amoroso, que serviria de tema para outras rodas de conversa.

     Formados os pares no meio da sala, eu, tímido, me encolhi em um canto. Em um determinado momento fechou-se uma roda ao meu redor , na tentativa de me arrastarem para a dança. Ao mesmo tempo vi que um grupo de meninas formava uma outra roda em torno de uma de minhas amigas, na tentativa de que conseguissem fazer com que eu e ela dançássemos juntos. E foi uma confusão danada ao som dos tiros gravados em "Django" no vinil.

     Deu que resisti. Deu que ela resistiu. Não dançamos juntos.

     Me arrependi. Ainda hoje me arrependo daquele vexame.

     Muito provavelmente ninguém mais se recorda disso. O tempo passou. Claro, é coisa só minha. Além da saudade que sinto, fico envergonhado ao me lembrar daquela noite. Quando penso na confusão toda no meio da sala, minha vontade continua sendo de pedir desculpas a todos os que estiveram naquela festa. Em especial, ainda sinto vontade de pedir desculpas à minha amiga.

     No final da festa, depois do bolo, de pé ao lado da vitrola, um tio da aniversariante veio conversar comigo. Falando baixinho ele me disse para que eu não ficasse chateado; que um dia eu iria me lembrar com saudade daquela noite.

     Percebendo naquele momento o meu desconsolo pelo vexame que eu havia dado, ele pacientemente virou o disco, colocou a mão no meu ombro e me falou olhando para o infinito:

     - “Um dia você e ela vão sentir vontade de dançar juntinhos sem que ninguém os incomode..."

     E, com a sala vazia, pôs para tocar “Cara Felicita” - Lado “B” do disco do “Django”.

("Cara Felicitá", Petula Clark - Bertini / C. Chaplin - 1967) 

___________________________
[1] “Django” – ITA/ESP, 1966. Dir.: Sergio Corbucci
[2] “Django”, de Luis Bacalov – Roberto Fia (ver. Italiano)
[3] Compacto – disco em vinil, em geral com duas músicas: uma de cada lado
[4] “Cara felicita” -  tema do filme “A Condessa de Hong Kong” (dir. Charlie Chaplin, 1967) 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

UMA TURMA LEGAL - "N'est ce pas ?"

Passeando pelo Facebook vejo fotos antigas postadas pelo meu amigo Luis Fernando - o “Rando”. Ao ver as fotos e, nelas retratadas, grandes amigos de uma vida toda, lembrei-me de um poema sobre fotos antigas que li em um livro de Francês (referência abaixo). Transcrevi aqui no blog a versão desse poema no texto “Três mangas e dois álbuns de fotos”, postado há mais de um ano. Republico hoje o mesmo poema com o texto em francês, conforme está no livro.
Relendo o poema homenageio o Prof. Sebastião, minhas primeiras aulas de Francês com ele no “Rondon”, e uma turma muito legal eternizada na foto abaixo. Afinal, uma foto aprisionada em um álbum não serve p’rá nada. É puro egoísmo de quem o faz. O verdadeiro sentido da materialização da imagem é o de poder revê-la, sentir vontade de compartilhá-la e, efetivamente, compartilhar. Eis aqui, então, “a turma bem legal”. Lembro-me de todos! - e abraço cada um com o mesmo carinho de sempre.
 ("Festa de Aniversário" - arq. pessoal)
Bien coiffés, bien vêtus,
Ils regardaient droit devant eux,
Conscients de poser pour l’éternité...
...Un instant leurs rêves s’arrêtaient,
Se fixaient, sur le mystère d’un appareil

Et sur l’homme-magicien.

Puis ils s’échappaient, s’envolaient

À nouveau vers cet avenir dont um jour

Il ne resterait que cet instant arrêté,

Cette photo jaunie...
(texto extraído do Livro “Archipel – Française Langue Étrangère – Livre 2” Helène Gauvenet et Marc Argaud – a tradução deste texto está em “Três mangas e dois álbuns de fotos”. Para lê-la, é só clicar:  http://eliasguara.blogspot.com.br/2011/02/tres-mangas-e-dois-albuns-de-fotos.html

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O BANCO DE TRÁS DO MEU CARRO





(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("C'est la vie" - Emerson, Lake & Palmer)

"C'est la vie"
Pelo retrovisor do meu carro vejo o mundo que vai passando: árvores, casas, semáforos, motocicletas... coisas e pessoas que vão ficando para trás, perdendo-se no tempo, encontrando morada no meu coração.
("Olhando pelo retrovisor" - 04abr2012 - arq. pessoal) 

Houve um tempo em que eu olhava pelo retrovisor para seguir em frente, e apenas cuidava para que os veículos pudessem se aproximar com segurança.

Depois meus olhos passaram a ser exclusivos para o banco de passageiro.

Mais tarde nossos olhares passaram a olhar pelo retrovisor... Riamos dos risos, das perguntas e da admiração que vinham das vidas que estavam lá, no banco de trás do meu carro.

("No banco de trás" - nov1991 - arq. pessoal)

No banco de trás o futuro um dia ia chegar: festas, amigos, bicicleta, intercâmbio de estudos, universidade, carro... um mundo novo pulsando forte.

Paro o carro.

Olho pelo retrovisor sem me atentar para os veículos que se aproximam. No banco de trás viaja o que, materialmente, ali está: uma caixa velha de papelão, um chapéu Panamá que ganhei em um Natal, uma garrafa de plástico vazia, e um jornal que trás notícias pelas quais não me interesso.

“Dou seta” e, sorrindo feliz pelo futuro que chegou, reinicio o movimento do carro.

Com o futuro presente, cheio de alegrias, tropeços e descobertas que viviam contidas nas expectativas daquilo que poderia brotar do banco de trás do meu carro, sigo em frente... e carrego no meu coração três sorrisos carinhosos e gostosos que estão sempre comigo, que me dão alento, e que estão nos bancos de passageiro e de trás do meu carro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

LEMBRANDO MOMS MABLEY (1894/1975)

(Martin Luther King -  "I have a dream" - Washington, 28 agosto 1963 - fonte youtube)

Acabo de ler uma mensagem lembrando os 44 anos da morte do ativista político negro norte-americano Martin Luther King (15/01/1929 - 04/04/1968). De uma manifestação sua, conhecidíssima, na qual expressou seus sonhos de igualdade nos direitos civis – “I have a dream” – foram inspirados os lemas da campanha política do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Essa lembrança me remete de imediato a Moms Mabley (nascida Loretta Mary Aiken), comediante e cantora negra também norte-americana. Pouco conheci ou li a seu respeito. Contudo, uma das gravações que ela fez me acompanha desde o seu lançamento, em 1969, até os dias de hoje: “Abraham, Martin and John”, composta por Dick Holler. Quando converso com meu amigo Abrahão ao telefone, forjando um forte sotaque norte-americano, exclamo de imediato: “Abraham!” – e ele sabe que me refiro a Moms Mabley. Nessa música o autor homenageia três grandes líderes norte-americanos - todos eles assassinados: Abraham Lincoln, Martin Luther King, e John Kennedy – e ainda faz referência a Bob Kennedy. MM era, especialmente, comediante. Se relacionarmos a luta dos negros pelos direitos civis nos Estados Unidos com a voz negra e trêmula da MM, podemos compreender a distância emocional entre o riso - na MM comediante -, e a sensação de desamparo de quem perdeu seus defensores - no canto da MM negra. Ouça a música...

("Abraham, Martin and John" - Moms Mabley, 1969)