quinta-feira, 26 de abril de 2012

DJANGO E A CONDESSA DE HONG KONG

("Django")
No ano de 1967 foi exibido no único cinema da minha cidade um filme que marcou época. Um faroeste dos bons: “Django” (dir. Sergio Corbucci, 1966). O filme trazia a história de um pistoleiro que queria vingar a morte de sua amada. Na expectativa de encontrar os assassinos para cumprir o seu propósito, ele vagava pelos vilarejos arrastando um caixão, dentro do qual – isso só se descobre no final - carregava uma metralhadora. Para os meninos da minha idade de então o bom era ver o tiroteio na tela. De bom também havia a música-tema do filme, combinando perfeitamente com a ideia de vingança.
     Minha turma gostava de se reunir nos intervalos das aulas da escola ou a qualquer tempo nos bancos do jardim, para comentar as cenas do filme e falar da música-tema. Nas festas de aniversário daquele ano e nas rodinhas de amigos o assunto era um só: “Django”.

 django.jpg
(Fonte:  http://lounge.obviousmag.org/distracao_planejada/2012/09/breve-historia-filmes-westen.html)

     Em uma das festas de uma das minhas amigas - época dos “bailinhos” - alguém da turma apareceu com um “compacto”* da música-tema gravada em italiano na voz de Roberto Fia. A partir daí só dava “Django” na vitrola.

     Nessa festa, quando os convidados começaram a abrir espaço na sala para o “bailinho”, a expectativa era uma só: “quem vai dançar com quem?” O simples fato de dançar com alguém naquela época já significava um compromisso bastante sério, que serviria como tema para outras rodas de conversa.

     Quando alguns amigos começaram a dançar, eu, tímido, fiquei “gelado” no meu canto. Observando. A certa altura fui fechado em uma roda pelos amigos, os quais me puxavam para o meio da sala. Ao mesmo tempo vi que um grupo de meninas formava uma roda em torno da minha amiga G., na tentativa de puxá-la também para o meio da sala: queriam que dançássemos juntos! E foi um bafafá danado! Puxa daqui, puxa dali, uma gritaria danada... E na vitrola “Django”, com os tiros do filme “correndo soltos” em nosso imaginário.

     Deu que resisti. Deu que ela resistiu. Não dançamos juntos. Me arrependi...  

     Muito provavelmente ninguém mais se recorda disso. O tempo passou. Mas, além das saudades que sinto, fico envergonhado ao me lembrar daquela noite. Quando penso no “rolo” todo no meio da sala, minha vontade continua sendo de pedir desculpas a todos os que estiveram naquela festa... e à minha amiga G., principalmente - onde quer que ela esteja.

     No final da festa, depois do bolo, de pé ao lado da vitrola, um tio da aniversariante veio conversar comigo. Falando baixinho ele me disse para que eu não ficasse chateado; que um dia eu iria me lembrar com saudades daquela noite.

     Percebendo naquele momento o meu desconsolo pelo vexame que eu havia dado, ele pacientemente virou o disco, colocou a mão no meu ombro e me falou olhando para o infinito:

     - “Um dia vocês vão sentir vontade de dançar juntinhos sem que ninguém os incomode...”

     E, com a sala vazia, pôs para tocar “Cara Felicitá”, tema do filme “A Condessa de Hong Kong” (dir. Charlie Chaplin, 1967) - Lado “B” do disco do “Django”.



("Cara Felicitá", Petula Clark - Bertini / C. Chaplin - 1967) 


*compacto = disco de vinil pequeno gravado em ambos os lados, “A” e “B”, em geral com apenas uma faixa em cada um deles (obs.: “caraca, nunca pensei que chegaria o tempo de precisar explicar isso...”)

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