quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

YOANI SANCHEZ NO BRASIL


("Entrevista no 'Estadão' - em 21/fev/13)

                            "Vivo en una sociedade donde la opinión es considerada traición"
                                                                       (Yoani Sanchez)


Assisti, pela internet, uma entrevista com a blogueira cubana Yoani Sanchez. Vi na tela uma moça simpática e inteligente falando de Cuba - o país onde nasceu e onde vive. Falou dos problemas de sua gente, de seu governo e de seu universo pessoal: falou, questionou e opinou. 

Sua fala deixou claro o compromisso que temos todos nós: o de externarmos destemidamente nossa visão crítica relativa a tudo o que nos aflige - isso se quisermos sair da apatia e construir um mundo melhor. 

Independentemente de qualquer posicionamento político, somente a bravura da Yoani em expor na midia o mundo, pelos seus olhos, pelo simples direito de opinar, já me fez levantar e aplaudi-la com emoção. 

Ficou, contudo, da entrevista, uma pergunta para resposta futura: depois que ela tiver rodado o mundo todo, falando com leveza e espontaneidade a respeito de temas tão difíceis relativos ao seu país, ao regressar, como será recebida pelo governo cubano ?  

  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

CANTO DE LOUVOR A DOIS HOMENS QUE TRABALHAM


(CLIQUE PARA OUVIR)
(Toquinho e Vinícius - "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Vinícius e Carlos Lyra)


                                                                         "E no entanto é preciso cantar
                                                                         mais que nunca é preciso cantar
                                                                         é preciso cantar e alegrar a cidade"
                                                                         (Vinícius/Carlos Lyra)


Dois homens se ajoelham na calçada. Invisíveis para as pessoas que passam, estão totalmente incompatíveis com o fluxo de veículos pela rua. Um deles é jovem e aparenta uns 20 anos; o outro, um senhor com ares de pai. Cada um deles tem nas mãos um martelo e um cinzel. Eles quebram pedras para refazer o calçamento. O aparecimento desses dois homens na frente do meu carro, ajoelhados e indiferentes a tudo ao seu redor, atrapalhou minha entrada automática no estacionamento hoje de manhã.  

Buzinei. 

Sem terem direcionado o olhar para o lado de onde eu vinha, eles se levantaram e mostraram o espaço por onde eu deveria passar. Entrei, e os esqueci.

Olhando agora, no final da tarde, pela minha janela, notei lá fora os dois homens. Passei a observar o trabalho que faziam e senti-me inconsolavelmente desconfortável por tê-los visto como incômodo à minha passagem quando cheguei

Ajoelhados no chão eles não sorriem, não se olham, não conversam. Sob o sol, suados, batem o martelo nas pedras. O barulho é monótono, descompassado, sem nenhuma combinação harmônica. 

Aqueles homens passam assim grande parte do dia. Mas certamente não é assim que se postam o dia todo, todos os dias. Eles simplesmente fazem o seu trabalho, e ganham o seu "pão".  

Fico imaginando como teriam sido seus quatro dias anteriores, sentados no conforto de suas casas, comentando as imagens dos desfiles de carnaval vistos em algum televisor: o senhor de mais idade com sua esposa relembrando carnavais passados, e o rapaz, com uma jovenzinha ao seu lado, embalando suas fantasias de amor.

Mas o carnaval acabou. Passaram as imagens e foram-se os sorrisos programados nas telas. 

Olhando daqui da minha janela, não enxergo como estorvo aqueles dois homens. Na verdade, eu os admiro. Gosto de ver seu trabalho, a beleza de construir, montar, harmonizar o posicionamento de pedras, possibilitar, no chão, um visual estético e harmônico - mesmo em condições adversas de calor, movimento, ruído, buzinadas e caras feias.

Muitos pés e muitos pneus passarão por cima das pedras esteticamente colocadas. Alguns observarão os desenhos que formam; outros, assim como os pneus dos carros, simplesmente passarão por cima. Mas em mim, de uma certa forma, uma transformação se operou: ao passar pela calçada para entrar no estacionamento, não terei mais como não me lembrar de que aquelas pedras foram colocadas ali pelas mãos de dois homens, um jovem e um senhor, que derramaram na calçada o seu suor... numa quarta-feira de cinzas. 

("Muitos pés e muitos pneus passarão por cima das pedras esteticamente colocadas" - fonte: blog.amarportugal.com.pt)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

MARIO QUINTANA: O QUARTO DO POETA

     
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Baden Powell - "Rosa", de Pixinguinha e Otávio Souza)


     Saí uma tarde pelas ruas de Porto Alegre e fui conhecer "a casa" do poeta Mario Quintana. Solitário, não se casou, não teve filhos. Viveu grande parte da vida em hotéis. Um deles - o Majestic - tornou-se patrimônio histórico. Adaptado, transformou-se no "Centro Cultural Mario Quintana". Ali, no quarto 217, o poeta viveu de 1968 a 1980.  

("A Casa de Cultura Mario Quintana" - fonte: pt.wikipedia.org)


     O prédio do Hotel Majestic, com passarelas suspensas sobre a via pública, foi considerado muito ousado para a cidade quando sua construção foi concluída nos anos 30. É muito interessante chegar ali: a sensação que me veio foi de estar entrando em uma grande galeria a ceu aberto, margeado por uma construção povoada por políticos e artistas que em outros tempos ali se hospedaram: Getúlio Vargas, João Goulart, Vicente Celestino... 


(Lígia e eu na entrada do Centro Cultural MQ - fonte: arq. pessoal)


     Logo no hall de entrada há uma miniatura do poeta com um convite talhado em pedra: 

     "Olá, sejam bem-vindos. Visitem meu quarto no 2º andar de minha casa" - diz o convite.  


(Hall de entrada, Casa de Cultura MQ, convite para visitá-lo - foto: arq. pessoal)
     
 
     Subi pelo elevador e fui ao 217. De uma antessala, por uma parede de vidro que o protege, passei os olhos pelo quarto: um pequeno cômodo escuro mobiliado com cama de solteiro, poltrona, abajures e escrivaninha. Pelas paredes e sobre os móveis estão alguns posteres, livros e uma máquina de escrever. Tudo muito simples, tudo muito rico em afetividade... Senti vontade de entrar, de me sentar na poltrona, deslizar a mão sobre os objetos, ficar quieto, ficar olhando, pensando...


 ("O quarto 217 do Majestic: o quarto do poeta" - foto: arq. pessoal)
 

     "Não precisamos de muita coisa", disse-me em mensagem o quarto.

     Contam (1) que, uma vez, o poeta assim se expressou a respeito de sua moradia:

     "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder minhas coisas".

     Saí dali em silêncio, remontando frases do quarto descrito pelo próprio poeta em um dos seus livros (2):

"Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o ceu! Imensamente perto, 
o ceu que me descansa como um seio.

Pois só o ceu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um ceu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim..."

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(1)  assisbrasil.org/joao/quintana.htm
(2) "Este quarto", do livro de poemas "Apontamentos de História Sobrenatural" (1976)