quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

CANTO DE LOUVOR A DOIS HOMENS QUE TRABALHAM


(CLIQUE PARA OUVIR)
(Toquinho e Vinícius - "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas", de Vinícius e Carlos Lyra)


                                                                         "E no entanto é preciso cantar
                                                                         mais que nunca é preciso cantar
                                                                         é preciso cantar e alegrar a cidade"
                                                                         (Vinícius/Carlos Lyra)


Dois homens se ajoelham na calçada. Invisíveis para as pessoas que passam, estão totalmente incompatíveis com o fluxo de veículos pela rua. Um deles é jovem e aparenta uns 20 anos; o outro, um senhor com ares de pai. Cada um deles tem nas mãos um martelo e um cinzel. Eles quebram pedras para refazer o calçamento. O aparecimento desses dois homens na frente do meu carro, ajoelhados e indiferentes a tudo ao seu redor, atrapalhou minha entrada automática no estacionamento hoje de manhã.  

Buzinei. 

Sem terem direcionado o olhar para o lado de onde eu vinha, eles se levantaram e mostraram o espaço por onde eu deveria passar. Entrei, e os esqueci.

Olhando agora, no final da tarde, pela minha janela, notei lá fora os dois homens. Passei a observar o trabalho que faziam e senti-me inconsolavelmente desconfortável por tê-los visto como incômodo à minha passagem quando cheguei

Ajoelhados no chão eles não sorriem, não se olham, não conversam. Sob o sol, suados, batem o martelo nas pedras. O barulho é monótono, descompassado, sem nenhuma combinação harmônica. 

Aqueles homens passam assim grande parte do dia. Mas certamente não é assim que se postam o dia todo, todos os dias. Eles simplesmente fazem o seu trabalho, e ganham o seu "pão".  

Fico imaginando como teriam sido seus quatro dias anteriores, sentados no conforto de suas casas, comentando as imagens dos desfiles de carnaval vistos em algum televisor: o senhor de mais idade com sua esposa relembrando carnavais passados, e o rapaz, com uma jovenzinha ao seu lado, embalando suas fantasias de amor.

Mas o carnaval acabou. Passaram as imagens e foram-se os sorrisos programados nas telas. 

Olhando daqui da minha janela, não enxergo como estorvo aqueles dois homens. Na verdade, eu os admiro. Gosto de ver seu trabalho, a beleza de construir, montar, harmonizar o posicionamento de pedras, possibilitar, no chão, um visual estético e harmônico - mesmo em condições adversas de calor, movimento, ruído, buzinadas e caras feias.

Muitos pés e muitos pneus passarão por cima das pedras esteticamente colocadas. Alguns observarão os desenhos que formam; outros, assim como os pneus dos carros, simplesmente passarão por cima. Mas em mim, de uma certa forma, uma transformação se operou: ao passar pela calçada para entrar no estacionamento, não terei mais como não me lembrar de que aquelas pedras foram colocadas ali pelas mãos de dois homens, um jovem e um senhor, que derramaram na calçada o seu suor... numa quarta-feira de cinzas. 

("Muitos pés e muitos pneus passarão por cima das pedras esteticamente colocadas" - fonte: blog.amarportugal.com.pt)

Um comentário:

  1. O texto é ótimo!
    Sua sensibilidade é ímpar.
    Nos dias de hoje, dificilmente encontramos pessoas como você.
    Parabéns!

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