quarta-feira, 13 de julho de 2016

MERCEDES SOSA - SÃO PAULO, OUTUBRO DE 2007



(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
E PARA ASSISTIR EM SEGUIDA - letra no final)

(Mercedes Sosa - "Todo cambia", de Julio Numhauser - chileno)


"Tantas veces me mataron,
tantas veces me mori
Sin embargo estoy aqui
resucitando"
(da letra de "Como la cigarra"*)



     Há uns oito ou dez anos, por aí, vi a notícia de que a Mercedes Sosa viria a São Paulo para um show no "Via Funchal". Como as músicas por ela gravadas, assim como as gravadas pelo Chico Buarque, pela Billie Holiday, e pelo John Lennon fizeram parte do despertar dos meus valores, convidei meu sobrinho para juntos irmos vê-la. A oportunidade era única. Providenciei o ingresso, peguei um ônibus, e depois de 300 quilômetros de estrada, com meu sobrinho, saímos para o show.

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(Mercedes Sosa - fonte: http://www.substantivoplural.com.br/mercedes-sosa-naquela-tarde/)


     Em um auditório enorme, lotado, amparada por duas pessoas e ainda apoiando-se em uma bengala, “La Negra”** entrou no palco. Sentou-se, sorriu, e abriu sua apresentação com “Como la cigarra” - uma música que fala de solidariedade e renascimento - do renascimento que ela parecia experimentar a cada vez que começava a cantar.

(Ingresso para o show - foto: arq. pessoal)

     Apesar das limitações físicas, a voz era a mesma que me havia ensinado a admirá-la. Na força e na docilidade de seu canto ainda estavam presentes, ideologicamente, uma arma para lutar pela vida e um ramalhete de flores para agradecer por tudo. A medida que as músicas iam sendo apresentadas eu cantava mentalmente com ela tudo o que conhecia: "Gracias a la vida", "Todo Cambia", "Ay este azul", "Alfonsina y el mar", "Solo le pido a Dios"... e muitas, muitas outras. Foram duas horas inesquecíveis.

     No ano seguinte àquele show ela foi embora. Partiu para sempre. Ficaram a voz, a lembrança daquela noite, e as lições de solidariedade e beleza contidas nas letras das músicas por ela gravadas... e que eu costumava ouvir sob uma luz minguada de uma república de estudantes, no final dos anos 70.


Todo Cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo


Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante


Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia


Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera


Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño


Pero no cambia mi amor
Por más lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente


Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana


Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia
Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

Tudo Muda

Muda o superficial
Muda também o profundo
Muda o modo de pensar
Muda tudo neste mundo


Muda o clima com os anos
Muda o pastor e seu rebanho
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda o mais fino brilhante
De mão em mão seu brilho
Muda o ninho o pássaro
Muda a sensação de um amante


Muda o rumo o andarilho
Ainda que isto lhe cause dano
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda


Muda o sol em sua corrida
Quando a noite o substitui
Muda a planta e se veste
De verde na primavera


Muda a pelagem a fera
Muda o cabelo o ancião
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho


Mas não muda meu amor
Por mais distante que eu me encontre
Nem a recordação nem a dor
De meu povo e de minha gente


O que mudou ontem
Terá que mudar amanhã
Assim como eu mudo
Nesta terra tão longínqua


Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Mas não muda meu amor...



________________________________  
*"Como la cigarra" (de Maria Elena Walsh - poetisa, musicista e escritora argentina): tantas vezes me mataram, tantas vezes me deixei morrer, no entanto estou aqui, renascendo.
**La Negra - apelido carinhoso dado à Mercedes Sosa.

8 comentários:

  1. Isso é um nascedouro borbulhante de emoção.
    Viva Mercedes viva!

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    1. Viva! E viver assim, emoção no peito, música na alma... "Luísa", "Teorema"... O belo produz transformações... e nosso país anda tão necessitado de beleza... Feliz por sua visita ao blog: obrigado.

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  2. Isso é um nascedouro borbulhante de emoção.
    Viva Mercedes viva!

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    1. Viva! E viver assim, emoção no peito, música na alma... "Luísa", "Teorema"... O belo produz transformações... e nosso país anda tão necessitado de beleza... Feliz por sua visita ao blog: obrigado.

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  3. Eu me lembro do show, de tudo, nós nos sentamos com alguns desconhecidos em uma mesa. Depois que ela começou a cantar as pessoas da mesa parece que tinham sumido. Você estava com cara de menino, ouviu uma, duas musicas, prestei atenção no palco, me virei pra comentar que ela era muito boa, o senhor tinha lágrimas nos olhos. Esse show foi lindo, tio!

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    1. Isso mesmo. E foi você que criou toda a estrutura para que desse certo nossa ída ao show. Fiquei mesmo, emocionado, durante todo o tempo que ele durou. E depois, paramos em algum lugar e enchemos a cara de chopp. Muito bom! Beijão.

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  4. Meu amigo Marcelino Medeiros compartilhou este seu belo texto. Mercedes era certamente uma voz potente, por tudo que cantava.

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    1. De fato, Saint-Clair. A voz da Mercedes Sosa era mesmo muito potente e - acrescento - carregada de emoção. Agradeça ao Marcelino por mim. Grande abraço.

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