terça-feira, 7 de janeiro de 2014

ESSAS CASAS ANTIGAS...


(CLIQUE PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Revendo o passado", 1933, de Freire Júnior - violão: Baden Powell)


"A casa não é mais a mesma,
a casa não é mais casa,
é um grande navio que vai singrando o tempo
 que  vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo (...)"
(Rubem Braga, em "A casa viaja no tempo") 


     Toda casa guarda em si a lembrança daqueles que nela moraram. Em especial, dos seus primeiros moradores. Duas janelas, um pequeno portão de entrada, um alpendre, um jardim, árvores no quintal... Essa casa antiga, que vi em uma avenida movimentada, foi um dia projetada na mente de seu construtor. E foi erguida para abrigar uma família - que com ela sonhou.

("Essas casas antigas..." - foto: arq. pessoal - nov/13)

     Duas pequenas aberturas evidenciam a existência de um porão onde residem os segredos da casa. Seu piso muito provavelmente de madeira com tábuas longas - outrora sintecadas -, se ainda mantido, manifesta vidas vividas em suas marcas e estralos... É uma casa alta, com detalhes trabalhados em sua fachada. 

     Em outros tempos, certamente, em uma de suas janelas alguém se debruçava. Ficava olhando brincar as crianças na calçada... E ao vê-las, e ao ouvi-las, pensava no futuro que para elas poderia ser...

     Aos domingos, em cadeiras de descanso, do silêncio do alpendre, sentava-se e deixava a tarde passar. Pensava no que já havia realizado e no que ainda estava por realizar. 

     Nos dias de chuva via do alpendre os barquinhos de papel seguirem o curso de água nas sarjetas... "Quem os teria feito?", perguntava calado. Sonhava com longas viagens que não havia feito, mas que ainda poderiam ser... por seus filhos, porém. Os países do norte, a europa... 

     As árvores do quintal - provavelmente mangueiras... ou parreiras -, a cada ano, davam frutos que eram colhidos com cuidado para serem orgulhosamente distribuídos aos vizinhos. Estes retribuíam o carinho com bolinhos de chuva, suspiros, bom-bocados, doce de figo em calda... e sorrisos sinceros...

(Clóvis e Zezé, com uvas colhidas da parreira de seu quintal - foto postada pelo Clóvis no facebook - jan/14)

     Do jardim, as flores enfeitavam o olhar de quem passava pela calçada, assim como também enfeitavam a sala de estar onde a família recebia com café e sequilhos aqueles que os visitavam...

     Hoje transitamos pela avenida movimentada sem tempo ou vontade de olhar tudo o que aquela casa guarda... O senso comum parece ditar que "trata-se de um imóvel velho, acabado, desinteressante, que atrapalha a beleza fabricada pelo progresso..."

     Mas eu sou atraído por ela. Passo pela avenida e não consigo prosseguir sem parar para poder viajar em todos os seus detalhes. Assim, como testemunha do passar do tempo - que a casa é -, eu a vejo como uma antiga caravela ancorada no vasto oceano da cidade que se modifica. Casas assim têm personalidade; têm, nas paredes descascadas, uma história que as faz únicas... Elas guardam, em especial, as memórias da família que a construiu. São diferentes dos espaços frios, empacotados e despersonalizados que têm sido construídos por aí... onde moro eu, onde moramos todos nós, nessas cidades em linha reta vertical, pré-fabricadas, montadas, práticas... sem história, sem beleza, sem jardim, sem vida... e sem um quintal onde se possa plantar uma mangueira...    

21 comentários:

  1. Sou fascinada por antiguidades,amei o que voce escreveu, vem com alma,nos toca profundamente,pois acredito que cada um ja viveu um pedacinho de tudo isso. Parabens

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As coisas antigas guardam em si muita vida passada. Fico contente que tenha gostado. Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário. Volte sempre.

      Excluir
  2. Respostas
    1. Olá, Rachel. Essa casa fica na cidade de Ribeirão Preto, SP. Obrigado pela visita ao blog. Volte sempre.

      Excluir
  3. Viajei no seu texto...e penso igualmente assim; cada detalhes uma história, uma vida, um momento.
    Quem disse que voltar ao passado é sofrer?
    Só sofre quem lembra do passado ruim.
    Os bons, é sentir cada momento vivido... É saber que valeu apena e vale apena relembrá-los.
    ...Numa épocas que apenas viviam e sentia o calor humano.

    Parabéns pelo blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É muito bom saber que por intermédio do texto você fez uma viagem. Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário postado. Volte sempre! Grande abraço.

      Excluir
  4. Adorei este depoimento, também admiro as casa antigas por tudo que nos remetem de história, por nos possibilitar fazer uma viagem no tempo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato, Valderez, casas assim fazem ressuscitar o emaranhado de recordações guardadas em nossa memória afetiva. Obrigado pela visita. Seja sempre bem vinda ao blog.

      Excluir
  5. Tudo isso, e muito ainda... as casas antigas, as rachaduras nas paredes; as pessoas antigas, as marcas do tempo na face... retratos de vida vivida, personalizada, sentida... Obrigado pela visita ao blog. Seja sempre bem vinda!

    ResponderExcluir
  6. Esse passado vivo, presente dentro de cada um de nós, q se manifesta ao olharmos uma casa antiga, trás uma saudade inexplicável,as vezes dolorida. Seu texto está lindo, saudosista, gostoso de ler. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda bem... a capacidade de olhar e sentir... Obrigado pelo comentário. Seja sempre muito bem vindo/a ao blog.

      Excluir
  7. ELIAS, ESTA CASA LEMBRA MUITO A CASA ONDE MORAVA A FAMÍLIA FUKUSHIMA(ACHO)....AQUI EM GUARÁ....ACHO LINDAAAAAAAAA....OUTRA QUE NOS REMONTA AO PASSADO É AQUELA QUE FICA NA SUBIDA PARA O RONDON...CHÁCARA DO DR.RENÉ,SE NÃO ME ENGANO...NÃO ME CANSO DE ADMIRAR. ESTE SEU TEXTO, MUITO INSPIRADO COMO SEMPRE, VEM AO ENCONTRO DOS QUE GOSTAM DE REVIVER AS COISAS BOAS DO PASSADO.PARABÉNS...ABÇSSS

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O olhar atento a uma foto... tanta coisa isso inspira... A casa dos Fukushima... a casa na subida do Rondon... os sentimentos que tudo isso abriga... Obrigado pelo comentário. Seja sempre bem vindo ao blog.

      Excluir
  8. Eu sp gostei de casas e móveis antigos, então qdo vejo uma casa antiga , paro para observá-la pq sei que lá dentro há lembranças intocáveis e muita saudades. parabéns pelo texrto e pela música.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sou eu que agradeço, Rose. Essas casas antigas, tudo o que elas representam, cabem e moram dentro do nosso coração... e volta e meia essas casas sangram! Em um fado português, nós e essas casas: "não se tem um coração impunemente!"

      Excluir
    2. Sou eu que agradeço, Rose. Essas casas antigas, tudo o que elas representam, cabem e moram dentro do nosso coração... e volta e meia essas casas sangram! Em um fado português, nós e essas casas: "não se tem um coração impunemente!"

      Excluir
  9. Eu sp gostei de casas e móveis antigos, então qdo vejo uma casa antiga , paro para observá-la pq sei que lá dentro há lembranças intocáveis e muita saudades. parabéns pelo texrto e pela música.

    ResponderExcluir
  10. Oi Elias! que texto maramilhoso, gostei muito

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Marta. Fico contente que tenha gostado. Grande abraço.

      Excluir
  11. Esse texto me fez reviver o passado nossa , que saudades de tudo meu Deus

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um texo... uma foto....Quanta riqueza guardamos dentro do peito! Seja sempre bem vinda ao blog, Monica.

      Excluir