terça-feira, 29 de março de 2011

A MULHER EM TRÊS CECÍLIAS


("Retrato de Jeanne Hébuterne com chapéu grande" - Modigliani, 1917 - fonte:  http://amedeo-modigliani.paintings.name/hebuterne-straw-hat.php)

     A beleza feminina pode nos levar a sensações diferentes. Sensações e idealizações. Penso nisso ao relacionar três Cecílias conhecidas, da música e da literatura.

     A beleza dócil, que traz pureza e dependência à imaginação, está na Cecília do José de Alencar: a Cecy, do Pery. De tão meiga e pura foi objeto de cobiça masculina e desencadeou sequestros e envenenamentos. A cobiça, porém, não junta forças para unir. E foi o Pery, protetor da Cecy, quem amparou sua fragilidade, conduzindo-a mata adentro, pela vida adentro - como que a conduzir o europeu, simbolicamente, para dar início a um convívio pacífico entre índios e europeus. (Carlos Gomes, em música, traduziu muito bem essa jornada na segunda parte da abertura de "O Guarani")

     A uma Cecília assim, do século XVII, que guarda a impossibilidade de ser dona da vontade própria, que precisa de alguém para lhe indicar o caminho, contrapõe-se uma outra Cecília, fugaz, inconsequente, livre e instável, que coloca o homem inquieto diante dos seus impulsos; que, em seguida e após um desacerto, volta atrás e ama-o novamente - conforme a “Cecilia” descrita por Paul Simon em música de sua autoria.

Cecilia (Paul Simon)
 Cecilia, you’re breaking my heart, you’re shaking my confidence daily
Cecília, você está partindo meu coração, você está sacudindo minha confiança diariamente
Oh, Cecilia, I’m down on my knees, I’m begging you please to come home - come on home
Oh Cecília, estou de joelhos, estou implorando por favor volte prá casa - volte prá casa
Making love in the afternoon with Cecilia up in my bedroom
Fazendo amor à tarde com Cecília, lá no meu quarto
I got up to wash my face, when I come back to bed someon’s taken my place
Eu me levantei para lavar o meu rosto, quando voltei prá cama alguém havia tomado meu lugar
Jubilation, she loves me again, I fall on the floor and I’m laughing
Que grande alegria, ela me ama novamente, eu caio no chão e me deito rindo


     Além das duas Cecílias, a frágil/dependente e a instável/impulsiva, há uma outra que me parece um grande mistério, que inspira monólogos silenciosos; uma Cecília inatingível, que pode reagir de forma inesperada porque é desconhecida, sendo ou não forte ou frágil, que é observada, somente observada, para que o diálogo não a traga à realidade, como a “Cecília” do Chico Buarque e do Luiz Cláudio Ramos. A essa Cecília nada pode ser dito, pois ela precisa ser inacessível para que seu encanto não seja desfeito.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
(Video: "Cecilia" - Chico Buarque e Luiz Cláudio Ramos)

Cecília (Luiz C. Ramos/Chico Buarque)
Quantos artistas Entoam baladas Para suas amadas Com grandes orquestras
Como os invejo Como os admiro Eu, que te vejo E nem quase respiro
Quantos poetas Românticos, prosas Exaltam suas musas Com todas as letras
Eu te murmuro Eu te suspiro Eu, que soletro Teu nome no escuro
Me escutas, Cecília? Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença Palavras são brutas
Pode ser que, entreabertos Meus lábios de leve Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias Merecem, Cecília, teu nome Espalhar por aí
Como tantos poetas Tantos cantores Tantas Cecílias Com mil refletores
Eu, que não digo Mas ardo de desejo
Te olho Te guardo Te sigo Te vejo dormir


     E então, das três, qual retrata a mulher ideal?

     Prá mim, nenhuma. Prefiro que em cada mulher resida um pouco de cada uma das três Cecílias - e de tantas outras Cecílias. Que, nessa Cecília idealizada, resida a mulher frágil, a independente, a misteriosa... E que as três Cecílias (e tantas outras mais) coexistam e se despertem, em cada momento apropriado, em uma Cecília só... Mas essa ainda não foi nem escrita e nem cantada...


RP, 29mar2011  

Um comentário:

  1. Com sua licença, juntarei às outras três, mais uma Cecília. Creio que elas não se importarão e você aceitará de bom grado.

    Motivo (Cecília Meireles)

    Eu canto porque o instante existe
    e a minha vida está completa.
    Não sou alegre nem triste:
    sou poeta.

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