quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dr. LEÃO


(CLIQUE PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Nicholas Petrou - Prelúdio nº 3, do Villa Lobos)


     Um dia, depois de sair da fábrica de fertilizantes onde trabalhava, fui à barbearia do Jerônimo para cortar meus cabelos. Como era normal, e em especial nos finais de tarde, a barbearia estava repleta de clientes; ou, ainda, de pessoas que iam ali simplesmente para conversar. Sentei-me em uma poltrona, pacientemente, na certeza de que ali ficaria por algum tempo até chegar a minha vez de ser atendido.
     Um pouco depois de conversar com alguém ao lado observei a chegada do Dr. Leão: médico respeitado, que por muitos anos cuidou da saúde dos moradores da minha cidade natal. Onde quer que fosse encontrado, estava sempre pronto para ouvir e atender a todos que o procuravam. 

     Ao chegar na barbearia olhou atentamente para todos e entrou. Sentou-se em uma poltrona, pegou uma parte do jornal e começou a ler. Lia alto, leitura lenta, como que decifrando e refletindo a respeito de cada uma das palavras que pronunciava. Perguntei a mim mesmo o motivo que o levava a ler daquela forma. Parecia uma criança sendo alfabetizada. Ele, que por tantos anos havia cuidado de tanta gente, agora parecia precisar de alguém que olhasse por ele.

     Pensei no dia em que, graduado médico, fez planos para seu futuro. Certamente perguntou a si mesmo por onde começar, para onde ir. Imaginei um jovem cheio de sonhos, com dezenas de caminhos para seguir, guiado pelas ilusões e pelo entusiasmo de sua juventude, ansioso por começar a trabalhar.

 (Foto: Dr. Leão nos anos 60)
     Lembrei-me também, naquele momento, de uma outra noite, havia anos, pouco tempo depois da morte de meu pai. Entrando em um bar para tomar um refrigerante, fui chamado pelo Dr. Leão. Ele estava sentado em um banquinho de canto, junto do balcão, sozinho, preso em seus pensamentos, e de óculos escuros - apesar da pouca claridade na noite que se iniciava. Vi nele a emoção dos que transcendem. Disse-me que estava confuso, que coincidentemente no momento em que me viu lembrava e pensava em meu pai; que havia sido um grande amigo seu, e de quem sentia saudades. Disse-me também que minha mãe e minha irmã iriam precisar muito de mim. E, enquanto me dizia isso, percebi em sua face a expressão incontrolável dos que se esforçam para conter o pranto. Concluiu dizendo-me para voltar para casa. E continuou ali.
Andei passos tortuosos procurando compreender o que precisava aquele homem sentado em um balcão de bar, em companhia exclusiva de seus pensamentos. Quais palavras poderiam tê-lo feito um pouco menos triste? Quisera eu sabê-las para poder ter lhe oferecido. Mas eu, assustado em minha ingenuidade de então, fiquei emudecido durante todo o tempo em que ele falou comigo. E retornei à minha casa com os pensamentos desencontrados e a sensação de que já não era mais o mesmo adolescente imaturo que havia entrado naquele bar.
     Sempre via o Dr. Leão sentado em um banco de madeira na calçada do bar, preso em seus próprios pensamentos. Quantas vezes senti vontade de sentar-me ao seu lado, poder ouvi-lo falar qualquer coisa, ou mesmo somente lhe fazer companhia. Gostava de vê-lo, de cumprimentá-lo.
Naquele instante, naquela barbearia, ele que havia sido o meu médico não me reconheceu. Quis, mais uma vez, fazer-lhe companhia, ficar ali, conversar com ele. E assim, de repente, ele lia em voz alta, tal qual uma criança. Fiquei ouvindo sua leitura e refletindo sobre sua trajetória de vida: a saída da universidade, a luta pelos sonhos, a família, os pacientes, os filhos...
     Hoje, penso cá comigo: "será que ele foi feliz ?"

 
 (Foto: Avenida Dr. Francisco de Paula Leão, em Guará, numa tarde de domingo)
     De qualquer forma, imortal no coração dos que o conheceram, a cidade também o imortalizou no dia 15 de setembro de 1990: à antiga Avenida Mogiana foi atribuído o nome de Avenida Dr. Francisco de Paula Leão – o Dr. Leão. Foi o pouco que a cidade pôde fazer por ele, que tanto fez por tanta gente.

    (Placa no cruzamento da Av. Dr. Fco de Paula Leão com Rua Dep. João de Faria) 


RP, 29/10/1990

Um comentário:

  1. Suas palavras trazem lembranças enternecedoras do doutor Leão, merecedor do carinho de todos os guaraenses.
    Parabéns pela iniciativa do blog.
    Abrahão

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