quinta-feira, 16 de março de 2017

SOBRE HOMENS E PRÍNCIPES



(Antoun Tannous [1934 - 2003]- foto cedida por Rimon Tannous Elias)



"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana"
(Álvaro de Campos)


     A vida segue seu rumo, passa. Passamos... Apesar de termos os olhos voltados para o futuro, por alguma maravilha da natureza fatos e histórias, bem como pessoas que já se foram, eventualmente ressurgem do passado para visitar nossa mente. Pois lembro-me bem, lembro-me bem... 
  
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (...)"

     São estes os versos iniciais do "Poema em linha reta"*.

     Nele, o poeta diz que as pessoas que conheceu sempre se mostraram vencedoras e superiores; que elas nunca lhe contaram um ato ridículo que tivessem praticado, nunca admitiram que sofreram humilhações, nunca admitiram fraquezas - nunca foram, senão, príncipes: vitoriosos.

     Ao mesmo tempo em que o poeta diz isso ele olha para si mesmo e escancara seus erros, suas vilezas e seus gestos mesquinhos - atos que, humanos que somos, estamos sujeitos a praticar.

     Mesmo sendo naturais e comuns a todos nós, raramente encontramos alguém humano o suficiente que admita suas próprias derrotas, suas vilezas e seus fracassos: o espírito de príncipe e a vaidade impedem homens de se tornarem gente.

     Mas o destino surpreende e ensina; faz com que seres admiráveis, em algum momento, passem por nossas vidas; que, sem que o saibam, com gestos de grandeza, nos dão mostras das qualidades peculiares ao homem de virtudes.

     Pois numa noite, há muitos anos, em um ônibus, viajou ao meu lado um imigrante libanês que eu superficialmente conhecia. Sem temer qualquer julgamento que pudesse ser feito, foi humanamente forte para falar-me de seus tropeços. Com emoção contou-me sua história, suas inseguranças, a vinda para o Brasil em 1956, o medo que o acompanhou, suas escolhas e caminhos percorridos para estabelecer-se no comércio de Guará/SP, seu casamento e a criação de seus cinco filhos: Rimon, Emil, Dolly, Juliano e Flávio - hoje fisioterapeuta, médico, professora, empresário da computação, e engenheiro, respectivamente.


Ficha Consular de qualificação - Antoun Badr Tannous Elias
fonte - https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:33S7-9519-96CL?mode=g&i=137&cc=1932363

     Lembro-me bem. As palavras engasgadas pronunciadas por ele na poltrona daquele ônibus, a recordação de seus fracassos, os amigos que lhe estenderam as mãos, os que dificultaram sua jornada... 


(Sr. Antoun e filha Dolly - foto cedida por Rimon Tannous)

     Ouvi-o durante a viagem toda. Ao final, com orgulho, descreveu-me com altivez de soberano a sua pequena loja que eu já conhecia muito bem: uma única porta de entrada, roupas simples expostas em cabides na parede da rua, e um balcão de madeira: só! Guardo ainda hoje esse exemplo e suas lembranças. Tendo-o visto entrar naquele ônibus na condição de apenas mais um, e tendo observado seu enorme sorriso ao descobrir-me seu companheiro de viagem, cheguei ao meu destino sentindo que viajei ao lado de um homem admirável, enorme e dócil, de fala mansa e honesta, que na vida não foi senão gente - e um grande vencedor: Sr. Antoun Tannous.

(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR
O POEMA EM LINHA RETA DECLAMADO)
(Osmar Prado - "Poema em linha reta", de Fernando Pessoa)

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*Escrito por Álvaro de Campos - heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. 

Poema em linha reta 
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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