sexta-feira, 15 de junho de 2012

PARA ONDE FORAM TODAS AS FLORES?




(Peter, Paul and Mary - "Blowin' in the wind" - de Bob Dylan)

     Nas aparições mais interessantes do senador paulista Eduardo Suplicy, ele se solta e canta. Desajeitado, canta sempre uma mesma canção: "Blowin' in the wind". Gosto de vê-lo, pela letra da música, relembrar as grandes questões da humanidade. São perguntas sem respostas, são ideais, são caminhos para o amadurecimento do homem e, por conseguinte, de todos os povos.

     Como é possível encontrarmos respostas para as perguntas feitas na canção?

- "Por quantas estradas um homem deve caminhar até que ele possa ser chamado de Homem?";

- "Quantas vezes um homem precisa olhar para cima até que ele consiga ver o céu?";

- "Por quantos anos um povo deve existir até que lhe seja permitido ser livre?"

     Talvez sejam essas as perguntas mais simples que podemos fazer durante toda a nossa vida, tal como as perguntas que nos fazem as crianças. Perguntas simples e complicadas. Complicadas porque não podem ser respondidas - suas respostas "blow in the wind" (perdem-se ao vento)... Porém, a simples reflexão que se segue a uma pergunta já é um caminho para nossa construção. Passamos a vida inteira procurando respostas para elas. Nunca vamos encontrá-las. Mas essa busca nos faz seguir em frente...

     Peter, Paul and Mary, ao gravarem "Blowin' in the wind", eram jovens, inquietos, idealistas. Viviam querendo respostas para tudo. 

     Todos nós, para nos realizarmos por inteiro, vivemos a nos buscar: "quem somos?, o que fizemos de nossas vidas?, o que aprendemos?". Mas somos eternos insatisfeitos - por natureza... Alguém já disse que "é muito mais fácil ser santo do que ser gente". Concordo com isso. Santo carrega em si somente um tipo de sentimento; gente é um emaranhado de sentimentos contraditórios - daí os nossos conflitos.

     Darcy Ribeiro (1), em um dos seus muitos momentos de grande lucidez, falando de si mesmo, fala de nós todos, da dolorosa consciência da pequenez dos nossos conhecimentos, da proporção que representamos em relação à imensidão das coisas:

"(...) Minhas mãos, inúteis para fazimentos, só servem para escrever e acariciar. Não sei dançar, nunca soube (...). Olho, idiota, o céu, maravilhado de seu esplendor, sem reconhecer constelações ou estrelas. Das árvores inumeráveis do meu mundo brasileiro, todo eito de arvoredos os mais variados, reconheço uma dúzia, se tanto. Diante das flores, do milagre de suas formas, cores, perfumes, eu para perplexo. Só reconheço rosas, cravos, jasmins, girassóis e umas poucas mais. (...)". 

     O tempo se encarrega de nos oferecer respostas às perguntas. Os mesmos Peter, Paul e Mary gravaram em vídeo, nos seus anos de maturidade, uma canção cheia de respostas às perguntas: "Where have all the flowers gone?". Essa canção fala da saga dos moços e das moças, até a consumação de seu tempo. Ouço essa música com a fantasia de que eles compreenderam que as grandes questões da humanidade não podem ser teorizadas, explicadas. Viver, simplesmente, explica as coisas. A sequência natural da vida fica nas respostas simples às perguntas da canção:

 "Para onde foram todas as flores?" - as garotas as colheram;
"Para onde foram as garotas?" - as garotas se casaram;
"Para onde foram os maridos?" - tornaram-se soldados;
"Para onde foram os soldados?" - foram para "a morte"; 
"E o que foi feito da morte?" - desabrochou-se em flores...

 
  (Peter, Paul and Mary - "Where have all the flowers gone?, de Seeger e Joe Hickerson) 

     Haverá um dia, ainda, em que o próprio Suplicy também acrescentará "Where have all the flowers gone?" ao seu repertório de senador-cantor; mas demorará muito até que toda a plateia compreenda...

     - "When will they ever learn?" (quando compreenderão?), pergunta a canção.

     Se olharmos o Peter, o Paul e a Mary, jovens em "Blowin' in the wind", e logo em seguida olharmos para eles em "Where have all the flowers gone?", com as marcas do tempo estampadas em suas faces, como que a perguntar "para onde foi a nossa juventude?", temos um indício de resposta para todas as perguntas.

     Em um dos primeiros vídeos de "Where have all the flowers gone?" que assisti (indisponível para publicação) havia uma imagem muito emblemática de uma mulher adulta na plateia com uma criança no colo, ambas quietas, ouvindo. Essa imagem congelada, ajudando-nos a acalmar nossas inquietações, parece nos trazer uma mensagem: a sequência natural da vida é simplesmente prosseguir, amparar nossos filhos, saborear a caminhada, fazer dela um exercício constante de felicidade... até um dia podermos continuar por aí, imaterializados, fundidos no coração de quem nos conheceu... 
("Mulher sentada ao lado de vaso de flores" - Edgar Degas, 1865 - fonte:http://pt.wahooart.com/Art.nsf/ArtworkZoom?Open&RA=8YEA2Y)

(1) Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema - coleção Darcy no bolso. Editora UnB: 2010

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