segunda-feira, 2 de julho de 2012

ANOITECEU, E EU PASSEI PELA PRAÇA


A um desconhecido de bom gosto musical
que, sem saber,
numa noite de segunda-feira,
proporcionou momentos de beleza
a um jovem senhor que passava pela praça central
da cidade anestesiada.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR DURANTE A LEITURA)
("Melodia Sentimental", da suite "A Floresta do Amazonas", composta por Villa-Lobos em 1958 - poema de Dora Vasconcelos - interpretação de Olivia Byington) 
     A caminho do teatro, passei ontem à noite pela praça central. Em passos apressados tentava evitar os dissabores que as regiões centrais das cidades grandes têm nos oferecido. Mas fui surpreendido. A “Melodia Sentimental” do Villa-Lobos e Dora Vasconcelos, linda, lindíssima, vinha do chão, do subsolo, e cobria de encantos todos os canteiros. Eu estava diante de um chafariz enorme, majestoso, tomado de beleza. Não pude me deixar vencer pela pressa. Parei. Sozinho. Os jatos de água, sob o foco de luzes coloridas tingiam de cor e vida a enorme praça. Ficamos todos ali parados e entregues por alguns instantes: eu, meus braços, minhas pernas, minha cabeça e os meus pensamentos... Ao fundo da porção de água mais distante iluminada de branco, e propulsionada pelo jato central, contrastava o azul escuro do céu da noite. Lindo “de morrer”! Por uns instantes detive-me ali na praça deserta, formando um todo harmônico com as plantas, com as árvores, e com os monumentos de granito às celebridades do passado. Éramos uma plateia calada, maravilhada, extasiada... nós e a lua, no céu distante...

("Fonte Luminosa" da Praça 9 de julho, em Guará. Foto: Flávia Nogueira, postada no facebook)

     Procurei um banco para me recompor e acalmar meu deslumbramento. A música tomando a praça, somada às cores dos focos de luz, trouxe-me moças de outros tempos vestidas de domingo, caminhando aos pares ao redor do chafariz. Diante de mim e de todos nós ali, parados, elas aparentemente nos cumprimentavam desfilando sua beleza, e continuavam circulando. Nos giros seguintes, já sem nos olhar, caminhando, murmuravam seus segredos umas para as outras...
     Fiquei assim por alguns instantes, olhando as cores, dançando com as águas, revendo meus fantasmas - até que a música cessou, as luzes do chafariz se apagaram, e a noite se acomodou:
     - “Queira Deus que essa noite se desdobre em muitas outras, pintando de cores a triste escuridão da praça deserta... e que muitos outros senhores, em sua pressa de caminhar, detenham-se para admirá-las”.
     Pensando assim levantei-me apaziguado, agradeci por aquele espetáculo e, devagar, segui caminhando sem me importar para onde...


RP, 26jun2012

Um comentário:

  1. Elias, bom ler suas palavras e ver cada detalhe descrito.Sua facilidade em trazer as imagens me fez viajar... E a emoção veio junto com a alegria de saber que nossa memória pode ir longe, mas sempre temos boa companhia!!
    Grata por compartilhar! Abraço
    Guta (Ahh... Gostei também por ser a data do meu aniversário!rs)

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