quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

PRÁ ONDE VAI MEU PORTUGUÊS ?


(fonte: http://www.portaldorancho.com.br/artigos/arte-e-literatura/o-poder-das-palavras)


     Stacey Kent é uma cantora norte-americana. Canta jazz. Descobri-a recentemente quando procurava gravações em francês do "Samba da benção" (do Vinícius de Moraes), e de "Águas de Março" (do Tom Jobim). Pois foi aí que me deparei com a voz doce e delicada dessa cantora, cantando também em francês. Suas gravações de jazz e bossa-nova são lindíssimas. Além de ter colocado em disco clássicos de bossa-nova, gravou, com seu marido - o saxofonista Jim Tomlinson - um álbum inteiro com músicas brasileiras. O álbum chama-se "Jim Tomlinson - brazilian sketches". 

     Providenciei, para poder ouvir a hora que quiser, todas as gravações que pude encontrar da Stacey Kent. E ela tem sido uma grande companhia nos meus devaneios musicais.

     Talvez, por ter se graduado em Literatura Comparada, tenha lido diversos escritores brasileiros e, especialmente, sentido a beleza do som das palavras pronunciadas em português. Tudo indica que por ter chegado à música brasileira e, por ter se envolvido com toda carga emocional contida nas palavras, maravilhou-se com nossa língua. 

     Em passagem pelo Brasil, entrevistada no programa do Jô Soares, falando e cantando em português, assim ela se referiu ao sentido da língua portuguesa em sua vida:


("Coração vagabundo", de Caetano Veloso - por Stacey Kent, no programa do Jô Soares)

"a razão por que eu estou estudando sua língua é por causa dessas palavras, essas letras; sem essas letras na minha vida, minha vida seria muito menos rica". 

     Abro o "facebook" e fico olhando postagens e comentários. Por trazerem palavras e siglas que desconheço, não os entendo bem: "altered beast", "drive-in", "rush", "printer", "SNES", "delete", "scanner", "MBA", "master", "bypass", "charter", "spread"... Claro que a dinâmica de uma língua conta muito; claro que preciso me atualizar... mas, será que não há palavras em português que possam dizer o que tiver que ser dito? Aliás, é bom nos lembrarmos que a cultura e as palavras carregam em si tanto uma expressão de autoestima quanto, também, uma ferramenta de dominação!

     Pensando nisso, lembrei-me de um sambinha gravado pelo Cyro Aguiar em 1972 e que aborda a questão do esquecimento e do desuso em que caiu a língua portuguesa. Em um pequeno trecho diz o seguinte:

"Cansei de tanta coisa importada. Cansei de tanto som envenenado. Cansei, eu que nem sei falar inglês, venho pensando há mais de mês, 'prá onde vai meu português?'. (...) Meu português se perdeu, acabou, de cafona em versos fugiu..." 


("Asfalto falsificado" - Cyro Aguiar)

     Estou certo de que há ainda muito que ser lido em  português para que possamos merecer a línqua portuguesa. Assim como a Stacey Kent, que pela sua formação muito leu e compreendeu, seria bom que cultivássemos o hábito de empregar nossa língua em nossa fala e em nossas escritas, descobrindo e valorizando a maravilha sonora e a densidade de imagens que suas palavras nos inspiram. 

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