sexta-feira, 16 de maio de 2014

STRANGE FRUIT

(Fonte: http://lifeafterhate.org/wp-content/uploads/2010/07/strangeFruit.jpg  -  Alison Saar)

     Nos Estados Unidos a escravidão durou 221 anos. Até 1870, foram levados para lá entre 400 e 500 mil escravos*.

     O Ato de Emancipação (dos escravos nos EUA) entrou em vigor em 1863. Contudo, mesmo depois do final da escravidão, os negros norte-americanos continuavam impedidos de exercer livremente seus direitos civis e políticos. Organizações, tais como a Ku Klux Klan, que semeavam entre a população negra o terror e o medo, procuravam impedir sua integração social.

     Abel Meeropol, professor de colégio, certa vez viu uma foto datada de 1930 que mostrava dois negros enforcados. Seus corpos pendiam de uma árvore. Eles haviam sido presos por suspeita de roubo e assassinato de um operário branco. Os registros contam que uma multidão invadiu a cadeia, bateu nos dois negros e os enforcou. Seus nomes eram Thomas Shipp e Abram Smith. 

(O linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith - EUA/1930 - foto de Lawrence Beitler - fonte:http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01841/Thomas_shipp_abram_1841009c.jpg)

     O professor, assombrado com o que vira na foto, publicou em 1936 "Strange Fruit" - um poema que traduzia com bastante propriedade aquelas imagens.


 Strange Fruit

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black body swinging in the Southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolia sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh!

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

 Estranho Fruto

As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto,
Sangue nas folhas e sangue na raiz,
Um corpo negro balançando na brisa sulista
Um fruto estranho pendurado nos álamos.

Uma cena pastoral no galante Sul,
Os olhos esbugalhados e a boca torcida,
Perfume de magnólia doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimada!

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair,
Aqui está uma estranha e amarga colheita.



     Observo nesse poema a maneira como o autor dos versos descreve os corpos enforcados nas árvores:

"Strange fruit hanging from the poplar trees"
(frutos estranhos pendurados nos álamos)

     Nessa descrição ele menciona os álamos ("poplar trees") - árvores nas quais os enforcamentos ocorreram. Pois, na cultura de alguns povos, os álamos (os pretos)** são consideradas árvores que crescem nos infernos***; e que, pelo som produzido por suas folhas ao vento, representam o lamento fúnebre. São, por isso, considerados símbolo da morte.

     Os corpos pendurados, o autor os mostra como frutos estranhos que servem para os corvos, não para os seres humanos; que proporcionam uma estranha e amarga colheita:

"frutos para os corvos arrancarem,
para a chuva recolher, para o vento sugar,
para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair (...)" 

     E os corvos, devido a sua cor e à sua impertinência, são considerados figuras de mau agouro, anunciadoras de doenças e mortes. No poema, os corvos arrancam os frutos e os levam - simbolicamente, para a morte.

     Esse poema, posteriormente musicado, é uma canção que condena o racismo e a segregação racial nos Estados Unidos. Muitos cantores o gravaram. Mas é na voz de Billie Holiday, uma negra americana de origem pobre, de voz rouca e sofrida, que passou por todo tipo de sofrimento, que esse lamento fúnebre sangra.

("Strange fruit" - interpretação de Billie Holiday, gravada em 1939)

* Fonte: Lessa, Ricardo. Brasil e Estados Unidos: o que fez a diferença. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008 (pelo mesmo autor, no Brasil, para onde foram levados de 3,6 a 5 milhões de escravos, a escravidão durou 357 anos)
**Álamo-preto = choupo-preto
***Dicionário de Símbolos - Herder Lexikon - Ed. Cultrix, 1990

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