quarta-feira, 5 de novembro de 2014

HAICAI


(Basho o mestre do haicai - fonte: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2009/06/26/basho-o-mestre-do-haicai-pela-editoria/)

                                                                      "De que árvore florida
                                                                      chega? Não sei.
                                                                      Mas é seu perfume"
                                                                      (Matsuo Basho)

     Um antigo professor de português vivia dizendo que o belo não se explica: somente se sente. Lembro-me dele sempre que me vejo diante de versos longos e prolixos, quando então fico procurando traduzir a mesma ideia em poucas palavras. Nessas horas dou razão a muitos de meus familiares que dizem que sou "resumido", "calado", "de pouca fala". 

     Pois para minha alegria de "resumido" conheci, já na minha fase madura de vida, uma maneira concisa e objetiva de expressar o belo. E desde então me tornei um apreciador de Haicais.


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO CONTINUA A LEITURA)
(https://www.youtube.com/watch?v=vF4k6DBVw-k)

     O Haicai é um tipo de poema curto de origem japonesa. Ele sugere, ao invés de dizer. Em geral é um texto contemplativo que reflete um momento de observação da natureza ou do passar do tempo. Em sua forma mais tradicional não tem nem título e nem rima. Em apenas três linhas contendo, na primeira e na terceira delas, cinco sílabas (japonesas), e na segunda sete, o autor capta e procura transmitir de forma objetiva e concisa tudo aquilo que observou. Muitas vezes há uma pintura (chamada de "haiga") que acompanha o haicai.

     Também encontramos muitos haicais que falam de emoções, imagens, comparações, e de tudo o que se quer transmitir.

     Nas comunidades japonesas onde são mantidos os costumes mais antigos, é considerado gesto de extrema delicadeza e gratidão um convidado presentear com um haicai a família que o recebe para um jantar.

     No Brasil Guilherme de Almeida, Millor Fernandes e Paulo Leminski foram haicaístas de destaque. Cyro Armando Catta Preta, de Orlândia/SP, que adotou a forma guilhermiana* de escrever haicais (com título e rima), também o foi. 

     Eis aqui alguns haicais:

HORAS MORTAS (Catta Preta)
Triste hora tardia.
A rua agradece a lua
pela companhia.

IPÊ AMARELO (Catta Preta)
Ainda ao sol posto,
é taça de ouro, na praça,
festejando agosto... 

(Millor) 
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua.

     Sempre que leio haicais eu me lembro de um antigo imigrante japonês que viveu em minha terra natal e que foi premiado, no Japão, em concurso de haicais. Não tive o prazer de conhecer seu trabalho literário, em especial o premiado. O que teria ele escrito? Oxalá eu ainda encontre alguém que possa me dizer... Dói pensar que pouquíssimos tiveram notícia disso. Quem me dera, um dia, ver plantado em uma praça da minha terra um busto feito de bronze homenageando o antigo imigrante japonês, preservando sua história e seu feito. As vezes a poesia é a própria vida... vida que só precisa de um leve despertar da sensibilidade que observa, é estimulada, sente e transforma.

     Dos haicais que encontro em meus livros, "Renovação", do Catta Preta, releio com frequência. Ei-lo: 

RENOVAÇÃO
Na folha caída,
na terra, nela se encerra,
o húmus da vida...

     Que tal, então, na próxima visita à casa de amigos, presentear os anfitriões com um haicai? No mínimo uma grande porta para conversas interessantes vai se abrir. Fica aqui a sugestão.

_______________________________
*no mesmo estilo de Guilherme de Almeida

(CLIQUE PARA ASSISTIR)
(Reportagem de TV sobre Haicais)

7 comentários:

  1. Para quem tem talento fica a sugestão, né, Elias?
    Um grande abraço.

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  2. Isso mesmo... bom gosto também ajuda, certo? Obrigado, Flávia.

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  3. Adorei a música já conhecia mas n sabia que era poema tb! ;*

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    1. Fico contente que tenha gostado. Seja sempre bem vinda ao blog!

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  4. Olá Elias. Coisas boas leio aqui. Parabéns. Adoro Haikais...Abraços.

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  5. Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário postado. Seja sempre bem vindo.

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  6. Com muita alegria recebo de minha professora de Geografia, dos tempos do colégio, Prof. Assaka Sakuray, o seguinte comentário e esclarecimento a respeito de seu pai, Massami Sakuray, o qual a seguir transcrevo: "Massami Sakuray, imigrante, lavrador,comerciante e poeta nas horas vagas. Aos 70 anos recebeu um telefonema de um jornalista da TVE Estatal - a NHK- dando a noticia de que Massami estava entre os dez premiados do KAKAI HAJIME.É um dos mais importantes concursos de poesia do Japão e promovido pelo Palácio Imperial e os prêmios são entregues pessoalmente pelo IMPERADOR.Naquele ano (1987) o tema do concurso foi a " arvore" e concorreram 29.368 poetas japoneses e 206 residentes fora do Japão. Ele ficou entre os dez premiados (não há classificação entre os dez).O tipo de poesia: TANKA (TANCA).O poeta precisa resumir o seu sentimento em apenas 31 sílabas japonesas.É um estilo de poesia mais complexo que Haicai.A poesia sempre brotou naturalmente dele.
    Como imigrante veio plantar café, mas nunca deixou de escrever. Com 31 sílabas teve a maior alegria de sua vida ao seu poema (Tanka) ser premiado pela Família Imperial do Japão. Na década década de 50 já se naturalizou brasileiro.Repasso o poema premiado em 1987:

    ARVORE
    Vim par cá
    Não tinha nada
    Construi Casa
    Plantei árvore
    Passou o tempo
    Envelheci no Brasil.

    OBS. minha: Foi a primeira parte do TANKA (poema curto), com estrutura de 5-7-5-7-7 sílabas japonesas, dividido em duas partes (5-7-5 e 7-7) que deu origem ao HAICAI.

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