sexta-feira, 21 de agosto de 2026

MINHAS PEDRAS

 

Minhas pedras
(da esq. p/ dir.: do Mar do Norte, do Rio Tejo, de Cordisburgo, da minha avó)

    Meu amigo Paulinho me escreveu dizendo que lembrou-se de mim ao ler um trecho de "Tudo sobre Deus" - romance do moçambicano José Eduardo Agualusa. Ele me conta que, no referido trecho, Agualusa cita o artista colombiano Leonel Vásquez - que, dizem, sabe "interpretar" e escutar pedras. E foi justamente pela menção a essa atenção de Vásquez às pedras que a lembrança lhe ocorreu. 

    Fiquei contente com a lembrança. O Paulinho sabe que também tenho um certo apego por pedras. Em minha biblioteca, em uma estante bastante desorganizada, cuido e exponho algumas que guardam em si muitas histórias. Duas delas, que me foram presenteadas por ele, são de calcário: uma delas recolhida em Lisboa, nas margens no rio Tejo, e outra nas ruas de Cordisburgo - terra natal de Guimarães Rosa.

    Juntamente com essas duas pedras, mantenho e exponho uma ametista - que foi a pedra que motivou o meu interesse por todas elas. Essa ametista ficava na sala de jantar da casa de minha avó. De um aparador lateral ela testemunhava encontros de domingo, quando a família se juntava para conversar e celebrar a vida ao redor de uma mesa posta com pratos da culinária sírio-libanesa preparados por ela - a minha avó. Essa pedra concentra a lembrança do menino que fui, e  também de todos os meus familiares queridos.

    Igualmente em posição de destaque, guardo e exponho uma pedra vulcânica que me foi presenteada pelo Mar do Norte. Recolhida no momento em que eu acariciava as águas geladas da praia de Bamburgh, no norte da Inglaterra, essa pedra cutucou por diversas vezes as minhas mãos, parecendo insistir em permanecer comigo: aceitei a proposta, e dei a ela morada em uma das estantes de minha biblioteca.

    Gosto de pedras: cada uma conta uma história: de um tempo, de um lugar, de um fato, de uma pessoa...

    Mas há ainda uma outra "pedra" na minha biblioteca. Até me arrepio ao falar dela. Feia e sinistra, pequena e escura, eu a escondo de mim mesmo e de todos os que me visitam. Originária das profundezas do sistema de filtragem do meu organismo, mantenho esse "monstro" embrulhado e sufocado na escuridão de uma gaveta, justamente por vingança... das dores terríveis que ela me causou há alguns anos... até o momento em que foi expelida naturalmente, depois de oceanos de água que fui orientado a consumir..

Mercedes Sosa - "Piedra y camino" (Atahuapa Yupanqui)
https://www.youtube.com/watch?v=KCnO7F0xO90&list=RDKCnO7F0xO90&start_radio=1

Piedra Y Camino

(Atahualpa Yupanqui)

 

Del cerro vengo bajando

Camino y piedra

Traigo enredada en el alma, viday

Una tristeza.

 

Me acusas de no quererte

No digas eso

Tal vez no comprendas nunca, viday

Porque me alejo.

 

Es mi destino

Piedra y camino

De un sueño lejano y bello, viday

Soy peregrino.

 

Por más que la dicha busco,

Vivo penando

Y cuando debo quedarme, viday

Me voy andando.

 

A veces soy como el río

Llego cantando

Y sin que nadie lo sepa, viday

Me voy llorando.

 

Es mi destino,

Piedra y camino

De un sueño lejano y bello, viday

Soy peregrino.

Pedra e Caminho

 

 

Eu venho descendo o morro

Caminho e pedra

Traga preso na alma, meu bem

Uma tristeza.

 

Você me acusa de não te amar

Não diga isso

Talvez nunca entendas, meu bem

Porque me afasto.

 

É o meu destino

Pedra e caminho

De um sonho distante e belo, meu bem

Sou um peregrino.

 

Por mais que eu procure a felicidade,

Eu vivo sofrendo

E quando devo ficar, meu bem

Eu vou andando.

 

Às vezes eu sou como o rio

Chego cantando

E sem ninguém saber, meu bem

Me vou chorando.

 

É meu destino

Pedra e caminho

De um sonho distante e belo, meu bem

Sou um peregrino.


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