Minha intenção é publicar aqui as reflexões que me ocorrem a respeito dos textos que leio, das músicas que ouço, dos diálogos que tenho com as pessoas, e das respostas que me são dadas pelo silêncio... e que me fazem sentir que, de alguma forma, trouxeram alguma inspiração. Afinal, o universo ao nosso redor só se torna inteiramente bonito quando conseguimos dar a ele algum significado; e, especialmente, quando sentimos necessidade de compartilhá-lo.
terça-feira, 6 de junho de 2023
ASTRUD GILBERTO (1940-2023)
quarta-feira, 10 de maio de 2023
RITA LEE
Sob um facho de luz artificial, muitos querem se manifestar... Enquanto isso, aquela/e que se vai simplesmente permanece pelo que deixou. Ontem, depois de assistir aos noticiários na TV, abraçado ao meu violão, aconcheguei-me na sofá... e fiquei buscando acordes joão-gilberteanos para "Chega Mais"*... até adormecer na sala...
"(...) Depois me leve pra casa
me prenda nos braços
me torture de carinho, beijinhos, abraços (...)"
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*Chega mais - (Rita Lee e Roberto de Carvalho - gravada no álbum "Rita Lee", de 1979, da Som Livre)
quarta-feira, 5 de abril de 2023
USP FILARMÔNICA, TEATRO PEDRO II, 04 DE ABRIL DE 2023
Em comemoração aos quinze anos da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto - USP, a USP Filarmônica apresentou-se ontem no Teatro Pedro II. Sob regência e direção artística do Prof. Dr. Rubens Russomanno Ricciardi, no programa sinfônico estavam obras de alguns compositores e poetas pretos e pardos brasileiros dos séculos XVIII e XIX.
Dentre estes compositores e poetas, foram lembrados: Manuel Dias de Oliveira (1734/35-1813), José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), o padre mestre Domingos Caldas Barbosa, ou Loreno Seltinuntino (1740-1800), José Maria Xavier (1819-1887), Anacleto Augusto de Medeiros (1866-1907) e Alfredo da Rocha Vianna Filho - o Pixinguinha - (1897-1973). Além dos poetas e compositores, também foram resgatadas e apresentadas modinhas e canções populares, fruto de pesquisa com levantamento folclórico e arranjos de Heitor Villa-Lobos, com orquestração de Olivier Toni (1926-2017) e Rubens Russomanno Ricciardi.
Apresentações musicais tais como a da noite de ontem, que tive o privilégio de assistir (e com entrada franca, em um teatro monumental!), são um convite e uma inspiração para imersões poéticas nas riquezas adormecidas em nosso país - que florescem aqui em Ribeirão Preto.
segunda-feira, 3 de abril de 2023
RESISTINDO
"Resistindo"*... Ah, esse disco... Sobre o aparador da sala de estar, deu tantas voltas em minha vitrola... Sofás, poltronas, lustres, portas e janelas... piano, violão e eu, só eu. Por vontade própria, era essa a plateia... O disco era meu, o Quarteto em Cy era meu... Qualquer movimento, qualquer interferência externa incomodava os passeios que, da minha sala eu fazia... pela Bahia, pelos barracos espetados na beira de barrancos, por Atenas... acompanhando o trajeto dos boias frias que via sair para o trabalho em carrocerias de caminhões, rumo ao rancho... das goiabadas... Quieto, ouvindo meninos dormir... que Deus lhes ensine a lição, dos que sofrem violência e perseguição... morreu Filipe dos Santos, mandaram esquartejar: outros porém nascerão... Resistindo, poetando em Capricho e Memória... "Amar o perdido, deixa 'comovido o meu' coração..." Canta Cyva, canta Cynara, canta Dorinha, canta Sônia... canta meu querido Quarteto em Cy: canta mais!
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*"Resistindo" - Resistindo - ao vivo" é um álbum do grupo musical Quarteto em Cy, (1977, Phonogram/Philips). Nesse disco foram gravadas as seguintes músicas: Eu vim da Bahia/Filhos de Gandhi; Viola violar; Capricho/Memória; Samambaias; favela/Arquitetura de pobre/O ronco da cuída; Resistindo; O Rancho da Goiabada; Dorme, meu menino dorme; Funeral de um lavrador; Mulheres de Atenas; Canta, canta mais.
sábado, 25 de março de 2023
ONDE IRÁ O TEU PENSAMENTO ?
De pé na cozinha de nossa casa, minha mãe cantarolava. Seu olhar ia distante, muito longe, muito além da janela aberta à sua frente. Por ali, e pela música que costumava cantarolar, ela parecia visitar "seu tempo", seus amigos e amigas... seus colegas, seus alunos... seus pais, meu pai... E era sempre a mesma modinha que a ajudava a temperar o nosso alimento.
"Tão longe, de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento..."
... há duas semanas estive em um recital comemorativo aos 20 anos de instalação do Curso de Música da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP. Nesse recital, a Profª Drª Yuka de Almeida Prado, soprano, acompanhada pelo Profº Dr. Rubens Russomanno Ricciardi, ao piano, executaram "Quem sabe?", de Carlos Gomes (1836-1896)*.
"Quisera saber agora, quisera saber agora..."
Ao ouvi-los, da plateia da sala de concertos da tulha do campus da USP, atendi ao chamado... Com os pés descalços e sem camisa, vesti novamente o short branco feito pela minha avó... Devagarinho abri o portão de minha casa... fui entrando... menino, troquei passos em direção à voz de minha mãe, e a encontrei sorridente em frente à mesa posta. O sol, entrando pela janela, iluminava meu pai, minha irmã e minhas avós... todos ali prontos para o almoço de domingo...
Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora
Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento
Quem sabe se és constante
Se inda é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade, da saudade, agro tormento
Tão longe de mim distante
Onde irá onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora
Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento
Quem sabe se és constante
Se inda é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade, da saudade
Ah! Saudade agro tormento
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*Letra de Francisco Leite Bittencourt Sampaio (1834-1859)
domingo, 12 de março de 2023
PERDIDO NO NORDESTE
De repente eu me vi no Nordeste. Quem me levou foi o cronista pernambucano Antônio Maria (1921-1964), em "Eles não mudaram"*. Nessa crônica que mencionei ele conta que, certa vez, querendo escrever sobre o paraibano José Lins do Rego, encontrou-o em um bar, no Rio de Janeiro, na companhia do carioca Di Cavalcanti e do jornalista e colecionador caruaruense João Condé. Antônio Maria conta que, à mesa, conversaram sobre o Nordeste, suas tradições regionais, usos e costumes de seu povo; que, saindo do bar, a saudade da região era tamanha que ele e o Zé Lins foram até o bairro de São Conrado para se fartarem de pamonhas e caldo de cana - que tinham o gosto dos antigos engenhos nordestinos. Que aquele banquete foi muito maior que qualquer espécie de fome nordestina, do tamanho de uma ausência compartilhada na companhia um do outro.
Enquanto eu também me lambuzava de açúcar e milho verde nessa viagem ao Nordeste, um amigo que está vivendo em Portugal já há algum tempo chamou-me pelo telefone para uma "conversa informal de compatriotas". Quando disse a ele que estava me deliciando em pamonhas e caldo de cana dos antigos engenhos do Nordeste, ele me contou que trabalhou em um órgão representativo do governo brasileiro, em Marrocos, e que, estando lá, debruçou-se sobre a divulgação da cultura do nosso país por intermédio do livro "Novo mundo nos trópicos"** - coletânea expandida de conferências proferidas em 1944, nos Estados Unidos, por Gilberto Freyre (nordestino do Recife). Finda a nossa conversa, e ainda navegando por histórias do Nordeste, fui à busca do livro da autoria de Gilberto Freyre, mencionado por meu amigo, e pelo qual eu ainda não havia podido viajar.
Nessa busca, dei-me conta de que, para escrever um outro livro, "Nordeste"***, Gilberto Freyre solicitou ao poeta recifense Manuel Bandeira, a quem ele não conhecia pessoalmente, a composição de um poema alusivo ao tema: e desse pedido nasceu "Evocação do Recife":
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
(...)”
A partir desse poema, entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira desenvolveu-me uma amizade fomentada por uma correspondência que se estendeu por muitos anos... Essa correspondência - vim a descobrir em seguida - foi organizada e reunida por Silvana Moreli Vicente Dias no livro "Cartas Provincianas - correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira" (Global, 2017).
Não resisti. Curioso em saber quais assuntos dominavam as conversas por carta entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, contatei uma livraria e fiz o pedido do livro organizado por Silvana Moreli, o qual acaba de chegar às minhas mãos.
Diferente de dizer que estou feliz, preciso dizer que estou um tanto quanto desesperado e confuso diante de tanto assunto e diante de tanta informação que tem me interessado. Afinal, a vida é curta... e o que posso é muito pouco: em uma só existência, não há tempo suficiente...
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*"Eles não mudaram" - crônica publicada em "O Globo", em 21/ago/1955, e publicada no livro "Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria" (Todavia, 2021 - organização: Guilherme Tauil).
**"Novo mundo nos trópicos" (Global, 2011) - é uma versão ampliada de um livro anterior de Gilberto Freyre: "Brazil: an interpretation, publicado em 1945 em Nova Iorque.
***"Nordeste" (Global, 2013 - 1ª edição digital)
terça-feira, 7 de março de 2023
RUY CASTRO NA ABL
Estou aqui extasiado. Extasiado porque acabei de ler o discurso que foi proferido pelo Ruy Castro em sua posse na Academia Brasileira de Letras. Extasiado porque gosto dos trabalhos do Ruy Castro. O Ruy é um cultuador e ao mesmo tempo escultor da alma brasileira tão bem torneada em "Estrela solitária", em "Carmen", em "Chega de Saudade", em "A noite do meu bem"... na Bossa Nova, nas noites do Rio... no samba-canção... Gosto do Ruy Castro, dos seus livros, da sua coluna na Folha, dos programas que gravou em rádio... Em seu discurso, um passeio pela Cadeira 13. Encanta: o fogo, a roda, a palavra... Encanta a mim, particularmente, por "ilusões da vida", do Francisco Otaviano, inspirador do Vinícius em "como dizia o poeta...": "quem passou pela vida em branca nuvem (...) só passou pela vida, não viveu"; encanta ao falar do Rouanet, seu antecessor, na aposta pela cultura... ao citar, inclusive alguns dos nossos queridos pontos de referência: Tom Jobim, Antônio Maria e Rubem Braga... Que passeio! Belíssimo discurso: rico, inteligente e elegante. Ao Ruy, todos os nossos aplausos.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2023
UMA MANHÃ DE SÁBADO, NA LIVRARIA
Tomei o meu café da manhã ouvindo um podcast a respeito de cronistas brasileiros. Enquanto comentavam, na gravação, os trabalhos de Fernando Sabino, dei-me conta de que não havia ido além de seus romances "O encontro marcado” e "O menino no espelho"; que pouco conhecia sobre sua obra. Terminei então o meu café, e saí à procura de alguma coletânea de suas crônicas.
A duas quadras de casa há uma pequena loja de livros usados. Logo que lá entrei fui recebido por um senhor bastante idoso, o qual apresentou-se como proprietário. Disse a ele, especificamente, o que buscava, e aproveitei para solicitar que procurasse, também, alguma coletânea do Paulo Mendes Campos, do Hélio Pellegrino ou do Otto Lara Rezende.
Ele esboçou um sorriso. Em seguida mostrou-me a região da loja onde estavam os autores brasileiros, indicou-me onde estavam os livros do Fernando Sabino, e pediu-me licença para ir em busca dos demais cronistas mencionados por mim. Puxei uma cadeira, sentei-me, e fiquei por ali lendo os títulos nas lombadas dos livros enfileirados, tirando um ou outro de seu lugar, olhando a capa, lendo os textos de apresentação na primeira e segunda orelhas, os comentários na contracapa, e passeando pelos índices para ter uma visão de conteúdo.
Pouco depois ele se aproximou. Com alguns livros nas mãos comentou que, ainda adolescente, na ilusão de tornar-se escritor, havia estado no lançamento de um livro do Fernando Sabino, em Campinas; que, inspirado por ele, havia começado a valorizar os seus próprios escritos, tendo, consequentemente, ingressado na faculdade de Letras. Deixando comigo uma pilha de livros que selecionara para me mostrar, sugeriu-me folhear Hélio Pellegrino, Lourenço Diaféria e Contardo Calligaris. Em seguida voltou para o local onde se encontrava inicialmente, sentou-se quieto em meio a uma desordem interessante, e voltou a manusear os livros que estavam ao seu lado.
Cerca de quarenta minutos se passaram até que fui, finalmente, até à sua mesa, e entreguei a ele os livros que havia escolhido: "A cidade vazia" e "Deixa o Alfredo falar!", do Fernando Sabino, e "Lucidez embriagada", do Hélio Pellegrino. Enquanto manuseava os livros ele contou-me como os havia adquirido, e lamentou pelo Fernando Sabino, o Graciliano Ramos, a Clarice Lispector e o Jorge Amado não terem conseguido ocupar Cadeira na Academia Brasileira de Letras. Continuou sua fala relembrando fatos passados e lidos a respeito de cada um dos escritores por ele mencionados; e, por fim, contou-me do quanto sua esposa havia ficado contente quando ele retirou de dentro de sua casa todos os seus livros para poder iniciar o negócio do sebo; que ainda não havia conseguido cadastrar todos, mas que gostava de passar os seus dias ali, separando livros, cadastrando, ajeitando...
Naquele instante uma senhora entrou na loja, e a conversa precisou ser interrompida para que ele pudesse atendê-la. Depois, fiz o acerto dos valores da minha compra com a sensação de que, independente dos livros que eu havia escolhido, aquela pequena conversa já havia feito com que valesse à pena a minha estada naquela livraria.
Ao agradecer e me despedir, dei-me conta de que, ao lado de sua mesa de trabalho, havia uma garrafa de vinho tinto e uma taça; e que, mesmo sem muitos clientes, ele parecia de fato sentir-se muito bem ali, rodeado por ideias desenvolvidas por mentes iluminadas, cujos nomes, pela simples menção, já eram motivo para o início de uma conversa.
Pouco falei. Mas ouvi. Voltei para casa com o sentimento de que a compra e a venda, em si, não eram o melhor que aquele sebo podia oferecer: eram uma simples consequência.
No próximo sábado, no período da manhã, pretendo retornar àquela loja de livros usados; quero comentar minhas impressões a respeito dos livros que lá adquiri. E talvez, se não for incômodo ao proprietário, eu até leve para lá uma taça e uma garrafa de vinho tinto para ficar também bebendo e manuseando livros, até que a fome se manifeste e eu precise retornar à minha casa para o almoço.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
COCEIRA, MÚSICA E POMADA
Há cerca de quase dois meses apareceram em meus ombros duas pequenas manchas vermelhas. Elas coçavam... mas coçavam deliciosamente. Não havia dor. De início, querendo crer que elas logo iriam desaparecer, nenhuma providência tomei. Mas como elas persistiam, acabei por aplicar sobre elas, irresponsavelmente, uma pomada encontrada em uma das gavetas do banheiro de casa - e que me parecia apropriada, conforme instruções lidas na bula. Contudo, as manchas nem deram bola para a pomada: resistiram.
No início do mês, ainda com as manchas nos ombros, recebi um convite de um amigo, colega de república - hoje dermatologista -, para nos encontrarmos, nos revermos, e conversarmos sobre música, cinema e literatura - assuntos que foram responsáveis por nossa amizade há mais de quarenta anos.
Logo na chegada ouvi dele a notícia de que havia descoberto umas raridades musicais; que essas raridades foram gravadas, a seu pedido, por um amigo comum; que estava ansioso para me presentear com um pendrive contendo tais preciosidades. Em seguida entregou-me o pendrive com mais de 700 músicas. E assim passamos, eu, ele, nossas esposas e mais uma amiga, uma noite muito agradável conversando, rindo e celebrando a vida.
Foi só há poucos dias que pude começar a ouvir as músicas gravadas: eram boleros, trilhas sonoras de filmes, sambas-canção... Doris Day, Henri Mancini, Edith Piaf, e tudo de bom que se possa imaginar. Percebi então, a medida que ia ouvindo as gravações, que aquelas manchas em meus ombros começaram a desaparecer. E assim, a cada dia, por intermédio da audição, sigo aplicando um pouco daquelas músicas nas minhas manchas.
Não consegui ainda ouvir todas as gravações que foram colocadas no pendrive. Consequentemente, ainda não estou totalmente curado das manchas nos ombros, pois ainda me falta ouvir umas oitenta músicas.
Ontem mesmo, por telefone, agradeci ao meu amigo, novamente, pelo presente terapêutico-musical que me foi prescrito e ofertado. Ao mesmo tempo agradeci-o também por uma pomada que, no nosso encontro, ele sugeriu que eu adquirisse em alguma farmácia e aplicasse de imediato sobre as manchas nos ombros: creio que aquela pomada também deve ter contribuído, um pouquinho, para que as músicas gravadas no pendrive resolvessem a questão das manchas nos meus ombros.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
GLÓRIA MARIA: NUVENS, SORRISOS E CAPPUCCINOS...
Caro amigo. Acabei de ler a mensagem que me foi enviada por você, via whatsapp, daí do cantinho da Europa, acompanhada de um vídeo. A mensagem me dá notícia do falecimento da jornalista Glória Maria, e o vídeo a mostra na rua entrevistando, há anos, o poeta Carlos Drummond de Andrade. A sua mensagem e o seu vídeo me chegam justo no instante em que eu me sento na sacada do apartamento, para, descompromissadamente, observar o horizonte.
CLIQUE PARA OUVIR
E daqui da sacada, vejo o céu carregado de nuvens; vejo que aproxima-se da cidade um verdadeiro temporal. Mas não há ventania... Alguns pássaros tomam o rumo da praça da Catedral, e a algazarra promovida pelas maritacas mais parece o anúncio de um dilúvio. Denise e eu resistimos, em casa, nesse início de noite. Gosto de chuva. Gosto de chuvisqueiro. Em minha casa de menino o quintal tinha cheiro de tronco e folhas de mangueira molhada por água caída do céu... Com a possibilidade da chuva, reencontro minha mangueira... Talvez eu tenha a alma carregada de nuvens que pedem cuidado constante. Lembro-me do céu claro, acima das nuvens, quando ouço as histórias e as gargalhadas da Denise - dela, que tanto gosta do Carlos Drummond, talvez por um certo apego mineiro, mineiros que são. Ele de Itabira, ela de Viçosa... A Glória Maria era também dona de um sorriso bonito... ela sorri com leveza entrevistando o Drummond... Ele, depositário do sentimento do mundo, parece, na entrevista, entender de nuvens... e a Glória Maria, pelo que o poeta inspira, sorri e formula perguntas... Eu, diante daquela a quem quero bem, tento sorrir em retribuição ao seu sorriso espontâneo... procuro, sem encontrar, a mesma leveza.... e me levanto... vou à cozinha.... ligo a máquina de café, e preparo uma xícara de cappuccino para oferecer a ela, na sala... Com xícara, levo todo o meu amor - e o meu sorriso.
RP, 02fev23
