Minha intenção é publicar aqui as reflexões que me ocorrem a respeito dos textos que leio, das músicas que ouço, dos diálogos que tenho com as pessoas, e das respostas que me são dadas pelo silêncio... e que me fazem sentir que, de alguma forma, trouxeram alguma inspiração. Afinal, o universo ao nosso redor só se torna inteiramente bonito quando conseguimos dar a ele algum significado; e, especialmente, quando sentimos necessidade de compartilhá-lo.
Descendo a Florêncio de Abreu, no centro de Ribeirão Preto, SP, em sua esquina com a Álvares Cabral, está o Palacete Jorge Lobato. Construído em 1922, foi residência de Jorge Lobato Marcondes Machado - um engenheiro que, vindo de Taubaté, SP, havia se mudado para Ribeirão Preto. Fechado por quase 25 anos, e sem nenhuma manutenção, o imóvel foi tombado em 2008 pelo CONPPAC (Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural), restaurado em seguida, e reaberto em 2017 como restaurante.
Concerto para violino e oboé em Dó Menor (Allegro) - BWV 1060
https://www.youtube.com/watch?v=HLiqQFpMGXg
E que restaurante! Um verdadeiro presente para Ribeirão. Estar lá, rodeado de encantos que retêm o próprio tempo, é um privilégio para observadores e gourmets de paladar requintado. Com um cardápio que oferece pratos deliciosos, é o canto aconchegante e apropriado para jantares especiais. Janelas, portas, vitrais... obras de arte espalhadas pelo imóvel, paredes decoradas... é a história que conta histórias e inspira diálogos. Composições de Bach, Chopin, Piazzolla, Villa-Lobos e tantos outros, que combinam muito bem com o imóvel, promovem a suavidade do fundo musical para um encontro perfeito: amigos, namorados, familiares, confraternizações... ou uma simples visita. Tudo lá encanta... e pede uma garrafa de vinho para a sua mesa. Vá lá conhecê-lo! Seja também personagem dessa obra de arte - e valorize: recomendadíssimo!
(site do imóvel/restaurante: https://palacete1922.com.br/o-restauro.html)
Gosto dos artistas de rua. Instalam-se em uma esquina qualquer, em uma praça, em frente a uma loja, em estações de ônibus, de trens ou metrô, onde quer que seja. Tocam seus instrumentos e cantam sem exigirem nada em troca. Seguem cantando e encantando aqueles que por eles passam. Encantam, mesmo que por um pequeno lapso de tempo, aqueles que dirigem a eles um olhar e que, passando, carregam na mente um universo de questões e histórias pessoais... histórias que reaparecem ao ouvirem o cantor de rua, que mora sabe-se lá onde, que alimenta-se sabe-se lá com o que, que canta sua própria história para uma plateia apressada que transita pelas ruas da cidade, sem saber porque ou por quem cantam os cantores de rua...
Mick Iredale - "Streets os London"** (Ralph McTell)
https://www.youtube.com/watch?v=GS7Hwd9eQsI
________________________________________
*One more forgotten hero in a world that doesn't care
**Streets of London (Ralph McTell)
Have you seen the old man/ in the closed-down market/ kicking up the paper/ with his worn out shoes? In his eyes you see no pride/ and held loosely at his side/ yesterday's paper telling yesterday's news.
So how can yout tell me your're lonely/ and say for you that the sun don't shine?/ Let me take you by the hand and lead you through the streets of London/ I'll show you something to make you change your mind.
Have you seen the old girl/ who walks the streets of London/ Dirt in her hair and her clothes in rags?/ She's no time for talking/ She just keeps right on walking/ Carrying her home in two carrier bags.
So how can you tell me...
In the all night cafe/ at a quarter past eleven/ same old man is sitting there on his own/ looking at the world/ over the rim of his tea-cup/ each tea last an hour/ then he wanders home alone.
So how can you tell me...
And have you seen the old man/ outside the seaman's mission/ memory fading with/ the medal ribbons that he wears/ in our winter city/ the rain cries a little pity/ for one more forgotten hero/ and a world that doesn't care.
O Celso e o Degiovani Lopes são danados mesmo. E são meus amigos! Trabalharam por muito tempo no Banespa, subiram e desceram suas escadas, e não deixaram que tempo tirasse deles as lembranças e o amor pelo prédio que ainda é a cara de São Paulo: o Edifício Altino Arantes. Desconfio até que o Celso e o Degiovani foram conduzidos ao edifício símbolo de São Paulo por mãos divinas. Sim... alguma divindade devia estar prevendo que caberia a eles a honrosa tarefa de nos contar, em fotos e fatos, a História do edifício central do Banespa. Tantos prédios, tantos edifícios iam transformando e fazendo crescer a capital do estado, ao tempo em que os irmãos zanzavam por ali, guardavam histórias... no dia a dia, no coração da cidade, observando, anotando, fotografando, criando cumplicidade com as janelas, com os lustres, com as paredes do prédio. "Um edifício no imaginário da cidade" é uma manifestação de carinho não somente a tudo o que o Banespão simboliza, mas também um alerta, um canto de amor à cidade de São Paulo e à necessidade de preservação de sua memória. Com belas fotos e um texto impecavelmente preciso, o Celso e o Degiovani publicaram um livro precioso para os anais da cidade e do estado de São Paulo. Parabéns, Celso; parabéns Degiovani: orgulho-me em poder dizer que sou amigo de vocês, autores desse documento tão valioso - fonte de informações para pesquisadores de todos os tempos.
___________________________
O livro está à venda on line no seguinte endereço: www.samburaliterario.com.br Também pode ser encontrado em loja física: Livraria do Espaço - Unidades: Rua Augusta e Shopping Frei Caneca (São Paulo, capital)
Assisti ontem, pela TV, a entrega do troféu Kikito, no Palácio dos Festivais, em Gramado/RS. Você estava deslumbrante no comando da apresentação do evento. A alegria transmitida pelo seu sorriso, que conheci aqui em Iguatu, há anos, não mudou. Notei que a insegurança estampada em seu rosto no dia da sua partida, há longínquos dezessete anos, tendo sido deixada para trás, foi substituída pela sua imagem de celebridade em uma importante cerimônia de premiação. Naquele dia, depois de termos nos amado, de minha moto, na esperança de seu retorno, acompanhei por alguns quilômetros o seu olhar emoldurado por uma das janelas do ônibus que te levava para o Sul.
Depois que você partiu, e por algum tempo ainda, muito se falou a respeito de sua ousadia aqui em Iguatu. Não te esqueci, e não te esqueço. Continuo só. Hoje, os que te veem na TV nada sabem a respeito da determinação que você tinha em conseguir encontrar, longe daqui, o seu próprio céu. Querendo-te bem como sempre te quis, sofri muito por não ter podido adquirir todos os números da rifa que você vendia para comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, e que premiava o ganhador com "uma noite no paraíso" - uma noite com Suely, não com Hermila. Sua vontade de ir embora para bem longe e encontrar o seu céu foi muito grande. E você venceu. Se tivesse se abatido, sem poder se realizar, continuaria condenada à mediocridade de uma vida vazia. Parabéns, Hermila.
Tudo por aqui mudou. Iguatu já não é mais uma pequena cidade dormitório às margens dos trilhos da estrada de ferro. Com a instalação de cursos de graduação a cidade se desenvolveu. Tanto que, com os ganhos auferidos pelo meu serviço de motoboy, consegui concluir o curso de Direito na Universidade Regional do Cariri, e já, há oito anos, com muitos clientes, tenho o meu escritório profissional de advogado.
Roberto Carlos - "Outra vez" (Isolda)
https://www.youtube.com/watch?v=dLithcjeEE8
Mas não te esqueço. Você foi o grande amor que tive. Guardo a lembrança de sua última passagem por Iguatu quando, vencida pelo custo de vida na cidade de São Paulo, seu único projeto era criar o seu filho com o produto da venda de CDs piratas no Mercado Municipal. Mas seu companheiro não deu mais notícias, não retornou como havia prometido, e o projeto de comercializar CDs não se realizou - para sorte sua.
Te vi ontem na TV e te aplaudi com emoção. Os olhos de quem assistiu a cerimônia enxergaram apenas o alvo dos holofotes: não sabiam e, creio, nem queriam e nem querem saber dos degraus e quedas sofridas por você até encontrar e atingir o seu próprio céu. Mas eu, sabendo de seus tropeços, conheço toda a sua história. E ainda aqui, comigo, com o mesmo carinho de tantos anos, reservo para você um cantinho no meu coração.
Do seu motoboy de Iguatu,
João
_________________________________________
*Inspirado no filme "O céu de Suely" (BR/FR/ALE, 2006. Dir.: Karim Aïnouz)
"Cenoura, tomate, alface, beterraba, cebola, pepino... mamão, banana e melão... carnes... arroz, ovos, fubá, caldo de carne e de galinha... Veja, álcool, sabão em pó, detergente, sapólio, bombril, saco de lixo, lustra móveis, água sanitária, removedor". Com essa lista no bolso, e com todas as horas de uma manhã à minha disposição, fui às compras em um supermercado.
Empurrando um carrinho, fiz minha primeira parada na seção de frutas e legumes. Comecei pelos mamões - que precisavam de mais uns dois ou três dias para poderem ser consumidos: escolhi dois. O melão veio em seguida: selecionei um daqueles envolvidos em uma redinha vermelha de plástico - que, dizem, são os mais doces: e são, de fato. Da seção de legumes e frutas fui às carnes, e dali às demais seções.
Na seção de bolachas procurei a minha preferida: uma bolacha feita com grãos de gergelim, que é apresentada em uma embalagem de papel verde brilhante. Nos chocolates examinei as diferentes ofertas: chocolate ao leite, chocolate com amendoim, chocolate amargo, meio amargo, sonho de valsa, chocolate recheado com uva passa e castanhas do Pará... Eu, que adoro chocolate amargo, 60 ou 70% cacau, caí agora nas graças do "Bis Xtra Black": uma delícia. Peguei uma caixinha.
Depois fui aos congelados, onde estão as lasanhas à bolonhesa... Examinei o balcão de queijos... parmesão, gorgonzola... Os vinhos, no supermercado, não são muito convidativos: são muito caros. Ainda assim passeei por entre eles, na esperança de encontrar alguma promoção... Mas, nada: nenhum milagre.
Em seguida dirigi-me à seção de azeites. Como gosto dessa seção! Passei pelos portugueses, pelos espanhóis, italianos, argentinos... Quantas embalagens lindas! Lembrei-me de que havia um azeite espanhol enlatado, o "Carbonell", que trazia em sua embalagem, de cor predominantemente vermelha, uma senhora sentada à sombra de uma oliveira... Procurei por esse azeite e lá estava ele! Fiquei olhando a embalagem, pensando nas oliveiras, imaginando aquela senhora que permanecia, horas, anos, décadas, presa na embalagem de lata, colhendo azeitonas, ouvindo pássaros... a mesma postura, a mesma face...
Não consegui passar de forma indiferente pelos sabonetes. Selecionei alguns para, simplesmente, segurar em minhas mãos e sentir o seu cheiro. Ali mesmo, naquela seção, atendi aos impulsos de uma de minhas manias e parei diante dos cremes dentais - uma centena de caixinhas maravilhosas. Procurei por novos produtos, li as orientações impressas nas embalagens, todas elas afirmando o poder de sedução de um sorriso brilhante...
A quantidade de produtos expostos nos supermercados é tão grande, e geralmente eles estão tão bem dispostos, enfileirados, que sempre fico parado diante das gôndolas me sentindo um gerente de seção, um pesquisador, olhando aquelas embalagens, lendo as informações nelas trazidas, examinando e descobrindo tudo - mesmo que não haja, na seção específica, qualquer produto relacionado na minha lista de compras.
Por fim, depois de ter passeado por tantas embalagens coloridas, depois de ter sentido tantos perfumes, depois de ter lido tantos cartazes promocionais, e com o carrinho cheio de produtos selecionados, fui à procura de um caixa menos movimentado para efetuar o pagamento de minha compra.
Ao me postar atrás de uma senhora que conduzia um carrinho um tanto quanto vazio, ouvi a funcionária do caixa dirigir a mim a seguinte pergunta: "O senhor tem no carrinho vinte itens?" Maravilhado com tudo o que o nosso país é capaz de produzir - mas ainda com tanta gente impossibilitada de se alimentar bem -, e desatento ao objetivo final da pergunta, respondi a ela que não havia contado quantos itens estavam no meu carrinho; que certamente havia ali muito mais do que vinte; mas que poderia fazer a contagem se ela assim o desejasse. Foi então que uma senhora à minha frente informou-me que aquele caixa atendia somente clientes com até 20 itens a serem pagos. Assim orientado, e pedindo desculpas por ter me postado em fila indevida, saí a procura de um outro caixa. Logo ao lado percebi um casal que havia terminado de embalar os produtos escolhidos, pronto para realizar o pagamento. Contudo, por motivos que me eram desconhecidos, tanto o casal quanto a funcionária do caixa, com cara de mal humorados, olhavam um para o outro sem nada dizerem. Fiquei ali por alguns instantes, até ouvir a funcionária do caixa dirigir seu olhar para mim e dizer: "o caixa está parado...". E ao final da informação utilizou a palavra "amor" na função de vocativo - pelo menos foi o que pensei ter ouvido. Entendi, então, que ela queria me dizer que seria bom que eu não ficasse ali aguardando, pois a espera poderia ser longa. Ao tomar conhecimento do problema, disse a ela que não me incomodava com a demora, mas que estava muito agradecido por ela ter se dirigido a mim daquela forma tão carinhosa: "amor". "Pra quê?" A moça, enfurecida, olhou para mim e para o casal ali ao lado dela, e esclareceu que não havia me chamado de "amor", mas sim de "moço". E eu, nos meus 65 anos de idade, não pude deixar de dizer a ela que a opção de me chamar de "moço", ao invés de "amor", agradava-me muito mais. Na sequência, ouvindo risos do casal que ali estava, saí à procura de um outro caixa.
Os Mutantes - "A minha menina" (Jorge Ben)
https://www.youtube.com/watch?v=EfHPjZSlOp8
Não posso negar que gosto de ir ao supermercado. A cada vez que vou às compras aprendo muito e trago muitas histórias. Mas, pensando na atendente do caixa, creio que ela não foi verdadeira ao me chamar de "moço". Talvez ela tivesse querido, simplesmente, ser simpática. Em casa, ao chegar, depois de ter acomodado as compras nos armários da cozinha, olhei-me no espelho e fiquei pensando: "não, definitivamente não... minhas rugas, uma pinta que começa a surgir na no meu rosto, minha calvície, os cabelos brancos em minhas sobrancelhas atestam que, definitivamente, 'moço' já não sou...". A atendente de caixa ao dirigir a palavra a mim, chamando-me de "moço" (ou "amor"), não me convenceu. Contudo, aqui entre nós, admito que gostei de ambas as palavras que poderiam ter sido empregadas como vocativo: a que ela, de fato, verbalizou, e a outra, que só os ouvidos do meu coração conseguiram ouvir.
Por questões de divergência nos modelos de desenvolvimento propostos para o país, de 1861 a 1865 os Estados Unidos foram uma nação dividida. As divergências estavam no tipo de sociedade a ser implantada nas terras que seriam ocupadas a Oeste. Os estados do Sul tinham a economia fundada na agricultura, que era voltada para a produção de algodão com exploração de trabalho escravo; os estados do Norte fomentavam a indústria com trabalho livre assalariado. Carolina do Sul, Alabama, Flórida, Mississipi, Geórgia, Texas e Luisiana, estados do Sul, defendiam que o modelo escravista deveria ser adotado nas terras situadas a Oeste; os estados do Norte queriam abolir tal modelo.
Como Abraham Lincoln, então presidente, mantinha um discurso ambíguo em relação à escravidão, os estados do sul decretaram o seu rompimento com a União, proclamando-os Estados Confederados da América. O início da chamada Guerra da Secessão deu-se em seguida, com um ataque das forças confederadas a um forte da União, no estado da Carolina do Sul. Lincoln, sustentando que não aceitaria a separação, convocou as forças legais para a reintegração. Com isso, Virginia, Arkansas, Carolina do Norte e Tennessee, outros estados sulistas, também romperam com a União e passaram a apoiar os Confederados. A guerra que foi deflagrada, e que inicialmente estava em torno da integridade territorial da União, acabou por tomar o sentido de luta pelo fim da escravidão. Ao final os Confederados foram derrotados, e muitos milhares de pessoas perderam a vida nessa guerra.
Robert Edward Lee e Thomas Jonathan "Stonewall" Jackson foram dois militares estrategistas dos exércitos confederados que lutavam pela continuidade da escravidão. Suas imagens, juntamente com dezenas de outras imagens representativas da história dos Estados Unidos, mescladas com figuras religiosas, foram utilizadas para adornar os vitrais da belíssima Catedral Nacional de Washington (Anglicana).
Essa confusão entre Igreja e Estado, entre Santos e líderes ou feitos políticos, é muito temerária. Não me parece apropriada essa ideia de se querer santificar líderes políticos, para que sirvam de modelo de identificação. As ondas da história, como as do mar, quebram e se transformam. Imagine você, meu caro leitor, o quanto a imagem de um líder da história política, dentro de um templo religioso, aliada a imagem de algum Santo, pode influenciar e induzir fieis desprovidos de raciocínio crítico. A colocação de líderes escravagistas em pedestais de Santos, na Catedral de Washington, por tal motivo, não me parece uma ideia inteligente - mas foi o que aconteceu.
Pois, veja só. As manifestações por justiça racial nos Estados Unidos, sob o lema "Black lives matter"**, que se seguiram ao assassinato de George Floyd em 2020, repercutiram no mundo todo - inclusive na Catedral de Washington. Assim, na última semana, foi concluída a substituição das imagens dos militares Lee e Jackson estampadas nos vitrais da Catedral, por imagens de pessoas negras em manifestação por direitos civis.
Grandes transformações começam pelos pequenos gestos que inspiram o pensamento, a reflexão, e o raciocínio crítico. Felizmente a capacidade de revisar iniciativas de outros tempos, em outras circunstâncias, ainda pode ocasionar o reparo em falhas passadas. Contudo, quando misturadas, política e religião quase sempre ensejam grandes danos. Assim, espero que os vitrais dos líderes militares sejam levados a ocupar espaços em museus históricos, não em outros templos religiosos. Do mesmo modo, entendo que a representação de manifestações políticas devem sempre ser lembradas, reavaliadas e reestudadas. Por tal motivo, diferente de serem instaladas em espaço religioso, deveriam também ter o mesmo destino aqui sugerido para os vitrais dos militares Lee e Jackson: um museu histórico ou, ainda, o próprio espaço público.
_______________________________________
*texto inspirado na leitura de artigo publicado em 27/09/23, no jornal Folha de São Paulo, de autoria de Diogo Bercito, sob o título "Catedral de Washington troca generais escravistas por manifestantes negros em vitrais".
Foi observando a Malu comer sua ração que comecei a conversar com a minha esposa a respeito do Pateta, do Mickey, do Pato Donald e do Pluto - personagens de histórias em quadrinhos criados por Walt Disney. Inicialmente, meu caro leitor, preciso esclarecer que a Malu é uma cachorrinha que, assim como o Pito, uma calopsita macho, frequentemente hospedam-se em minha casa durante as viagens da minha filha - que é quem os cria (Malu e Pito). Observando a avidez com que a Malu devorava o seu alimento, comentei que talvez fosse solidão o motivo que a estivesse levando a se alimentar daquela maneira; que um animalzinho precisa ter a companhia de um outro animalzinho da mesma espécie. Foi então que nos lembramos dos personagens criados por Walt Disney, e de suas respectivas companheiras: para o Mickey, a Minnie; para o Pato Donald, a Margarida; e para o Pateta, a Clarabela.
"Clarabela"
https://tkoc.fandom.com/pt-br/wiki/Clarabela
Mas... a Clarabela?? Peraí! Deve ter ocorrido alguma confusão. Mickey e Minie são ratos; Donald e Margarida são patos; mas o Pateta, sendo um cachorro, como é que pode querer namorar a Clarabela, que é uma vaca? Falha do Walt Disney? Ou será que Walt Disney quis desenvolver um personagem animal com fixação por um outro animal de espécie distinta?
Criado em 1932 com o nome de Dippy Dawg, somente sete anos depois Dippy Dawg teve seu nome alterado para Goofy (Pateta). O primeiro nome do Pateta - "Dippy Dawg" - sinaliza para a espécie de animal que foi elaborado na mente do seu criador: um cachorro. Afinal, a pronúncia da palavra "Dawg", em inglês, é semelhante a "dog" - que significa, em português, "cachorro". Mas... há aí uma outra confusão: como pode o Pateta, sendo cão, passear com o cachorro de seu amigo Mickey, o Pluto, preso pela coleira? Um cachorro guiando o outro, pela coleira: não é estranho? Bom, o Pateta foi desenhado para agir como se fosse um personagem humano; o Pluto, para representar a figura de um animal de estimação - um cão. Representar personagens é, evidentemente, compreensível; mas o Pateta paquerar a Clarabela, e vice-versa, parece meio esquisito: um cão querer namorar uma vaca? Apesar de achar a Clarabela um tanto quanto espalhafatosa, gosto muito dela - e do Pateta.
CLIQUE PARA ASSISTIR
Goofy and Clarabelle - "Chains of love"
https://www.youtube.com/watch?v=m_xrT_2knts
É claro que as vezes a gente vê relacionamentos pacíficos entre animais de diferentes grupos, tal como o que se dá entre a Malu e o Pito, um mamífero e uma ave, quando o Pito estica as asas fora da gaiola e convive numa boa com a Malu. Mas, vejam só a Clarabela: ela joga o seu charme para cima do Pateta quando se desentende com o seu namorado (as vezes "ex"), o Horácio - que é um um cavalo! Não é meio estranho?
"Horácio"
https://disney.fandom.com/pt-br/wiki/Hor%C3%A1cio
Assim, um cachorro (o Pateta) guia outro cachorro (o Pluto), e uma vaca (a Clarabela) que namorou, primeiro, um cavalo (o Horácio), de vez em quando dá bola para um cachorro (o Pateta). Nessa salada oriunda da fertilidade imaginativa dos criadores dos desenhos animados, até aplaudo as confusões. A meu ver, os cartunistas parecem ser grandes visionários: com todo talento que possuem, eles vão fazendo com que a gente vá acomodando todas as (im)possibilidades pensadas nesse nosso mundão - que, abençoado por Deus, que a todos protege, só quer que convivamos bem uns com os outros - humanos, mamíferos, répteis, peixes, aves, anfíbios... canídeos, bovinos, ovinos, equinos, bípedes, aracnídeos, quilópodes, diplópodes, crustáceos, vertebrados, invertebrados e todos os demais gêneros e espécies...
No centro da sala enorme e fria jazia o corpo. Ornado com flores, mãos cruzadas sobre o peito, estendido em sua urna sepulcral com a tez pálida, e ainda assim com o magnetismo mantido pelo que havia sido ao longo dos seus 97 anos, o falecido promovia uma reunião de pessoas em torno de si - como costumava acontecer quando contava histórias. Ao pé do ouvido, ao redor do caixão, uns com outros conversavam baixinho. De pé, ao lado do morto, com a face voltada para baixo e as palmas das mãos para cima, um senhor movia silenciosamente os lábios, como que a fazer uma oração. Quase centenária, a irmã do falecido, ao canto, com olhos solitários, vermelhos e cansados, recebia abraços e apertos de mão daqueles que dela se aproximavam.
Após o sepultamento, sozinho no caminho de volta para casa, fiquei relembrando histórias antigas a respeito de minha avó, de meu pai e seus irmãos, que me haviam sido contadas há muitos anos pelo falecido. Ao chegar, pensei em chamar por telefone minha mãe, ou algum dos meus tios, ou ainda alguém que pudesse se interessar em saber como havia sido aquela partida. Com o telefone celular em mãos dei-me conta de que todos os conhecidos meus que haviam tido, ao longo do tempo, alguma proximidade com o falecido, e que poderiam querer saber como havia sido aquela despedida, também já haviam partido...
Por fim levantei-me do sofá e fui para a sacada do apartamento. Dali, movido por uma certa aflição carregada pela ideia de transitoriedade, deixei os meus pensamentos se perderem nos pequenos pontos de luz que cintilavam no escuro do céu...
Renato Teixeira, dele, "As coisas que eu gosto" - do disco "Paisagem" (1973)
https://www.youtube.com/watch?v=uFDdebTbemU
No meio da tarde de ontem entrei em uma loja de conveniências de um posto de gasolina. Não queria comprar nada; só queria ficar ali por alguns minutos, à toa. Mas... peguei um suco de laranja na geladeira e, no balcão, um pão de queijo que, cheirando à aconchego, havia acabado de sair do forno. Em seguida fui me sentar à uma das mesas da loja, de onde, enquanto comia, olhava pela janela de vidro o movimento dos automóveis lá fora, ao lado das bombas de gasolina, e a entrada e saída de clientes na loja.
Ao terminar o meu lanche percebi que havia apenas uma moça atendendo ao caixa, e que o número de pessoas que procuravam efetuar o pagamento de suas compras estava aumentando. Como a espera para pagar poderia ser longa, levantei-me e posicionei-me na fila, e fiquei no aguardo de minha vez para ser atendido.
À minha frente havia quatro pessoas: um senhor que usava um óculos de lentes grossas, uma adolescente japonesinha, uma senhora bem alta, e logo à minha frente um senhor de uns 60 anos, que levava sob o braço um pacote contendo latinhas de cerveja. Assim que me postei na fila o telefone celular deste senhor à minha frente soou, e ele passou a emitir sons ininteligíveis que deveriam ser palavras direcionadas à pessoa que o havia chamado. Ao final da ligação dirigiu-se a mim e queixou-se:
- Minha mulher não larga do meu pé! Ela agora passou a implicar com o meu prazer de tomar uma de cerveja antes do jantar.
- Puxa vida, disse-lhe eu, mas de vez em quando uma cervejinha antes do jantar não faz mal a ninguém. É até romântico, cria uma boa cumplicidade - completei. Ela não toma uma com você? Já a convidou?
Posando de malandro, ele passou a me explicar que não se tratava apenas de uma cerveja; mas que a mania dele era de tomar exatamente sete, na semana.
- Bom, disse-lhe eu, sete na semana significa uma por dia... Está tudo de bom tamanho. Não há exagero nisso.
Para que eu entendesse melhor a situação, ele me disse que costumava tomar sete latinhas de cerveja em uma sentada só: e pelo menos em três dias na semana!
Sem saber o que dizer, comentei que aí a dificuldade de se ter a companhia e a cumplicidade da mulher já ficava mais difícil; que podemos exagerar de vez em quando, que Deus compreende e perdoa, mas que é bom que pelo menos tentemos ser moderados.
Com ares de esperto, ou apenas para alongar a conversa, ele me contou que havia ido a uma médica e que ela havia lhe dito, metaforicamente, que as muitas notas promissórias que ele havia emitido estavam começando a chegar. E arrematou:
- Veja só, eu estou com quase 60 anos... e preciso ser feliz!
Dito isso ele foi chamado ao caixa, pagou pela sua compra, olhou para mim e, despedindo-se, arrematou dizendo:
- "O que é do gosto, regalo da vida!"
Chegada a minha vez, fui chamado ao caixa. Mas... antes... pensei rapidamente sobre a breve conversa que havia tido com aquele senhor e, num impulso, cedi ao rapaz que me seguia na fila a vez de ser atendido. Com passos decididos dirigi-me novamente ao balcão da padaria, onde pedi mais uma dúzia de pães de queijo: um para eu comer enquanto aguardava novamente minha vez na fila do caixa, e os outros onze para serem colocados num saquinho e levados para casa... E nem me importei mais com o tamanho da fila ou com o que, de início, poderia me parecer um exagero.
Penso que, aqui no Brasil, a Astrud Gilberto foi muito menos valorizada do que merecia. Ela falava baixo, quase que sussurrando... casou-se com o João Gilberto, em 1959. O João Gilberto, até então, seguia na linha do Orlando Silva, cantando forte, alto e em bom tom. É certo que, nessa época, ele ouvia muitas gravações do Chet Baker, que tinha passado a cantar também - além de brilhar com o seu trompete. Ouvindo discos do Chet Baker, e cantando domesticamente baixinho, e ainda para agradar sua então esposa - talvez até em duo com ela - foi aí que se desenrolou a bossa nova. Até fico imaginando a Astrud, nessa época pre bossa nova, sussurrar para o João Gilberto, na cozinha da casa deles: "Mais baixo, João... cante mais baixo...". Não podemos dizer que a Astrud Gilberto foi só a gravação de Garota de Ipanema, em inglês, no disco do João Gilberto com o Stan Getz. De jeito nenhum! Lembra-se do Vinícius, na "Carta ao Tom" (a de 64) gravada no show da boate Zum-Zum?: "E a Astrudinha, hein, que negócio tão direito... vamos ver se dessa vez os intermediários deixam algum [$] para nós". Ela está muito mais inserida na criação e divulgação internacional da bossa nova do que a gente pode imaginar - sem tirar, obviamente, todos os méritos do nosso querido João Gilberto.