quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

CENTENÁRIO DA EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE GUARÁ, SP: CERIMÔNIA OFICIAL, NA CÂMARA MUNICIPAL, EM 19/12/2025

 
Em 26/12/2025 a cidade de Guará completou cem anos de emancipação política. Em comemoração, a Câmara Municipal realizou uma cerimônia especial, para a qual fui convidado a me manifestar - e, muito honrado pelo convite, assim me pronunciei:


Exmo. Sr. Presidente desta Casa de Leis, Chico do Lanche;
Exmo. Sr. Prefeito Municipal em exercício, Filipe Furtado: em seu nome cumprimento todas as autoridades aqui presentes;
Exma. Sra. Vereadora Lidiane Cherutti: em sua pessoa cumprimento todos os demais vereadores aqui presentes;
Exmo. Sr. Dr. Arthur Antônio: em sua pessoa cumprimento todos os representantes de entidades associativas aqui presentes;
Sras. e Srs.;
Meus queridos amigos:
        

    Guará celebra o aniversário de sua fundação no dia 15 de setembro. Isso porque, nesse dia, no ano de 1902, foi lavrada uma escritura de doação de terras para que a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação construísse aqui, bem neste local, uma estação ferroviária. Essa estação ferroviária serviria para abastecer e ser um ponto de manutenção de locomotivas e vagões que, promovendo a integração nacional, ligando o litoral ao interior, transportariam a produção agrícola das diversas regiões do país - notadamente o café.

    E no ano seguinte, em 1903, com a passagem da primeira composição ferroviária, a sonhada estação foi inaugurada. Já antevendo, talvez, o movimento que poderia se dar em torno da estação, o engenheiro da Companhia Mogiana, Achilles Widulich, sugeriu, para aquela estação o nome Guará.

    Mas de onde lhe veio a inspiração para a escolha do nome? Teria ele notado, na região, a presença de aves da espécie guará? Ou teriam sido lobos da espécie também denominada guará? Não sei... quem se debruçou no estudo da questão tampouco consegue fazer qualquer afirmação conclusiva a respeito. Mas, convenhamos, nem é essa a questão no momento. O lobo é ágil, tem pernas longas... e com determinação, com os pés no chão, desloca-se com rapidez. A ave, com delicadeza e elegância, sobrevoa distâncias imensas; silenciosamente ilumina o espírito de quem a observa, e encanta. Com o privilégio de poder estar nas alturas, sem fazer alarde, e sob um ângulo de visão privilegiado, a ave consegue traçar seu voo seguro.

    Pois assumo dizer que Guará é, ao mesmo tempo, lobo e ave: tem os pés no chão, como um lobo, para os seus empreendimentos, e os olhos no horizonte, como uma ave, para os objetivos que quer alcançar. 

    Apesar de já existir, desde antes da independência do Brasil, a ideia de se instalar a capital em seu interior, foi somente na primeira constituição republicana, a de 1891 que algum visionário, ao elevar e direcionar seu olhar para o futuro, trouxe a ideia de se estabelecer, no planalto central, a nossa capital.

    Teria esse visionário também sido inspirado pela presença de alguma ave ou de algum lobo – Guará, talvez? Também não sei. Só sei que já cuidando da integração nacional, com olhos na futura capital federal, a ferrovia avançou pelo interior do Brasil para que toda a produção agrícola das diversas regiões do país – notadamente o café – pudesse, do interior, chegar ao porto de Santos para ser exportada, e do porto de santos passar e abastecer as diversas cidades e povoados que se iam formando.

    Curioso e motivado por uma série de perguntas que comecei a fazer a mim mesmo quando fui convidado a participar dessa cerimônia, fui então consultar a lista de prefeitos que exerceram mandato em Guará. Nessa lista, constatei que o primeiro deles, o sr. Bráulio Villar Horta, iniciou seu mandato no ano de 1926.

    Bom... Então se Guará foi fundada em 1902, com a doação de terrenos para a construção da estação ferroviária, e só teve o primeiro prefeito no ano de 1926, então alguma coisa parece estranha. Afinal, a gente sabe que toda cidade precisa ser administrada; que a função de um prefeito municipal é executar leis elaboradas pelo legislativo. E se Guará, de 1902 a 1925, não tinha prefeito escolhido pelos seus habitantes, isso significa então que nesse espaço de tempo Guará não tinha representantes; que também não havia quem permanecesse atento e procurasse amenizar, especificamente, as carências da sua população, organizando, cuidando e elaborando leis para serem cumpridas; ou seja, Guará também não tinha o seu poder legislativo constituído, os seus vereadores.

    Mas então quem discutia e procurava solucionar os problemas da população de Guará? quem estabelecia prioridades? Quem se encarregava de dizer o que era ou não bom para Guará? Guará não tinha AUTONOMIA para traçar o seu próprio destino.

    Não tinha Autonomia... mas, afinal, o que é isso? precisava disso? Bom, ter autonomia significa ter competência para criar suas próprias leis sobre assuntos locais; significa poder estabelecer prioridades; significa poder gerenciar recursos e serviços próprios; significa ter a capacidade de se auto-organizar, administrar, tudo em conformidade com as leis hierarquicamente superiores, e respeitando o equilíbrio federativo.

    É aí que se começa a tomar consciência da importância de uma cidade ter o seu chefe do executivo, para poder eleger prioridades, atender necessidades locais objetivando um convívio harmonioso, construtivo e inspirador entre os moradores - tudo com base no resultado de muitas e muitas discussões ocorridas entre os vereadores, abrangendo uma infinidade de ideias nem sempre convergentes (e é bom que seja assim), que resultam em leis.

    Nesse período, compreendido de 1902 a 1925, Guará era apenas um povoado existente dentro do Município de Ituverava. Aliás, é bom observarmos, a cidade de Ituverava não nasceu com esse nome. Seu primeiro nome foi Capela do Carmo do Município de Franca, e era uma Freguesia (um tipo de Distrito na época do Império) dentro do Município de Franca. Foi em 10/03/1885 que a hoje Ituverava, emancipando-se de Franca, adquiriu sua autonomia política e tornou-se um Município.

    A começar pela comparação das datas de aniversário das cidades de Ituverava e Guará, as diferenças no exercício da autonomia começam a surgir. Vejam só: Ituverava comemora seu aniversário no dia 10/3 – dia de sua emancipação política –; e Guará comemora seu aniversário não na data de sua emancipação política, mas na data da doação de terras para a construção de uma estação ferroviária (15/09).

    Não há aqui nenhum juízo crítico a respeito de quando se deve ou não considerar a data de início da existência de uma cidade, digamos assim. Nada disso. O que importa é notarmos  que a autonomia municipal existe até para se estabelecer a data de aniversário da cidade.

    E foi assim que, a partir da inauguração da estação ferroviária, com a chegada da primeira locomotiva, em 1903, muita água rolou... ou melhor, muita locomotiva por aqui trafegou... e o povoado, que aqui se formava, tomou impulso, foi crescendo.

    Em publicação recente do Dr. Romeu Franco Ribeiro, notável guaraense, pesquisador dedicado e amigo muito querido, em texto intitulado “Desde quando sou uma cidade?” assim ele descreveu esse momento de crescimento:

 

“Sem uma programação e ou algum projeto, a nossa estação rodeada de casas, em princípio para ferroviários, logo contou com um pequeno hotel administrado pelo Sr. Antônio Gabarra e Dona ‘Annica’. A essas alturas do caminhar do tempo, aumentando as casas residenciais, também aconteceu de haver profissionais intermediários na compra e venda de produtos agropecuários aqui produzidos. Tais produtos eram despachados em grandes comboios da Mogiana rumo a Ribeirão Preto, Mogi Mirim e outras estações”.

 

         Diante desse crescimento populacional, a prefeitura de Ituverava passou a manter aqui alguns servidores com funções de fiscalização, para, logo depois, nomear o Sr. José Ribeiro Calazans dos Santos subprefeito local.

    E as necessidades dessa população crescente foram aparecendo. Com o sentimento de que a prática da religião também poderia contribuir para a edificação de templos interiores, promovendo vínculos sociais com base em princípios religiosos e humanitários, a população do povoado de Guará se empenhou pela construção de uma capela. E seguindo a tradição da colonização portuguesa aqui no Brasil, a construção da capela foi concluída em 1909, na hoje praça principal, em terreno doado pelo avô do Dr. Arthur Antônio, aqui presente, o Sr. Jerônimo de Paula Silveira e um dos seus irmãos.

    Hoje, pensando no desenho que Guará foi traçando, nós podemos enxergar claramente dois pontos básicos que se figuravam como estímulos para o desenvolvimento de uma cidade: uma estação de trens em uma região de solo fértil, e uma capela... receita perfeita para a chegada de migrantes, de homens e mulheres recém libertos do cativeiro de um tempo de triste memória, e imigrantes originários de diversos países. Assim os sírios, os japoneses, os italianos, os espanhóis, os portugueses e alemães foram chegando...

    Naquelas primeiras décadas do século XX, até 1930, os hoje governadores de estado eram chamados presidentes: presidentes de Estado... E em 1914, o Presidente do Estado de São Paulo era o Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, que havia exercido a presidência da república de 1902 a 1906.

    Em 07/12/1914, o vice-Presidente do Estado de São Paulo, em exercício, o Dr. Carlos Augusto Pereira Guimarães, em atendimento a decreto do Congresso Legislativo de SP, assinou a Lei Estadual 1431, que criava o Distrito de Paz de Guará e definia suas respectivas divisas, tendo sede na povoação de mesmo nome, no município e comarca de Ituverava. Para que isso pudesse acontecer, o Distrito deveria conter, por lei, pelo menos, cem casas habitadas. Por aí podemos ter noção de como era a cidade...

    Mas... o que significava ser Distrito de Paz? Significava que Guará passava a ter um Juiz leigo, chamado de Paz, o qual tinha por função a busca da pacificação social e resolução de conflitos de menor complexidade, fora do sistema judicial, ou seja, suas decisões não eram finais ou irrecorríveis; ele não integrava a carreira da magistratura; sua função principal era a resolução amigável de litígios, e a celebração de casamentos civis. E essa mesma Lei Estadual, que organizava o poder judiciário do Estado, dizia que os juízes de paz deveriam ter pelo menos dois anos de residência no Distrito, e seriam nomeados por eleição popular realizada a cada 3 anos.

    A respeito dessas duas primeiras décadas do século passado, vale a pena mencionarmos um parágrafo de “História de Guará”, de autoria do jovem talentoso guaraense, e meu amigo, Alexandre Nogueira Souza. Diz o Alexandre:

 

 “Em 1917, cerca de 500 pessoas habitavam Guará, mas a vida aqui já era ativa. Havia um cinema chamado ‘Odeon’, espaço onde também eram realizados bailes e festividades (...). Além disso, com a ajuda da prefeitura de Ituverava e de algumas autoridades da época, os moradores de Guará construíram um cemitério, duas escolas estaduais, duas municipais e um jornal denominado “O Guará”.

 

    Sobre a organização dos Municípios, a Constituição de 1891 assim dispunha: “Os Estados organizar-se-ão de forma que fique assegurada a autonomia dos municípios, em tudo quanto respeite ao seu peculiar interesse”. Ou seja, era a Constituição do Estado quem deveria dispor a respeito da criação de municípios, dentro de seu território.

    Assim, com a autonomia que a primeira constituição republicana, a de 1891, deu aos Estados membros, o Estado de São Paulo, podia criar municípios por intermédio de suas Assembleias Legislativas. Com essa autonomia, e com o crescimento da economia cafeeira, muitos novos municípios foram criados no Estado de São Paulo – o que fortaleceu o poder local e a expansão agropecuária. E foi com esse fortalecimento do poder local, e a expansão agropecuária, que o Presidente do Estado, o dr. Carlos de Campos, assinou a lei estadual 2008 de 19/12/1925, publicada em 26/12/1925, que criava o Município de Guará e estabelecia suas divisas, dentro da Comarca de Ituverava.

    Bom... foi então criado o Município de Guará... mas, o que significava e significa ser Município? O renomado jurista Hely Lopes Meirelles, em “Direito Municipal Brasileiro”, assim explica:


Do ponto de vista sociológico, o Município é um agrupamento de pessoas de um mesmo território, com interesses comuns e afetividades recíprocas, que se reúnem em sociedade para a satisfação de necessidades individuais e desempenho de atribuições coletivas de peculiar interesse local. Do ponto de vista político, o Município é entidade estatal de terceiro grau na ordem federativa, com atribuições próprias e governo autônomo, ligado ao Estado-membro por laços constitucionais indestrutíveis. E sob o foco legal, o Município é pessoa jurídica de direito público interno, e, como tal, dotado de capacidade civil plena para exercer direitos e contrair obrigações em seu próprio nome, respondendo por todos os atos de seus agentes.

 

    Em outras palavras, com o reconhecimento do governo do Estado de que a população desse até então Distrito de Ituverava tinha capacidade e potencial para se autogerir, que nele haviam afetividades recíprocas, histórias, interesses e tradições comuns, em 1925 Guará acabou por conquistar sua personalidade jurídica, e adquiriu capacidade para criar suas próprias leis e se autogovernar - obviamente dentro dos parâmetros legais, respeitando as competências dos demais entes federativos – união e estados-membros.

    Muitos contribuíram para que Guará conseguisse a sua emancipação política. O já mencionado autor guaraense, Alexandre Nogueira Souza, em “História de Guará”, relaciona diversos nomes que merecem ser lembrados. Diz o Alexandre:

 

“Destacam-se as figuras do Deputado Estadual João de Faria, do Deputado Federal Dr. Altino Arantes, do senador Antônio de Lacerda Franco, e, claramente, do presidente do Estado, Dr. Carlos de Campos. Além deles, vale mencionar alguns políticos locais que trabalharam duramente para a municipalização guaraense, a exemplo de Antônio Ribeiro dos Santos, Capitão José Honório da Silveira, José de Carvalho e Silva, José Calazans Ribeiro dos Santos, Rogério Ribeiro de Mendonça, Horácio Borges de Freitas, Deodato Nunes Muniz, Asthério Christino de Figueiredo, Dr. José Theodoro de Figueiredo, e Canuto Borges de Freitas."

 

         A partir de então, da emancipação política, o que era bom, importante, necessário e devido aos guaraenses, era decidido, dentro dos limites de competência dos municípios, pela administração pública de Guará.

    E para isso, em 28 de fevereiro de 1926 realizou-se o primeiro pleito para a eleição dos componentes da Câmara Municipal de Guará.  Em um período em que as fraudes eleitorais no Brasil eram frequentes, em que os analfabetos e as mulheres ainda não eram considerados eleitores, foram eleitos em Guará os seguintes vereadores: 


Antônio Ribeiro dos Santos, Antônio Alves dos Santos, José de Carvalho e Silva, Bráulio Villar Horta, Deodato Nunes Muniz, e Vicente Martins Franco.

 

    Durante a chamada república velha, período que se estendeu até o ano de 1930, o prefeito, no Estado de São Paulo, era eleito pelos componentes da Câmara Municipal. E dessa forma, o sr.  Bráulio Villar Horta foi eleito o primeiro prefeito da cidade, tendo exercido seu mandato no período de 1926 a 1927. 

    Contando sempre com a valentia e o dinamismo da população do Distrito de Pioneiros, que muitas vezes tem agido de forma exemplar no enfrentamento de seus problemas e com orgulho pelo que é e pelo que construiu, Guará, ao longo dos anos, progrediu bastante e soube enfrentar, à sua maneira, embates circunstanciais entre diversos projetos de desenvolvimento. Construiu uma bela igreja católica na praça central, asfaltou ruas, harmonizou distensões, desenvolveu seu comércio, fundou associações filantrópicas, culturais, desportivas e de produtores.

    No ano de 1982, por lei estadual, teve instalado o seu Foro Distrital, ainda na Comarca de Ituverava, e anos depois, em 2005 tornou-se Comarca. Hoje, portanto, Guará é também um centro administrativo do Poder Judiciário, onde um juiz concursado exerce a sua jurisdição.

    Assim, retornando ao objeto dessa nossa fala, que é a emancipação política ocorrida em 1925, ressaltamos o que a Constituição Federal de 1988 diz a respeito da competência do município; ou seja, o artigo 30 da Constituição Federal, diz o que um Município autônomo, como Guará, tem hoje que fazer – ou seja, suas competências:

 

- adotar regras para assuntos de interesse local; instituir e arrecadar tributos da sua competência (iptu, iss, itbi), além, claro, das taxas e contribuições de melhoria, organizar distritos, prestar os serviços públicos de interesse local, incluído o de transporte público, manter programas de educação infantil e de ensino fundamental, prestar serviços de atendimento à saúde, promover uma adequada ocupação do solo urbano, proteger o patrimônio histórico e cultural... etc etc...

 

    E com o sentimento de filho dessa terra, eu fico me perguntando: Guará é capaz de cuidar disso de forma eficiente e responsável? A população de Guará – e Pioneiros - pode se juntar para fazer com que essas tarefas sejam realizadas de forma a promover o bem-estar comum e a convivência harmônica no município? Não é sem motivo que nosso ordenamento jurídico reconhece, desde 1925, há cem anos, portanto, nossa capacidade de cuidarmos de nós mesmos...

    E agora um novo período se inicia, um novo chefe de executivo toma posse... Agradecemos sim, e parabenizamos todos aqueles que assumiram a responsabilidade de cuidar de Guará desde a sua emancipação. Sabemos que todos os atos que foram praticados pelas gestões anteriores o foram com a maior boa vontade e responsabilidade. Mas também um novo dia sempre amanhece... E a cidade é construída por nós! Orgulhemo-nos dela! Somos todos obreiros por uma mesma causa.

    Temos hoje (e aqui eu me incluo como filho de Guará), e a cada dia que amanhece, a missão e a responsabilidade de cuidar de nosso bem-estar, de nossos filhos, dos nossos concidadãos, do estabelecimento de uma convivência harmônica, e, especialmente, de olhar ao redor para enxergar os imensos abismos existentes entre seres humanos que aqui vivem e que necessitam de olhares atentos e ações decisivas da administração pública. E para amenizar dores e ausência de oportunidades, podemos e devemos nos empenhar. E temos maturidade para isso. Não, não nos acomodamos delegando essa função exclusivamente aos nossos representantes eleitos – como se somente eles devessem enxergar problemas e tentar resolvê-lo. Não. Não somos acomodados. Esses cuidados são tarefas diárias que competem a cada um de nós, independentemente de bandeiras ou ideologias... O ser humano é o mesmo e a condição de vida de um reflete de alguma forma na condição de vida de cada um de nós.... Não somos seres anestesiados. Mesmo nas divergências sabemos compreender o que constrói e podemos nos juntar para caminharmos ruma à cidade ideal que podemos construir, feito lobos guará, com os pés no chão, e aves guará, com os sonhos nas alturas.

    Cerimônias como a de hoje são um alimento para o civismo... Somente aquele que conhece sua terra consegue desenvolver a capacidade de amá-la... e nessa condição, com o sentimento de pertencimento, munido das referências que se empenhou em conhecer e admirar, o morador de guará compreende que pode e deve participar sem extremismo e com muita compreensão, das discussões e debates a respeito do que é bom para o coletivo...

    Na cerimônia de hoje estamos lembrando que a fundação, em 1902, foi o "primeiro passo"... e que a partir daí fomos escrevendo a nossa história, cultivando nossas referências, alimentando nossos anseios: de uma forma ou de outra, fomos fazendo com que pudesse tornar realidade o que se desenhava em sonhos... E prosseguimos... A emancipação significou o reconhecimento de que tínhamos (e temos) personalidade; tínhamos (e temos) nosso próprio perfil... tínhamos (e temos) maturidade política. E esse reconhecimento, que partiu de dentro, que partiu de nós mesmos, fruto do amor crescente desenvolvido pelo orgulho de nossas raízes, foi forte o suficiente para recebermos reconhecimento externo, no sentido de podermos seguir em conformidade com a nossa própria vontade. Muitos se empenharam para que isso pudesse acontecer. E a emancipação política tem esse significado: o reconhecimento de nossas histórias, nossos valores, nossas referências, nosso potencial de desenvolvimento e autogestão, inicialmente por nós mesmos, para em seguida sermos reconhecidos por moradores de outras terras, e, consequentemente, pelo ordenamento jurídico que nos deu autonomia política. Por todos esses motivos, o centenário da data da publicação da lei estadual 2088, assinada em 19/12/25 e publicada em 27/12/25, é muito significativo. Em 100 anos, olha o que fizemos! E para os próximos 100 anos, para os nossos descendentes, para os futuros guaraenses, o que faremos? O que deixaremos?

    Celebremos, pois, o centenário da emancipação política, dos cem anos do reconhecimento da nossa, digamos, maioridade. Todos os nossos aplausos para a cidade de Guará, para a nossa autonomia política – para todos os que se empenharam para que essa cerimônia pudesse acontecer, e, especialmente para a nossa própria história. Viva Guará!


(LINK PARA VÍDEO COMPLETO DA SESSÃO REALIZADA NA CÂMARA MUNICIPAL - copiar e colar no google ou no facebook - TAMBÉM DISPONÍVEL NO SITE DA CÂMARA MUNICIPAL)

https://www.facebook.com/share/v/1HHGDTeBPg/


Dr. Túlio Figueiredo, prefeito eleito e Elias

Mesa da Câmara: (esq./ p/ dir.): Elias (tribuna); Dr. Arthur, Presidente da Câmara; Prefeito em exercício; Vereadora que propôs a realização do evento 


(esq. p/ dir.) Sra. Dalete; Dr. Arthur; Dr. José Ricardo (vice-prefeito eleito) e sua esposa Cícera; Elias




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O PIANO DE MINHA MÃE

 

Valsa do Adeus - Frederic Chopin
https://www.youtube.com/watch?v=KE4__FnR778&list=RDKE4__FnR778&start_radio=1

O teclado do piano de minha mãe - Foto: acervo pessoal


Ao piano que foi de minha mãe, emudecido na sala de visitas, as minhas homenagens... O feltro azul sobre as suas teclas... mãos e dedos em movimento... a harmonia no conjunto das notas.... tudo o que inspirou, tudo o que a lembrança de sua existência inspira... Todos os que ali estão, no seu teclado... no teclado do piano que (não) toca... do piano que me toca... piano ao qual me apego... Nele, tudo e todos os que permanecem guardados em mim... minha mãe, meu pai, minha irmã... fotos antigas na parede... a árvore em frente ao portão da calçada... a mangueira no quintal... tardes musicais, livros abertos sobre o sofá... "Homenagem e respeito pelos bens materiais e imateriais dos meus antepassados..."


O piano - Foto: acervo pessoal (ago2019)


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

E POR FALAR EM PASSARINHOS...

 

Renato Terra - "Bem-te-vi" (Dalto e Cláudio Rabelo)
https://www.youtube.com/watch?v=aWgfRcRO4y8&list=RDaWgfRcRO4y8&start_radio=1

    O meu amigo Rui publicou em jornal um texto que fala de bem-te-vis. Penso que a inspiração para a criação do texto deva ter vindo, para ele, a partir das caminhadas que imagino que faça pelos parques onde mora, estando ele a pé pelas calçadas, caminhos, ou mesmo recluso entre quatro paredes - havendo ou não um bem-te-vi a "voar livre por entre os jasmins", para, em seguida, "pousar em seu coração".

    Enquanto lia o texto, ouvi o canto de um bem-te-vi imaginário... e me vi procurando por ele, tentando localizá-lo por sobre as cercas, galhos de árvores, muros e quintais... À medida que a procura acontecia, a despeito da sala que me aprisionava, fiquei pensando em matas, cursos d'água, rios, florestas e passarinhos... Parece que a procura por um bem-te-vi tem a propriedade de promover uma reaproximação, de ensejar uma possibilidade de reencontro do homem com a natureza - tal como acontece quando da leitura de algum texto que trate de passarinhos...

    O Rubem Braga certamente vivia à procura de passarinhos - tanto que, um dia, contou uma história a respeito de um menino que queria fazer negócio com um senhor. E ele, o menino, perguntava: "Papai me disse que o senhor tem muito passarinho... tem coleira?... virado?... muito velho?... canta?... o senhor vende... quanto?"

    - Bom... mas e você, meu amigo... Você não enxerga o mundo a partir de uma palmeira, do alto dela, quando se lembra que "em sua terra há palmeiras onde cantam sabiás?"... E o sabiá, que você ouviu cantar, vai voltar? Mesmo se expulsos, os sabiás voltam... voltam, cantam e voam... como voaram Cynara e Cybele na interpretação de "Sabiá", no III Festival Internacional da Canção (1968), no Rio de Janeiro: "Vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar, foi lá, é ainda lá, que eu hei de ouvir cantar uma sabiá..." ... e a gente aplaude... ainda hoje aplaude, aplaude...

    - Eita Brasil de cantos, de pássaros e de possibilidades! Brasil de vastas extensões de verde, Brasil de passarinhos e de gente que gosta de passarinhos... terra onde, ao ritmo da "sinfonia de pardais", reina "a majestade o sabiá"... onde, de pensar em pássaros e distâncias, doem as mesmas saudades sentidas pelo Vinícius de Moraes, quando convocou pássaros de diferentes famílias para cuidarem da travessia do Atlântico e da entrega, ao destinatário, de sua declaração de amor: "Agora chamarei a amiga cotovia / E pedirei que peça ao rouxinol do dia / Que peça ao sabiá / Para levar-te presto este avigrama: 'Pátria minha, saudades de quem te ama (...)'".

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bem-te-vi


segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A GARRAFA

 

Sílvia Maria e Baden Powell - "Canção das flores" (Baden/Paulo César Pinheiro)
https://www.youtube.com/watch?v=t2xDlcLTl88&list=RDt2xDlcLTl88&start_radio=1

    Ficou por muitos anos em uma pequena adega da casa de minha mãe, mesmo depois de sua partida. Ao me atentar encantado para aquela garrafa de vidro que continha vinho verde português, para seu formato meio bojudo com uma saliência na parte superior sugerindo um gancho, apossei-me dela e a trouxe para a minha casa.

    Logo que deixei de olhar a garrafa e passei a examinar o vinho nela contido, percebi que, em função do tempo de armazenamento, sua coloração sugeria um certo comprometimento na qualidade. Na dúvida, enquanto decidia se o consumia ou não, coloquei a garrafa na horizontal, cuidadosamente, dentro de um armário onde mantenho bebidas de qualidade duvidosa.

    Incomodado com a minha indecisão, na semana seguinte voltei à garrafa. Movimentei o líquido suavemente de um lado para outro mas, reexaminando sua coloração, não me senti seguro em consumi-lo. Contudo, aquela garrafa tão bonita parecia não querer me deixar. E então, por essas razões transcendentais que nos ocorrem, decidi me desfazer do vinho e manter a garrafa como enfeite.

    Com um saca-rolhas em mãos, parti então para a ação. Contudo, ao inserir o saca-rolhas na cortiça, a rolha partiu-se no quarto superior de sua extensão, e a sua parte inferior desprendeu-se do bico, caiu no líquido, e afundou. Sem querer experimentar o vinho, e sem conseguir retirar a rolha do fundo da garrafa, joguei todo o líquido pelo ralo da pia da cozinha, e fiquei com a garrafa vazia e limpa, contendo somente um grande pedaço de rolha dentro dela.

    - O que fazer, meu caro leitor? Sim, fiquei chateado. Como eu poderia retirar aquele pedaço de rolha de dentro da garrafa? 

    Pois bem. Por esses acasos do destino, um belo dia encontrei, no gramado do fundo de minha casa, um espeto de ponta afiada - próprio para ser utilizado em uma churrasqueira. Dei-me conta então de que, com aquele espeto, eu poderia cortar a rolha em pedaços pequenos, os quais poderiam ser eliminados pelo bico da garrafa. E assim eu fiz!

    Depois, com a garrafa em mãos, limpa por fora e totalmente vazia de liquido ou rolha por dentro, fui até uma loja de produtos esotéricos e religiosos onde certamente eu poderia encontrar velas coloridas para se encaixarem no bico da garrafa, formando assim uma pequena lamparina. Logo no balcão de entrada da loja encontrei uma belíssima vela amarela, com aroma delicioso de mel. Para demonstrar minha criatividade à jovem vendedora que se aproximara de mim, indaguei a ela a respeito do destino que se poderia dar àquela garrafa que eu trazia comigo. Com um sorriso espontâneo, e com muita naturalidade, ela me respondeu que colocaria uma flor de cor bastante forte dentro dela, pois assim iria alegrar qualquer ambiente.

    Com uma vela amarela em mãos, e sem dizer à vendedora o que havia me levado a procurar aquela loja, fiquei silenciosamente confrontando a exuberância da juventude com o desencanto e esmorecimento de muitos já não tão jovens... - como eu. Ao fazer tais comparações, e sem dizer nada, encontrei uma maneira de agradecê-la pela ideia. Pois enquanto eu pensava em uma vela na escuridão, queimando no bico da garrafa e sugerindo morte, feito vida que se consome, a jovem pensava em flores e na beleza que sugere vidas que florescem.

    A jovem vendedora ainda me alertou de que eu havia escolhido as velas mais caras, com aroma de mel... que havia outras mais baratas. Foi então que a simplicidade da vendedora e a honestidade de seu sorriso me fizeram decidir: pedi a ela outras cinco velas amarelas, com aroma de mel, e coloquei todas elas em uma sacola de plástico. Paguei pela compra, agradeci comovido pela venda e, já na rua, sem saber o destino que daria às velas, saí em busca de flores para ocuparem o espaço interno daquela garrafa.



A garrafa - foto: acervo pessoal (ago/25)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

OS MEUS DISCOS PREFERIDOS

 

Frank Sinatra e Tom Jobim - "Change partners" (Irving Berlin)
https://www.youtube.com/watch?v=IaUp2aNKMFY&list=RDIaUp2aNKMFY&start_radio=1
 

    O Ruy Castro publicou no jornal Folha de São Paulo, em sua coluna de ontem, uma relação daquelas que ele considera as vinte maiores músicas brasileiras, desde 1925 ("As 20 mais", 31/08/25). Ele avisa que a lista que fez não traduz o seu gosto pessoal, mas - esclarece ele - são músicas que "abriram caminhos, que firmaram um gênero, e consolidaram um ritmo".

    Fiquei sabendo desse artigo por intermédio do meu amigo Paulo Sérgio, que o enviou a mim, via WhatsApp, com a sugestão de que eu fizesse a relação das minhas músicas preferidas. Tentei atendê-lo, porém não consegui. É tão difícil fazer uma seleção assim... A gente vai mudando, as canções vão ganhando ou perdendo importância pra gente... Mas relacionei, pra começar, alguns álbuns inteiros, nacionais e internacionais, que são frequentes em meu aparelho de som, pelos quais tenho a maior paixão e não consigo me imaginar sem a possibilidade de poder ouvi-los sempre que quiser... São álbuns que me acompanham desde que os ouvi pela primeira vez, e que fazem com que eu me lembre de algum evento, de alguma situação, de alguma pessoa, de algum lugar:

(1) "Vinícius e Caymmi, no Zum Zum" (Elenco, 1966);

(2) "Elis & Tom" (Philips, 1974);

(3) "Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim" (Reprise, 1967);

(4) "Chega de saudade" (João Gilberto - Odeon, 1959);

(5) "O amor, o sorriso e a flor" (João Gilberto - Odeon, 1960);

(6) "João Gilberto" (Odeon, 1961);

(7) "Amoroso" (João Gilberto - Warner, 1977);

(8) "Solitude on guitar" (Baden Powell - CBS, 1971);

(9) "Violão em Seresta - Rio das Valsas" (Baden Powell - Ideia Livre, 1988);

(10) "Villa por chorões" (diversos - Kuarup, 2002);

(11) "Chet Baker sings" (Chet Baker - Pacific, 1954); 

(12) "Terra Brasilis" (Tom Jobim - Warner, 1980);

(13) "Getz/Gilberto" (João Gilberto/Stan Getz - Verve, 1964);

(14) "O som brasileiro de Sarah Vaughan" (Sarah Vaughan - RCA, 1978)

....

    Há tantos outros... Estes, são álbuns inteiros; outra hora tentarei relacionar as músicas específicas... começarei por "Strangers in the night", na interpretação do Frank Sinatra (que ouvi ainda hoje, de manhã); seguirei com "The shadow of your smile", com a Barbra Streisand; depois, "Ilusão à toa", com o Johnny Alf...

    - Não, não vai dar... vai virar uma salada! Te peço desculpas, Paulo Sérgio.

    Penso que preciso me organizar melhor. Penso que vou precisar fazer uma lista somente com músicas brasileiras; outra, com músicas estrangeiras... e dentro das estrangeiras, uma lista das gravadas em inglês, outra em francês, mais uma em espanhol, e outra ainda em italiano. Também me ocorreu fazer uma lista dos meus fados prediletos...  E já estou aqui me sentindo com o coração partido: sei que, pelos esquecimentos, vou ser injusto com um ou outro álbum, com uma ou outra música - e devo mesmo ter sido ingrato com muitos álbuns que esqueci de colocar na lista que acabei de montar.

    Por fim, para que essas listas não fiquem incompletas, para nunca me esquecer do que preciso me lembrar, fico devendo a mim mesmo a explicação escrita dos motivos que fizeram dos álbuns e das músicas relacionadas minhas grandes fontes de memória e inspiração.

    - Pensando bem, nesse amontoado de sem-sentido, melhor eu deixar toda essa confusão de lado. Afinal, pra que serve o quebra-cabeça? O que pode interessar a João, a Pedro ou a Maria o sentimento que desperta em mim essa ou aquela música? esse ou aquele álbum musical? Acho que é mais sensato eu tomar uma atitude: vou montar um balcão, manter a gaveta sempre cheia, e sobreviver.

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/vinicius-e-caymmi-no-zum-zum

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/elis-e-tom

https://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Albert_Sinatra_%26_Antonio_Carlos_Jobim

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/chega-de-saudade

https://www.toque-musicall.com/?p=1385

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/terra-brasilis

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/o-som-brasileiro-de-sarah-vaughan


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CANTO DE AMOR A UMA POLTRONA ABANDONADA

 

Chopin: Nocturne n. 20 in C-sharp minor, op. posth.
https://www.youtube.com/watch?v=RMDWeQHgUrA&list=RDRMDWeQHgUrA&start_radio=1

A poltrona esquecida - Foto: acervo pessoal (2018)

    A poltrona conta uma história. Conta muitas histórias. Em outros tempos costumava acomodar corpos necessitados de descanso. Eu era criança quando a conheci. No frio, o veludo de sua estrutura agasalhava as partes do corpo daqueles que nela se recostavam - e as almofadas que a decoravam aqueciam as mãos e os braços que as abraçavam.

    O tempo passou... Depois de ter servido por mais de 50 anos aos seus antigos senhores, aos jovens, crianças e idosos que os visitavam, ela foi deixada em uma sala fria e escura de condomínio. Nos últimos sete anos, amargou-se da tristeza e da inutilidade que lhe foram impostas.

    Esquecida assim, sua madeira enfraquecida adoeceu. Vitimada por um movimento descuidado, fraturou uma de suas pernas e tombou.


    Há pouco, seu agora proprietário a revisitou. Ao revê-la, chocado com sua tremenda ingratidão, sensibilizou-se e despertou-se do descaso que havia imposto a ela. Arrependido, hoje busca redenção: procura um profissional que  se solidarize com todas as histórias que ela conta.

    - "Alguém pode fazer alguma indicação?" - brada em desespero por todas as esquinas.

    É preciso que seja um marceneiro competente e atencioso; que seja dedicado o suficiente para conseguir promover a cura de um pé de madeira quebrada. Quando renovada - e isso o seu proprietário promete! -, a poltrona que se encontra enferma e esquecida ganhará um novo revestimento de tecido, alegre, imponente... para que possa continuar oferecendo acolhimento a todos aqueles que se sentirem cansados - até mesmo a esse pobre ingrato que a desprezou.

    Enquanto isso, vou remoendo as histórias que a poltrona ainda me conta.


domingo, 20 de julho de 2025

IMPERIALISMO: NADA MAIS ME SURPREENDE


Foto que está circulando no facebook - (Fonte desconhecida)


Para a Vanda,
minha amiga.


    Veio do litoral paulista, enviado pela minha amiga Vanda, um presente em forma de inspiração. Tal presente, originário da Costa do Marfim, na África, chegou a ela pelo Oceano Atlântico. Impelido pela lembrança de antigas caravelas dominadoras, e navios negreiros de triste memória, o presente passou por Itanhaém, Santos, São Vicente e São Paulo e, em forma de Reggae, veio bater à minha porta: "Plus rien ne m'etonne" (nada mais me espanta), gravado por Tiken Jah Fakouly.
    O presente, pela crítica e reflexão propostas, me fez bem. Ao ouvi-lo, instintivamente fui passear pelo litoral da África - Gana, Nigéria, Benin, Serra Leoa... -, adentrando o seu interior - Congo, Zâmbia, Chade...-, revisitando o projeto de dominação elaborado na Conferência realizada em Berlim nos anos de 1884 e 1885.
    Assim como na prepotência de Portugal e Espanha, ao decidirem pelo loteamento do mundo em 1494 (pelo Tratado de Tordesilhas), a cidade de Berlim sediou uma Conferência entre potências mundiais da segunda metade do século XIX, para que estas pudessem planejar a expansão de influências econômicas e dividir mercados e áreas para exploração de recursos naturais e escoamento de produtos manufaturados.
    A África era vista, à época, como um continente repleto de possibilidades. E como a competição pela exploração das riquezas naturais africanas, e a disputa pela conquista do mercado consumidor de produtos acabados poderia gerar tensões entre as potências europeias, o então chanceler do império alemão Otto von Bismarck convidou 14 países para se reunirem em Conferência: Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Rússia, Suécia e Império Otomano - além dos Estados Unidos. Assim, iniciada em novembro de 1884, a Conferência de Berlim terminou em fevereiro de 1885 com o fracionamento da África em regiões para exploração e ocupação europeia do continente.
    Para espanto geral, meu caro leitor, não houve nessa Conferência a participação de qualquer representante do continente africano. Estranho, não é? Onde já se viu? Discutem o que fazer do "meu" quintal, promovem a sua divisão, e nem sequer me convidam para debater sobre o assunto, sobre o que é meu? Esse fracionamento acabou acontecendo, portanto, sem o devido respeito aos perfis étnicos e culturais existentes no continente africano - ou seja, "esqueceram", especialmente, que havia gente habitando o continente... gente que, ao final, deixada de lado, saiu enfraquecida.
    Trazendo a Conferência de Berlim para os nossos dias, o que podemos perceber é que a história está se repetindo, porém em dimensões muito maiores: restrito a um continente, inicialmente (o africano), a fragmentação em áreas de influência tem por limite, agora, o planeta todo. Ou seja, não tem limite! Essa forma brutal de tentativa de dominação (leia-se "colonização", imposição do imperialismo) que vem se arrastando até os dias de hoje por todos os cantos do mundo causa o mesmo espanto que causou no final do século XIX: quem, hoje, vai explorar o mercado sul-americano? os Estados Unidos, a China, ou a União Europeia? quem vai gerenciar a exploração das riquezas do oriente médio? se um país não se alinhar a outros, esses outros, mais fortes, promoverão retaliações econômicas..... E mais: o desrespeito à soberania e a ingerência estrangeira em muitos países, hoje, são promovidos sob ameaças comerciais, que podem agravar desigualdades econômicas já existentes... E há, ainda, uma forte agravante: já não são mais 14 países; cada um é por si. 
    - "Muito estranho... muito estranho...
    "Nada mais me surpreende", o reggae-presente gravado pelo Marfinense, que me foi enviado pela Vanda, ilustra muito bem a questão:
    - "Se você apoiar o bombardeio ao qual submeto o meu vizinho, eu imponho baixas tarifas de importação aos produtos de seu país; se você propagar a ideia de que a moeda referência hoje pode deixar de sê-lo amanhã, eu não compro mais produtos originários de seu país; se você não for condescendente com o meu conceito de liberdade, eu não permito que os seus nacionais coloquem os pés no meu país...
    - E assim, meus amigos, assim (des)caminha a humanidade! E que se explodam os homens, as  mulheres e as crianças... as instituições, os hospitais, as escolas e a soberania dos mais fracos...
    Disseram-me até que estão até de olho no acarajé - posto que o mercado que a iguaria atinge, com a sua comercialização, pode diminuir a possibilidade de lucros dos sanduíches da rede McDonald's. 
    - "A Bahia que se cuide! Eu, hein?... Antes que seja tarde, vou lá no quintal, quietinho, colher da jabuticabeira alguns de seus frutos...

Uma jabuticabeira
https://meliponario-irmaosnocete.blogspot.com/2017/01/jabuticabeira.html

CLIQUE NA SETA PARA OUVIR - E ACOMPANHAR A LETRA
Tiken Jah Fokoly - "Plus rien ne m'etonne" (Nada mais me surpreende)
https://www.youtube.com/watch?v=uQB04VsFusE&list=RDuQB04VsFusE&start_radio=1

Plus Rien Ne M'étonne

 

Ils ont partagé le monde

Plus rien ne m'étonne

Plus rien ne m'étonne

Plus rien ne m'étonne

 

Si tu me laisses la Tchétchénie

Moi je te laisse l'Arménie

Si tu me laisses l'Afghanistan

Moi je te laisse le Pakistan

 

Si tu ne quittes pas Haïti

Moi je t'embarque pour Bangui

Si tu m'aides à bombarder l'Irak

Moi je t'arrange le Kurdistan

 

Si tu me laisses l'uranium

Moi je te laisse l'aluminium

Si tu me laisses tes gisements

Moi je t'aide à chasser les Talibans

 

Si tu me donnes beaucoup de blé

Moi je fais la guerre à tes côtés

Si tu me laisses extraire ton or

Moi je t'aide à mettre le général dehors

 

Ils ont partagé Africa sans nous consulter

Ils s'étonnent que nous soyons désunis

Une partie de l'empire Mandingue se trouva chez les Wolofs

Une partie de l'empire Mossi se trouva dans le Ghana

Une partie de l'empire Soussou se trouva dans l'empire Mandingue

Une partie de l'empire Mandingue se trouva chez les Mossi

 

Ils ont partagé Africa sans nous consulter

Sans nous demander, aïe-aïe-aïe, sans nous aviser

 

Ils ont partagé le monde

Plus rien ne m'étonne

Plus rien ne m'étonne

Plus rien ne m'étonne

 

Nada Mais Me Surpreende

 

Dividiram o mundo

Nada mais me surpreende

Nada mais me surpreende

Nada mais me surpreende

 

Se você me deixar a Tchetchênia

Eu te deixo a Armênia

Se você me deixar o Afeganistão

Eu te deixo o Paquistão

 

Se você não sair do Haiti

Eu te mando direto pra Bangui

Se você me ajudar a bombardear o Iraque

Eu ajeito o Curdistão pra você

 

Se você me der o urânio

Eu te deixo o alumínio

Se você me der seus minérios

Eu te ajudo a caçar os Talibãs

 

Se você me pagar bem em trigo

Eu entro na guerra com você

Se você deixar eu pegar seu ouro

Eu te ajudo a derrubar o general de novo

 

Dividiram a África sem nos consultar

Depois se espantam que estamos desunidos

Uma parte do Império Mandinga foi parar com os Wolofs

Uma parte do Império Mossi foi parar em Gana

Uma parte do Império Sussu foi parar no Império Mandinga

Uma parte do Império Mandinga foi parar com os Mossi

 

Dividiram a África sem nos consultar

Sem nos avisar, ai-ai-ai, sem nos perguntar

 

Dividiram o mundo

Nada mais me surpreende

Nada mais me surpreende

Nada mais me surpreende