segunda-feira, 26 de março de 2012

O RAPTO


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(Sheherazade and 1001 nights)
     Na parede da sala da casa da Dona Zaíra, imigrante síria, ficava pendurado um quadro de um artista desconhecido. Era um quadro escuro. Sugeria que o fato ali mostrado ocorrera em uma região muito distante, há muito tempo, na escuridão de uma noite de céu estrelado. No centro do quadro estava um beduíno montado em um cavalo preto, levando consigo uma mulher. Em galope desenfreado afastavam-se de uma pequena aldeia e adentravam um deserto. O quadro sugeria uma fuga, um rapto, um sequestro. Tanto o beduíno quanto a mulher vestiam roupas pretas que lhes cobriam o corpo todo. Na sala da Dona Zaíra, dentre dezenas de pequenos objetos vindos dos países árabes, esse quadro era o estímulo visual que mais se destacava. A ele, sem conhecer o nome que recebeu do artista, denominei “O Rapto”.



     No início da semana passada a mídia divulgou que, no Egito, beduínos sequestraram duas brasileiras - e logo as libertaram. Sem querer, lendo a notícia, lembrei-me do quadro. Atento aos detalhes do que estava sendo informado, fui me inteirando do acontecimento: duas brasileiras que estavam com um grupo de turistas foram tomadas como reféns por alguns beduínos. Eles, de carro, interceptaram o ônibus no qual elas viajavam, e as levaram para uma região montanhosa. Dizia ainda a notícia que o propósito do “sequestro” era de forçar a troca dos reféns por um prisioneiro ligado ao grupo. Não sei se houve a troca, só sei que, felizmente, elas foram libertadas.

     A notícia me fez revisitar a casa da Dona Zaíra, falecida há anos. A primeira imagem que me veio foi a do quadro de sua sala. Revi o beduíno a cavalo raptando uma turista de pele clara e olhos assustados. Fiquei tentando mensurar o susto dessa turista ao experimentar uma realidade tão distante da sua: praia, água de coco, futebol, carnaval, e seu contraste com beduínos, deserto, tendas, camelos...

     Pelo que contaram depois da libertação, não houve maltrato algum; não as ameaçaram ou agrediram: pelo contrário, estenderam-lhes um tapete, ofereceram-lhes chá e cobertor em virtude do frio da noite no deserto.

     Assim como a descoberta de que papai Noel não existe, e de que o coelhinho da Páscoa é pura simbologia, dei-me conta de que os beduínos, nômades do deserto, já possuem carros e motocicletas; que cavalos e camelos estão ultrapassados e logo servirão, apenas, para ilustrar fotografias dos turistas.

     É... novos tempos, novos costumes. Tecnologia! Dessa notícia ficou o que o meu imaginário reteve - acrescida de barulho de motores de automóveis. E ficou também uma pergunta: em que parede estará pendurado “O Rapto”? Ou será que, não servindo mais para ilustrar a magia e o sonho de mil e uma noites, ele deixou de ocupar a parede principal de uma sala para ficar encostado em um canto escuro e empoeirado de um depósito qualquer?

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