sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

OS HOMENS E AS FLORES


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
("As rosas não falam" - Cartola)


     Hoje ouvi duas músicas entre si relacionadas: "As rosas não falam", do Cartola, e "Silencio", do porto-riquenho Rafael Hernández*. Ambas falam de flores.  

     Agenor de Oliveira, o Cartola, em "As rosas não falam", dizia que em seus momentos de tristeza procurava consolo na beleza. Sem ter com quem se queixar, e na esperança de que as flores o consolassem, naquelas horas ele visitava seu jardim e a elas dirigia seus lamentos:

     - "Queixo-me às rosas; mas que bobagem... ." **

     Em "Silencio", assim como o Cartola, o porta-riquenho Rafael Hernández também recorria à beleza das flores para consolar sua tristeza.

     - "Silencio (...) no quiero que las flores sepan los tormentos que me da la vida."*** [silêncio, não quero que as flores saibam dos tormentos que a vida me dá]

(Marché aux fleurs - abril/15 - arq. pessoal)

     O Cartola, especificamente buscava as rosas; o Rafael, as flores em geral: nardos, rosas e açucenas. Tanto o Cartola quanto o Rafael Hernández acreditavam ter uma certa cumplicidade com as plantas. Eles acreditavam que, com eles, as plantas interagiam. 

     Com as rosas o Cartola conversava. Diante de seu jardim o Rafael se calava.

     Aos lamentos do Cartola as rosas exalavam seu perfume - como se elas quisessem consolá-lo mostrando que há beleza até mesmo na tristeza e nas ausências: 

     - "As rosas não falam; simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti."**

     O Rafael, ao contrário, diante das flores nada dizia. Ficava em silêncio. Ele temia que elas, se o vissem chorar, morreriam.

     - "No quiero que sepan mis penas, porque si me ven llorando, morirán."*** [não quero que saibam das minhas aflições, porque se me veem chorando, morrerão]

     Pensando nessa afeição do homem pelas flores vou até a área externa do meu apartamento com ânsias de olhar a rua e encarar algo concreto. Mas já não sou mais concreto. Desvio o olhar para o canto da sacada. E, sem saber quais relações de cumplicidade existem entre mim e as plantas, sou enfeitiçado por uma orquídea que começa a despontar de meu único vaso... e sorrio para ela.  


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(Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo - "Silencio", de Rafael Hernandez)


AS ROSAS NÃO FALAM
(Cartola)

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
SILENCIO
(Rafael Hernández)

Duermen en mi jardin
las blancas azucenas, los nardos y las rosas,
Mi alma muy triste y pesarosa
a las flores quiere ocultar su amargo dolor.

Yo no quiero que las flores sepan
los tormentos que me da la vida.
Si supieran lo que estoy sufriendo
por mis penas llorarían también.

Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán.

____________________________
*RAFAEL HERNÁNEDEZ MARIN (1892/1965)- cantor, compositor e instrumentista porto-riquenho
**De "As rosas não falam"
***De "Silencio" (1932)

4 comentários:

  1. Flores, paixão da minha mãe!
    Nunca ficava sem elas na sua vida...

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  2. Será que diante delas ela conversava ou ficava calada? Conversando ou simplesmente observando, no que será que ela pensava?
    Grande abraço, Flávia.

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  3. Belo destaque para o paralelo entre as canções. A segunda, embora a tenha ouvido há tempo, não me estava na memória.

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    1. Obrigado, Saint-Clair. O bolero "Silencio", para mim, renasceu com o filme "Buena Vista Social Club" - que é uma delícia de ser assistido. Grande abraço, e obrigado pelo comentário postado.

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