segunda-feira, 20 de setembro de 2021

"UNO"

 

"Uno" - Roberto Goyeneche
https://www.youtube.com/watch?v=Gf2BmOwMFlg

    Ninguém precisa se interessar pelos assuntos e manifestações que me interessam. Para quê, então, falar disso? Afinal, cada um tem seus próprios interesses.

    Acontece que, de vez em quando, a gente fica parado no meio do nada, e fica procurando se livrar de pensamentos que também nada acrescentam. Em assim sendo, acabo por dizer essa tremenda inutilidade: "gosto de tangos."

    Como diria minha amiga Cidinha, "pronto, falei!"

    - E daí?

    Bom. Gosto da “pegada” do tango, das “punhaladas” do bandoneón, das frases as vezes longas, às vezes curtas do violino, e do piano saltitante com pitadas de classe e determinação. O par, homem e mulher, garbosos e compenetrados... os passos, avanços e recuos, miradas de canto de olho... vestido longo com abertura lateral... sensualidade...

    Canto mentalmente um trecho do tango "Uno": 

    - “uno busca lleno de esperanzas el camino que los sueños prometieron a sus ansias... “.

    Penso:

    O Manuel Bandeira precisou que seus pulmões, um dia, se transformassem em foles de bandoneón. E eu sinto que os meus, nesse instante, precisam passar por essa mesma transformação.

    - Um tango... e mais um.... e outro.... e todos os tangos.... para que a respiração atinja a perfeição!


Pneumotórax
(Manuel Bandeira)

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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