sexta-feira, 19 de julho de 2013

OUVI DIZER QUE ME ESQUECESTE


Ao meu violão


     Outro dia pus para tocar no carro um pendrive que ganhei de um amigo. Havia ali Elis Regina, Paulo Moura, Georges Moustaki, Olivia Byington, Tom Jobim, Itzak Perlman e muitos outros. Uma bela salada musical! Mas o que mais me agarrou no pensamento foi uma gravação de "Uma valsa e dois amores", do Dilermando Reis, no violão do Raphael Rabello.

  ("Uma valsa e dois Amores", de Dilermando Reis - violão: Raphael Rabello)

     Nesses meus cinquenta e poucos anos de vida, não faz muito tempo que ouvi essa valsa pela primeira vez - e desde então fiquei maravilhado com ela. Foi em uma das minhas aulas de violão com o professor Geraldo. Atrasado, do portão de entrada, sem que me visse, eu a ouvi sendo tocada por ele. Fiquei parado, imóvel, quieto... e decidi que também precisava aprender a tocá-la. Ele que se virasse para fazer com que as notas brotassem do meu violão!  

(O Professor Geraldo - foto publicada no facebook)
 
     E ele conseguiu; as notas brotaram. Depois de alguns meses de estudo eu já estava pronto para tocá-la por inteiro. Daí prá frente, sempre que pegava o violão, a primeira coisa que me vinha aos dedos eram suas notas introdutórias: "mi... si dó# mi sol# si dó#..."

     Mas o tempo passou e o violão ficou meio de lado. 

     Pois naquele dia, ouvindo no carro o Raphael Rabello, veio-me a vontade de tocar novamente a valsa. A noite, em casa, peguei o violão e procurei pelas notas no seu braço. Não as encontrei. Fugiam-me todas! Os dedos buscando, uma por uma, acorde por acorde... e nada... 

     Mesmo sem tocá-lo, o meu violão ali no canto da sala de casa guarda em si muito do que eu sou e do que eu fui. Afinal, ele está comigo há 38 anos; desde 1975. O simples fato de eu poder vê-lo todos os dias já me é um alento para as tormentas da vida. Mas sei que ele também sente... e ao fazer fugir de mim as notas que guarda, finge que me esquece.

     Corri para as minhas pastas de partituras e fui à procura de "Uma valsa e dois amores". E ali estava, inteirinha, algumas anotações minhas, outras do meu professor, como que a me perguntar por onde andei...

("Uma valsa e dois amores" - partitura. Fonte: arq. pessoal)
 
     Devagarinho, remontando tudo, na cozinha, fiquei tentando reencontrar a harmonia na sequência de notas. Não conseguindo achá-las com a mesma destreza de antes fui me deitar, já tarde, pensando nas coisas que gosto e que tenho deixado para trás...  

     Hoje, analisando os caminhos que tenho seguido, tantos deles acompanhados do mesmo violão, fui em busca de um vídeo para ver e ouvir música. Encontrei a Ana Moura cantando o fado "Ouvi dizer que me esqueceste"... E, ao ouvi-lo, penso e o dedico ao meu violão - companheiro paciente no canto da sala...

OUVI DIZER QUE ME ESQUECESTE
(Jorge Fernando)

Guitarra triste, ouvi dizer que me esqueceste
no teu gemido tão magoado.
Guitarra triste, perdi a vez e tu perdeste
o céu oculto onde anoitece e nasce o fado.

O meu peito se apequena como se a alma atormentada
entre as cordas vibrando se quisesse esconder.
Fecho os olhos e triste sigo a voz desesperada
que como eu está gritando toda a dor de viver.

Guitarra triste, ouvi dizer.....
.......................................

Não vou querer repartir com mais ninguém a solidão
escondida de mim no teu triste trinado
O meu traído amor calou a minha dor dessa traição
Foi por isso que enfim nunca mais cantei fado.

Guitarra triste, ouvi dizer.....
.......................................

("Ouvi dizer que me esqueceste" - Jorge Fernando - voz Ana Moura)

4 comentários:

  1. Que lindo tudo isso, Elias, a Música nos eleva, e nos leva ao mais alto lugar onde encontramos paz, saudade, alegrias, recordações e Deus, vc sempre tão sensível e maravilhoso... um beijo
    Dorcília

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  2. Você tem razão. De fato a música (boa) tem todo esse poder... Obrigado, Dorcília, por sua visita e seus comentários. ELIAS.

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    1. jose joaquim rodrigues15 de junho de 2014 23:18

      Querido Elias,sinto-me privilegiado de contá-lo entre os meus amigos.Pena que exista essa distancia física que me impede de desfrutrar da sua sensibilidade musical, de sua alma de poeta que tanto me encanta,mas justamente essa distancia aumenta o anseio pelo reencontro ,mesmo que por poucas vezes.Arrepiante,comovente Raphael e Ana.

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    2. Meu amigo de sempre, um grande abraço... um grande abraço... um grande abraço... um grande abraço...

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