segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"POR VOLTA DA MEIA NOITE" (ou "LEMBRANÇAS DE UM HOMEM BOM")


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("As time goes by" - Dexter Gordon - trecho do filme "Round Midnight" - dir. Bertrand Tavernier, 1986)


     Foi pai, companheiro, e amigo. Depois de uma busca infrutífera aqui no Brasil, no início dos anos 80, conseguiu arrumar trabalho na Mauritânia - noroeste da África. Foi embora. Ficaram a companheira e os parentes. Prometeu voltar logo. 

     Não se conta como foram seus dias no país distante. Mas dois anos se passaram até que ele voltasse. Voltou. Esperava-o os pais, a companheira, e um filho pequeno. 

     Não ouvi contar, tampouco, dos seus primeiros dias após o retorno. Logo em seguida foi para o sul do Chile, também a trabalho. Levou a companheira e o filho. Era visto sozinho todas as noites no sofá da sala, luzes apagadas, barba por fazer, a mesma roupa do dia todo... ouvindo jazz... adormecido de uísque. 

("Saxophonist" - Leonid Afremov - fonte: http://fineartamerica.com/featured/saxophonist-leonid-afremov.html)

     Logo que chegou ao Chile mandou-me, por correio, com um abraço e uma pequena carta, uma fita K7. Na carta, a recomendação para que eu não deixasse de assistir o filme "Por Volta da Meia Noite". Na fita K7, as gravações de seus artistas preferidos. Gostava de música, em especial do sax tenor do Ben Webster, John Coltrane, Stan Getz, Dexter Gordon, Joe Henderson, Lester Young e muitos outros. Conhecia todos. Falava de cada um com muita paixão. Lembro-me de nossas conversas, do seu sorriso bom, da sua alegria de viver, dos papos sobre música; depois, das notícias do filho nos raros telefonemas que me fez. Mas, do retorno da Mauritânia em diante, não foi mais o mesmo - disseram-me os familiares. 

     Um dia, chegou-me a notícia: em uma estrada chilena, nos Andes Patagônicos, em alta velocidade, esborrachou-se contra um caminhão. Era ainda novo, deixou tudo. Deixou lembranças de um homem bom... e uma fita K7 com suas gravações favoritas, que ficou aqui, em uma das gavetas do meu escritório... e que ouço agora, depois de muitos anos.  

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