terça-feira, 10 de setembro de 2013

ARANJUEZ, MON AMOUR

terça-feira, 10 de setembro de 2013

(VIDEO: Clique para ouvir o Richard Anthony)

     É realmente incrível o quanto a música mexe com a gente. Com ela sonhamos, viajamos, criamos e nos nutrimos de esperanças. Com a imaginação estimulada por uma música podemos tudo, fazemos tudo. E é bom que seja mesmo assim. Afinal, sem as fantasias a vida fica muito chata. Pois vejam só... 

     Eu era ainda muito jovem quando ouvi "Aranjuez mon amour" pela primeira vez. Tínhamos lá em casa um compacto simples; o cantor era Richard Anthony em gravação de 1967. 

 (FOTO: "Tínhamos lá em casa um compacto simples" - fonte: http://bimg2.mlstatic.com/richard-anthony-aranjuez-mon-amour-vinil-compacto_MLB-F-193948441_3957.jpg)

     Como a letra era em francês e eu não tinha condição de entendê-la, debruçava-me em frente da vitrola e, olhando o disco girar, me vinham imagens a cada vez que ouvia a música. E a imagem que me passou a ser constante ao longo dos anos, e que ainda me vem toda vez que a ouço é de uma viagem... uma viagem a lugares distantes, sobrevoando países, observando de cima o seu povo, ouvindo seus sons e sentindo o aroma de cada lugar por onde essa viagem me leva... uma viagem longa e interminável... 

     Estranho, pois tal imagem nada tem a ver com o que diz a letra da música, que fala de amor, de rosas e do tempo. Mas, talvez essa imagem me tenha vindo pelo andamento da música, lembrando um movimento lento, distante e contínuo... a sequência do acorde inicial do violão, a melodia suave do instrumento de sopro que entra em seguida... 

     Só depois de ter ouvido o Richard Anthony é que fui descobrir anos mais tarde que "Aranjuez mon amour" havia nascido do segundo movimento do "Concierto de Aranjuez", composto pelo espanhol Joaquin Rodrigo em 1939.  


(FOTO: "Joaquin Rodrigo" - 1901-1999 - fonte: http://music.minnesota.publicradio.org/features/9907_rodrigo/images/rodrigo_older_lg.jpg)

     Dentre as músicas de que gosto, talvez essa esteja entre as cinco primeiras. Carreguei por muitos e muitos anos esse nome, "Aranjuez", sem saber o seu significado - mesmo tendo procurado, por algumas vezes, em vão, descobri-lo.

     E como as coisas sempre acontecem quando a gente menos espera, foi em uma reunião, há uns dez anos, por aí, que descobri o que é "Aranjuez". Eu estava em uma roda de amigos quando uma das amigas de minha esposa aproximou-se e apresentou-nos seu companheiro, natural da Espanha. Conversamos com ele sobre viagens, países e costumes. E ao falarmos sobre a Espanha, contou-nos que era natural de uma cidadezinha ao sul de Madri chamada "Aranjuez".

     - "Aranjuez ? É uma cidade ? Caraca, não sabia disso!" - exclamei em voz alta.

(FOTO: Fonte de Vênus, Jardin de la Isla en Aranjuez - fonte: http://cecibustos.wordpress.com/2009/08/19/guillermo-carnero-capricho-en-aranjuez/)

     E todos ao meu redor se espantaram ao ver minha reação ao ouvir e repetir várias vezes o nome daquela cidade...

     - "Aranjuez... Aranjuez... 'Aranjuez, mon amour'"!, completei.

     Minha esposa e todos do grupo não entenderam nada...

     - "Isso mesmo!", disse o companheiro da amiga, "foi por tudo que a cidade inspirou no Joaquin Rodrigo que ele compôs o 'Concierto de Aranjuez'".

     A partir daí - esclarecidos os comentários - a conversa no grupo passou a ter como tema o Joaquin Rodrigo, o Concierto de Aranjuez e, inevitavelmente, a cidade de Aranjuez.

     Foi nessa noite, então, que descobri, que Aranjuez é uma cidade medieval, com bosques e antigos palácios rodeados por jardins e fontes.

     Contudo, nada disso alterou a imagem da viagem que sempre me vem à mente cada vez que ouço o "concierto". Pelo contrário, agora ao ouvir o segundo movimento, vejo também cavaleiros medievais, castelos, reis e rainhas sendo formados no som do seu primeiro movimento.

     E aliando a minha viagem no segundo movimento com os cavaleiros medievais do primeiro movimento, também consigo visualizar no terceiro movimento esses mesmos cavaleiros em campos floridos, empunhando as bandeiras de seus reinos em passeios no entorno de seus castelos.  

(FOTO: Palácio Real - Aranjuez - fonte: http://thelife-roadtrip.blogspot.com.br/2010_11_01_archive.html)


     Quanto ao Joaquin Rodrigo, ficou cego aos quatro anos de idade e faleceu em 1999. Sua percepção da cidade de Aranjuez ficou traduzida nos sons e perfumes que lhe inspiraram o belíssimo "Concierto de Aranjuez".


8 comentários:

  1. Tudo que é belo, nascido das profundezas da beleza humana só produz e multiplica o que é belo. A criação do belo e maravilhoso no outro desabrocha ao ser tocado pelo belo... ao contrário disso é somente penumbra. Não há brilho, tampouco aroma como perfume inebriante do belo e iluminado. Desde criança ouvia Aranjuez mon amour, sonhava em tocá-la um dia, sonhei em cantá-la... passados mais de 40 anos, hoje a toco em violão e piano, consegui, e as lágrimas rolam pela minha face como que meu interior iluminado ainda na minha mocidade permanece até os dias de hoje... quando a interpreto para uma plateia seleta, os anjos de Deus.

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  2. Gracias por posar una mirada tan entrañable sobre Aranjuez.
    Con tu permiso he puesto un enlace de mi blog al tuyo.
    Un saludo,
    Cecilio

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    1. Muchas gracias, Cecilio, por sus palabras. Aranjuez ha sido para mi, sun nunca terla conocido, un verdadero paraiso - y todo por causa del Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo. Un gran abrazo desde aqui de Brasil.

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  3. Eu ouvia essa musica deitado na cama..posição fetal. Curtia uma tristeza profunda...e tinha apenas nove anos....ate hj a tenho na cabeça

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    1. Parafraseando uma frase de um fado, "não se ouve "Aranjuez, mon amour" impunemente"! Obrigado pelo comentário postado. Seja sempre bem vindo ao blog.

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  4. Nunca é tarde para se descobrir o que é belo, em 2017 ao assistir um filme de terror muito ruim com telly savallas na decada de 60 ou 70 tocava essa musica fui pesquisar e descobri uma das mais belas canções que já ouvi e mais fascinado ainda ao ouvir a versão cantada pela minha favorita de todo o sempre a grande cantora DALIDA uma união mágica inesquecivel..

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    1. Pois é, Mauro, mesmo nas manifestações artísticas que não nos agradam tanto, como no caso do filme, há sempre algo de bom. Claro que a iniciativa da busca depende muito de cada um. E você, tomando iniciativa de pesquisa, encontrou o belo acobertado em um filme de terror. Quanto à Dalida, marcou época... memorável a gravação de "Paroles, paroles..." que ela fez com o Alain Delon. Vale conferir. Obrigado pela visita ao blog e pelo comentário. Seja sempre bem vindo.

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