quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A CATEDRAL METROPOLITANA DE VITÓRIA


Viajar é uma forma de meditar. Quando visito alguma cidade gosto de saber de sua história. Ao planejar a viagem a primeira coisa que faço é consultar guias, procurar fotos e entrar na cidade por intermédio da literatura. Assim, quando coloco os pés onde quer que seja, já tenho uma boa impressão do que representa o lugar, e de quais fatos importantes ali ocorreram. Nesse ambiente e, fundamentalmente, observando as pessoas em sua vida cotidiana, posso me sentar em algum café local e, olhando tudo ao redor, deixar-me impregnar de histórias de outros tempos, de pessoas que são e foram significativos para o lugar. 

O que importa para mim nas viagens é a comunicação sentimental que consigo estabelecer; é o desenvolvimento de uma relação de afeição com os lugares, com as pessoas, os prédios e os objetos que - sempre espero -, possam resultar em um silencioso aprendizado. Em especial, gosto das catedrais, dos centros históricos como um todo, e dos prédios onde funcionam os órgãos do Poder.

E no Espírito Santo, ao visitar sua capital - Vitória -, não foi diferente. 

 (Bairro "Praia do Canto", visto da ponte Ayrton Senna - foto: arq. pessoal)

Logo ao chegar o meu desejo era, de imediato, caminhar pelo centro histórico. Mas tive uma visão cativante da Praia de Camburi, e por lá caminhei, pela calçada, para tomar água de coco. 

(Caminhando pela calçada da Praia de Camburi - foto: eu e minha esposa; arq. pessoal)

De táxi desde a Praia do Canto onde estava hospedado, cheguei no centro histórico e desci bem em frente à Catedral Metropolitana. 

(A Catedral Metropolitana de Vitória - foto: arq. pessoal)

Olhando aquela construção imponente, do lado de fora, não resisti e entrei. Havia logo ali uma monitora que de imediato aproximou-se e, vendo-me com jeito de interessado, começou a apresentar-me o prédio.  

(A Catedral Metropolitana de Vitória: interior - foto: arq. pessoal)

Contou-me que a Catedral Metropolitana de Vitória foi construída no mesmo local da antiga igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória, a qual havia sido edificada ali por volta de 1550. Explicou também que, com o crescente número de fiéis, a igreja foi demolida para ali ter início a construção da atual Catedral. Iniciada em 1920, essa construção estendeu-se até a década de 1970. 

Ali nessa igreja aprendi que as atuais cores da bandeira do Espírito Santo - azul e rosa - foram escolhidas em função das cores do manto e do vestido da santa que consagrou a igreja que estava sendo construída: Nossa Senhora da Vitória. 

(Nossa Senhora da Vitória, na Catedral de Vitória - ES - fonte: http://www.panoramio.com/photo/76007597)

(Bandeira do Estado do Espírito Santo - cores dos vestes de N. Sra. da Vitória)

Os vitrais, utilizados para representar cenas bíblicas, são uma de sua principais atrações. 

(Vitral de entrada da Catedral - à esquerda, "Anjo Gabriel anunciando a vinda do filho de Deus"; à direita, "O poder de São Miguel Arcanjo" - foto: arq. pessoal, com meus filhos)

E no subsolo, na entrada de uma cripta onde estão enterrados alguns dos principais bispos da história da Catedral, há um pequeno mosaico com a imagem de Jesus Cristo ao centro. Maltratada aquela parede pelas ações do tempo, o mosaico resiste...


Da cripta subi alguns degraus para sentar-me, por algum tempo, em um dos bancos centrais da catedral. Dali, em silêncio, fiz uma oração para que os templos pessoais de todos os que entram naquela igreja sejam construídos com solidez e sabedoria suficientes para que, assim como o mosaico com a imagem de Jesus Cristo, consigam resistir às intempéries a que estão constantemente submetidos. 
Feito isso levantei-me e saí caminhando pela rua em direção ao Palácio Anchieta. Mas aí começa uma outra história... 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"POR VOLTA DA MEIA NOITE" (ou "LEMBRANÇAS DE UM HOMEM BOM")


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
(Dexter Gordon - "As time goes by", de Herman Hupfeld, 1931)


Ao João Carlos


     Foi pai, companheiro, e amigo. Depois de uma busca infrutífera aqui no Brasil, no início dos anos 80, conseguiu arrumar trabalho na Mauritânia - noroeste da África. Foi embora. Ficaram a companheira e os parentes. Prometeu voltar logo. 

     Não se conta como foram seus dias no país distante. Mas dois anos se passaram até que ele voltasse. Voltou. Esperavam-no os pais, a companheira, e um filho pequeno. 

     Não ouvi contar, tampouco, dos seus primeiros dias após o retorno. Logo em seguida foi para o sul do Chile, também a trabalho. Levou a companheira e o filho. Era visto sozinho todas as noites no sofá da sala, luzes apagadas, barba por fazer, a mesma roupa do dia todo... ouvindo jazz... adormecido de uísque. 

("Saxophonist" - Leonid Afremov
fonte: http://fineartamerica.com/featured/saxophonist-leonid-afremov.html)

     Logo que chegou ao Chile mandou-me, por correio, com um abraço e uma pequena carta, uma fita K7. Na carta, a recomendação para que eu não deixasse de assistir o filme "Por Volta da Meia Noite"*. Na fita K7, as gravações de seus artistas preferidos. Gostava de música, em especial do sax tenor do Ben Webster, John Coltrane, Stan Getz, Dexter Gordon, Joe Henderson, Lester Young e muitos outros. Conhecia todos. Falava de cada um com muita paixão. Lembro-me de nossas conversas, do seu sorriso bom, da sua alegria de viver, dos papos sobre música; depois, das notícias do filho nos raros telefonemas que me fez. Mas, do retorno da Mauritânia em diante, não foi mais o mesmo - disseram-me os familiares. 

     Um dia, chegou-me a notícia: em uma estrada chilena, nos Andes Patagônicos, em alta velocidade, esborrachou-se contra um caminhão. Era ainda novo, deixou tudo. Deixou lembranças de um homem bom... e uma fita K7 com suas gravações favoritas, que ficou aqui, em uma das gavetas do meu escritório... e que ouço agora, depois de muitos anos.

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*"Round Midnight" (Por volta da meia noite) - dir. Bertrand Tavernier, 1986  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

SARAH VAUGHAN E A MÚSICA BRASILEIRA


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("Bridges" - Travessia - S. Vaughan e M. Nascimento - do disco "O som brasileiro de Sarah Vaughan" - 1978)


"Há uma categoria para mim.
Gosto de ser identificada como
uma boa cantora de boas canções
e de bom gosto"
(Sarah Vaughan)


     Sarah Vaughan foi uma cantora norte-americana com uma das vozes mais maravilhosas que já ouvi. Nascida em 1924, fez sua primeira gravação em 1944. Cantava jazz. Porém, não se considerava uma cantora exclusivamente de jazz. Ela dizia que gostava de fazer e cantar todo tipo de música.

     E foi por intermédio da MPB que eu a conheci em 1978 ou 79, por aí, quando em alguma estação de rádio a ouvi cantando "Travessia", em inglês, em uma gravação com o Milton Nascimento. Achei totalmente diferente aquela interpretação, e maravilhosa aquela voz forte, com passagens de graduações do grave para o agudo, e vice-versa, com elegância e delicadeza: muita técnica combinada com emoção!

("O som brasileiro de Sarah Vaughan - capa do disco - fonte: http://epifaniar.blogspot.com.br/2011_10_01_archive.html)

     Na época não era fácil encontrar os discos que a gente queria... e também o dinheiro era direcionado para as prioridades... Mas, como para mim música sempre foi prioridade, encontrei o disco e o comprei sem pensar duas vezes. 

     O disco chamava-se "O som brasileiro de Sarah Vaughan" - nos Estados Unidos foi lançado com o nome "I Love Brazil". Nele, todas as músicas gravadas são brasileiras, e nas gravações houve a participação (inclusive vocal) de alguns artistas brasileiros, tais como Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Mauricio Einhorn, Wilson das Neves, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Tom Jobim, e outros - cada qual em uma música específica.

     A Sarah Vaughan já havia estado no Brasil em 1958. Mas essa afinidade com a música brasileira nasceu de uma passagem sua por aqui em 1970, quando também participou de uma gravação antológica de programa de TV com o Wilson Simonal.

     Guardo "O som brasileiro de Sarah Vaughan" em vinil até hoje,  com muito carinho, mesmo depois de tê-lo comprado em CD. É, sem dúvida, um dos discos dos quais mais tenho ciúme. Ali ela gravou versões em inglês de clássicos como "Travessia" ("Bridges"), "...Das Rosas" ("Roses and Roses"), "Se todos fossem iguais a você" ("Someone to light up my life")...

     Depois disso, em 1979, ela voltou a gravar músicas brasileiras em um outro disco igualmente belíssimo chamado "Copacabana" (do qual eu destaco a maravilhosa "Tetê", de Menescal/Bôscoli; "Bonita", do Tom; "Copacabana" de Braguinha/A.Ribeiro,... e simplesmente todas as outras).  

     E, como se não bastassem dois discos, em 1987 gravou também "Brazilian Romance" - o terceiro disco com músicas brasileiras.
  
     Sarah Vaughn morreu em abril de 1990.

     Eu, até hoje, continuo me surpreendendo com as descobertas que vou fazendo em suas gravações. Ela é considerada pelos críticos uma das dez maiores cantoras de todos os tempos. Não me canso de ouvi-la.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

"CONCIERTO DE ARANJUEZ": O SEGUNDO MOVIMENTO


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
"O 2º movimento- Concierto de Aranjuez"- Orq Filarmônica de Berlim
maestro Daniel Baremboin, solista John Williams


     A respeito do segundo movimento do "Concierto de Aranjuez", o adágio, outro dia anotei o seguinte no meu caderno:

"- Das muitas músicas de que gosto, ele se destaca: o "Concierto de Aranjuez";
- Dos três movimentos desse "concierto", um me cria mais imagens: o segundo;
- Dos compositores clássicos que conheço, um é admirável: Joaquin Rodrigo;
- Dos muitos vídeos que já vi, um se sobressai: gravado em Berlim, Alemanha;
- Dos locais onde esse vídeo poderia ter sido gravado, um se adequou muito bem: uma praça;
- Dos muitos violonistas que conheço, um encontra todas as notas: John Williams;
- Dos maestros que aprendi a conhecer, um é perfeito: Daniel Baremboin;
- Das orquestra que vi tocar, uma é inesquecível: a Orquestra Filarmônica de Berlim."

(Cartaz de apresentação do maestro Daniel Baremboim: fonte: arq. pessoal)

      Quando o meu tempo tiver se consumado, quero repousar ouvindo esse movimento do "Concierto". E mais: gostaria que, nesse momento e nessa circunstância específicos, o silêncio fosse absoluto. Sem o necessário silêncio, podem colocar um "rap" pra tocar e conversar, falando bem alto... mas, por favor, longe de mim: me deixem de lado... bem quieto... sozinho, que seja... Antes de ir, quero ouvir em paz o segundo movimento do "Concierto de Aranjuez".

(Fonte de Hércules e Hidra no "Jardin de la isla" do Palácio Real de Aranjuez - fonte: http://guias-viajar.com/madrid/pueblos-alrededores/aranjuez-fotos-jardin-isla-palacio-real/)


terça-feira, 10 de setembro de 2013

ARANJUEZ, MON AMOUR


CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ
(VIDEO: Clique para ouvir o Richard Anthony)
https://www.youtube.com/watch?v=MWktcRFYghQ&list=RDMWktcRFYghQ&start_radio=1

     É realmente incrível o quanto a música mexe com a gente. Com ela sonhamos, viajamos, criamos e nos nutrimos de esperanças. Com a imaginação estimulada por uma música podemos tudo, fazemos tudo. E é bom que seja mesmo assim. Afinal, sem as fantasias a vida fica muito chata. Pois vejam só... 

     Eu era ainda muito jovem quando ouvi "Aranjuez mon amour" pela primeira vez. Tínhamos lá em casa um compacto simples; o cantor era Richard Anthony, em gravação de 1967. 


 (FOTO: "Tínhamos lá em casa um compacto simples" - fonte: http://bimg2.mlstatic.com/richard-anthony-aranjuez-mon-amour-vinil-compacto_MLB-F-193948441_3957.jpg)

     Como a letra, escrita por Guy Bontempelli*, era em francês e eu não tinha condição de entendê-la, debruçava-me em frente à vitrola e, olhando o disco girar, as imagens se sucediam a cada vez que ouvia a música. Ao longo dos anos, a imagem que a música me inspirou foi a de uma viagem aérea... uma viagem a lugares distantes, sobrevoando países, observando de cima seus edifícios, ouvindo seus sons e sentindo o pulsar de vida existente no povo de cada lugar por onde essa viagem acontecesse... uma viagem longa e compassada... 

     Estranho, pois tal imagem nada tem a ver com a letra da música, que fala de amor, de rosas e do tempo, muito embora tenha sido inspirada (a letra) em um triste episódio das Guerras Napoleônicas (1806-1808). Mas, talvez essa imagem me tenha vindo pelo andamento da música, lembrando um movimento lento e contínuo... a sequência do acorde inicial do violão, a melodia suave do instrumento de sopro que entra em seguida... 

     Só depois de ter ouvido o Richard Anthony é que fui descobrir, anos mais tarde, que "Aranjuez mon amour" havia nascido do segundo movimento do "Concierto de Aranjuez", composto pelo espanhol Joaquin Rodrigo em 1939.  



(FOTO: "Joaquin Rodrigo" - 1901-1999 - fonte: http://music.minnesota.publicradio.org/features/9907_rodrigo/images/rodrigo_older_lg.jpg)

     Dentre as músicas de que gosto, talvez essa esteja entre as cinco primeiras. Carreguei por muitos e muitos anos esse nome, "Aranjuez", sem saber o seu significado.

     Mas como as coisas sempre acontecem quando a gente menos espera, foi em uma reunião, há uns dez anos, por aí, que descobri o que é "Aranjuez". Eu estava em uma roda de amigos. Uma das amigas de minha esposa aproximou-se e apresentou-nos seu companheiro, natural da Espanha. Conversamos com ele sobre viagens, países e costumes. E ao falarmos sobre a Espanha, contou-nos que era natural de uma cidadezinha ao sul de Madri, chamada "Aranjuez".

     - "Aranjuez ? É uma cidade ? Caraca, não sabia disso!" - exclamei em voz alta.

(FOTO: Fonte de Vênus, Jardin de la Isla en Aranjuez - fonte: http://cecibustos.wordpress.com/2009/08/19/guillermo-carnero-capricho-en-aranjuez/)

     Todos ao meu redor se espantaram ao ver minha reação ao ouvir e repetir várias vezes o nome daquela cidade...

     - "Aranjuez... Aranjuez... 'Aranjuez, mon amour'"!, completei.

     Minha esposa e as demais pessoas que estevam naquele grupo não entenderam nada...

     - "Isso mesmo!", disse o companheiro da amiga, "foi por tudo que a cidade inspirou no Joaquin Rodrigo que ele compôs o 'Concierto de Aranjuez'".

     A partir daí, esclarecidos os comentários, a conversa no grupo passou a ter como tema o Joaquin Rodrigo, o Concierto de Aranjuez, e, inevitavelmente, a cidade de Aranjuez.

     Foi nessa noite, então, que descobri, que Aranjuez é uma cidade Medieval, com bosques e antigos palácios rodeados por jardins e fontes.

     Mesmo com tal descoberta, a viagem que sempre imagino, ao ouvir o "concierto", em nada foi alterada. Pelo contrário. Agora, ao ouvir o segundo movimento do "concierto", vejo também cavaleiros medievais, castelos, reis e rainhas sendo formados ao som do seu primeiro movimento.

     E, aliando a minha viagem, no segundo movimento, com os cavaleiros medievais do primeiro (movimento), o terceiro (movimento) acrescenta a imagem desses mesmos cavaleiros, em campos floridos, empunhando as bandeiras de seus reinos, em incansáveis passeios no entorno de seus castelos.

(FOTO: Palácio Real - Aranjuez - fonte: http://thelife-roadtrip.blogspot.com.br/2010_11_01_archive.html)

     O "Concierto" celebrizou o seu autor. Joaquin Rodrigo perdeu a visão ainda criança (aos quatro anos de idade), e faleceu em 1999 com 98 anos. Sua percepção da cidade de Aranjuez ficou traduzida nos sons e perfumes que sentia quando lá estava - e que lhe inspiraram o belíssimo "Concierto": o "Concierto de Aranjuez".

ARANJUEZ, MON AMOUR

 

Mon amour, sur l'eau des fontaines, mon amour

Ou le vent les amènent, mon amour

Le soir tombé, on voit flotter

Des pétales de roses

 

Mon amour et des murs se gercent mon amour

Au soleil au vent à l'averse et aux années qui vont passant

Depuis le matin de mai qu'ils sont venus

Et qu'en chantant, soudain ils ont écrit sur les murs du bout de leur fusil

De bien étranges choses

 

Mon amour, le rosier suit les traces, mon amour

Sur le mur et enlace, mon amour

Leurs noms gravés et chaque été

D'un beau rouge sont les roses

 

Mon amour, sèche les fontaines, mon amour

Au soleil au vent de la plaine et aux années qui vont passant

Depuis le matin de mai qu'il sont venus

La fleur au cœur, les pieds nus, le pas lent

Et les yeux éclairés d'un étrange sourire

 

Et sur ce mur lorsque le soir descend

On croirait voir des taches de sang

Ce ne sont que des roses !

Aranjuez, mon amour

ARANJUEZ, MEU AMOR

 

Meu amor, sobre a água das fontes, meu amor

Onde o vento as levam, meu amor

Ao cair da noite, vemos flutuar

Pétalas de rosas

 

Meu amor e paredes se desmancham meu amor

Ao sol, ao vento, à chuva, e aos anos que vão passando

Desde a manhã de maio que eles vieram

E quando cantando, de repente escreveram nas paredes com a ponta do seu fuzil

Coisas bem estranhas

 

Meu amor, a roseira segue os seus sinais, meu amor

Na parede e abraça, meu amor

Seus nomes gravados e a cada verão

De um lindo vermelho são as rosas

 

Meu amor, seque as fontes, meu amor

Ao sol, ao vento da planície, e aos anos que vão passando

Desde a manhã de maio que eles vieram

A flor no coração, pés descalços, o passo lento

E os olhos iluminados por um estranho sorriso

 

E nesta parede, quando a noite cai

Acreditaríamos ver manchas de sangue

São apenas rosas

Aranjuez, meu amor


*Guy Bontempelli (compositor e intérprete francês - 1940-2014escreveu a letra de "Aranjuez mon amour" inspirado em um episódio da Guerra Napoleônica de 1806-1808
pintado por Francisco Goya (espanhol): "O Três de maio de 1808" (fuzilamentos em Madrid)


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

CONFIDÊNCIAS DE UM VIOLÃO DEIXADO NO CANTO DA SALA


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)

Baden Powell - "Round Midnight" (Thelonious Monk)
https://www.youtube.com/watch?v=mLCfIlZzEOw



Ao meu violão

     Estou no canto. De pé. Calado. Canto baixinho pra quem me observa, pra quem me estende o braço, pra quem me abraça, pra quem me aperta contra o peito. Mesmo calado, também canto para quem atentamente me olha. Eu sou para conversar com os que me percebem, com os que afagam meu corpo, meu braço, minha cabeça, minhas cordas. Dialogo com os íntimos do silêncio. Mas me deito, cativo, à mercê de quem me acalanta - ou agride. Os ruídos se sobrepõem ao meu canto silencioso. Sou amigo, no equilíbrio; companheiro, no desamparo. Estou presente. Quieto. Vou ficando. No canto. De pé. Esperando por um abraço, por um olhar atento que me desperte para cantar... 

  ("Dialogando" - foto jun/11: arq. pessoal)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O ESCRITOR ESQUARTEJADO



(Fonte: http://www.dezenovevinte.net/bios/bio_pa_arquivos/pa_1893_tiradentes.jpg)


"O escritor é um condenado, cuja alma é exposta em praça pública como o corpo de um traidor."
(Reflexão na abertura do livro "O lugar no escuro", de Heloísa Seixas - reflexão escrita pela filha da autora)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

SÁBADO, 8 DA NOITE


Sábado, oito da noite. Acomodado no sofá da sala de estar fico olhando lá longe, através do vidro da porta. Observo as luzes acesas nos apartamentos dos prédios vizinhos e fico pensando em cada uma das pessoas que não vejo, mas que estão em cômodos iluminados por aquelas luzes. Haverá ali uma família que se reúne em torno de uma mesa para o jantar; haverá um casal de idosos assistindo um programa qualquer na televisão; haverá um jovem que se veste para um encontro especial; haverá um senhor que se banha cantando uma ária em voz alta; haverá uma mocinha que digita mensagens de amor em um microcomputador; haverá uma mãe preocupada com seu filho... 


("É noite de sábado" - foto: arq. pessoal)

É noite de sábado e a cidade carrega consigo o pulsar de vida de seus habitantes. 

Na sala recebo um abraço do meu filho que sai apressado para encontrar-se com seus amigos.  

Lá em cima, por sobre nossas cabeças, por sobre os carros e prédios, a lua desfila na escuridão do céu, no claro desejo de chamar a atenção...

Em uma outra cidade - pequena -, na calçada de um bar e sob a luz do luar, em torno de uma mesa, reúne-se um grupo de amigos inspirados por um violão. O grupo cresce na proporção direta do aumento do número de garrafas de cerveja consumidas que vão sendo colocadas no chão... Aqueles que ali estão relembram seus amigos comuns e histórias passadas, relacionando cada amigo e cada história com um antigo lançamento musical que já não toca mais nas estações de rádio.

- "Talvez até eu mesmo seja personagem de alguma dessas histórias", penso eu aqui, distante, na ilusão de fazer parte do grupo sem estar ali presente.

E esse grupo, naquele bar, fazendo brindes a amigos ausentes, interpreta gravações esquecidas no tempo: "I started a joke", dos Bee Gees; "As tears go by", dos Rolling Stones; "The guitar man", do Bread; "Theres a kind of hush", dos Hermann's Hermmits; "In my life", dos Beatles; "The boxer", Simon & Garfunkel...

E eu aqui, movido por essas fantasias, me levanto do sofá, revejo cada membro desse grupo imaginário sentado em torno dessa mesa de bar também imaginária... e em homenagem a eles e a essa doce fantasia, ligo meu aparelho de CD e coloco prá tocar "Nights in White Satin" (1967), na interpretação do grupo britânico (já desfeito) "The Moody Blues"...

... e, ouvindo essa música, vou até a sacada do apartamento e fico olhando o luar...



P.S.: Dez e meia da noite. O telefone toca. Lá de longe, da cidade pequena, ouço a voz do meu amigo de sempre, o Daniel. 

Ele me conta com euforia que estava em sua casa, que recebeu a visita do nosso amigo comum I. e, tomando cerveja juntos no quintal, relembraram algumas histórias minhas e algumas músicas de que gosto. E, com a mesma alegria de sempre, chama-me para estar lá no próximo sábado, para, junto com vários amigos comuns, celebrarmos a vida, nossos aniversários, a vida nova de sua filha, e o nascimento de seu primeiro neto - que chegará no final deste mês... 

(Eu e o meu amigo de sempre - o Daniel - foto: arq. pessoal)

      

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

FESTA DE SOL EM VITÓRIA - ES


Nara Leão: "O barquinho" - (Menescal/Bôscoli)
https://www.youtube.com/watch?v=B6JPFy0OM1M&list=RDB6JPFy0OM1M&start_radio=1

 (Conhecendo Vitória e Vila Velha, ES, a partir do mar... - foto: acervo pessoal)

    Há muitas coisas boas na vida...
    Passar a tarde de um dia ensolarado em um barquinho deslizando pelo mar é uma delas...
    Mas, especialmente, com tantos sorrisos bonitos ao redor, é demais!
        - ...e o barquinho vai, e a tardinha cai... 
    - "Eita vida!" 

(Candidatas a miss Espírito Santo, 2013 - Vitória, ES, agosto/13 - foto: acervo pessoal)

domingo, 11 de agosto de 2013

DIA DOS PAIS


(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR)
https://www.youtube.com/watch?v=aF7WogBRKR0
"Mi viejo" - Piero


Vá sem medo,
siga em frente.
Encontre o seu caminho. 
Ainda que não me veja, estou sempre contigo.



(Eu e meu pai - 1960)



Mi Viejo

Es un buen tipo mi viejo
Que anda solo y esperando
Tiene la tristeza larga
De tanto venir andando

Yo lo miro desde lejos
Pero somos tan distintos
Es que crecio con el siglo
Con tranvia y vino tinto

Viejo mi querido viejo
Ahora ya caminas lerdo
Como perdonando el viento
Yo soy tu sangre mi viejo
Soy tu silencio y tu tiempo

El tiene los ojos buenos
Y una figura pesada
La edad se le vino encima
Sin carnaval ni comparsa

Yo tengo los anos nuevos
Y el hombre los anos viejos
El dolor lo lleva dentro
Y tiene historias sin tiempo

Viejo, mi querido viejo
Ahora ya caminas lerdo
Como perdonando el viento
Yo soy tu sangre mi viejo yo
Soy tu silencio y tu tiempo
Yo soy tu sangre mi viejo yo
Soy tu silencio y tu tiempo


(Nehif Antônio, meu pai - 1929-1972)