quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TRÊS MANGAS E DOIS ÁLBUNS DE FOTOS


(CLIQUE PARA OUVIR)
 
     Volto da casa de minha mãe trazendo no banco de trás do carro três mangas enormes colhidas de seu quintal de plantas e árvores. Trago também, ao meu lado no banco de passageiro, dois álbuns de fotografias que lá estiveram guardados em fundo de armário por muitos anos. As fotos resistiram a tudo e agora perpetuam gente querida de um tempo que já passou. As fotos continuam sendo a materialidade em papel e imagens dos modelos que conheci. 

     Instintivamente, compartilhando o tempo e a viagem com meus companheiros do banco do lado aprisionados nos álbuns e que dialogam comigo, coloco um CD do Baden Powell para ouvirmos “Chão de Estrelas”* e outras serestas, fazendo o relógio girar em sentido contrário.

     Durante esse monólogo mental a várias vozes me surge a imagem, especificamente de uma foto - uma dentre tantas: meus familiares em casa, em uma ocasião festiva nos anos 60.
(Foto: com familiares, em 1966)* 
     E ao ouvir a música e rever mentalmente a foto, lembrei-me de um texto estudado há muitos anos em um livro de Francês...
O PASSADO
(Versão de texto da Lição 8 do livro “Archipel”, livre 2)

Bem postados, bem vestidos,
eles olhavam atentos e compenetrados,
sem se lembrarem de que posavam para a eternidade...

Por um instante seus sonhos se detiveram
e se fixaram no registro de uma máquina fotográfica.
Em seguida eles se foram, envolveram-se
com suas coisas, em direção a um futuro...
E, daquele dia, nada restou senão o instante eternizado,
nessa foto amarelada...



     Todos os instantes que vivemos se perpetuam, ficam na mente da gente, guardados, amontoados, ocultos, adormecidos. Sem exigir nenhum esforço, qualquer pequeno estímulo faz com que saiam de onde se encontram, que voltem e nos revisitem, trazendo o mesmo sentimento de quando aconteceram - porém, acrescidos de sentimentos novos...

     Naquela noite, na estrada, eu não estava sozinho. Eu ainda vestia calças curtas, no sofá da sala, e me ajeitava para posar para aquela foto com todos os meus familiares que viajavam comigo. Chegando em casa, minha amada adormecida, orei por todos e fui me deitar pensando em coisas antigas... 


*“Chão de Estrelas”  - de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa 

Obs.: No tempo dessa foto havia uma mangueira no quintal de minha casa.

3 comentários:

  1. Sabe, Tio, uma das minhas maiores vontades era ter conhecido o Vô Lili. :) vocês eram muito felizes perto dele. :)
    Ver minha mãe sentadinha, sorrido ali no meio, me deixou emocionado.

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  2. Caríssimo amigo Elias, tenho tentado, desde quando leio seus textos, analisar a profundidade de seu coração e da maneira como lida com os sentimentos - que por sinal, é de forma doce, culta, carinhosa e emocional - e hoje acho que posso ter uma definição: Você é um poeta. Como não admirar o ambiente que cria com tanta valorização de coisas comuns; como não acreditar nas alusões às histórias que vem recheadas de imagens, quando não de sons? Como não extasiar com a frase "monólogo mental"? É, com certeza, você é um poeta. Abraços

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    1. Meu amigo João, creio que a beleza e a poesia de um texto qualquer está no coração de quem lê. As palavras são só palavras... a capacidade de sensibilizar-se com o conteúdo do que elas juntas transmitem é um privilégio de alguns que leem. Agradeço a você por suas palavras, pela sensibilidade que tem e demonstra em seus comentários e, especialmente, pela sua amizade. Abração.

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